segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Helicópteros

No sábado, à conversa com o meu amigo Benjamim Formigo, numa almoçarada alentejana no dia em que deixou de poder cantar o "When I'm Sixty-Four", veio à baila o nome de um amigo comum, Arlindo Ferreira, um homem de abril, militar da Força Aérea há anos desaparecido, cuja amizade nos faz muita falta. 

O Arlindo era um dos mais hábeis pilotos portugueses de helicópteros. Nunca esquecerei uma noite, em Luanda, há muitos anos, quando ele, que adorava helicópteros, me descreveu os riscos dos acidentes com esse tipo de aeronaves. Tendo ouvido, depois disso, muitas histórias sobre a gravidade dessas ocasiões, mesmo por parte de outros experientes pilotos, sempre que posso escapar a uma viagem dessas faço-o.

Desconfio imenso de helicópteros. Evito andar neles, sempre que posso. Há uns anos, no Rio de Janeiro, vieram perguntar-me se eu me não importava de prescindir do meu lugar, a acompanhar uma importante personalidade política portuguesa, numa viagem a uma plataforma petrolífera "off-shore". Ainda estou hoje para saber se o entusiasmo esfusiante com que acedi ao pedido não foi mesmo mal interpretado. É que tive menos boas experiências na Noruega, num "voo tático" da RAF durante um exercício da NATO, rasando cumes, e em Angola, numa interminável viagem de ida e volta de Luanda a Cabinda, em que eu aguardava um tiro a qualquer momento. E não me senti nada confortável em outras viagens - por cá, nos Estados Unidos, no Congo, na Itália, no Tajiquistão, no Brasil, na Coreia do Sul, em Israel, entre alguns poucos locais mais onde as fiz, às vezes, penso agora, podendo tê-las evitado. 

Daquela vez, porém, era inescapável. Tratava-se de uma viagem da OSCE (Organizaçāo para a Segurança e Cooperação na Europa) à Geórgia, em 2003. O programa incluía uma deslocação à secessionista Abcázia, uma zona de onde, depois de violentos combates em 1992/3, centenas de milhares de cidadãos georgianos tinham sido expulsos. Já na véspera, eu não me conseguira furtar a uma ida de helicóptero à fronteira (belíssima) que separa a Geórgia da Chechénia e do Daguestão, onde frequentemente ocorriam incidentes.

Entre a Geórgia e a Abcásia (a Geórgia considera a Abcásia território seu, embora esta tenha declarado a sua "independência", reconhecida em 2008 por Moscovo, seguida até hoje por apenas mais quatro Estados), existe uma imensa "terra de ninguém", repleta de ruínas de zonas urbanas e rurais fustigadas por bombardeamentos. A operação internacional de "manutenção da paz" na Abcásia era então levada a cabo pelas Nações Unidas (a missão acabou em 2009, por pressão de Moscovo), que mandou helicópteros buscar-nos perto da "fronteira" geórgio-abcase, na localidade de Poti, onde tínhamos chegado de avião, idos de Tbilisi. Quando saí do avião e me encaminhei para os helicópteros fui surpreendido por encontrar aparelhos russos Mi-24, ao serviço da Ucrânia, utilizados pela ONU. Desde sempre, nunca fico sossegado quando me é dado ter de viajar em meios aéreos da antiga União Soviética. Preconceito? Talvez seja.

Ao entrar com os meus colegas num dos dois imensos helicópteros que nos iam levar a Sukumi, capital da Abcásia, numa viagem de muitos largos minutos, pude verificar que eram aparelhos antigos, com mostras de excessivo uso no equipamento do seu interior. Vi a minha perplexidade partilhada nas caras dos meus companheiros de viagem. Para me entreter, e porque estava curioso para fotografar as zonas devastadas pelos combates, em especial o célebre vale de Kodori, que no passado fora palco de grandes lutas, preparei a minha máquina, já que tinha conseguido um lugar com boa visibilidade. Mas nada correria como eu tinha previsto.

Mal o helicóptero levantou, a direção que seguiu foi bem diferente: avançou para dentro do Mar Negro, como se dirigisse para sul, ao invés de oeste. Devo ter feito uma careta de espanto, quiçá de desagrado, o que levou um imenso e loiro militar ucraniano, no meio do barulho infernal que nos obrigava a usar uns grandes protetores de ouvidos, a fazer com a mão um gesto que podia representar a deslocação de um avião. Não percebi nada e era impossível trocar palavras naquele vasqueiro. Algum tempo depois, sempre a sobrevoar o mar, lá nos aproximámos de Sukhumi, idos do Sul, como se viajássemos da Turquia para Norte.

