segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O toque do telefone

A introdução dos meus dados no computador prosseguia à velocidade necessária. Atrás do homem, um telefone tocou. O homem não atendeu. Passaram minutos. O telefone continuou a tocar. Passou um colega e perguntou ao homem a razão por que não atendia o telefone. O homem respondeu: estou a atender este senhor, respondo ao telefone quando terminar. Intervim para felicitar o homem, para dar-lhe razão, perante o colega que não deve ter gostado e algumas outras pessoas do público próximo, que senti divididas. Para mim, as coisas são claras: não se atende um telefone quando se está a atender alguém. É uma falta de atenção. Este episódio ocorreu há minutos.

Recordei-me então de duas cenas. A primeira foi "uma peixeirada", que, há uns anos, fiz ao balcão de banco. Estava a ser atendido por um empregado. Tocou um telefone e o empregado atendeu. Durante algum tempo, dedicou-se a dar informações pelo telefone, deixando-me de lado. Dirigi-me ao balcão ao lado e mandei chamar o gerente. O "meu" empregado continuava ao telefone. Pedi o livro de reclamações. O gerente estava aflito. Interrompeu o telefonema do empregado. Obrigou-o a tratar do meu assunto e a despachar a chamada telefónica. O empregado engrolou uma justificação de que tivera de interromper o meu assunto... porque o telefone tocara. Alto e bom som, deixei claro: "não admito que ninguém atenda um telefone quando está a tratar um assunto comigo. O telefone não pode ter prioridade sobre as pessoas que estão presentes.". Não sei se aprendeu.

Segunda cena. Uma grande figura da nossa diplomacia era conhecida por passar horas ao telefone. Sentávamo-nos em frente a ele no gabinete e éramos sistematicamente interrompidos por uma corte de amigos, conhecidos e personagens correlativos, a quem ele tinha dado o seu número direto ou para quem ele antes pedira um conjunto de chamadas, através da secretária. Esta consultava para tal a conhecida lista de telefones e endereços desse diplomata, manuscrita e há décadas rasurada, conhecida como "o livro de cozinha", com páginas soltas e nomes de mortos, que ele tinha pena de eliminar, o que chegou a originar confusões em fins de ano, porque para um deles chegou a estar preparado um cartão de Boas Festas, lamentavelmente tardias. Uma tarde, eu estava sentado frente a esse meu colega, tentando expor um determinado assunto e obter dele uma reação. A nossa conversa foi interrompida, sem exagero, aí umas seis vezes, por chamadas que chegavam. A certo ponto, "passei-me", levantei-me e fui para o meu gabinete. Telefonei-lhe. Respondeu-me de lá: "Anda aqui à minha sala. Ainda não acabámos a conversa!". Não hesitei: "Não vou. Se estou aí à tua frente, sou interrompido por algum telefonema. Assim, resolvemos isto pelo telefone, com a certeza de eu poder terminar o assunto". E assim fiz. Lembras-te, António?

8 comentários:

patricio branco disse...

bom texto, sem duvida, conteudo e estilo, assim é, somos secundarizados pelos telefones quando estamos presenciais, há mesmo pessoas que nos interrompem a chamada (no fixo) quando o tm toca,ou vice versa,desculpe, o tm está a tocar, espere pf, e lá ouvimos pela nossa linha a conversa no outro aparato, pois por vezes eu digo no banco ou noutro sítio, medico ou o que seja, quando estou a ser atendido e o telefone toca, se quiser pode atender, não tenho problema, e o livro de reclamações é de facto para usar se a queixa justifica, esse livro corrige vicios de atendimento, é pedagógico, etc etc

Anónimo disse...

Eh, eh! Boa! E o Monteiro?

Anónimo disse...

Imaginem uma reunião de trabalho onde uma das partes (o fornecedor), interrompe o momento para atender uma chamada:

- Estou, filhinha, diz lá...

Anónimo disse...

Isso era antigamente! Hoje, quando chamamos por telefone seja para onde for já ninguém atende!
É sempre um disco qualquer que responde: se quer 1, pressione no 2; se quer 2, pressione no 3; se quer 3, pressione no 4; se quer 4 pressione...
E nunca nos chega qualquer indício de voz humana... A não ser quando temos o privilégio de conseguir o n° pessoal ou linha direta.
José Barros

São disse...

As tecnologias , por vezes, são importunas.Já assisti a várias cenas caricatas ...

Acabei de o ver e ouvir (pouco, para meu gosto) no "Prós e Contras".

Admiro Miguel Real há muito tempo e gostei imenso do seu mais recente livro"A Nova Teoria do Mal" e concordei totalmente com tudo quanto disse. Aliás , como concordei como senhor e Carlos Fiolhais.

Quanto ao economista Pedro Santa Clara , bom...se leccionou, como fez questão de frisar por duas vezes, nas melhores universidades do mundo, pois bem poderia ter por lá ficado.

O modelo que defende é o do total rebaixamento do ser humano, que fica reduzido a um mero número.

Quando defende que é boa a troca de saberes e que as pessoas ganham em ir para fora do país, eu até concordo. Na condição de que isso resulte de uma opção e não de uma impossibilidade de permanecer em Portugal.

E , francamente, não gosto da lei da selva, que é na verdade o que o economista defende!!

Boa noite

Defreitas disse...

A Sao, 00:43


Este economista faz parte da família dos eternos optimistas para quem a globalização é a resposta aos problemas da humanidade. Alguém que não tem problemas de fim do mês e que teima em negar que esse problema possa existir para outros.
Para ele, o predomínio dos mercados financeiros e das corporações transnacionais sobre o poder político é a chave do progresso.
Para ele, sem globalização, não é possível de criar espaços de criação de riqueza , porque só esta permite a maximização do lucro (lógica de mercado - neoliberal), ignorando ou querendo ignorar que estes espaços geram uma profunda injustiça social, sobretudo nos países com menores índices de desenvolvimento.

Todos aqueles que não podem acompanhar este movimento liberal e ficam na berma da estrada, são deixados por perdas e lucros e servem de reservatório de mão de obra barata que servem precisamente para maximizar os lucros.

Anónimo disse...

Não sou funcionário público. Porem, tenho assistido algumas vezes em repartições públicas, quando o funcionário está a atender o contribuinte, este recebe uma chamada para o TM e por ali fica largos minutos a falar, ficando o funcionário "pendurado" ou tomando a decisão de atender o próximo...o que é o correto.

São disse...

DEFREITAS, obrigada pela sua lúcida achega , com a qual concordo plenamente.

Acho lamentável que criaturas destas , sem problemas a meio do mês (já chegámos a esse ponto) e sem ponta de solidariedade nem compaixão, debitem enormidades com o ar mais sério possível e com a arrogância de pretenderem saber tudo, porque obviamente a verdade e a inteligência são sua pertença exclusiva.

Agradou.me imenso a corajosa frontalidade de Miguel Real que o enfrentou e lhe disse claramente o que era necessário que a criatura ouvisse.Até porque é mesmo da estirpe de João César das Neves, para quem subir o ordenado mínimo seria péssimo para os pobres!!

Que cristianismo é o desta gente?!

Boa noite