sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

"Aqui havia uma casa"

Na minha infância, nas estantes da sala, havia um livro com um título que sempre me intrigou: "Aqui havia uma casa". A autora era Ilse Losa. Só anos mais tarde li o livro. Retratava a comoção de uma refugiada que regressa à sua casa de infância, que abandonou por virtude da guerra, e só encontra o espaço vazio no lugar onde nascera. Há dias, lembrei-me deste título.

No início da passada semana, numa montra em Londres, vi um sobretudo a um preço convidativo. Era um saldo. Entrei, negociei e comprei. Era necessários uns arranjos. Estaria pronto no dia seguinte.

Só pude voltar três dias depois. Entrei na rua e procurei a loja. Não a encontrei. Teimodo, pensei para comigo: "aqui havia uma casa" de roupa! Podia ter-me enganado mas, por outras referências na área, concluí que estava no lugar certo. De súbito, notei um espaço vazio, uma loja abandonada. Devia ser ali. Perguntei na vizinhança, mas ninguém se lembrava da loja. Mas que distração minha! Então eu não tinha o talão?! Claro que sim, só que o endereço nele indicado era... fora de Londres.

Pelo endereço, cheguei a um telefone. Começou uma longa saga. A certo passo, apareceu na linha alguém que sabia da loja desaparecida. Tinha sido um espaço alugado apenas para a época dos saldos. Fechara na véspera! E o meu sobretudo? Era difícil saber o seu paradeiro. "Talvez daqui a uns dias apareça", disse-me um cavalheiro, que me deixou um número de telemóvel e me pediu uma morada para onde "tentaria que o sobretudo fosse enviado". Tudo muito vago. Eu partia nessa noite para Lisboa; não podia ser ainda nesse dia? "Sorry! No way!"
 
Chegado a Lisboa, bombardeei a empresa com emails. Sem resposta. O meu único interlocutor respondeu, numa chamada telefónica, que... deixara de trabalhar na empresa. Mas que sabia que o assunto estava a ser tratado. Comecei a ver o caso mal parado. Sobretudo, vi o sobretudo cada vez mais longínquo.
 
"To make a long story short": o sobretudo (só espero que seja o mesmo!) apareceu ontem! Uma semana depois. Um amigo cuidou de o ir buscar. Agora está em Londres, o que não dá jeito nenhum. Se alguém souber de um portador, ficaria agradecido. A sério!

Em tempo: o sobretudo vem pelo correio. Obrigado pela gentis ofertas dos benévolos portadores.

21 comentários:

ié-ié disse...

mala diplomática... está na moda!

LPA

ZEUS8441 disse...

Esta estupenda curiosidade histórica nem lembraria ao careca,como diria o Prof.Marcelo.

Anónimo disse...

Já agora, com um Miró a a acompanhar... Aquecia os ossos e uma parede de casa.

David Caldeira

patricio branco disse...

há coisas que funcionam, onde ainda há uma etica comercial, por cá ainda está frio, mas se não for usado neste inverno o sobretudo será no próximo, e entretanto haverá quem o traga.
pois deixei uma vez um blusão de que muito gostava num quarto de hotel em espanha, no guarda fato, confirmaram quando telefonei que estava lá e que sim, enviavam por dhl pago no destino, gostava muito do blusão, bom corte, mitos bolsos uteis,confortavel, quente, piois nunca o enviaram, por vezes ainda me lembro, deve ter ido para o lixo ou está cheio de bolor, pois o hotel foi em zafra onde passei uma noite, cidade pequena com praça de touros e fabrica de presuntos, parador e zona velha dentro de nuralhas,
mas o sobretudo londrino está assegurado, fica guardado, eu não tenciono ir a londres, se fosse oferecia-me.
boa historia a da casa desaparecida e do sobretudo que apareceu...

Guilherme Sanches disse...

É só dizer onde está, meu caro.
Dia 13 de março em Lisboa, serve?
Pois é, agora estão de moda os "pop-up shops", espaços vazios alugados por períodos muito curtos para apresentar coleções, fazer saldos ou testar produtos no mercado.
Aparecem e desaparecem, e às vezes levam sobretudos diplomáticos.
Mas não era preciso ir a Londres comprar um sobretudo, se calhar feito se calhar em Portugal.
Um abraço

Anónimo disse...

Ah....portador de sobretudo. Ouvi dizer que o Joseph William(?) Crabtree ia a Lisboa encontrar-se com o A.Maria de Saa. Era um portador de confianca.

No entanto, se ouvir falar de algum "pombo correio" que regresse ou va a Patria, alerto de imediato.

Saudades de Londres

F. Crabtree

Anónimo disse...

Estamos no Séc XXI !

Com tantos saldos em Lisboa, é preciso comprar em Londres....

Alexandre

Anónimo disse...

Um sobretudo em Londres nesta altura de crise? Chique a valer!

opjj disse...

Ao principio da leitura pensei que era uma criação ficcionada, mas não é, e tem a sua graça.

cumprimentos

Francisco Seixas da Costa disse...

Acho imensa graça à criatividade do miserabilismo. Será que também deveria ter ido a Londres de autocarro?

Portugalredecouvertes disse...

