quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cova da Moura


É uma sensação curiosa voltar a um local que conhecemos bem, que nos foi íntimo, e olhar em volta, notar as diferenças, as novas caras que agora o ocupam, o novo discurso que as atravessa. Aconteceu-me esta tarde, na mesma sala que a fotografia mostra, sentado àquela mesma mesa.

Não estive presente no momento retratado, em fins de abril de 1974, naquela que creio que foi a segunda aparição pública da Junta de Salvação Nacional (havia estado na primeira, na noite de 25 de abril, na RTP). Trata-se da sala de reuniões do palácio da Cova da Moura, que até então fora o Secretariado-Geral da Defesa Nacional e que se tornaria a sede da Junta. Na foto há muitas caras conhecidas, mas noto o meu amigo João Paulo Guerra, então repórter do "Rádio Clube Português".

Algumas semanas mais tarde, eu viria a ser chamado a trabalhar com a Junta, como assessor. Nessa qualidade, várias vezes estive naquela sala, na altura sob a alçada do gabinete do general Costa Gomes, que herdou o gabinete de António de Spínola, quando este se mudou para o palácio de Belém, depois de entronizado presidente da República.

Cerca de 20 anos depois, e por mais de cinco anos, em funções governativas, tive o gosto de vir ocupar esse mesmo gabinete, com esta mesma sala a servir-me para muitas reuniões, em especial para os encontros semanais da Comissão Interministerial dos Assuntos Comunitários (CIAC) - um exercício de coordenação com representantes de todos os ministérios envolvidos na vida europeia (apenas o Ministério da Defesa não tinha razão para estar regularmente presente). Um dia, Jaime Gama e eu decidimos atribuir àquela sala o nome de Ruy Teixeira Guerra, uma homenagem simples a um grande embaixador, um precursor da política de integração europeia de Portugal.

Passaram mais 20 anos. Regressei hoje uma vez mais àquela sala, para um debate, com um convidado estrangeiro, sobre o acordo comercial entre a UE e os EUA. Verifiquei que alguém, entretanto, se lembrou - bela lembrança! - de nela colocar, numa moldura, a fotografia que recorda a célebre reunião da Junta de Salvação Nacional. Sabe sempre bem regressar a um lugar que nos diz muito.  

10 comentários:

Anónimo disse...

"O ensaísta Eduardo Lourenço disse hoje que houve uma invasão por "uma espécie de vampiros", que são quem controla o sistema inventado pela modernidade, vivendo-se agora um "apocalipse indirecto" em "estado de guerra permanente".

Alexandre

Manuel Leonardo disse...

Sem Comentarios....
Sem comentarios !!!?
Quem e que quer ver estas caras feias ? e falar nelas ? Ainda muito menos ...
Qualquer dia sem bons fregueses tem de fechar a porta. Eu por aqui nem posso comentar , ou publicar no meu blogue .Tempos livres ....
De cadeias de portas abertas.
Cada vez tenho mais pena da mocidade atrofiada do meu ainda Portugal.
As mais cordiais saudacoes
Manuel Joaquim Leonardo
Peniche Vancouver Canada

Anónimo disse...

Tivemos ano e meio de “democracia popular-povo-mfa”.40 anos depois, as consequências reais estão á vista !

Alexandre

Francisco Seixas da Costa disse...

Olhe que nào, Alexandre, olhe que não!

Helena Oneto disse...

Ha comentarios que me distanciam cada vez mais das "gentes" do pais onde nasci...

patricio branco disse...

uma fotografia historica é sempre interessante ver, captura para o momento que contou, ali continuar a sala e a mesa que vem na fotografia e entretanto se continuou a usar dá continuidade, voltar ao sitio é sempre uma emoção.
trata se aliás dum palacio lindissimo, que o mne e o estado o conserve seu e em funções...

António Pedro Pereira disse...

Alexandre:
Tivemos ano e meio de desgraça e 38 e meio de suspensão do tempo.
Por favor, poupe os seus dotes de inteligência à exposição pública.
E poupe-nos a paciência.

Isabel Seixas disse...

Pois eu acho que se deve orgulhar, além de sorrir, com essa memória, ela permitui-nos ver ao fim de 40 anos os filhos dos pobres e dos remediados de então a ter também voz em Portugal.
Voz com:
liberdade e respeito mútuo pela opinião
do seu semelhante;
consciência da necessidade de equidade na distribuição dos bens,
segurança do conhecimento cujo fácil acesso ao ensino básico secundário e superior permitiu o poder da formação/informação acreditada nos países da comunidade onde ocupam agora também lugares de topo;
Voz sem medo nem embargo para se manifestarem livremente e voz nos países europeus a cuidar dos Seus cidadãos nas suas necessidades básicas.

Voz, ainda, para os melhores frustrados se esconderem no antigamente onde a subserviência lhes concedia a esperança de poder exercer a sua liderança diretiva pela força, sonegando os direitos humanos.

Querida Helena por favor não tome a parte pelo Todo, eu sei que é uma tentação mas...Além de que de modo algum quero que dê voz e ouvido em leituras per si de somenos importância, Portugal e as suas gentes também são ou antes são, o humanismo que ostentam no respeito pelo outro, são os que se esforçam por partilhar a sua opinião como contributo à continuidade da promoção da vida com dignidade e qualidade através do direito ao trabalho para obter a paz, o pão, a saúde e educação para todos ... E esses somos nós

Anónimo disse...

Um Golpe de Direita, foi o que foi, reverteu-se ao contrário, reverteu-se para quem tinha as armas e uma companhia de recrutas -

Enfim, pendeu para sitio certo.

Por Amor de Deus..o Spinola é um "duce" de Salvaterra de Magos

Zé da Adega

Luis Sequeira Borges disse...

Pois é, foi aquí neste Palácio recheado de História Militar do século XX por onde passaram Brilhantes Militares ,que entre 1972/74 no Secretariado Nacional da Defesa Nacional nas salas de operações assistí a importantes páginas de História deste País .
Pois passaram por aquí importantes Militares e muitos acontecimentos ,suficientemente importantes para este Edifício integrar um Museu Militar .
Passaram 40 anos quando no dia 27 de Abril ví chegar á Porta de Armas o Dr.Mário Soares acompanhado entre outros pelo Torres Couto , Carlos Silva e outros .
A 30de Abril a chegada de Álvaro Cunhal , acompanhado de uma grande comitiva ,entretanto chega o Mercedes de 6 portas de Marcelo Caetano (requisitado pela Defesa Nacional)para os C.E.M.G.F.A," por mudança de utilizador não recebiam carros novos " ,onde os ocupantes do carro Generais Costa Gomes e Spínola são surpreendidos por abertura de faixa "VIVA o PCP".
Tinham passado só 5 dias mas muito já tinha mudado !
Não me espanta que os interesses instalados neste País tentem apagar a História Militar deste Palácio e queiram fazer um Hotel de Luxo , sistemáticamente o Património do Estado passa para privados em negócios chorudos de Milhões .