terça-feira, 8 de abril de 2014

Benita Ferrero-Waldner

Era o dia dos meus anos, naquele início de 2000. Fazia um périplo pelas capitais europeias para tentar ultrapassar as dificuldades surgidas no arranque das negociações da Conferência Intergovernamental que iria fixar o Tratado que viria a chamar-se de Nice. Vinha de Estocolmo e o Falcon, já de regresso a Lisboa, parou em Madrid, onde eu iria ter um encontro com o meu colega, o secretário de Estado espanhol dos Assuntos Europeus, Ramón de Miguel.

À saída do avião, tinha dois recados.

O primeiro era de Lisboa: no termo da reunião com os espanhóis, deveria fazer uma declaração à imprensa sobre a decisão da Áustria de constituir um governo que incluía um partido de extrema-direita, que fora anunciada na noite anterior. Competia-me explicar o modo como a presidência portuguesa da União Europeia via a questão, que já estava a agitar toda a Europa.

O segundo recado era mais intrigante. O meu colega espanhol mandava avisar-me que a indigitada nova ministra dos Negócios Estrangeiros austríaca, Benita Ferrero-Waldner, estava secretamente de visita a Madrid e queria encontrar-se comigo, de forma discreta.

Eu conhecia Benita muito bem. Ela fora, até então, responsável pela pasta dos Assuntos Europeus no governo do seu país e havíamos criado, ao longo de quase cinco anos, uma excelente relação pessoal. Viera recentemente a Lisboa, a meu convite, e recebera-me em Viena, em anos anteriores. Diplomata de carreira, antiga chefe de protocolo das Nações Unidas, é a mais latina de todos os austríacos que conheci, o que seguramente se fica também a dever ao facto de ser casada com Francisco, um simpático espanhol. Benita, aliás, fala um impecável castelhano.

Sem revelar o inesperado encontro que ia ter aos três jornalistas que me acompanhavam - Alexandra Marques, Lassalete Marques e Paulo Nogueira -, fui discretamente falar com Benita numa sala do Palácio de Santa Cruz, as "Necessidades" espanholas. O que foi dito nessa conversa fica para ser analisado em outra altura. Apenas posso dizer que foi algo difícil compatibilizar essa conversa com a declaração que, depois, tive de fazer na conferência de imprensa.

Este e outros episódios desse tempo complexo foram ontem lembrados por ocasião de um jantar em Lisboa, a que Benita esteve presente, juntamente com Luís Amado, outro dos seus amigos portugueses. Ela teve a simpatia de recordar o modo natural como Jaime Gama e eu próprio a acolhemos no primeiro Conselho de Ministros da UE a que assistiu já como MNE, contrastando com a atitude de muitos outros colegas, que positivamente a ignoraram. Disse-me que nunca esqueceu esse nosso gesto e estou em crer que talvez isso tenha contribuído para que a sua primeira visita a um parceiro comunitário, após o levantamento das "sanções" à Áustria, tivesse sido a Portugal.

Benita Ferrero-Waldner ficou vários anos como ministra. Encontrei-a por diversas vezes em Viena, quando por lá trabalhei junto da OSCE. Viria a ser ainda comissária europeia, tendo tido um papel essencial na questão da parceria estratégica com o Brasil, aquando da nossa presidência de 2007. Hoje dirige uma fundação para as relações entre a Europa e a América Latina, com sede em Espanha.

(Quem tiver curiosidade sobre o tema das sanções à Áustria em 2000, pode consultar aqui e aqui)

5 comentários:

Anónimo disse...

O então recém-nomeado embaixador de Áustria em Lisboa ficará para a história pelas suas notórias qualidades diplomáticas. Acossado pela imprensa portuguesa perante a presença da extrema-direita no governo em Viena respondeu sobre o seu novo mandato em Lisboa: "Lisbon? Dream of a life!".

Anónimo disse...

Estando eu na nossa Embaixada em Paris, a Benita era também diplomata na Embaixada da Áustria na mesma cidade. Decorria a nossa primeira Presidência, em 1992, e devo-lhe vários almoços, durante os quais ela advogava com fervor a adesão do seu país. Desempenhou ainda um papel importantíssimo na nossa vitória quanto à Expo 98. JPGarcia

Anónimo disse...

Antes de ler a sua classificação quanto à sua latinidade, comparada com outros austríacos, para mim, encontrei-lhe algo nórdico na sua expressão, talvez pelo cabelo...

patricio branco disse...

outros tempos, outra ue, hoje as ideologias e comportamentos de alguns governos, dentro da ue e tambem fora, já não incomodam a união, só as politicas monetárias a preocupam. os ddhh muito pouco já. veja se o que se passa na hungria e talvez noutros países, para não falar doutros exteriores...
interessante história, aguardamos a continuação a que acena...

Anónimo disse...

Declaração de interesses: não votarei PSD nas europeias.
Tinha Rangel como uma pessoa inteligente mas tem-me desapontado. Tenho, por motivos óbvios, que ler os seus artigos e por vezes leio-os mais do que uma vez a tentar decifrar uma linguagem rebuscada e desadequada para o grande público.
O artigo de hoje de Rangel parte hoje de uma evidência para o próprio confirmar que afinal tem razão: que a Europa não precisa de grandes gesticulações. É uma lapilassada que até mesmo Dupont, e eu ainda diria mais, Dupont et Dupont estarão de acordo. As questões europeias são frequentemente herméticas e precisam de ser entregue a gente experimentada e conhecedora que assegure posições sólidas, sustentadas e credíveis. Convenhamos que não é o mote deste governo. Rangel remata o artigo com um elogio à visão sábia de Passos Coelho. Exercício de bajulação desnecessário quando ninguém em lado nenhum ouve o que Coelho possa dizer sobre a Europa. Mesmo que Rangel tivesse sido reconduzido na Europa. Rangel está a perder o fulgor.