sábado, 30 de novembro de 2013

Marinho Pinto

Conheço António Marinho Pinto há cerca de 50 anos. Recordo-me de conversas, muitas vezes políticas, que tivémos à volta das mesas da pastelaria Gomes, em Vila Real, no final dos anos 60. Nestas décadas, fomo-nos encontrando, muito pouco, a espaços - por Coimbra, por Lisboa ou pelo Porto. À distância, e depois de o ter visto como jornalista e comentador televisivo, fui acompanhando a sua prestação à frente da Ordem dos Advogados, um seu tempo de grande visibilidade pública, com forte dose de polémica, servida pelo verbo fácil, pela palavra desassombrada, pela vontade de chamar as coisas pelos nomes, na área da Justiça. Que justiça lhe fará a Justiça?

Marinho Pinto acaba agora o seu tempo à frente da Ordem. Com toda a franqueza, não tenho uma opinião concreta sobre o saldo que fica da sua ação no setor. Mas o facto da sua sucessora, hoje eleita, o ter sido num registo de continuidade, leva-me a pensar que o trabalho de Marinho Pinto deve merecer um apoio maioritário junto dos seus pares. Estarei certo?

Uma coisa tenho a agradecer ao meu amigo António Marinho Pinto: o inesquecível momento de televisão que ofereceu ao país, diante de uma conhecida figura televisiva. A frontalidade de Marinho Pinto ficou na história da nossa vida mediática. Quem quiser, relembre aqui o episódio.

Terras do fim do mundo

Na passada semana, numa palestra que fiz para quadros superiores de empresas que operam em Angola, durante a qual analisei a política externa daquele país, dei conta da circunstância de, nos tempos imediatamente após as independências das antigas colónias portuguesas, Moçambique e Angola manterem entre si muito escassas relações: passaram bastantes anos antes que trocassem embaixadas, o comércio bilateral era praticamente nulo e não havia ligações aéreas diretas entre Luanda e Maputo. Agora já há, como a tragédia de ontem o atestou.

Numa pausa dos trabalhos, o representante de uma das empresas, que aliás fora mesmo a primeira pessoa a colocar-me uma questão no debate, um homem muito simpático e cordial, aproximou-se de mim e disse-me que já me "conhecia bem" através de familiares, entre os quais um meu amigo muito próximo. Essas pessoas tinham-lhe falado do meu culto do humor. Disse que percebia isso muito bem porque partilhava essa forma de estar, que, também para ele, era uma atitude fundamental a assumir na vida. Soube que essa vida acabou ontem. Ele era um dos passageiros portugueses do voo do qual não restam sobreviventes, caído nas "terras do fim do mundo".

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Primeiro de dezembro


Enquanto republicano empedernido, dou a minha total solidariedade ao movimento mobilizado pelo deputado José Ribeiro e Castro para a reintrodução da comemoração da data da restauração.
 
Acho, aliás, surpreendente (mas significativo) o facto do país ter assistido, impassível, à decisão governativa que colocou em causa a celebração de uma das datas fundacionais do nosso país, assunto, aliás, que foi tratado no âmbito do ministério da Economia (!).
 
E, já agora, devo dizer que teria uma imensa curiosidade em ouvir o que o dr. Paulo Portas terá a dizer sobre este assunto.

Em tempo: Marcelo Rebelo de Sousa, ontem na TVI: «Temos de voltar a ter o feriado do 1º de Dezembro. A abolição dos feriados foi uma das coisas mais demagogicamente estúpidas deste governo, que para acabar com as "pontes" acabou com os feriados. Uma coisa completamente tonta.»

A política externa e a Europa

Ontem à noite falei da crise portuguesa e da crise na Europa, na perspetiva como ambas afetam e condicionam a nossa política externa - ou o que dela resta. Devo esclarecer que o tema não me agrada muito, porque sinto sempre alguma relutância em tratar, num registo de inevitável polémica, um assunto que, desde há anos, me esforço por consensualizar. Mas achei que tinha de corresponder ao amável convite do Instituto D. João de Castro e procurar refletir sobre algo a que consagrei uma importante parte da minha vida e cujo destino, muito simplesmente, me preocupa nos dias de hoje,

Com a quase meia centena de pessoas que, na noite frígida de ontem, se incomodaram para ir ouvir-me àquele simpático espaço no Restelo, conversei durante mais de duas horas, relembrando constantes do nosso posicionamento externo, assinalando as mudanças que as últimas décadas induziram no nosso cenário estratégico, refletindo sobre o "estado da arte" da nossa diplomacia, sobre meios, humanos e materiais, alocados à nossa dimensão internacional. Não foi um tempo de grande otimismo, devo esclarecer.

O professor Adriano Moreira presidiu à sessão e, no final, encerrou com um curto mas sábio testemunho, ao mesmo tempo ousado e sereno, sobre os riscos que entende que o país atualmente corre pelo menosprezo a que são votadas algumas da suas políticas públicas, aquelas que mais diretamente afetam a identidade e a memória do país.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mário Soares


O ativismo político do Dr. Mário Soares está a polarizar o país. O tom e a natureza de algumas das suas tomadas de posição entusiasma uns e choca outros. 

Gostava de dizer duas coisas apenas sobre esta nova visibilidade do meu amigo Dr. Mário Soares.

A primeira é que eu também me sinto, algumas vezes, pouco confortável com algumas expressões utilizadas, em entrevistas e intervenções, pelo anterior presidente português e creio mesmo que a eficácia do seu discurso ficaria melhor servida se outro tipo de linguagem fosse adotada.

A segunda é dirigida a quantos hoje o contestam e combatem o que entendem ser a deriva radical de Mário Soares: acho que deveriam sentir-se satisfeitos pelo facto dessas tomadas de posição acabarem por polarizar, numa figura que pede meças a quem quer que seja em Portugal, em termos de luta pela liberdade e pela democracia, muito daquilo que hoje configura um profundo e inorgânico descontentamento popular que atravessa o país. Deviam pensar nisto.

Conversas

Na quinta-feira, dia 28, pelas 21 horas, no Instituto Dom João de Castro (rua D. Francisco de Almeida, 49, no Restelo), a convite do respetivo presidente, professor Adriano Moreira, irei falar sobre "Política Externa Portuguesa - impacto e condicionantes da crise europeia".

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Das escadas às portas

Muitos amigos meus não gostarão do que vou escrever a seguir. "Tant pis"!

O que ontem se passou, com a ocupação das entradas de alguns ministérios por sindicalistas, associado aos acontecimentos que ocorreram há dias na escadaria da Assembleia da República, representa uma forma de expressão de interesses particulares que, a prosseguir e a ser tolerada, coloca em causa os fundamentos do sistema democrático. Entendo perfeitamente a revolta, mais do que justa, de quem vê o seu emprego ameaçado, vantagens adquiridas em causa, a sua vida e a dos seus em frangalhos, por uma política que parece indiferente ao sofrimento das pessoas. Mas é por demais evidente que todos os cidadãos portugueses - esses e outros - continuam a poder usufruir livremente da plenitude dos direitos de expressão política e de manifestação que a Constituição e a legalidade democrática lhes concedem. E que só quando esses direitos fundamentais eventualmente tivessem sido colocados em causa é que se justificaria o recurso a métodos alheios à legalidade vigente. O que ontem e há dias se passou assume o caráter de uma perigosa abertura da "caixa de Pandora" que, a meu ver, não é uma situação favorável à democracia portuguesa. E eu, julgo que como muitos portugueses, não me sinto representado por quem utiliza métodos de expressão cívica que se afastam da estrita observância da legalidade democrática em que pretendo continuar a viver.

Admito estar enganado nesta minha forma de ver as coisas, mas é, muito simplesmente, o que eu penso.

Católica?

Desde há muito, é para mim um insondável mistério o modo como a Universidade Católica Portuguesa consegue compatibilizar a observância e o respeito pela doutrina social da sua igreja, que deveria ser a matriz identitária da casa, com a promoção obsessiva de um liberalismo económico radical, que constitui a imagem de marca de muita da "produção" saída da sua linha de montagem académica, nas últimas décadas.

Não está em causa a qualidade intelectual desses quadros, gente tecnicamente muito bem preparada, com alguns dos quais convivo no meu dia-a-dia profissional e em outros círculos em que me movo. A UCP é indiscutivelmente uma das melhores universidades portuguesas. Mas esse fascínio cego e absoluto pelas virtudes da "mão invisível", parece ter-se convertido na doutrina oficiosa da casa (e leiam-se os textos que ela produz para não se ter, sobre isto, a menor dúvida), e baseia-se no culto de modelos extremos de competição e de destruição, por opção ideológica, de todas as estruturas de defesa do bem público comum. Assim se sacrifica a vida de gerações, forçadas à crença salvífica num novo tipo de "amanhãs que cantam", como o comprova a orientação política que entre nós prevalece, com os resultados que estão à vista de toda a gente. E assim se empurra, pelos vistos sem remorso, os excluídos da sorte dos mercados para as margens do sistema e para os caminhos da caridade, que remendam os efeitos das políticas que geraram essas desiguadades. Tudo isto é feito em lugar de colocar as pessoas no centro dos interesses das políticas económicas, as quais, pela ética católica (e não só), existiriam para construir o bem-estar dos homens e não para a "réussite" dos mais fortes entre eles. Se isto é ser católico, então vou ali e já venho...