Já fora do aparelho, o militar ucraniano aproximou-se de mim, sorridente e perguntou, num inglês macarrónico: "ficou surpreendido por não voarmos sobre a terra?". Eu respondi que sim, embora não confessasse que era por causa das fotografias frustradas, que nunca são de bom tom em zonas de conflito. Foi então que ele me explicou o significado do gesto "aéreo" que antes me fizera. Cerca de dois anos antes, um helicóptero das Nações Unidas tinha sido abatido por um míssil terra-ar, provocando nove mortos, e, por essa razão, os voos faziam-se agora por um trajeto bem longe da costa. Fiquei "ciente", como se diz na minha terra... Já não bastava andarmos em helicópteros do tempo da URSS e ainda havia o risco de levarmos com um míssil. Claro que, até ao termo da viagem de regresso, não pensei noutra coisa.

Não gosto de helicópteros, pronto!

13 comentários:

patricio branco disse...

sentem se os perigos a que escapou, zonas de combate donde pode chegar um tiro, velhos aparelhos pouco fiáveis, voos em zonas montanhosas, regiões do mundo em guerras permanentes, destruídas, etc
tenho pouca experiencia de helicópteros, felizmente direi depois de ter lido.
uma vez um piloto oficial da fa portuguesa disse nos, fazíamos lhe perguntas enquanto se fazia o voo entre bissalanca e os bijagós, que quando essa luz se acendia, perguntámos para que era indicando uma felizmente apagada,pois se se acende o helicóptero tem 30 segundos de voo, depois cai,e o piloto 30 seg para aterrar de emergência se encontra sitio.
ao se aproximar da madeira, o saudoso navio armas, que levava confortavelmente passageiros e carros em 24 h de funchal para Portimão e sentido inverso, pois ao se aproximar, vinha um helicóptero da fa portuguesa saudar e fazer uns exercícios, pairar em cima do navio, uns soldados desciam por uma corda até ao navio e cumprimentavam um oficial, voltavam a subir para o helicóptero, os passageiros aplaudiam, não seria só para saudar, seria também ocasião para fazerem exercícios, helicóptero grande, pesadão, camuflado, mas via se ou parecia me já um pouco avançado de anos, pois os helicópteros veem se muito nas peliculas policiais americanas perseguindo carros em baixo de criminais em fuga, será possível?

insubstituível no entanto para operações de salvamento, defesa civil, transporte doentes

Anónimo disse...

Respeito o medo do SR Embaixador aos Helicópteros.Garanto-lhe que o "gingarelho" Alouette III,- e que ainda existem em Beja- foi o Helicóptero mais eficaz na guerra de África.Se o SR Embaixador, perguntar a um militar ferido em combate quem o salvou, o militar diz:o Alouette que, debaixo de tiroteio por todos os lados me safou a pele.
O Alouette III,era a Aeronave que cheio de buracos por todos os lados e até algumas vezes com bocados de cauda suspensos por arames regressavam sempre à Base.

Se o SR Embaixador gozasse a experiência de seguir o voo de um pássaro dentro de um Alouette, ficava maravilhado.

Quanto a luzes vermelhas acenderem em pleno voo... Bom, isso era uma brincadeira que fazíamos aos medroso que consistia em reajustar os botões de alguns instrumentos para estabelecer o contacto e aparecer a luz vermelha, dando a ideia de avaria, mais nada, o que nos dava um gozo do caraças, ver o pessoal todo borrado de medo.

Anónimo disse...

Esta sua história de "helicópteros" em tempo de "Submarinos", é bem mais interessante...

Anónimo disse...

Também escapei a esse passeio matinal as plataformas da Petrobras. O Ministro Manuel Pinho (o dos corninhos) não...mas bem tentou...hahahaa

Carlos Fonseca disse...

Anónimo das 12,05,

A si dava-lhe um gozo do caraças ver o pessoal borrado de medo com as luzes vermelhas.

Provavelmente, ainda lhe dava um gozo maior ver o pessoal que vocês iam largar no mato a saltar, porque não só nunca pousavam, com um medo do caraças de levarem algum tiro, mas também porque começavam a subir antes de todos terem saltado.

