quarta-feira, 9 de abril de 2014

A memória de Jouyet

Jean-Pierre Jouyet, antigo secretário de Estado dos assuntos europeus de Nicolas Sarkozy, acaba de ser nomeado secretário-geral da Presidência da República francesa. Trata-se de um lugar da maior importância no xadrez político de Paris. Jouyet é um homem muito próximo de François Hollande, um dos seus maiores amigos, e já em 2012 o seu nome "corria" para o cargo. É uma figura de uma extrema cordialidade, com quem criei uma ótima relação, com uma leitura muito interessante do papel da França na Europa. Numa sociedade tão polarizada como a francesa, diz muito da sua qualidade o facto de ter sido aceite a sua "travessia" da fronteira esquerda-direita, isto é, integrar o "core" do poder socialista depois de ter pertencido ao governo de Sarkozy. Para quem conhece a França, é obra!

No termo da presidência francesa da União Europeia, em 2008, Jouyet publicou um livro que passou praticamente despercebido na vaga da literatura "de conjuntura" em que a França é fértil. Chamava-se 'Une Présidence de Crises". A certo ponto do livro, Jouyet critica fortemente a Comissão Europeia sobre a gestão da crise de 2008. Passo a traduzir um extrato significativo: "Ela (a Comissão) deveria ter antecipado muito mais e ter modificado a sua linha da conduta muito mais cedo. Na sexta-feira (10 de outubro de 2008), enquanto que Fortis (importante instituição financeira do Benelux) está à beira da falência, José Manuel Barroso, que eu cruzo em Nova Iorque, quase que se ri de mim: "Jean-Pierre, estás enganado, diz-me ele. Não é necessário alarmar as pessoas. Trata-se, antes de tudo, de uma crise americana". Viu-se!

5 comentários:

Alcipe disse...

Que susto! Comecei por ler "À memória de Jouyet"...

Defreitas disse...

Jean- Pierre Jouyet faz parte do mesmo bando da promoção" Voltaire" , da ENA ( Escola Nacional da Administração) , donde saíram Ségolene Royal, Hollande, Sapin e tantos outros , da direita e da esquerda, que estão hoje na primeira linha dos políticos franceses. De Villepin também fazia parte da mesma promoção.

Jouyet seria o irmão gémeo de Hollande. realmente muito amigos, ao ponto de lhe perdoar a "infidelidade" de aceitar um lugar no governo de Sarkozy . Mas o antigo chefe do Gabinete de Jacques Delors estava bem indicado para o posto que Sarkozy , inteligentemente, lhe ofereceu.

A promoção Voltaire forneceu 9 ministros à França e agora um Presidente da Republica. Era a Republica des "copains"! O exército das sombras de Hollande !

O posto de Chefe do Gabinete da Presidência da Republica de Jouyet pode ser uma boa rampa de lançamento para mais tarde!

Resta a saber como vai funcionar a dupla Jouyet e Valls , os dois devendo trabalhar intimamente com o Presidente, um, o velho amigo e o outro o indispensável do momento. No tempo de Chirac, a dupla Chefe do Gabinete do Presidente - De Villepin -, e o primeiro ministro -Juppé, não funcionou bem. Questão de influência junto do Presidente e... complexos ! Até deu como resultado uma dissolução da Assembleia Nacional!

E resta a saber, também, qual é a dose de socialismo que a nova equipa vai injectar . Quando vejo as trajectórias pessoais de todos estes "enarcas", as orientações políticas do passado e aquelas que aparecem agora, sob a pressão do voto dos franceses nas eleições municipais, tenho muitas dúvidas.

O social liberalismo ou o socialismo liberal ? Nestes últimos tempos, estas expressões acabaram por ser banais. François Hollande "confessou" já a sua social democracia! Isto seria o primeiro passo para designar a mutação em curso do socialismo, como o foi a social-democracia no fim do comunismo e das mudanças económicas ligadas à globalização. Ou seja uma redefinição sem precedente do socialismo que teria renunciado abertamente ou não, às suas aspirações clássicas: não somente a luta das classes e a defesa do mundo trabalhador, mas também a intervenção do Estado na economia e a protecção social, uma política de solidariedade visando a proteger os indivíduos, uma larga redistribuição das riquezas, uma domesticação forte do capitalismo, etc.

Ouvi o novo Primeiro Ministro Manuel Valls na Assembleia Nacional defender o seu programa de governo. Ele obteve largamente a confiança dos deputados da esquerda. Mas receio que na realidade o seu discurso tenha sido o discurso dum socialista liberal convertido às virtudes do capitalismo , rejeitando toda forma de intervenção do Estado outra que alguns "enquadramentos" e correcções.

Não sei se será o suficiente para "despoletar" a granada armada para 2017 !

PS) No livro de Jouyet, " Une Présidence De Crises - Les Six Mois Qui Ont Bousculé L'europe " apreciei muito o paràgrafo " Um Parlamento para quê ?". A meditar.

Defreitas disse...

(Suite comentàrio precedente):

O "Post Scriptum" escondeu a última frase do meu comentário , ao transcrevê-lo para o blogue:


Sim, não sei se as ultimas medidas tomadas para responder ao "tsunami" municipal da direita, apresentadas por Manuel Valls, serão suficientes para fazer mudar o vento de direcção.

Porque, se a diferença entre um partido socialista e um partido social democrata consiste apenas em "enquadramentos" e" correctivos" da última hora, como paliativos ao sofrimento dos desfavorecidos, e que não há uma linha politica francamente em ruptura com a "gerência" social burguesa que caracteriza a social democracia de hoje, quer dizer que o socialismo deixa de ser uma força de progresso ancorada à esquerda, e que não poderá reivindicar o combate histórico pela justiça social.

E se os homens políticos dos dois campos se assemelham e convivem socialmente ao ponto de serem perfeitamente intercambiáveis nos governos , então que resta aos cidadãos progressistas para combater o Estado burguês senão o extremismo ? E a questão lancinante : reformar ou destruir ?

EGR disse...

Senhor Embaixador : muito intressante para comparar com a entrevista do senhor Barroso a SIC.

Anónimo disse...

Notícia notícia é a despromoção de Harlem Désir de Primeiro-Secretário do PS a secretário de estado...