Por essa razão, estou muito curioso para saber a opinião da escola económica da UCP sobre aquilo que ontem foi dito pelo papa Francisco a propósito da economia e do sistema prevalecente na sociedade em que vivemos.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Águias ao alto!

O presidente do Sporting, numa evidente graçola em ambiente clubístico, terá dito que "quando quiserem começar a resolver os problemas de Portugal, é fácil: tiramos o vermelho da bandeira e é tudo nosso".

Um anónimo escriba à solta no "Público", com falsa inocência, logo correu a titular: "Presidente do Sporting sugere que se tire o vermelho da bandeira de Portugal". E, vai daí!, o mundo da blogosfera, em especial o submundo dos comentaristas dos jornais, iniciou uma "desanca" no autor da expressão, tomada oportunisticamente à letra. Aguarda-se ainda, com ansiedade, a rubra nota de desagravo da Soeiro Pereira Gomes.

Não conheço o sr. Bruno de Carvalho de parte alguma. E até desconfio que ele é capaz de nem reconhecer este magistral desenho que Siné nos dedicou, nos idos de 1975. Mas identifico, com facilidade, outros terrenos onde a burrice se cola à má fé. Lampião que (não) vai à frente alumia duas vezes?

Vicente

Em Portugal, goste-se ou não, há um jornalismo antes e outro depois do Vicente Jorge Silva. Para quem, como foi o meu caso, começou a ler o "Comércio do Funchal" (e nele meti uma "colherada" escrita em 1972) logo depois da  "revolução vicentina" de 1966, que, a partir de 1973, o acompanhou no "Expresso", apreciando depois essa aventura que hoje é só saudade que foi a "Revista", e, finalmente, que seguiu com admiração a sua criação maior - o "Público" -, Vicente Jorge Silva tem um papel de exceção no mundo mediático nacional. Pelo meio, ficaram os filmes, a "Invista" (onde me recordo de ter escrito algo de que me não lembro - contradição possível, como se vê) e muita opinião, com a política caseira no centro, a cuja momentânea sedução ele próprio não escapou.

Isabel Lucas, uma jornalista inteligente que "deixa respirar" os entrevistados (sei do que falo), fez ao Vicente uma longa entrevista que deu origem a um interessante livro, que li de um fôlego, com a atenção própria de quem sempre seguiu com atenção esse percurso ímpar, o qual, em si mesmo, espelhou muito de um certo país.

Ontem, durante uma bacalhauzada num lugar de amesendação onde, às segundas-feiras, uma heteróctlita e divertida gente (onde sou um cooptado recente), numa tertúlia improvável, troca graças e historietas das vidas, dei um abraço ao Vicente por esse seu excelente retrato, ele que nasceu numa consagrada família da fotografia madeirense.

Camaradas

“Escreve sobre Angola. É o que está a dar!”. “Não o metas por aí! Depois do que se passou no sábado? Só vai estragar as coisas! Fala sobre as eleições em Moçambique. Uma nota de acalmia vai cair bem”. “Não, isso pode ser visto como ingerência. O acordo sobre o nuclear no Irão seria uma boa malha”. “Nem penses! É terreno movediço. Não viste a reacção israelita?”. “Mas, afinal, se ele anda pelo Centro Norte-Sul, porque não aborda o estado em que estão as “primaveras árabes?” “É insensato! Seria delicado o homem abordar temas desses. Então ele não disse que vai à Argélia, para a semana?”

Interrompi o simpático ping-pong de dicas, sugestões para o meu primeiro artigo no “Económico”, dizendo àqueles dois amigos: “Vou falar da Europa”. A decepção coreografou-se nas suas caras. Há anos que me andam a ler e a ouvir sobre as sucessivas Europas. No topo das suas estantes, jazem volumes nos quais, sobre o tema, encadernei o ego e contribuí para os saldos editoriais. “O artigo vai ser sobre as divergências dentro do BCE e da Comissão Europeia quanto ao processo de ajustamento em Portugal”. Ganhei a noite! Ambos olharam para mim com um ar surpreendido. O que é que eu sabia que eles desconheciam? Um era um reputado economista, eurocrítico, sempre de “FT” à ilharga. O outro, jurista com sólidos contactos, “bebia do fino” em nichos do poder de turno. Nunca ninguém lhes falara da existência de opiniões diferentes, dentro das instituições europeias da “troika”. No FMI, sim! Esse órgão de Bretton Woods já gerara textos contraditórios sobre Portugal, numa heteronimia bizarra, que deu para manchetes e confusões.

Mas, afinal, que sabia eu sobre as conflitualidades no seio da dupla europeia? Pacientemente, expliquei uma coisa bem simples. Desde logo, no BCE. Quem é, por ali, o único vice-presidente, a figura mais proeminente, e presume-se que preeminente, depois de Mário Draghi? É Vítor Constâncio, não é? Vocês conhecem um socialista português, por mais moderado que seja, que esteja de acordo com o rigor do ajustamento que o BCE impõe no seio da “troika”? Nenhum, claro! Imaginem então o que devem ser as “peixeiradas” no “board” do BCE, com Constâncio a partir a loiça financeira da casa. O que, no futuro, não revelarão aquelas actas! E na Comissão? Já pensaram aquilo pelo que estarão a passar os vários comissários socialistas e sociais-democratas (lá fora, isso é outra coisa, como se sabe), camaradas dos socialistas lusos, os esforços que terão feito para flexibilizarem juros e maturidades, para aligeirar a carga infernal de austeridade que cai sobre os portugueses? É que não haverá só falcões liberais nos comissários que cada país escolheu (fora o país que não pôde escolher) para o representar.

Acabámos a conversa pensando nesses heróis solidários. Gratos mas curiosos.   
Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

E o Eusébio na seleção?

Hoje, 25 de novembro, algum país deu de si mesmo um patético espetáculo. Apelar ao regresso de Ramalho Eanes? Finalmente, está confirmado que já chegámos à Madeira. Literalmente. E hoje mais não digo.

Escrita

Foi em "A Voz de Trás-os-Montes", um semanário de Vila Real de que há muito sou assinante, que, em 1963, publiquei o meu primeiro artigo num jornal. Há tempos, encontrei-o numa caixa de recortes e, aqui entre nós, não fiquei orgulhoso com o que então escrevi. Ainda estou a ver-me entregar o texto ao padre Henrique Maria dos Santos, que faleceu não há muito tempo, e que então dirigia o jornal. E bem me lembro da expetativa com que aguardei a saída do periódico da tipografia da "Minerva Transmontana", onde o meu amigo Carvalho me tinha revelado, por antecipação, o lugar e o destaque dado. Por ali publiquei, nos oito anos seguintes, e até que a censura do capitão Medeiros me "tirou o pio", muitos outros textos, a maioria dos quais sobre política internacional - que agora me pergunto como seriam lidos numa cidade de Vila Real onde essa área de interesses não devia ser muito desenvolvida.

Depois disso, e por décadas, fui escrevinhando por muitas e variadas folhas, artigos de ocasião, sobre temas internacionais, sobre a Europa e sobre as coisas mais variadas. Mas nunca pude aceitar as ofertas que me fizeram para ter uma coluna, um espaço regular de publicação. Tê-la-ei a partir de amanhã, numa base regular mas com uma intensidade compatível com a vida ocupada que tenho, graças a um simpático convite que recebi do "Diário Económico". Como sempre dizem os empregados dos restaurantes "finaços", depois de descreverem o "amuse-bouche" oferta do chef ou um prato mais sofisticado, "espero que gostem"...

domingo, 24 de novembro de 2013

Votar com os pés

Como ato final celebratório do lançamento de "A Strategy for Southern Europe", teve ontem lugar um interessante debate no Teatro nacional D. Maria II, que assim prossegue uma inteligente aposta na abertura a diversas outras dimensões culturais. O relatório, da responsabilidade da "London School of Economics", nasce em Portugal associado à faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, de que sou consultor.

Moderada pelo jornalista e economista Nicolau Santos, a conversa envolveu José Reis, diretor da faculdade de Economia da universidade de Coimbra, António Costa e Silva, docente universitário e presidente da Partex, os professores do Instituto Superior de Economia e Gestão, João Peixoto e José Maria Brandão de Brito, e eu próprio. Coube-me abrir a sessão com uma análise subordinada ao tema "Portugal numa encruzilhada geopolítica", na qual abordei o modo como o nosso quadro referencial na área externa é marcado pela atual conjuntura económico-financeira.

