sábado, 4 de janeiro de 2014

A realidade nos matraquilhos

("Um verdadeiro sportinguista não deveria contar esse episódio no blogue", disse-me o meu leonino interlocutor, com ar pré-censório, quando ontem lhe relatei que ia escrever o que se segue. É isso: eu não devo ser um "verdadeiro" sportinguista, sou, muito simplesmente, um sportinguista sincero, que não teme os factos. Por isso, aqui vai a historieta.)

Foi num dia da primeira metade dos anos 80, perto de S. Bento da Porta Aberta. Aquele meu amigo, então com casa no Gerês, onde passávamos belos dias de férias, era - e é - um leixonense dos quatro costados. Nessa qualidade, detesta tudo o que lhe "cheire" a Futebol Clube do Porto. Assisti a episódios homéricos, decorrentes desta inultrapassável fobia.

Por esses dias, o seu objetivo era adquirir uma mesa de matraquilhos, se possível em segunda mão, para apoio lúdico à moradia no Gerês. Nessa tarde de verão, tínhamos parado para beber uma cerveja, num café de estrada. À entrada, notámos um letreiro: "Vende-se mesa de matraquilhos". Vinha mesmo a calhar!

Enquanto eu me deliciava com um "fino" atremoçado, o meu amigo partiu para a cave, com o dono do café, para ver a mesa à venda. Não eram decorridos mais do que uns breves instantes quando ouvi uma troca de argumentos e vi o meu amigo emergir da escada, arfando e exclamando: "Era o que faltava! O gajo é 'andrade'!". E, passando por mim, a caminho do carro, anunciou: "Já não bebo nada! Aqui nunca mais venho". E saiu, disparado. Fiquei curioso: seria apenas pelo facto de ter constatado que homem era portista que o meu amigo se recusara a fazer o negócio? Mesmo para um leixonense radical, era demais!

Quando, acabado o "fino", regressei ao automóvel, decifrei o mistério. Não, não fora a circunstância do proprietário do café ser adepto do FCP que provocara a cena. A reação devera-se ao facto de uma das "equipas" dos matraquilhos ter o azul do equipamento portista. Para o meu amigo, a saída do verde-vermelho tradicional era lamentável. E então ter "o Porto" em casa, isso seria impensável!

Para mim, esse acabaria por ser um momento significativo. Nunca vira, em Portugal, uma mesa de matraquilhos cujos bonecos não tivessem as cores do Sporting e do Benfica. Mas o mundo tinha mudado. O Porto entrava, por legítimo direito, nesse "campeonato" do imaginário. Não era uma constatação que deixasse feliz um sportinguista. Mas era o que era.

10 comentários:

Anónimo disse...

É isso, quando menos se espera aparece um matraquilho.

Sinais dos tempos.

Silva.

ruizambujeiro disse...

Em tempos resolvi comprar uma mesa de matraquilhos e de facto todas as mesas que encontrei eram com as equipas do Benfica e do Sporting. Como sou Belenenses pedi ao vendedor, como condição para comprar a referida mesa, que uma das equipas fosse pintada de camisola azul e calções brancos, à Belenenses. O vendedor concordou e hoje sou possuidor de uma mesa de matraquilhos com as equipas do Belenenses e do Benfica. O seu Sporting, Senhor Embaixador, foi a sacrificada com a tinta azul.Foi a inha segunda costela benfiquista que ditou a escolha da equipa a ser pintada de azul.

Tenha um Bom Ano de 2014

Rui Zambujeiro

Anónimo disse...

Depois da intervenção da Tróika matraquilhos passou a ser em linguagem burlesca o funcionário do parlamento que acompanha pressurosamente o gigantone da comissão europeia que se desloca triunfante com uma mala apressada até ao gabinete de Assunção Esteves. O homólogo no feminino dá sinal de si como a senhora assistente administrativa de segunda classe que exibe uma vistosa flor vermelha num vistoso fato branco ao acompanhar com diligência os membros da Tróika ao gabinete da presidente do parlamento.
Mais ridículo do que isto é a falta de sentido patriótico da presidente do parlamento que permite estes cavaleiros andantes de segunda categoria serem filmados no nosso parlamento.
Não temos que viver com aquilo que temos.

