segunda-feira, 14 de abril de 2014

Gdansk

Olhando para a coleção de selos que, durante anos, me ajudou a desenhar a geografia política do mundo em que ia viver, o meu pai falava-me de Dantzig, a cidade mártir, do seu "corredor", cuja ocupação pelos alemães lançou a 2ª Guerra mundial. Dantzig tinha selos próprios, como "cidade livre" que chegou a ser. Ainda possuo alguns.

Decorreram uns anos. Dantzig já era designada pelo nome polaco de Gdansk. Vivia eu na Noruega e, em 1980, a cidade passou a ser o lugar onde nasceu o Solidarnosć, onde surgiu Lech Walesa à frente de uma revolta que iria abalar, ainda mais, os alicerces do muro que estava prestes a cair em Berlim. 

Quase duas décadas depois, acompanhei Jorge Sampaio numa viagem de Estado à Polónia. No roteiro figurava, como não podia deixar de ser, uma deslocação a Gdansk, a capital da Pomerânia polaca, onde nasceram Schopenhauer e Gunter Grass. Confesso que cuidei mesmo em que passássemos pelo estaleiro "Lenin", onde a revolta tivera o seu início.

(Devo dizer que então estranhei - e disse-o - que Lech Walesa não tivesse sido associado a nenhuma das cerimónias oficiais, como antigo presidente do país. A minha estranheza foi, contudo, recebida com uma reação por parte dos nossos anfitriões: Walesa já não era uma figura muito popular, a imagem "heróica" que dele sobrevive no imaginário oficial internacional não parece ser acompanhada internamente, um pouco ao jeito da de Gorbachev, na Rússia de hoje. "Vocês convidam o Otelo para as cerimónias oficiais?", perguntou-me ironicamente um amigo polaco com alguma memória lusitana.)

Estou desde ontem por Gdansk. Já ninguém fala de Walesa. Só me falam da Ucrânia, aqui já ao lado. A uma escassa centena de quilómetros da cidade está o enclave russo de Kalininegrado. A Polónia é hoje um país a que a sua trágica geografia induz preocupações bem concretas. Mesmo que eu próprio possa discordar de algumas avaliações que por aqui são feitas (ouvi-as, idênticas, na passada semana, em Varsóvia), em torno de certas opções geoestratégicas do Ocidente, tenho sempre um profundo respeito pelo sentimento de quem sofreu "muita História".

7 comentários:

Mônica disse...

Francisco não sei nem o que comentar. Só que estou lendo um livro sobre o nazismo mas acontecido na França. A chave de Sarah. Um grande abraço com carinho Mônica

Anónimo disse...

Sinto que a História se vai mais uma vez repetir. Espero que a Polónia, país culto e artístico, escape desta vez.

Defreitas disse...

Pelo menos, Otelo não era anti-semita, creio eu, e o papa não foi seu aliado na luta contra a ditadura. E se Otelo não é convidado talvez seja porque é difícil para alguns admitir tudo o que lhe devem. De maneira geral nunca gostamos de dever algo a alguém. O reconhecimento não é espontâneo.

O anti-semitismo notório de Lech Walesa, lançou uma sombra sobre a personalidade do combatente corajoso de Solidarnosc e soldado de João Paulo II contra o comunismo.

Estranho pais , a Polónia, onde 44% dos Polacos consideram que os Polacos e os Judeus sofreram tanto uns como os outros da barbaria nazi, quando se sabe que 90% dos Judeus Polacos foram exterminados e somente 10% da população polaca.

Mais ainda quando uma maioria ( 60%) dos jovens não gostaria de ter um companheiro/a judeu e 44% ficariam desapontados de saber que um dos membros da família é judeu !

Talvez seja a medíocre consciência histórica dos Polacos, mas o que é certo é que ela corresponde a uma aversão reconhecida dos Polacos contra os Judeus .

A Polónia, chefe de fila da Nova Europa que tanto agradava a Rumsfeld, um dos carrascos do povo Iraquiano, transformou-se entretanto no aliado incondicional dos USA durante a guerra fria, indo mesmo até abrigar uma prisão especial da CIA para "tratar" certos prisioneiros "especiais" enviados por avião de Guantanamo !

A Polónia recebeu 15 milhões de dólares para instalar esta prisão em Stare Kiejkuty, a mais importante prisão secreta fora dos USA. ('Washington Post).

Portugal não está isento nesta historia de transporte secreto de prisioneiros para a Polónia.
A Polónia, certo, entalada entre as duas potências que fizeram a sua história, mas a Polónia também imagem cinzenta dum povo excessivo na religião ,mas da qual esquece por vezes a lição de humanidade que a fundou há dois mil anos.

Anónimo disse...

Lech Walesa não foge à regra...Os Políticos que hoje são adorados por uns, amanhã são condenados por estes e, também, pelos outros. Isto aprende-se fácilmente na História...
Boa estadia e os meus cumprimentos.

Geraldo Geraldes disse...

Caramba, até dei um salto da cadeira ao ler essa comparação feito por um polaco entre o Lech Wałęsa e o Otelo.
Certamente que não o seu trabalho como 1º presidente da Polónia democraticamente eleito está cheio de erros e acusações de incompetência, o seu domínio da língua polaca tem falhas e tem um modo truculento de falar (mas normal para quem era electricista). Mas não tem coisas como FP-25 associadas a ele.

Anónimo disse...

"Por Carlos Diogo Santos
publicado em 14 Abr 2014 - 05:00//
Portugal

Sondagem i/Pitagórica. Portugueses acham políticos da ditadura mais honestos que os actuais" , 100% de acordo !

Alexandre

Anónimo disse...

Lido no país real:
"Ricardo Reis no Dinheiro Vivo

Chego ao fim desta coluna sem resposta convincente para a pergunta inicial. Embora a confiança dos mercados em Portugal, Espanha e Irlanda seja muito bem vinda, continuamos a dever uma enorme quantia de dinheiro. Com a definição imposta pelo Tribunal Constitucional de quais são os cortes da despesa que são legais, está longe de ser garantido que vamos poder pagar tudo. Menos importante, mas curioso, é que não se ouve ou lê uma palavra dos comentadores que, quando as crises rebentam, são tão lestos a denunciar especuladores e culpar a euforia dos mercados, e para quem as bolhas são sempre tão óbvias para quem quiser ver"

Alexandre