Foi um debate vivo, no final bem participado pelos membros de um auditório que, mesmo numa tarde de sábado, se sentiram mobilizados por uma discussão sobre o futuro do país, que o relatório agora divulgado ajuda a contextualizar no quadro europeu.

A certo passo da sua intervenção, o professor João Peixoto, especialista em Demografia, notou que, em 2012, saíram de Portugal mais portugueses do que a média anual registada durante a grande vaga migratória portuguesa para a Europa, nos anos 60 e 70. E revelou que, com colegas internacionais, está envolvido num projeto que tem como título "Votar com os pés", significando que, com a sua saída dos respetivos países de origem, esses novos emigrantes assumem já um gesto em si mesmo bem político.

sábado, 23 de novembro de 2013

Medeiros Ferreira


Medeiros Ferreira acaba de publicar mais um livro, desta vez pequeno em tamanho mas grande na sua valia: "Não há mapa cor-se-rosa - a história (mal) dita da integração europeia". Trata-se de uma reflexão, histórica mas igualmente política, da integração do continente e, muito em particular, da nossa pequena história no processo europeu.

O autor, numa escrita procuradamente distante do registo historiográfico tradicional, começa por abalar algumas teses sobre a integração europeia, explicando que muito do que é "vendido" nesse domínio é como que uma forma de revisionismo otimista, para compor o retrato de uma história que se prende fixar como verdade.

No que toca a Portugal, Medeiros Ferreira é bastante crítico, se bem que muitas vezes realista, em especial sobre as limitações de reflexão estratégica, na gestão do nosso percurso no seio do processo integrador, mas, igualmente, sobre o comportamento dos nossos atores políticos e institucionais.

Ontem à noite, Medeiros Ferreira falou a várias dezenas de pessoas que, na Casa dos Açores, se juntaram para o ouvir refletir sobre estes e outros temas conexos, com o brilho a que nos habituou, com um despreendimento e um "franc parler" que são a sua imagem de marca. Um discurso marcado pela ironia, pela subtileza, pela inteligência, de um homem que está de bem consigo mesmo, de bem com a vida, mesmo para além das partidas que ela sempre nos prega. Foi uma bela e alegre noite!

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Kennedy e Portugal

John Kennedy morreu há 50 anos. Contrariamente à ideia de que este é um dos momentos da vida em que todos nós sabemos onde estávamos, devo dizer que não tenho a menor recordação de quando soube do assassinato do presidente americano, embora deva ter sido lá por Vila Real. Depois disso, sobre ele e sobre a sua morte, devo ter lido mais do que sobre qualquer outro chefe de Estado americano.

Hoje à tarde, numa palestra que fiz a algumas dezenas de empresários, sobre a política externa angolana e o papel de Angola no mundo e, naturalmente, o futuro das relações com Portugal, lembrei um facto que julgo ser muito pouco conhecido. É sabido que, no início dos anos 60 do século passado, a administração democrática americana, então titulada por Kennedy, promoveu ações de financiamento destinadas às forças independentistas angolana. Mas um facto pouco notado é que os Estados Unidos terão pedido a Israel para formar guerrilheiros para a luta anti-colonial contra as tropas portuguesas, sendo que esses combatentes pertenciam à UPA (União dos Povos de Angola), que depois viria a chamar-se FNLA, e que havia sido responsável por algumas das mais sangrentas ações no Norte de Angola, de que maioritariamente foram vítimas populações civis. Kennedy era, assim, uma "bête noire" do governo português de então e, de facto, outros relatos confirmam a sua profunda hostilidade ao regime de Salazar e, muito em especial, à sua política colonial.

Kennedy deixou na História uma imagem simpática. A sua morte trágica, cedo na vida, naquele dia 22 de novembro de 1963, garantiu-lhe um lugar na mitologia, política e não só, à escala global. Como entre nós aconteceu com Sá Carneiro, o jovem presidente americano ficou registado no imaginário coletivo à luz daquilo que foi o seu passado, como se acaso o seu futuro viesse necessariamente a ser um mero prolongamento desse mesmo passado, e coerente com ele. Ilusões.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Michelin

A edição "ibérica", sempre lançada em Espanha, do guia gastronómico Michelin para 2014 distinguiu 12 restaurantes portugueses, mais um que em 2013. Não conheço quatro desses restaurantes, mas os restantes oito que já experimentei merecem bem a distinção que obtiveram. Como se sabe, as "estrelas" vão de uma a três, sendo que Portugal não tem, como nunca teve, nenhum restaurante ao qual hajam sido atribuídas três "estrelas".

Há quatro ideias que retirei da minha longa experiência como usuário deste guia, em vários países:

- nunca fiquei desiludido com qualquer restaurante "estrelado", em qualquer parte do mundo, muito embora, por vezes, tenha discordado do número de "estrelas" atribuídas. Em alguns casos, a relação qualidade/preço pareceu-me menos adequada. Noutros casos, o serviço ou o ambiente não estiveram à altura da comida;

- não obstante a diversidade da tipologia gastronómica das regiões e países, a seleção privilegia um certo padrão de culinária e até de apresentação. Desde há muito que o guia decidiu privilegiar uma certa "escola" de restauração, deixando de lado outros modelos tido por menos sofisticados;

- apenas referindo-me ao caso português, considero existirem alguns outros (não muitos, é verdade) restaurantes que, mesmo perante o critério tradicional do guia, também mereceriam uma "estrela". E, se esse critério fosse alargado, alguns outros poderiam ser reconhecidos. Desde há uns anos que, para compensar esta "fragilidade", o guia recorre à classificação de "Bib Gourmand", para assinalar outras mesas recomendáveis. O facto da oferta destes últimos não seguir o padrão a que antes me referi deve ser a justificação para a sua exclusão do topo da "tabela";

- o guia insere sempre uma escolha de vários outros restaurantes, em cada localidade, para além dos "estrelados". Frequentemente, acho essas escolhas profundamente injustas e arbitrárias. Vale a pena registar que, por exemplo, na zona oriental de Lisboa, "sobrevive" no guia, desde há muitos anos, um restaurante absolutamente medíocre, em comida, ambiente e serviço. Ainda não vi o guia de 2014, mas imagino que ele surja de novo este ano, como que por "usucapião"...

Em Portugal, o guia "ibérico" de 2014 "estrelou", como se disse, 12 restaurantes. Em Espanha, um país que é quatro vezes maior que Portugal, o número de restaurantes com "estrela" é de 172! Sabem qual é a nacionalidade da esmagadora maioria dos "experts" que visitam os restaurantes portugueses? Adivinharam: espanhóis. Sabem quantos "experts" portugueses a Michelin utiliza? Nenhum.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pátria em chuteiras

Foi Nelson Rodrigues, esse genial cronista brasileiro, quem crismou o termo "a pátria em chuteiras", para sublinhar a comunhão de um povo atrás da sua seleção de futebol. Foi assim ontem, nesta qualificação "à portuguesa", tudo muito à última da hora, como é de regra, com o "salvador" do costume. Um alívio! E sempre um orgulho!

Por algum tempo, os desempregados tiveram horas felizes, os reformados esqueceram os cortes cumulativos que aí vêm, os despedidos da "mobilidade" fizeram de conta que não vai ser nada, as novas rendas de casa só são para pagar daqui a dias, os jovens quadros no estrangeiro internacionalizaram o seu patriotismo, a classe média nem notou os novos impostos e a subida da gasolina para o "Toyota". É como "a banda" a passar na canção de Chico Buarque.

Longe de mim desprezar o que ontem se passou. Sem estas alegrias, toda a gente (eu incluído) estaria mais triste e deprimida. Por algumas horas ou dias, as amarguras atenuam-se. E isso é sempre bom. O futebol vale o que vale, mas vale bastante no nosso equilíbrio anímico, como também no universo do imenso mundo que fala português - e isso será sempre um elemento a ter em conta na nossa política externa. Por isso, esta nossa "pátria em chuteiras", não tendo um PIB por aí além, estando esmagada pela dívida e angustiada pela dúvida quanto ao seu futuro, tem agora este "superávite" de remates a apresentar ao mundo. Não é tudo? Graças a um génio madeirense que se chama Cristiano Ronaldo, hoje estamos felizes. E o resto é conversa, para amanhã.

Nesta hora, aqui dos Açores, não quero deixar de prestar homenagem, e mandar um abraço amigo, a alguém que bem gostaria que pudesse acompanhar Ronaldo, lá na frente, no ataque que precisamos de reforçar: Pedro Pauleta. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

UNESCO

Há cerca de um ano, tomei a decisão de propor a candidatura de Portugal ao Comité do Património Mundial da UNESCO. O nosso país havia saído de um período de grande atividade no âmbito daquela que é uma das mais prestigiadas instâncias da organização: o Fado havia sido consagrado "património mundial", fôramos capazes de convencer o comité da compatibilidade da barragem na foz do rio Tua com o estatuto do Alto Douro Vinhateiro e Elvas e as suas fortalezas obtiveram então esse mesmo estatuto.