Anónimo disse...

Saímos da bipolarização centralista para um futebol mais ligado às forças vivas do País, a este Porto activo que alimenta essa parasitagem de Lisboa, enfim. Como pode um homem do Norte, Senhor Embaixador, não ser de um clube que, embora não seja imune ao veneno republicano, tem ainda assim um líder de perfil monárquico? Viva El Rei e viva o Porto (apesar de se terem portado mal na Guerra Civil, apoiando o Usurpador).

a) Henrique de Menezes Vasconcellos (Vinhais)

Anónimo disse...

Sinais dos tempos, como dizia o poeta Gedeão no seu poema Pedra Filosofal. Realmente, nada é como antigamente...

Isabel Seixas disse...

Fique descansado que a partir deste post já nada será como dantes, surgirão agora os matraquilhos nus e cada comprador vesti-los-à como quiser...

Anónimo disse...

“Tenho a certeza” que o seu amigo é benfiquista. Ser leixonense é "disfarce"…o benfica no estádio do Mar estava em casa! Sei bem…
Mas bem podia satisfazer as suas “avidezes” comprando a mesa e cortando as pernas aos bonecos da cor “Azul e Branca”…
Como PC diz: O porto é, há 31 anos, o alvo a abater!
antonio pa

Anónimo disse...

Tudo estava acertado, pormenor por pormenor, até à mais ínfima partícula de um documento que vinculava as duas partes, pelo menos durante uma temporada futebolística. Porém, no dia em que estava aprazada a assinatura nos papelinhos, PEDROTO travou o gesto e subitamente disse para o presidente do Sporting, JOÃO ROCHA:

"Esqueci-me de lhe lembrar, mas falta aqui uma cláusula. Está tudo certo, tanto em relação aos meus prémios, como aos meus vencimentos, o caso do apartamento e do carro às ordens, tudo muito bem, mas o senhor presidente esqueceu-se de que eu lhe tinha dito logo no primeiro encontro: só vou para o clube que dê garantia de contar com os ÁRBITROS".

"Como, não percebo?!...", indagou JOÃO ROCHA, nessa altura pouco habituado a saber que era certa a fatia da arbitragem. PEDROTO meteu a caneta na algibeira, levantou-se e apenas disse:

"QUINZE MIL SÃO PARA MIM, MAS PARA OS ÁRBITROS SÃO PRECISOS OUTROS TANTOS, CASO CONTRÁRIO O SPORTING SÓ GANHA CAMPEONATOS LÁ PARA O FIM DO SÉCULO!!!..."
(in Jornal do Sporting)

Este relato também é de meados dos anos 80.

"O Porto entrava, por legítimo direito, nesse "campeonato" do imaginário."
Legítimo direito contruído com alicerces bem ilegítimos.
Saudações Leoninas

Anónimo disse...

Havia outras maneiras de ganhar campeonatos, como conta o Hilário:
«Eu aqui em Portugal nunca tive um vovô, embora, atenção, eu tenho uma história gira. Esteve cá um guineense, havia um Sporting-Benfica e o guineense foi ter com o Cintra, e disse ao Cintra: “O meu vovô faz feitiço para o Sporting ganhar ao Benfica”. E diz o Cintra: “Mas ele tem poderes para isso?” “Tem.” “Mas como é que é?” “Mil contos por golo.” E diz o Sousa Cintra: “Eu quero seis”. Deu-lhe telefone, ligaram, e disseram é um Sporting-Benfica, era o [Carlos] Queiroz o treinador. O resultado final foi 6-3 a favor do Benfica e diz-me assim o Sousa Cintra: “Queres ver que o filho da puta se enganou no nome do clube”.»
http://cea.revues.org/1169

jose reyes disse...

LOL :)
Gostei de ler a história da carochinha do "anónimo 4 de Janeiro de 2014 às 16:34". Se é com estas fantasias que a gandulagem lisboeta "explica" as sucessivas derrotas face ao FC Porto, então está verdadeiramente explicada a razão por que continua a deixar-se vencer. Fiem-se na Virgem e não corram...