domingo, 20 de abril de 2014

E se... ?

Alfredo Cunha

E se o "E depois do adeus", o Maia, o Carmo, os tanques, a Grândola, o Otelo, a Junta, o Spínola, o cravo, a Pide, o Zeca, a censura, o MFA, Caxias, o "povo unido", Peniche, a guerra, o Cunhal, a tv a preto-e-branco e toda essa parafernália de sinais, de siglas repisadas, pingantes da nossa endémica saudade geracional, nada disserem a pessoas que passam "a salto" de Ryanair as fronteiras de Schengen, aos vidrados nos iPad, balanceantes dos iPod, logados nos iPhone, comentando as saídas para o novo desemprego, que vão para hostels em lugar de irem para Champigny? 

Será que temos o direito de lhes impor a nossa memória, sob o pretexto de que temos de os educar que "fascismo nunca mais"? Que obrigação têm eles de ouvir o que diz o Vasco Lourenço, de sofrer o Adriano, de aturar o Alegre, de adormecer com o Cília, de ouvir a história do soldado Luís no Ralis, da "frigideira" do Tarrafal, das patifarias do Botas de Santa Comba ou dos arroubos vermelhuscos do "companheiro Vasco", dos Manuel Tiago e das tipografias da clandestinidade, do Copcon ou de Tancos, dos Comandos ou do MDLP? C'os diabos, o 25 de abril não se "fez" para dar a cada um o direito de ligar um televisor ou uma rádio sem se "arriscar" a ter de escutar pela enésima vez o Furtado a ler um comunicado do "posto de comando", a Luísa Bastos a gritar o "Avante Camarada", uma enchurrada da poética neorealista com a rima cheia de "povo", a saltitante "Gaivota", o hino marcial da Intersindical, sempre a conclamar as "massas" p'ró que der e vier? E se "essa gente" (para utilizar uma elegante fórmula do atual primeiro-ministro) decidir estar-se nas tintas para as memórias da Constituinte, para o MRPP ou para o MES, para o bispo do Porto ou para o cónego Melo, para as bombas da reação (que não "passava" mas passou) ou para as do PRP? E se o Norton for hoje para eles um anti-virus informático e não um general colonialista e democrata, se lhes der para sairem para uma "bejeca" quando soarem os acordes chatotes do Moniz ou do Letria, quando lhes ameaçarem com o Tordo a cantar o imaginário cheio de verduras e hortaliças do Ary.

O que esta geração talvez gostasse que o tal "25 de abril" lhes tivesse dado, mais do que Chaimites e "reforma agrária", berros, bandeiras e paredes com cartazes, era bem-estar e qualidade de vida, desenvolvimento, emprego, educação, cuidados de saúde eficazes e, quatro décadas depois dessa data que os mais velhos comemoram quase com raiva (salvo o "tio Alfredo", que veio de Angola e lhe salta a placa quando se fala de um tal Rosa Coutinho), era uma classe política impoluta, competente, responsável e que soubesse gerir e prestigiar o país, tornando-os orgulhosos dele. O resto...

Às vezes, pergunto-me se esta nossa compulsão comemorativa anual, feita de cabelos brancos e cravos vermelhos, dos que estiveram na Fonte Luminosa ou dos que estiveram nas barricadas do 28 de setembro, não será mais do que a desesperada tentativa de nos agarrarmos ao tempo, como os republicanos que estiveram na Rotunda e não se calaram com essa história até ao dia em que o chanfalho do Gomes da Costa os pôs com triste dono, também por quarenta anos.

Eu, por mim, já optei. Apesar de toda essa "maçadoria" (volto citar Passos Coelho), viva o 25 de abril, sempre!

18 comentários:

Anónimo disse...

Não é preciso toda essa parafrenália de símbolos e palavras gastas pelo tempo, para marcar o "até sempre".....do costume.

Alexandre

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Alexandre. Tem razão! Com muito menos palavras, o meu amigo revela onde está...

Catinga disse...

Muito bem! É o que sinto relativamente ao 25 de abril. Concordo com o saldo globalmente positivo mas sempre me entediou todo o discurso à volta da coisa.

Portugalredecouvertes disse...

No seguimento dos pensamentos do Sr. Embaixador,
Mas nós mais novos e mais velhos, temos de aguentar com tantos filmes sobre violência e guerras passadas e presentes... do mais violento que pode haver, dos americanos, dos russos, dos chineses, da Africa, da América do Sul, etc. (coitados dos povos!), mas também se não for assim, ninguém sabe de história que segundo dizem, vai desaparecendo dos programas

outro pensamento é que todas as gerações tiveram as suas lutas para uma vida melhor, não sei como se pode pensar que a geração dos presentes terá a garantia do paraíso (se bem que eu deseje do fundo do coração que os meus filhos não passem por dificuldades, mas infelizmente não lhes posso garantir que assim seja,) nem ninguém pode prometer um mundo sem dificuldades às gerações presentes ou futuras, nem as ideologias conseguiram


Anónimo disse...