A minha proposta foi vista com simpatia por alguns setores em Lisboa. Porém, compreensivelmente, o MNE tinha de a articular com outras prioridades da nossa política externa. A decisão foi-se protelando e eu fui insistindo. Mantive-me um "chato", até ao momento em que consegui "luz verde" das Necessidades. Considerava que, por forma a poder "compensar" a erradíssima decisão política de deixar de ter um embaixador exclusivamente dedicado à UNESCO (eu fora o "herdeiro" dessa decisão, passando a acumular com a embaixada bilateral em França), tínhamos de "dar um salto em frente" e afirmarmo-nos num comité respeitado e influente, um grupo de 21 países por onde passam algumas das mais importantes decisões da organização.

Era este um "presente envenenado" para o meu sucessor, o embaixador Moraes Cabral, tanto mais que eu iria sair de Paris em fevereiro de 2013? Não o entendi assim, interpretei isso como um desafio à altura da excecional competência daquele meu colega, da capacidade de quem foi capaz de levar-nos ao Conselho de Segurança da ONU e, depois, conduzir com brilhantismo dois anos de prestigiante presença naquela instância. Sem uma lógica de continuidade, de alguma ambição realista dos interesses do país, a imagem externa de Portugal esvai-se. Embora com uma estrutura reduzida ao mínimo (por opção política), Portugal dispunha ainda, na UNESCO, de um diplomata muito qualificado, Pedro Sousa e Abreu, além da experiente técnica Teresa Salado. Neste entretanto, essa nossa excelente "massa crítica" conseguiu colocar a Universidade de Coimbra na lista do "património mundial". A ação de Portugal neste âmbito era reconhecida e, além disso, a UNESCO estava ciente da qualidade dos nossos especialistas na área do património, com os quais poderia passar a contar de forma mais ativa.

Portugal foi hoje eleito para o Comité do Património Mundial. É uma bela vitória que a política externa portuguesa fica a dever à sua diplomacia.

Trompe l'œil

Nos tempos da Pide, a seguir a um torturador sanguinário costumava surgir na sala, para grande alívio da vítima, um polícia mais "compreensivo". Surpreendia-se com o que tinha acontecido até aí e lamentava o comportamento do seu colega. Procurava deixar bons conselhos, em especial recomendando denúncias, para poupar mais "aborrecimentos". Coitado, fazia o que podia... Era o famoso "pide bom".

Com a devida ressalva democrática, lembrei-me disto hoje, ao ver anunciado, em parangonas, que 140 mil funcionários são "poupados", graças à generosa intervenção dos deputados da maioria. Que coisa fantástica! Olha se não fossem eles! Que simpáticos!

Alguém se lembrará de perguntar: de quem é o governo que propôs a "sinistra" medida? Não emana da mesma maioria? Mas se era para "recuar", por que não optou o governo por não "avançar" com a medida? Ora essa! Sem isso, a maioria não tinha agora 140 mil eleitores, perdão, pessoas gratas.

Sabem o que é um "trompe l'œil"?

Sus! A eles!

Um dia dos anos 60, atravessado o ferry que liga a shakespeariana Helsingor à sueca localidade de Helsingborg, lancei-me à boleia ainda mais para norte. Cá por coisas, queria ir passar essa "midsummernight" em Falkenberg, lá na fronteira da Noruega. Não era fácil a boleia na Escandinávia, com o meu cabelame latino. Uma boa meia-hora depois, um carro parou. Ao saber-me português, o condutor sorriu e inquiriu: "vem às suecas?" Ali estava eu, exposto, herdeiro involuntário dos Zézés Camarinhas da Albufeira desse tempo, tido por potencial "dragueur" num mar de loiras, quando eu pensava as minhas origens consagradas por outras aventuras em outros mares mais épicos. Não sei o que respondi, no meu hesitante inglês da época. Deve ter sido um "não necessariamente", já treinando a ambiguidade criativa para uma futura carreira.

Saltillo já vai longe, pelo que a rapaziada lusa que logo entrará no estádio de Solna não deve ter tido oportunidade de aproveitar a onda loira local. Gabo-lhes a contenção! Sei que eles não lêem mais que as "gordas" em "A Bola", o "Record" e "O Jogo", quanto mais blogues! Mas a mim apetecia-me repetir-lhes o que Ferreira Fernandes recomenda hoje na sua imperdível coluna: "decidam-se se querem ter o que contar aos netos". É isso: sem suecas à mão de semear, vão-se aos suecos e façam História! Sus! A eles!

Soares & Eanes

O texto de Mário Soares hoje publicado no "Diário de Notícias", saudando a homenagem que vai ser prestada a Ramalho Eanes, acaba por ter um significado histórico, para quem assistiu às profundas divergências entre ambos. Soares e Eanes são as faces civil e militar da luta contra a deriva radical no pós 25 de abril. Ambos se aliaram "ao diabo" para evitar que o PCP e a chamada "esquerda militar" assumissem o controlo do processo político. O 25 de novembro é uma data que lhes é comum. Mas as similitudes ficam por aí.

São dois homens muito diferentes, para o bem e para o mal. Vistos da História, são dos principais fundadores do sistema em que vivemos. 

Soares é um velho "routier" da política. Coerente, procurou desenhar um sistema em favor da preeminência dos partidos, em que o seu PS se sente como peixe na água. Vingou uma geração que sofreu a ditadura e que havia visto a "sua" primeira República vilipendiada por esta. Com a ajuda da direita, conseguiu afastar os militares do centro do terreno político,"civilizando" o regime, com algumas injustiças feitas pelo meio a quem lutou pela liberdade no 25 de abril. Fez as opções certas para o país, no plano da sua modernidade. O saldo é amplamente positivo.

Eanes é um homem diferente, que aprendeu a nadar na água. Sem a cultura política de Soares, cresceu na vida prática, assente numa ética muito própria. Escrupuloso à sua maneira, emergiu de uma rede de alianças militares que chegou a abeirar-se do inimigo. Vistas as coisas com serenidade, pode dizer-se que cumpriu aquilo a que se tinha comprometido, embora tendo deixado alguns amigos pelo caminho, no compromisso trágico em que por vezes se enredou. Mas fez as escolhas que o tempo veio a julgar como globalmente acertadas. No débito histórico, porém, pesa-lhe a aventura patética do PRD, um "justicialismo" à moda da paróquia que, a ter vingado, poderia ter condenado a sobrevivência do regime. Contudo, a História acabará por julgá-lo positivamente.

Ver Soares e Eanes no mesmo e equívoco barco não me entusiasma por aí além, devo dizer. Tanto mais que é uma circunstância que só demonstra o estado de desespero a que o regime chegou.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Rui Tavares

Ao fazer a apresentação de Rui Tavares, no debate que com ele tive em setembro na Culturgest, referi a possibilidade, que já então corria, do deputado europeu, eleito nas listas do Bloco de Esquerda, poder vir a criar um novo partido. A hipótese confirmou-se agora. Rui Tavares vai ser a figura de proa do LIVRE (parece que em maiúsculas), uma nova formação que procurará "pescar" em águas políticas próximas da ala esquerda do PS e dos votantes do Bloco que se sentem desiludidos com o atual estado de coisas naquela que já foi a grande novidade na política portuguesa. 

Com exceção desse mesmo Bloco, as aventuras partidárias fora dos "quatro magníficos" não têm tido um grande sucesso, continuando eu surpreendido com o facto de por cá não ter ainda não ter surgido um partido na "direita da direita" - já não sei bem se à direita do CDS ou do PSD. "Na esquerda da esquerda", com o PCP em crescendo e com o evidente declínio do Bloco, o LIVRE terá o seu teste nas eleições europeias de 2014. O surgimento deste partido é uma má notícia para o PS e não terá sido por acaso que os socialistas terão tentado, sem êxito, "cooptar" Tavares. 

Uma nota final sobre a pretendida ideologia ecológica do novo partido. Veremos se é desta que em Portugal é criado um verdadeiro partido ecologista, corrente que tem vindo a ser ridiculamente "representada" por esse eco estridente dos comunistas que dá pelo nome de "Os Verdes".

domingo, 17 de novembro de 2013

Notícias do Botequim

Ontem, à volta de uma mesa, ouvi histórias deliciosas sobre Natália Correia e o ambiente do Botequim, esse fantástico lugar da noite dos anos 70 e 80. Recordou-se aquele porteiro de cor cadavérica, o Bento, o empregado Bandola, bem como o Carlinhos do piano. Falou-se de Isabel Meirelles, a artista plástica surrealista, sócia de Natália Correia, que bastante encontrei por Paris, e que deu nome ao famoso "bife à Fritz", que era por ali servido. E até se contou a história de um cliente dos Açores, que sempre chegava depois de jantar no Gambrinus, e que, sendo homossexual, revelou um dia que, quando vinha ao continente, tinha uma "dificuldade", porque só aceitava parceiros açoreanos e isso nem sempre era fácil em Lisboa...