Só não é aconselhável ir de autocarro porque de certeza que iria chegar depois dos saldos e com a loja já desaparecida!

Julia Macias-Valet disse...

Sobretudo falta um pouco de smog na história para dar "aquele" toque Londrino :)

P'ra próxima vez não vá aos saldos : o barato sai caro !

E acho muito bem que compre em Londres...que diabo, cada um compra onde quer e muito bem lhe apetece...afinal estamos num mundo global ou não estamos !?

Catinga disse...

Oh Júlia, o seu papel era apelar à compra de bons capotes alentejanos, que raio!

Anónimo disse...

necessitava de uns botões de vestuário, procurei no comercio e não encontrei. fui buscar na Polônia através de um site, fiz a compra paguei, e quando chegou ao Brasil a fiscalização recusou aceitar, informando:
Importação não autorizada por órgãos fiscalizadores,
Objeto em devolução ao remetente.
E ficou por isso mesmo, o embaixador teve melhor sorte. Aqui trata-se de coisas de 3º mundo onde ainda vivemos o ranço da ditadura.

Anónimo disse...

Parece que "cheguei" "lá"... Sobretudo é uma metáfora:
Olhando "em redor" concluímos, aqui havia uma sociedade!
Se fôssemos ao coliseu diríamos, aqui havia um PSD!
Ver MS aplaudido por PPC exclamamos estupefactos, aqui havia um PS!
Enfim, se chegássemos de "Marte" a expressão só podia ser: Mas, aqui havia uma País!
antonio pa

Julia Macias-Valet disse...

Oh Catinga, um transmontano com um capote alentejano !? ...eu sei que estamos no carnaval...mas quand même...

Bem sei que os nossos capotes têm um ar so british com aquela capinha um pouco à Sherlock Holmes...mas hà coisas que só no Alentejo e para alentejanos ;)
Nem queira imaginar a cara dos parisienses quando um dos meus irmãos vem à capital francesa de capote :-)))

Mas caso o Catinga seja alentejano e procure um bom capote terei o maior prazer em lhe indicar duas ou três moradas (na mais bela região de Portugal) onde poderá encontrar tão nobre e elegante peça do vestuário masculino.

Julia Macias-Valet disse...

Ao anónimo(a) de dia 22/02/14 às 11:54

Aventuras do e.commerce e do B2C...os homens e as leis encontram algumas dificuldades para se adaptarem à velocidade vertiginosa do web e da globalização :(

Guilherme Sanches disse...

Peço desculpa pela segunda intervenção, mas ensinaram-me em pequeno o que faz quem é filho de boa gente.
Não imaginaria que o primeiro comentário, cheio de boa vontade, iria ser rotulado de “criatividade do miserabilismo”, nem o coro que se lhe seguiu, e isso impele-me para algum esclarecimento.
Claro que faz muito bem, quem quer que seja, comprar um bom fato ou um bom sobretudo, sobretudo em Londres ou mesmo em Dublin.
Olá se faz!
É que para estes dois destinos, de minha responsabilidade, foram vendidos, ao longo de quase duas décadas, cerca de 50000 peças desenvolvidas e produzidas em Portugal - 70% em fatos e sobretudos de homem e o restante em vestuário predominantemente executivo de senhora, ambos da mais alta qualidade que se faz na Europa.
50000 peças - por ano!
Em média a cento e bastantes euros, como diria um ex-governante, é só fazer as contas. Muitos milhões de libras que entraram neste país sem necessidade de Pandurs, nem de escolta por submarinos ou porta-aviões de apoio.
Harrods, Hacket, Aquascutum, Mulberry, Paul Smith, Louis Copeland e mais cento e quarenta marcas ou assinaturas, fazem parte de uma carteira de clientes que proporcionaram prestígio ao produto português de qualidade superior, garantiram trabalho a quase trezentas pessoas e enriqueceram este país, coisa que (se calhar) muito boa gente que por aqui escreve belos textos nunca fez.
Ora quando mencionei a desnecessidade de ir a Londres, só queria dizer que feito por medida, num belo tecido de cashmere, poderia adquirir (com fatura, para se habilitar a um Cayenne) um excelente sobretudo, aqui por perto, a metade ou talvez um terço do preço. Só isso.
Não imaginem mais nada, é perda de tempo.
Lamento, mas a oferta era só para o dono do blog, a quem não devo nada mais do que uma amizade com mais de meio século.
Um abraço

Anónimo disse...

Pena que alguns pensam assim, em não poder comprar alhures, não foi a compra do embaixador que meteu o país em apuros financeiros. O dinheiro pago ao sobretudo foi ganho com trabalho. Para que serve então o dinheiro?
Esse valor economizado a metade ou talvez um terço do preço, acha que salvaria a economia lusitana?

Catinga disse...

Júlia, então e esse respeito pela "globalização"? Só vale para coisas estrangeiras? O Saramago era ribatejano e não tinha problemas em usar um bom capote.

Julia Macias-Valet disse...

Catinga, ele se calhar não tinha problemas... mas diga-me lá se não é como por um chocalho a um porco ?

Quanto à globalização, ela adapta-se a todos os produtos que não têm fronteiras...porque também não estou a ver um alentejano com um Kilt, por exemplo...mas o Catinga é que sabe ;-)