Pois é! É a diferença entre a experiência lida e a experiência vivida...

José Neto

Graça Sampaio disse...

Muito bom, Senhor Embaixador!! Muito bem!!

Agradeço (mais) este pedaço de excelente prosa!

Anónimo disse...

Por caso eu sei onde estou, em lisboa com mais quarenta anos e com as frustações inerentes á democracia iniciada em 25 de Novembro de 75 minada muito bem por quem toda a gente sabe !!!!!

Alexandre

Francisco Seixas da Costa disse...

Ai o mês, Alexandre, ai o mês!

Anónimo disse...

Viva o 25 de abril, sempre!...Assim?
Com a depauperação e liquidação do Estado pelos "apparatchiks", muito me admira que ainda viva...
antonio pa

Anónimo disse...

As datas não têm culpa
Bem sei
As datas não têm culpa...
Mas há datas insuportáveis
Por exemplo o 28 de Maio,
Por causa do fascismo que logo veio;
E o 10 de Junho,
Que mostrava raças humanas...
Que raça de politicos eram aqueles
Para lhe darem aquele nome.
As datas não têm culpa
Bem sei
As datas não têm culpa...
Mas Novembro teve um 25
Que deixou um Novembro cinzento
Em contraste com Abril do mesmo dia
Um ano antecedente
Que abriu as perspetivas
Dum Portugal sorridente.
Novembro foi assim, foi,
Com aquel'ar tão sisudo
A matar heróis d'abril
Que nem heróis queriam ser
Só queriam um Portugal novo
Porque 'stavam fartos de tudo
E Novembro foi sisudo.
As datas não têm culpa
Bem sei
As datas não têm culpa...
Mas eu prefiro Abril e não Novembro
Prefiro Abril por ser Abril
Pelos cravos que oferece,
Pelas transformações que traz
Esperança que desabrocha
Futuro que não se desfaz.
Mas as datas não têm culpa
Bem sei
As datas não têm culpa
Mas há datas que não se esquecem...
As de Abril, por exemplo,
Todos os anos agora,
No 25 de Abril.
As datas não têm culpa
Bem sei
Mas Abril, nunca se apaga,
Ainda que alguém um dia,
O quisesse silenciar
O próprio silencio iria
Ainda mais alto gritar
Viva Abrl! Viva Abril !

José Barros

Isabel Seixas disse...

25 de Abril Sempre, com certeza e sem sombra de dúvida.

Em retrospetiva as diferenças entre gerações apenas retratam épocas, ao longo do ciclo vital o ser humano passa por etapas de desenvolvimento com características comuns quase sempre conforme a idade cronológica embora muitas vezes o determinante seja a idade mental nem sempre coincidente com a cronológica.

A maioria dos nossos jovens e dos nossos jovens adultos não querem ditaduras nem saques de liberdades fundamentais.

Como a maioria de nós querem uma sociedade justa com respeito pelos direitos humanos, são também a minha esperança, aliás tiveram e têm o nosso exemplo.
Sabem e sentem que o caminho é o respeito pela diferença e não a transformação em desigualdade...

E como nós também sabem que a terra não é só uma herança dos nossos antepassados, também é um empréstimo das gerações futuras...


Subscrevo o comentador José Barros

Mas Abril, nunca se apaga,
Ainda que alguém um dia,
O quisesse silenciar
O próprio silencio iria
Ainda mais alto gritar

Viva Abril! Viva Abril !

patricio branco disse...

esplendida crónica com todos os ingredientes que a enriquecem, desde o emocional, à opinião e à escrita e estilo.

Unknown disse...

Excelente texto...excelente visão do que foi e é o 25 de Abril, sempre!

Filomena

Defreitas disse...

Vamos celebrar o 25 de Abril 1974. Devemos celebrá-lo "sempre", porque é a liberdade de dizer o que não está bem hoje, que conquistamos ontem, ao derrubar a ditadura.

A ditadura designa um regime político no qual uma pessoa ou um grupo de pessoas exercem todos os poderes de maneira absoluta, sem que nenhuma lei ou instituição não os limitem.
Por exemplo, negar ao meu Pai o direito de votar e continuar assim, até eu ser adulto, e recusar-me também o mesmo direito. O que aconteceu.

Claro que existiram e existem ainda muitas ditaduras. As boas e as más segundo o catálogo do Ocidente.

Estaline, Hitler, Bachar El Assad, Saddam Hussein ... Que têm em comum estas "ditaduras" ? O "um"... O poder conferido a um só homem leva ao conceito de ditadura venenosa e perigosa. Os EUA perseguiram e perseguem desde há muito o comunismo, sinónimo de ditadura. Mas aqui brinca-se um pouco com as palavras!