Acabado o repasto, deu-me uma de nostalgia e, com amigos, passei pelo Botequim. "Passei" é a expressão exata. Nos breves segundos que estive no bar senti-me como no fado da Amália. É que, de facto, "está tudo tão mudado" que "não vi nada, nada, nada, que fizesse recordar" a Natália Correia. Embora o ambiente parecesse animado, a "onda" não era, definitivamente, a nossa. Abalámos e fomos "dar de beber à dor" a um pouso mais ao nosso jeito. 

Segurança e Defesa

Será em Ponta Delgada, nos Açores, no dia 20 de novembro, que proferirei a "lição inaugural" do Curso Intensivo de Segurança e Defesa, organizado pelo Instituto de Defesa Nacional, subordinado ao tema "Os novos desafios estratégicos da Europa".

sábado, 16 de novembro de 2013

Avaliação

Devo ser um sinistro reacionário, mas não consigo perceber por que diabo é contestada - a não ser por razões corporativas ou de interesse pessoal - a prova de avaliação dos professores contratados. Tendo em atenção o estado deplorável a que chegou o ensino em Portugal, a mais do que duvidosa credibilidade de muitos dos diplomas emitidos por algumas universidades mixurucas, que disso só têm o nome, parece-me mais do que prudente que quem quiser ser professor seja testado nas suas competências académicas e pedagógicas, antes de ter acesso definitivo a uma carreira onde terá nas suas mãos a educação dos alunos. Num tempo em que o emprego escasseia, o dinheiro público tem de ser gasto com os mais competentes e os mais capazes de garantirem uma sua eficaz utilização. E espero que haja melhores argumentos no combate a esta medida do que o facto dela ser oriunda deste governo.

Vingado

Eu tinha sete anos. De visita a Lisboa, fui com o meu pai, primos e tios, ao estádio do Jamor. Portugal jogava contra a Suécia. Nada de muito importante, apenas um jogo particular.

Portugal, por esses tempos, andava muito longe das provas mundiais ou mesmo europeias. Pelo contrário, em jogos internacionais o nosso país tinha então um comportamento medíocre e levava "abadas" monumentais, de que (felizmente) já nos esquecemos, entretidos que andávamos com os paroquiais Sporting-Benfica, com o Porto então a levantar a cabeça apenas a espaços, nesses tempos em que o sr. Andrade (daí o nome de "andrades", sabiam?) pagava as bancadas do estádio da Constituição e o sr. Adriano Pinto ainda não tinha levado a gestão da arbitragem para locais à sombra do viaduto Gonçalo Cristóvão.

Como é óbvio, não tenho a menor recordação do jogo de 1955. Ou melhor, desde sempre mantive uma vaga ideia de que o mítico Matateu fazia parte da equipa. A minha precocidade futebolística nem sequer registou os dois golos com que (agora verifico) José Águas terá atenuado, na segunda parte, o seis "secos" que Costa Pereira encaixou.

Ontem, num hábil desvio de cabeça a um cruzamento precioso de Miguel Veloso, Cristiano Ronaldo vingou-me essa tarde de 1955, no velho Jamor. Embora agora fosse na Luz. Mas tudo está bem quando acaba bem.

Partidos irmãos

Numa conversa, há dias, faziam-se projeções sobre o voto potencial dos comunistas (e seus "compagnons de route") nas europeias de 2014, notando-se a subida da CDU nas eleições autárquicas.

Alguém acrescentou: "Também na Alemanha!".

Surpreendidos, todos nos voltámos para essa pessoa. Não tínhamos indicação de que o voto comunista estivesse a crescer por terras germânicas.

Com um sorriso, o nosso interlocutor esclareceu: "Então a CDU não aumentou o seu voto, nas recentes eleições alemãs?"

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Cabo Verde

Foi ontem anunciada a "decisão do Governo da República de Cabo Verde em não traduzir o nome do país, Cabo Verde, para outras línguas". Assim se pretende acabar com o francês "Cap-Vert", o anglo-saxónico "Cape Verte", o italiano "Capo Verde" ou o germânico "Kap Verde".

Veremos o efeito prático desta iniciativa, que só terá devido sucesso e eficácia se, de forma persistente e continuada, os serviços oficiais de Cabo Verde no estrangeiro tiverem a coragem de devolver toda e qualquer correspondência que não obedeça ao preceito ora instituído. O que, por vezes, por revelar-se dedicado.

Um dia recordei aqui um episódio a que assisti, relacionado com o nome Costa do Marfim. Mas poderia igualmente referir uma tentativa, com escasso sucesso, protagonizada nos anos 90 pela Bielorrússia, que informou o mundo que queria passar a ser designada por "Belarus".

Um país como Portugal (tal como Angola), não tende a ter o seu nome mudado em línguas estrangeiras, salvo no italiano, onde nos tratam por "Portogallo".

A experiência diz-me que é muito difícil fazer com que os outros nos tratem apenas da forma que desejamos. Mas não deixa de ser totalmente legítimo que isso seja tentado.


Redes sociais

Já por aqui se falou algumas vezes dos "blogues da política" que por aí andam. Com o Facebook e o Twitter, os blogues representaram, nos últimos anos, um importante espaço de combate político. Mas se já existia a perceção impressionista de que esse conjunto de instrumentos de intervenção vivia subordinado a estratégias bem delineadas, a entrevista dada por Fernando Moreira de Sá, à revista "Visão" desta semana, é um modelo de revelação sobre o modo como o "vale tudo" se instalou, desde há muito, nas redes sociais, somado à montagem de operações para falsificar a genuinidade de foruns radiofónicos e, presumivelmente, de programas televisivos com a "espontânea" intervenção telefónica do público.

Mas não se tratará tudo isso de um mero conjunto de suposições? Não. Fernando Moreira de Sá, ao mesmo tempo que desmonta o aparelho articulado pelo governo anterior em seu suporte, conta, com nomes à evidência, a rede criada em torno da campanha para a ascensão dos atuais titulares do poder político. Com uma autenticidade que deriva do facto de ele próprio ter sido parte dessa operação.

Esta é uma entrevista a não perder! O leitor nunca mais olhará para certos blogues da mesma maneira.

Em tempo: nas últimas horas, pessoas que respeito dizem-me que há exageros e inferências que não podem ser provados, no que foi dito na entrevista. Confesso que, tratando-se de um trabalho académico e tendo o autor (que não conheço) explicado sem aparente remorso que ele próprio cooperou na suposta "operação", o texto pareceu-me credível. Mas não me custa admitir que possa estar enganado. Esperemos, assim, pela decisão da Justiça, porque, se acaso alguém foi difamado ou caluniado, esse é naturalmente o único terreno legítimo para arrumar a questão.

Mensalão

Um dia de junho de 2005, no "salão de autoridades" do aeroporto de Manaus, a minha atenção foi despertada para as inesperadas revelações que estavam a ser feitas, na televisão, por um deputado brasileiro, de seu nome Roberto Jefferson, sobre a existência de um suposto esquema de compra de votos no Congresso brasileiro. Não o sabia então, mas esse iria ser o "dia 1" daquilo a que se chamaria o "mensalão".

Seguiram-se meses de debates, inquéritos, denúncias, em torno de uma singular operação que envolvia pagamentos e desvio de verbas de natureza pública. O Brasil colou-se às televisões e passou a conhecer a figura de Marcos Valério, o "arquiteto" dessa habilidosa montagem. Com a passagem do tempo, o processo foi-se aproximando do número dois do governo Lula, o poderoso ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Quase quatro dezenas de outros réus se lhes juntaram. Dirceu acabaria por ser afastado. A sua substituta chamava-se Dilma Roussef.

O processo demorou anos. O Brasil nunca mais foi o mesmo depois do surgimento do "mensalão". E a imagem do PT, Partido dos Trabalhadores, que havia sido criado em torno de Lula da Silva, foi afetada de uma forma que mudou, radicalmente e para sempre, a perceção dessa força política aos olhos dos brasileiros.

O processo do "mensalão" poderá estar a chegar ao seu termo. Anteontem, o Supremo Tribunal Federal (que, no Brasil, conjuga as funções de corte suprema e de corte constitucional) decidiu mandar proceder à imediata prisão efetiva dos réus já condenados, não esperando por alguns recursos pendentes. Não tenho dúvidas que este radical ato de "coragem" só ocorreu porque os juízes do STF, um tribunal que tem muito de político, perceberam que a "rua" exigia isso mesmo, depois das recorrentes manifestações dos últimos meses.

A luta contra a corrupção está muito longe de estar ganha no Brasil, por um conjunto de vícios instalados para cuja desaparição as condições ainda não estão criadas. Mas o caso do "mensalão" foi uma experiência que ensinou muito aos brasileiros e os tornou incomparavelmente mais exigentes com as suas instituições.     

