terça-feira, 1 de abril de 2014

França

Manuel Valls foi ontem nomeado primeiro-ministro de França. Recordo um texto que aqui publiquei há cerca de ano e meio:

Ontem, com um grupo de colegas, almocei com o novo ministro do Interior francês, Manuel Valls. Nasceu em Barcelona há 50 anos e tinha já 20 anos quando adquiriu, por naturalização, a nacionalidade francesa. Ocupa hoje um dos postos mais delicados do executivo da França, precisamente aquele que tem a seu cargo a questão dos direitos dos estrangeiros e a gestão dos fluxos migratórios.

Dei comigo a pensar se isto seria possível entre nós, se um estrangeiro que se tivesse naturalizado português no fim da adolescência seria aceite para ocupar um cargo de ministro, em especial numa pasta com esta sensibilidade específica. Como, já há meses, me tinha interrogado quando à facilidade com que a França conviveu com a candidatura à presidência da República de Eva Joly, uma norueguesa que, com 18 anos, veio trabalhar como "au pair" para Paris. Ou como os franceses acham natural que um cidadão como Daniel Cohn-Bendit, nascido em França mas apátrida até aos 14 anos, que, depois, optou pela nacionalidade alemã, deliberadamente para não cumprir o serviço militar neste país, tendo posteriormente dirigido a subversão estudantil no maio de 1968, seja hoje deputado europeu eleito nas listas francesas e uma das figuras cimeiras do partido ecologista.

Esta abertura da França àqueles que enriquecem a sua diversidade é uma das mais nobres marcas desta sociedade.

5 comentários:

Anónimo disse...

O petit rien é de que é um ministro anti-imigração, vd. a circular dirigida aos Préfets na semana passada e a forma como conduziu a expulsão de uma criança kosovar, objecto de largas críticas. Os tempos estão maduros para a demagogia em matéria de imigração e ele serve esse fato. Mas Sarkozy e Balladur também tinham ascendência estrangeira. So what?

Defreitas disse...

Completamente de acordo com as vossas palavras, Senhor Embaixador. O que escreve corresponde exactamente àquilo que penso desta grande democracia na qual vivo há mais de cinquenta anos. Teria podido acrescentar, que os Parisienses elegeram também uma Senhora Andaluza, Anne Hidalgo, descendente de republicanos espanhóis, para Maire de Paris. Pela primeira vez na historia da heróica comuna de Paris, é uma Mulher que preside aos seus destinos.

A vitoria de Anne Hidalgo consola-me da minha derrota na minha comuna onde a lista à qual pertencia, socialista, foi batida pela direita conservadora. Viva a democracia.

Manuel Valls, Primeiro Ministro, de origem Espanhola, Claude Bartolone, filho de emigrantes Sicilianos fugidos do fascismo, nascido na Tunísia, Presidente da Assembleia Nacional, e tantos outros a quem a democracia francesa ofereceu a hospitalidade e a ascensão social.

Desculpe Senhor Embaixador, se para completar a sua reflexão , perfeitamente ilustrada na última frase do "post", acrescento, que a maneira como os estrangeiros da diversidade francesa são recebidos e evoluem neste país, contrasta singularmente com o tratamento que muitos "emigrantes" Portugueses recebiam noutros tempos em Portugal, onde o termo "emigrante" era frequentemente utilizado para os rebaixar , só porque traziam por vezes certos hábitos e um "falar" misto que denotavam a sua origem popular.

Falta agora a Manuel Valls reorientar a politica francesa no espírito socialista do discurso de François Hollande, do Bourget . O social liberalismo só pode levar o pais para uma contestação socialperigosa, da qual o extremismo reaccionário pode retirar grande proveito. Tanto mais que a porosidade entre os dois partidos da direita é agora confirmada em muitos resultados destas eleições municipais.

de Almeida Pinto disse...

Ainda tem mais relevo o seu artigo, se estabelecermos o paralelo com Portugal, cuja Constituição não admite que um emigrante português por ter a dupla nacionalidade possa candidatar-se a deputado, ou que, sendo só português residente na Europa só se possa candidatar ao « resto do Mundo », ou vice-versa...

Defreitas disse...

Ao anonimo das 05:06:

Entre Nicolas Sárközy de Nagy-Bócsa , aristocrata da nobreza Húngara, Edouard Balladur descendente da burguesia de Smirna (Turquia) e os filhos de republicanos espanhois objecto deste "post", existem certas diferenças.

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador permita-me o seguinte:
é que por aqui só se houve dizer que quem manda no país são: a "troika" (estrangeiros), os mercados (estrangeiros), a CIA (estrangeiros), o presidente dos EUA (estrangeiro),
que nem sequer precisam de dupla nacionalidade, de serem imigrantes ou de se dar ao trabalho de serem eleitos

e os portugueses continuam simpáticos e hospitaleiros!