Os regimes ditatoriais foram por vezes implantados pelos EUA eles mesmos para obter o controlo : O Irão do Shah, e Pinochet, ídolo de Reagan, apoiado pelos ocidentais : França, RU e Israel. Se o dictador serve o Occident, "tout va bien" !

Bons ou maus, o "um" ou pelo menos a aparência, não está na moda da democracia moderna.

E a democracia é a grande questão actual. Uma vez a ditadura derrubada, tudo parecia indicar que o povo Português iria beneficiar de todos os benefícios que os homens da Revolução tinham idealizado.
As novas instituições da Republica deviam poder assegurar a tão desejada justiça social. A alvorada do 25 de Abril trazia o perfume dos cravos e o da liberdade enfim reconquistada.

Depois, começou outra história. Cedo se apercebeu que as democracias estavam sob o jugo da finança. Lá onde se joga a "realidade" deste mundo, camuflada, ditatorial, controlando todas as ditas democracias.

A globalização permitiu a criação dum monstro além de tudo o que se possa imaginar, pois que este não é um ser humano, mas uma organização legal incontrolável. O pequeno crime organizado não é nada mais que um biscoito insignificante numa trama escondida mas eleita indirectamente do crime invisível e gargantuesco que domina o esqueleto da dita representatividade.

E preciso então transformar em democracia tudo o que pode aparecer sob a forma de ditadura, boa ou má, pois que ela escapa aos dominantes económicos agora únicos "representantes" das sociedades democráticas. Eles têm as cordas e nos elegemos as marionetas. (Desculpe Senhor Embaixador, mas pensava no seu "post" precedente sobre o antigo Director da BCE!).

Esta mudança de visões e de açambarcamento do conjunto do planeta não se fez dum só golpe: ele resulta duma agenda económica da qual os EUA são igualmente vitimas, mesmo se nas suas próprias agendas de imperialismo económico, no qual crêem, eles são levados no rolo lamentavelmente e "naivement"! Vejamos os milhões de vítimas das "subprimes" entregando as casas aos bancos!
O "gendarme" barrigudo do mundo é incendiado por esta nova forma de ditadura camuflada. Ele nem a vê. Porque crê nela como fonte de crescimento, pois que para essa gente tudo é economia. O dinheiro não tem odor nem intenção, como sabe. Ele é o diktat num nevoeiro longamente ruminado, vendido e posto em acção.

Na sua fabulação narcísica, o mundo da finança chacota, agarrando o poder, por meios ainda maiores e mais enormes que as armas e as boas intenções! "Ils se fichent de la gueule du monde ". Tenho pena, mas não sei escrever esta frase em Português!

A Historia que passa, passa tão depressa, e os assassinos económicos são agora os "snippers" invisíveis engordados de maneira quotidiana.

A democracia é agora a cultura da Hiper Finança. Ela é a DEMOCRACIA. E o G20 é o esmalte empolado e lustroso.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,
Não existe grande risco de se se obrigado a levar com o Zeca, MFA, etc, etc. Eu acho que actualmente, não existe sequer o risco de se saber quem foi o José Afonso e, para a maior parte, nem de se saber que existiu um 25 de Abril de 1974. Olhe, eu, como a maior parte, tenho passado os dias a ver séries e filmes na tv cabo, quando não a acompanhar noticias seleccionadas na internet. Se a malta vier aqui toda hoje ler o seu post, a maior parte peruntar-se-á "Luisa Basto"? MFA? Isso é o quê?
O risco não é uma overdose de 25 de Abril, o risco é a ignorãncia.

Helena Oneto disse...

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"

Para mim, o 25 de Abril foi -e continua a ser- o que
Sophia de Mello Breyner Andresen tão bem diz neste poema. Mas falhamos na transmissão do sonho, que nos animou, de criar substância para vivermos em democracia.

Felicito-o, uma vez mais, Senhor Embaixador, pela lucidez e frontalidade do seu texto que subscrevo na integra.
Viva o 25 de Abril!

Helena Oneto disse...

Volto para dizer que a magnifica fotografia que ilustra este texto "foi escolhida a dedo". Nos olhos da criança espelha-se o destino incerto que o espera.

Anónimo disse...

25 de abril sempre. Sempre.
Já lhe quiseram deixar cair o "r", mas o "r" está lá muito bem.
O discurso pode ser estafado, a chaimite pode até nem pegar, as mesmas caras podem até aborrecer, que um cravo nesse dia fica muito bem.
Ouso dizer que cada vez mais se justifica comemorarmos: já não estamos a 40 anos de distância do 25 de abril, mas sim cada vez mais perto desse dia e do dia anterior, com as devidas variações na forma.
Para si, Dr. Francisco Seixas da Costa: perguntei um dia a pessoa conhecedora se os Embaixadores a, b e c, eram de esquerda ou de direita. A pessoa repsondeu-me: ora, todos os Embaixadores são de direita. Ainda bem que assim não é.