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O combate

Foi uma tarde que ficou na história das Necessidades, nesses anos 70. De súbito, surgiu pelos corredores a indicação de que um colega, conhecido pelas suas fúrias e pelo seu espírito belicoso, que mais tarde haveria de revelar-se noutras frígidas paragens, pretendia "dar uma sova" num determinado diretor-geral, que, por acaso, era o meu. Já não recordo o motivo que levava esse diplomata, então cônsul-geral num posto no estrangeiro, a querer tirar desforço dessa figura da hierarquia. Mas, conhecendo-o bem, alguns colegas apostavam em como as coisas acabariam forte e feio.

A perspetiva de uma briga, que prevíamos pudesse ter lugar no pátio de entrada (na imagem), levou muitos de nós a não abandonar o serviço no termo do dia de trabalho, curiosos em saber como acabaria o assunto. No meu caso, tendo atrás da minha secretária uma bela janela lateral da qual se "controlava" toda a área desse pátio, fui assistindo à coreografia agitada do putativo agressor. Dando expressão à técnica negocial que ilustra a prática da casa, íamos observando que vários emissários se esforçavam por conciliar as partes. Ou melhor, tentavam isso junto da parte mais agitada, dado que o diretor-geral permanecia escudado dentro do seu gabinete, acolitado pelo meu "chefe de repartição", um seu íntimo que, ao final de cada dia, o conduzia reverentemente a casa. A nossa atenção dividia-se, assim, entre a agitação reinante no corredor da direção-geral e o pátio, onde o colérico colega permanecia, rodeado de "plenipotenciários". 

As coisas terminaram antes da hora de jantar. E sem o espetáculo por que todos ansiávamos. O colega foi convencido a regressar a casa. E o diretor-geral, pelo-sim-pelo-não, abandonou discretamente o ministério pelo "palácio velho", o mesmo que foi a residência do último rei, da qual fugiria, a 4 de outubro de 1910, a caminho do exílio. 

No dia seguinte, soube-se que o frustrado agressor teria dito a seguinte frase, que ficou nos anais da casa, referindo-se ao "encontro" que pretendia ter com o diretor-geral, que teria alegado não ter tempo para o receber: "Eu não demoro nada! Só o tempo de lhe dar dois murros nas trombas..."

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Entrevista


Finalmente, deixo aqui o link para a entrevista na Económico TV.

Aos papéis

O país era ainda jovem, o diplomata que o representava naquela reunião internacional também o era. Tinha, além disso, muito pouca experiência e era visível o nervosismo com que intervinha, de forma hesitante, no inglês de regra. O seu embaraço de novato era seguido, com simpatia, por colegas de outras delegações, que ansiavam, para seu bem, vê-lo terminar a intervenção, que se prolongava para além do razoável, naquela conhecida sina de quem não consegue descobrir um final condigno.

A certo passo, querendo referir-se a uma "folha de papel", a precipitação fê-lo trocar a expressão "sheet of paper" pelo seu inverso - "paper of sheet" - tendo a última palavra da expressão soado como uma sua homófona. A sala caiu em gargalhadas. Acontece...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Há mar e mar...

Em 2006, no Brasil, decidi criar um blogue da embaixada, que eu próprio redigi durante mais de dois anos. Como lema desse blogue, escolhi uma frase de Vergílio Ferreira que sempre me impressionou, pelo seu simbolismo: "Da minha língua vê-se o mar".

Há dias, numa entrevista na televisão (ontem reproduzida parcialmente num jornal), repeti essa frase, ou melhor, disse-a erradamente. "Do meu país vê-se o mar". Fiquei furioso comigo mesmo. Deve ser da idade...

* uma leitora recorda-me ainda o erro vulgar de escrever "Virgílio" em lugar de "Vergílio". Coisa que o escritor não permitiria.

Responsabilidade

Costumo lembrar que, durante a minha carreira diplomática, tive 21 ministros dos Negócios Estrangeiros. Sem recorrer ao "name-dropping", posso dizer que alguns me deixaram orgulhoso do os poder representar, outros foram-me relativamente indiferentes, outros ainda me deixaram em forte embaraço pelo modo desajeitado ou mesmo incompetente como não souberam ou não conseguiram defender os interesses do país. Mas nunca, em nenhuma circunstância, me regozijei pelo facto de um ministro, qualquer que fosse a sua coloração política, ter sido infeliz em declarações públicas no estrangeiro. Porquê? Porque, bom ou mau, fora de Portugal o chefe da diplomacia representa sempre o país. Se não se perceber isto, alguém pode ir à final da taça entre a S. Caetano à Lapa e o Rato, com o Caldas em episódicos permeios, mas quem perderá somos todos nós.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Adversativos

Há uns anos, ao tempo de outro governo, falei por aqui do "jornalismo adversativo", isto é, da obsessiva tendência da imprensa para não referir algo de positivo sem, de imediato, o fazer seguir de um "mas", introduzindo elementos negativos, como que a "compensar" as notícias favoráveis.

Nos últimos dois dias, foi curioso ver o esforço de muitos para desvalorizar ou relativizar o significado da quebra da taxa de desemprego e o facto dos juros no mercado secundário da nossa dívida pública a 10 anos terem recuado dos 7%.

Deve ser defeito meu, mas não gosto da política feita deste modo.

A diplomacia segundo Álvaro Cunhal

"A política externa deve estar em mãos de gente hábil, de gente capaz de manobrar, de gente capaz de ter linguagens diferentes conforme o sítio onde fala, gente que compreenda que a diplomacia não é bem uma sessão interna de um órgão revolucionário, que a diplomacia de um país revolucionário que vive uma conjuntura internacional determinada e uma situação geográfica como nós vivemos, exige muita maleabilidade e em alguns casos muita ronha"

in "A crise político-militar, Discursos políticos/5, maio/novembro de 1975, Edições Avante!, 1977

Espírito Santo

Portugal tem poucas "marcas" internacionais. Ao longo de toda a minha vida profissional, testei as imagens que o nosso país foi fixando nos outros. Fui avaliando o modo como elas se revelavam identitárias, a sua solidez, a sua permanência no tempo. Através do olhar estrangeiro, medi a sua importância para o "retrato" que de todos nós foi sendo desenhado.

Dentre as poucas que Portugal deixou pelo mundo, a marca "Espírito Santo" surgiu-me sempre como sendo tido por um "valor" seguro. Nunca tive a mais remota relação com o grupo, nem sequer fui depositante do banco. Mas habituei-me a ver o nome "Espírito Santo" respeitado e admirado. E isso não é indiferente a quem, como eu, levou a vida a tentar sustentar a imagem de Portugal no estrangeiro.

A família Espírito Santo, com algumas outras, pagou, no pós-25 de abril, a circunstância ter sido um importante suporte da ditadura que nesse dia terminou, bem como o facto de ter beneficiado de um regime colonial cujo prolongamento no tempo foi fonte de muito sofrimento, em Portugal como em África. Com dignidade, respeitando as novas regras, o grupo Espírito Santo conseguiu retomar o seu papel no âmbito da economia portuguesa, aproveitando a lógica de mercado consensualizada em democracia. Até o conseguir, o grupo foi apoiado por amigos que, no exterior, confiaram na palavra e na honorabilidade dos seus membros. E isso não é coisa pouca nos dias que correm.

Por todas estas razões, e não obstante as culpas próprias do presente, recuso-me a comungar dos sorrisos irónicos, de origens bem diversas, de quantos olham para o momento menos bom que o grupo Espírito Santo hoje atravessa.

domingo, 10 de novembro de 2013

Comissária

Há dias, numa daquelas "bocas" em que a comunicação social é useira e vezeira, foi "revelado" que a escolha do governo para comissário europeu, nos cinco anos que se sucederão a 2014, poderia ser o professor Poiares Maduro, nóvel governante cujo currículo é ilustrado por algum percurso europeu, desde a academia florentina a órgãos jurisdicionais da União. Conheço bem o percurso de Poiares Maduro e não tenho a menor dificuldade em reconhecer o seu mérito intelectual.

Porém, uma avaliação fria do processo europeu, e dos nossos interesses nacionais nesse contexto, leva-me, também com facilidade, à conclusão de que a pessoa com mais evidente perfil para representar Portugal na futura Comissão Europeia, à luz cumulativa da sua experiência e dos seus conhecimentos, seria, sem a menor sombra de dúvida, a professora Elisa Ferreira, antiga ministra do Ambiente e, depois, do Planeamento, com uma significativa carreira académica, com uma notável prestação no Parlamento Europeu e, de há muito, com uma rede de contactos nesse âmbito que pede meças a quem quer que seja.

Imagino, sem dificuldade, que esta nota possa não ser do agrado da própria Elisa Ferreira. Mas entendi não dever deixar de a colocar aqui.

Taça

Não estou à espera (nem aceitarei) que algum comentário a refira, mas não me coibo de lembrar que, para a minha geração, havia uma frase que avaliava a importância da "taça" face ao "campeonato".
 
E mais não digo, porque hoje me não apetece discutir penáltis. Nem "very lights"...

Urgências

Agora, de um dia para o outro, passou a ser "urgente" debater a "reforma do Estado".

