sexta-feira, 25 de abril de 2014

As figuras de abril

Nunca se apreciaram excessivamente entre si, mas Melo Antunes e Mário Soares são, sem a menor dúvida, as duas personalidades que, para mim, melhor representam a liberdade que o 25 de abril nos trouxe.

5 comentários:

Anónimo disse...

Melo Antunes e Soares.
Ambos queriam mandar.
Soares sabia o terreno que pisava.
Melo não se enxergava.

Guilherme.

patricio branco disse...

talvez, mas respectivamente entre os militares um, entre os civis o outro. mario soares leva a vantagem de o ter sido tambem antes e desde os 15 ou 16 anos.
mas é dificil dizer, há outras figuras que são verdadeiras encarnações e simbolos da liberdade e democracia, manuel alegre p ex.
alvaro cunhal por sua vez foi um resistente e lutador contra a ditadura mas não foi um representante da liberdade em democracia.

mas sem duvida que ms e ma são duas grandes figuras da democracia e se completaram no período revolucionário.

Defreitas disse...

"alvaro cunhal por sua vez foi um resistente e lutador contra a ditadura mas não foi um representante da liberdade em democracia.", assim escreve Patrício Branco.

Bom, se lemos o "post" seguinte do Senhor Embaixador, as "reticências"e "dúvidas" que ele mesmo e outros militares tiveram sobre a evolução do golpe, e mesmo o risco de ver a Revolução ser desviada do seu objectivo revolucionário pelos elementos mais conservadores ou menos radicais do movimento, encontraram uma ampla justificação nos meses seguintes após o 25 Avril 1974.

A ditadura foi derrubada, a liberdade conquistada e a democracia instaurada. Não sei exactamente o que Patrício Branco deseja demonstrar ao afirmar que "Cunhal não foi um representante da liberdade em democracia".

Mas creio que o que pretende afirmar " é que Cunhal e o PCP não aceitavam a democracia tal qual" sem ver as conquistas sociais afirmadas e garantidas pela mesma "democracia" . Porque, para que serve a liberdade e a democracia se a sociedade saída da Revolução continua a ser injusta para a maioria? Se as mesmas forças reaccionárias que impediram o progresso durante 50 anos voltam ao poder à sombra da democracia?
Neste caso, quem retira o beneficio máximo da democracia senão aqueles que detêm o poder económico? Para Cunhal, o combate continuava. E os factos dão-lhe hoje inteiramente razão.

Se extrapolamos o caso português ao que se passa actualmente na França, é lamentável de constatar a viragem social democrata e mesmo liberal-democrata do socialismo, não só na prática do governo mas na sua ideologia. Trata-se duma fractura real na história da esquerda na França.

Não sei o que os teóricos do MFA tinham realmente idealizado, mas parece-me que o que Cunhal e muitos democratas portugueses antecipavam da Revolução, era um autêntico movimento que entendesse reformar o capitalismo do interior sobre a base dum compromisso entre o mundo do trabalho e o Capital, organizado democraticamente pelo Estado ,num conjunto de conquistas positivas arrancadas à classe capitalista pelos sindicatos e os partidos da esquerda, numa série de domínios como os salários, os direitos sociais, os serviços públicos, etc.

Reformar consistia portanto em melhorar a sorte das classes populares e iniciar um progresso económico e social a seu favor, o que explica que em certos países como a França, isso foi possível com o apoio dos comunistas (1936, 1946, 1981) , apesar destes serem partidários duma ruptura revolucionária como Cunhal, e à qual Mitterrand aderiu.

Hoje, as coisas mudaram. Adeus ao controlo da economia pelo Estado, viva o mercado selvagem fundado na propriedade privada capitalista. De concessão em concessão ao capitalismo, de retrocesso em retrocesso e contra reformas, todas no sentido dos interesses da finança internacional, as conquistas sociais evaporam-se, a duração do tempo de trabalho aumenta, o empobrecimento generalizado da população, mesmo das classes médias, e o fim do Estado Providência.

A austeridade é a filha incestuosa do social liberalismo e da social democracia. Ou o liberalismo "tout court". Confundir os dois ou ocultar o fosso que os separa, é uma impostura semântica tão grave como a de continuar a dizer que o sovietismo era comunismo e é enganar os cidadãos.
Era esta deriva que Cunhal receava quando dizia que " a democracia pode albergar os piores inimigos do trabalhador". Com ares de liberdade recuperada. Mas não é na ditadura que o mundo pode progredir, por isso a democracia resta o menos "mau" dos sistemas.

Anónimo disse...

Demos-cracia.Poder do povo. Será que o povo que cria riqueza é masoquista? Vários fatores esotéricos têm de facto adormecido essa massa imensa e quase única de produção.
O poder económico só tem cedido no seu aproveitamento das mais valias pela força.

Silva.


patricio branco disse...


referia me de facto à liberdade em democracia representativa ou parlamentar que em portugal não é exemplar ou não anda bem, mas a responsabilidade disso não é do modelo mas de quem o tem manejado e utilizado muito mal.
sobre alvaro cunhal não duvido que continuaria hoje o seu mesmo combate contra as injustiças sociais e económicas tal como o fazem os seus sucessores e ainda bem.
quanto à experiencia de mitterrand de governar com comunistas em 1981 foi interessante e singular