Os últimos azarados chegavam a saltar de 3 metros de altura (com arma, cartucheiras, granadas, mochila e pelo menos um cantil com água), não sendo raro haver pessoal com pés torcidos (quando não era pior).

Mas os pilotos regressavam à messe e ao whisky sãos e salvos, graças aos deuses. E à sua "prudência", claro.

E ainda bem que estavam salvos, porque dias depois tinham de nos ir apanhar (depois de terem a certeza de que tínhamos estabelecido um período de segurança ao abrigo de "cagaços", não fossem ficar borrados).

Guilherme Sanches disse...

Eu pelo contrário, não perdi um minuto de oportunidade para "dar uma voltinha" de helicóptero.
Pois é mesmo como diz o anónimo das 12:05.
O inconfundível barulho do rotor principal à mistura com o zumbido da turbina, era como uma luz que se acendia e iluminava o ânimo, quando quase tudo o resto se apagava.
Com os Alouettes III iam os feridos, mas vinha o correio, os frescos, as peças reparadas, o médico...
Bom, às vezes também traziam um Comandante ou um General indesejado, que levavam pouco depois, pilotados pelos mais hábeis pilotos e fixes camaradas, capazes de descer pairando sobre autênticos buracos de agulhas no meio da mata, verdadeiros acrobatas que arriscavam tudo por uma vida humana, aparentemente indiferentes ao risco que tantas vezes isso representava.
Bem hajam os que na primeira pessoa podem contar essas aventuras aos que hoje as podem ouvir, tantos e tantos graças a eles.
Um abraço

Domingos Pimenta disse...

Além de gostar bastante de helicópteros,tenho uma imensa saudade do Arlindo Dias Ferreira, com quem privei em variadíssimas 'circunstâncias'...

Domingos Pimenta

Anónimo disse...

Histórias da guerra do ultramar davam para horas de recordações, para quem as viveu na pele, só por isso deviam ser respeitados e não falemos mais disso.

Actualmente as guerras são mais limpas, via drones.

De submarinos parece que os actuais estão carregados de contrapartidas e "partidas" da "Companhia dos Padrinhos"

Alexandre












Anónimo disse...

A última vez que andei de helicóptero, num soviético estacionado em Bissau que caiu quatro ou cinco voos depois, aterrei na absolutamente deserta praia da ilha de Orangosinho, Bijagós, e da orla da floresta desencantou-se o que nos pareceu "um selvagem" de tanga e um pau na mão, que correu furiosamente ao nosso encontro e, perante o nosso enorme espanto, em vez de nos atacar, como temíamos, deu-nos um enorme sorriso e disse com enorme alegria: bom diiia!
João Vieira

Anónimo disse...

Carlos Fonseca das 18H46 tem, quanto a mim, bastante razão. Vanglorio-me de ter obrigado um enorme Puma a pousar porque, comandando um desembarque, me recusei a aceitar os incitamentos a saltar de altíssimo para um chão inserto e fiz com que o piloto, desesperado, acabasse por praticamente aterrar.
João Vieira

ou há moralidade ou comem todos disse...

oh comandante vieira! atão os magalas não podiam saltar para um chão "inserto", mas o puma já podia poisar na "inserteza".

João Forjaz Vieira disse...

ao anónimo piloto das 8h09
engulo, incomodado a incerteza e afirmo: O Puma podia baixar, como baixou até uma altura razoável, mais de meio metro seria imenso, sem, coitadinho, poisar.
Um alferes, embora muito criança, comandava pois, sem outro remédio!
João Vieira

Anónimo disse...

boa tarde,
Tal como faço por vezes em resoluções de final do ano e na proximidade da época festiva em que nos encontramos, realizo e porque as saudades existem, uma pesquisa em nome do meu pai. Tal meu espanto e desta vez encontro este post no seu blogue ao qual fiquei mais uma vez feliz. Feliz por meu pai Arlindo ter convivido e deixado saudades aos seus amigos. Feliz porque conta a verdade acerca da sua grande adoração pelos helicópteros. Feliz por ainda passados estes tempos, 27 anos, saber que "alguns mas bons" nos seus convívios e almoçaradas se lembram e nas suas memórias o referenciam. Bem- hajam a todos e um santo e feliz natal. Pedro Ferreira