Durante nove meses, o "guião" foi anunciado e reanunciado, com embaraçadas respostas dilatórias, apenas quando alguém se lembrava de perguntar por ele. A certo ponto, ficou bem patente que havia, no seio da maioria, como que uma estratégia para tornar o líder do segundo partido da coligação o responsável pessoal pelo recorrente atraso no exercício. Com algum gozo associado.

Um dia, ultrapassado já o prazo do ridículo, o "guião" lá saiu. E foi "aquilo" que se viu. E, num instante, um texto que pôde esperar meses para ser divulgado, converteu-se numa proposta "incontornável" e, pasme-se!, "urgente". Como se aquele monte de obviedades, com três ou quatro receitas de "thatcherismo" tardio, passasse, por milagre, a ser o eixo do nosso futuro, devendo o país ser convocado e mobilizado para a sua discussão. E, claro!, sendo réu de um crime de lesa-pátria quem não acorresse, pressuroso, a esse debate.

Para o principal partido do governo, cujo nível de "entusiasmo" com o surgimento do "guião" se tornou bem evidente, a polémica passou, de repente, a ser um excelente meio de diversão do difícil debate orçamental. Para o autor político do "guião", convirá, naturalmente, explorar, tanto quanto possível, a "obra feita", para o que já conta com a dedicada colaboração dos "parceiros sociais", sempre à cata de tempo de antena. O que ainda não foi suficientemente sublinhado é a circunstância de um grupo selecionado de socialistas ter logo emergido a terreiro, a relevar a "importância" das "propostas" do "guião", dando interesseiramente a mão à figura do vice-primeiro ministro, com quem contam para aventuras governativas futuras.

A vida política portuguesa está a ficar tão transparente...

sábado, 9 de novembro de 2013

Entrevista

A convite da "Antena 1" e do "Diário Económico", dei uma entrevista a Rosário Lira e Bruno Proença que é divulgada na "Antena 1" no sábado, dia 9, e na 2ª feira, dia 11, na edição do "Diário Económico" e no canal de cabo "Económico TV" (23 horas).

Nessa conversa, falou-se de várias temáticas externas, desde a diplomacia e do atual "estado da arte" no MNE, até à situação europeia, "resgate" incluído, bem como da relação com Angola e a situação em Moçambique.

A entrevista (para quem tenha tempo e paciência para mais de 50 minutos de conversa), pode ser ouvida aqui.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Insensatez

Foram, no mínimo, lamentáveis as declarações produzidas por entidades políticas portuguesas, sugerindo-se como possível "ajuda" às autoridades moçambicanas, em matéria de cooperação policial bilateral, de pôr cobro à insegurança que reina naquele país. Esses comentários, dos quais ressaltou uma triste forma de paternalismo, foram ao ponto de fazer notar aos responsáveis moçambicanos os efeitos, em matéria de investimento externo, que podem decorrer da presente situação de crise. Como se eles o não soubessem...

Este tipo de propostas e sugestões - como ensinam as mais elementares regras da diplomacia - devem sempre ser feitas com total discrição, no pleno respeito pela sensibilidade dos países. Permitir-se este tipo de comentários na praça pública - e em televisões que são avidamente vistas em Moçambique - tem como despudorado objetivo retirar dividendos políticos, "dar ares" de se estar atento aos interesses portugueses.

Mais pudor e maior profissionalismo é o que se recomenda.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ainda a Constituição

Há um grande "teatro" que convém deixar claro, em torno do modo como os agentes políticos e sociais se colocam na "guerra" entre o governo e o Tribunal constitucional. Na realidade, o que existe por detrás deste debate é uma questão bem mais "simples": há quem esteja, de há muito (alguns desde sempre...) contra esta Constituição e há os que a utilizam como escudo da proteção possível de um statu quo institucional, que evite o que entendem serem males piores.

Sejamos honestos: é evidente que o texto da atual Constituição está bastante datado, embora seja difícil um consenso sobre aquilo que deveria mudar e aquilo que deveria permanecer no texto. Alguns que, em tese, poderiam estar abertos a revisitar o texto constitucional, temem que a "caixa de Pandora" possa ser escancarada por quantos detestam esta Constituição. E, assim, acabamos todos neste "compromisso" imobilista. Mas é ridículo pretender que seja a jurisprudência do Tribunal Constitucional a fazer a "revisão" que os eleitos políticos se revelam incapazes de levar a cabo.

Constituição

O presidente da Comissão europeia voltou ontem a alertar para as consequências que podem advir de uma eventual rejeição, pelo Tribunal constitucional português, de algumas normas do orçamento geral do Estado.

Não é nova esta posição do antigo líder do PSD. Interrogo-me, contudo, por que razão a Comissão europeia, a montante da apresentação do orçamento, não optou por recomendar ao executivo português que tivesse o maior cuidado em garantir que as propostas que viesse a fazer respeitassem, em absoluto, as normas da Constituição do país. É que, se acaso assim procedesse, não haveria o menor risco de um "chumbo" pelo tribunal.

Talvez também conviesse lembrar, à atenção de quem tenha a menor pretensão de vir a ser candidato à chefia do nosso Estado, que, se acaso fosse eleito, lhe competiria, no ato de posse, "defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República portuguesa".

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Táxis

Há pequenas coisas que denotam a deterioração da autoridade do Estado.

Há uns anos, os táxis deixaram de ter as tradicionais cores verde-e-preto para passarem a uma cor amarela, tipo areia. À época, recordo-me de ter ouvido sólidos argumentos em favor da opção por essa nova cor. Agora, de há uns meses a esta parte, verifico que os táxis regressaram ao verde-e-preto. Imagino que haja outras luminárias a avançar especiosas razões favoráveis ao regresso a essas cores originais, seguramente contradizendo em absoluto as anteriores.

A minha questão é, porém, outra. Enquanto, na anterior versão verde-e-preto as cores eram únicas, agora o verde usado nos táxis parece ter sido deixado "à vontade do freguês". Hoje, durante alguns minutos no aeroporto, dei-me conta de, pelo menos, seis tons de verde utilizado. Alguns deles são, de forma propositada, tão escuros que quase se aproximam da cor preta. Outros vão desde evidentes espécies de azul ao verde claro "saloio", passando verde "elegante" (do Sporting, claro).

A minha pergunta é simples: é normal esta variedade ou trata-se de uma padronização falhada? Ou será que o Estado tem medo aos taxistas? Ou isto já é produto da doutrina liberal "in the making"?

terça-feira, 5 de novembro de 2013

França

Não deixa de ser preocupante para a Europa a situação que hoje se vive em França, muito em especial pelas implicações que esse estado de coisas pode ter no futuro do projeto europeu.

A França é um país-chave da equação continental. Por muito que alguns não gostem de reconhecer isto, devem-se ao eixo franco-alemão os passos mais significativos do processo integrador. É mesmo muito curioso observar que, sendo a França um país que tem "uma certa ideia da Europa", que passa bastante pela sua muito específica ambição em termos de poder no projeto continental - e que está muito longe de ser aquilo que se chama "europeísta", no sentido bruxelense do termo -, ela soube sempre dar uma contribuição que se revelou imprescindível para os grandes avanços que foram conseguidos. Sem a França não há projeto europeu - as coisas são tão simples como isso!

Ora a França atravessa um tempo difícil. É um país que, ao longo dos "trinta gloriosos" anos do pós-guerra, estabeleceu uma sociedade de bem-estar cujo património é hoje defendido em todos os setores do espetro político. Um modelo que obriga a que seja o país da União com a mais elevada percentagem de despesa pública face ao PIB. Esse modelo, com todas as virtualidades e vantagens que lhe estão associadas, torna-a fortemente resistente à mudança que os novos ventos financeiros europeus querem impor-lhe. 

A França tem um potencial económico e um tecido financeiro que parece colocá-la ao abrigo de colapsos como os que abalam hoje alguns dos seus parceiros mediterrânicos. Mas os números preocupantes do seu défice, a forte quebra da sua balança comercial, a perda de competitividade de muitas das suas indústrias e o agravamento de alguns outros indicadores (como o próprio desemprego) revelam que alguma coisa tem que mudar rapidamente no país. Acresce que, nos últimos anos, uma mutação significativa está a gerar na sociedade francesa clivagens e derivas preocupantes, nomeadamente pelo sucesso de algum populismo com laivos xenófobos e até racistas.

O drama francês é também o nosso drama. O apagamento, embora talvez conjuntural, do papel que a França desempenhava no centro do projeto europeu parece estar a conduzir a Alemanha a uma inédita "solidão", que Berlim pode ser tentada a atenuar através de novas alianças, cuja resultante está longe de corresponder aos interesses de um país como Portugal. Além disso, a França é a segunda pátria de muitas centenas de milhares de portugueses, sendo hoje uma das importantes fontes de remessas financeiras que compensam a nossa debilidade interna. Os portugueses em França, ou os luso-descendentes, não incorrem no menor risco por essa sua condição específica. Mas uma crise na sociedade francesa atingi-los-ia em pleno.

Por tudo isto, e também pelo que a França representa para a nossa maneira de estar no mundo, o seu futuro imediato não nos deve ser alheio.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Do liberalismo semântico

Há uns meses, num blogue de "neocons" caseiros, vi surgir uma proclamação enfática: "nunca mais escrevemos Estado com "E" maiúsculo!".
 
Essa subliminar consigna deve estar a fazer escola. Há dias, publiquei um artigo numa revista. E lá notei que, no meu texto, sempre que eu falava de Estado, foi feito o "downgrading" da maiúscula inicial. Devem pensar: "quanto mais não seja, vencêmo-los pela gramática!" 
 
Estejamos muito atentos a estes "copydesks" ideológicos! Um destes dias, se os deixarmos grimpar, República e Constituição passam a minúscula.

domingo, 3 de novembro de 2013

Ainda a "reforma"

Uma leitora atenta deste blogue deixou, num comentário, a nota e a constatação de que, em Portugal, os socialistas haviam criado um ministério para a "reforma do Estado", sem, contudo, nunca a terem levado a cabo. Concedo que possa ser verdade.

Já agora, e se puxarmos pela memória, talvez devamos recordar que o primeiro membro de um governo que teve a seu cargo a "reforma administrativa" foi um (então) militante do CDS, Rui Pena, ministro do governo PS-CDS, nos idos de 70. A "reforma administrativa" tinha aliás uma tradição pré-25 de abril, com um famoso "secretariado", ainda dos tempos marcelistas.

Aproveito o mote para dizer que, em minha opinião, a "reforma do Estado" tem duas vertentes, que quase sempre surgem misturadas.

A primeira são as adaptações a introduzir no formato e funcionamento da Administração Pública, tarefa a que todos os governos se dedicam. Desde logo, para colocarem as estruturas em consonância com as novas leis orgânicas com que sempre se entretêm a balharar e dar de novo, bem como para despacharem algumas promessas que deixaram nos programas eleitorais. No bom sentido, recordo que ninguém como Maria Manuel Leitão Marques, membro de um governo socialista, foi tão longe em medidas para agilizar o Estado. Nunca vi isso seriamente contestado.

A segunda vertente prende-se com a questão das funções do Estado, que, por mais voltas que se lhe dê, é sempre uma questão que releva do modelo constitucional e do que dele decorre para o quadro de responsabilidades que competem ao Estado. É essa a origem dos conflitos com o Tribunal Constitucional. Ora a Constituição só pode ser alterada por um amplo consenso, movimento que, como é da lógica do desenho de todas as leis (e, por maioria de razão, da lei fundamental), deve ter menos a ver com uma pressão conjuntural de urgência e mais com uma análise serena e pactuada dquilo que a moderna sociedade portuguesa hoje deve exigir.

Permito-me agora dizer duas coisas talvez polémicas.

A primeira é que um repensar das funções do Estado não pode ser, necessariamente, sinónimo de redução do papel do Estado. "Reformar" não é reduzir e, por mais que isto possa surgir como sacrílego, não excluo liminarmente que, em alguns domínios, possa vir a constatar-se a necessidade de "mais Estado". Pense-se, por exemplo, na segurança pública e na proteção civil.

A segunda será talvez mais chocante para alguns, mas é o que sinceramente penso. Este governo tem uma maioria, conferida por uma indisputável lógica eleitoral. E, em democracia, isto é o essencial. Nessa qualidade, tem todo o direito de apresentar ao país as propostas que entender. Mas, se acaso tivesse um mínimo de sensibilidade, já deveria ter percebido que a evidente erosão da sua legitimidade política é menos conforme com projetos para cuja concretização necessitaria de maiorias que nem as mais fantasistas hipóteses lhe conferem. E quando essas propostas são de um ridículo quase pungente, então não se deve admirar que a gargalhada seja a resposta. A menos que o momento da apresentação do "guião" não tenha sido inocente e tivesse como objetivo ser uma mera cortiina polémica de fumo para fazer esquecer a brutalidade deste orçamento, hipótese que, curiosamente, não vi suficientemente explorada. Se assim é, de facto, qualquer papel serve.

sábado, 2 de novembro de 2013

Os Santos

Foto de Fernando Ribeiro

Esta é a altura dos "Santos", lá por Chaves. É uma das grandes festas transmontanas, famosa desde sempre como grande feira rural, hoje, dizem-me, está muito urbanizada nos usos mas, nem por isso, menos movimentada e atraente.

Na minha infância, em alguns anos, fui de Vila Real "aos Santos". Almoçávamos quase a meio da viagem, em Bornes, junto às Pedras Salgadas, em casa dos meus avós maternos. Atravessava-se a ponte de Trajano já ao entardecer. Recordo-me de ter criado a ideia de que era uma festa algo estranha, porque quase sempre tinha lugar em tempo frio, quando, em Portugal, a generalidade deste tipo de feiras ocorre numa altura quente do ano. Mais tarde, vim a apreciar frígidas feiras em período natalício, no norte da Europa, com adequadas bebidas quentes para atenuar esses efeitos.

Nesse tempo e nessa idade, a minha grande curiosidade era ouvir falar espanhol pelas ruas, coisa que nunca acontecia no nosso quotidiano de Vila Real, algumas escassas dezenas de quilómetros a sul. É que, tal como sucedia aos flavienses que se deslocavam anualmente "aos Lázaros", a Verín, no mês de março, nesse dia a fronteira era relativamente franqueada para os galegos virem a Chaves, com dispensa de passaporte. Essa minha sedução pelo que soava a "estrangeiro" era, em Chaves, sublinhada pela ideia mítica do contrabando que lhe ia associada, da comercialização do que não havia do lado de cá, de que era expoente a famosa loja da Aninhas Vitorino, que então muito se frequentava e que sobrevivia por complacentes e dizia-se que poderosas cumplicidades.

Nessa "romaria", recordo-me que se ia sempre visitar a nossa família flaviense e, invariavelmente, passava-se no "Aurora", o café do sr. Avelino, um cidadão galego que tinha vivido, por alguns meses, refugiado num armário da casa das minhas tias, nas Pedras Salgadas, durante a guerra civil espanhola. Um mundo de aventuras juntava-se, na minha cabeça de miúdo, à figura do sr. Avelino e às suas andanças políticas na esquerda espanhola. E, com naturalidade, passei a ter simpatia pelas causas que tinham motivado aquele amigo da família.

Guardo ainda a imagem das barracas noturnas no jardim do Bacalhau - ou seria na praça General Silveira? -, do bulício da gente, para cima e para baixo, na rua de Santo António. Depois, era o longo regresso noturno a Vila Real, por Vidago, pelo Reigaz acima, pelas longas retas de Sabroso e Vila Pouca, com a subida da Samardã como último obstáculo.

Outros tempos. Agora, com a A24, tudo é mais fácil. Já prometi a mim mesmo: para o ano, vou "aos Santos"!

Surpresa

O meu prezado amigo e antigo colega de governo, Daniel Bessa, diz hoje no "Expresso" que o "guião para a reforma do Estado" é uma "boa surpresa", um "documento com princípio, meio e fim". 

Tendo lido o texto com um cuidado quase masoquista, só posso concluir que, das duas uma: ou Daniel Bessa aguardava um texto indigente e "tudo o que vier à rede é peixe" ou, lá para o Norte, foi distribuída uma versão diferente. Mas numa coisa concordo plenamente com Daniel Bessa. O documento tem um "fim". Foi ontem.

Gérard de Villiers (1929-2013)

Morreu Gérard de Villiers. Durante anos, usei os seus livros para "antecipar" a visita a alguns países mais bizarros, onde ele ia situando as façanhas do seu herói intemporal, o agente da CIA e príncipe austríaco Malko Linge, denominado SAS (Sua Alteza Serenísima). 

aqui falei do seu curioso livro sobre a Lisboa revolucionária de 1975. Em Angola, recordo-me de ter lido, divertido, as descrições dos salões do Hotel Trópico (onde vivi quatro meses) nas páginas de um "thriller" sobre a guerra civil local onde, como era seu hábito, sempre havia muita violência e sexo. Villiers estava longe de ser um grande romancista, mesmo dentro do seu próprio género. Era um "autor de aeroporto", ligeiro, que combinava uma sugestiva realidade física dos locais - que fazia questão de visitar pessoalmente - com tramas algo maniqueístas, de onde ressaltava o seu profundo anti-comunismo e, mais recentemente, a sua atitude anti-islâmica. Honra lhe seja que sempre assumiu tudo isso com garbo e sentido de mercado.

Não sei se recomende, ou talvez o faça apenas pela curiosidade que representa, o seu livro sobre a Guiné-Bissau, intitulado "Féroce Guinée", centrado nos militares e no tráfico de droga (Villiers trabalhava com a realidade...), como habitualmente com belas mulheres à mistura, de que as capas dos volumes sempre destacavam as qualidades mais salientes.