quarta-feira, 31 de julho de 2013

"A gaiola dourada"

Devo dizer que já me não recordava de ter passado uma noite de cinema tão divertida como a de ontem, ao assistir à comédia cinematográfica "A gaiola dourada". As peripécias em torno da existência de um casal de trabalhadores portugueses em Paris, com os todos os "clichés" e quadros de vida comuns a tantos outros compatriotas nossos, são tratadas de uma forma ao mesmo tempo carinhosa e descomplexada, graças a um belo "script" e a excelentes interpretações, dentre as quais me permito destacar a minha amiga Jacqueline Corado da Silva, bem como o próprio realizador-ator luso-francês Rúben Alves - que com este filme quis homenagear os seus pais. Fui dar a ambos um abraço de parabéns por este seu delicioso trabalho, que honra a memória da nossa fantástica comunidade em França, junto da qual tive o privilégio de trabalhar durante os quatro últimos anos da minha carreira.

Gostei de ver na assistência o meu antigo colega, o embaixador francês em Portugal, Pascal Teixeira da Silva, ele próprio um descendente de portugueses emigrados, que em breve termina a sua missão em Lisboa. E fiquei muito feliz por deparar, no meio da multidão, com um grande amigo dos portugueses em França, o "maire" do "XIVème arrondissement" de Paris, Pascal Cherki, também membro do grupo de amizade França-Portugal no parlamento francês.

Por algumas horas, "regressei" a Paris, à alegria sã da nossa comunidade e ao seu insuperável orgulho nas suas raízes. E, não sendo eu nostálgico, confesso que isso me fez muito bem.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Memória do CDS

Nos idos de 1974/75, o CDS foi alvo de uma forte campanha política adversa, com atos de violência que, nomeadamente, levaram ao saque da sua sede nacional em Lisboa e ao boicote sistemático de muitos dos seus comícios, um pouco por todo o país. Casos houve em que os seus dirigentes tiveram de abandonar os locais pelos telhados das casas e correram riscos de integridade pessoal.

A acusação mais vulgar, feita pelas forças de esquerda, era a de que o CDS era uma formação política onde se refugiara muita da direita saída diretamente do salazarismo e do marcelismo. Ora isto, não sendo necessariamente mentira, estava longe de esgotar a verdade. Muita gente conservadora, sem atividade política no Estado Novo, a quem o "25 de abril" abrira a possibilidade de intervenção e defesa democráticas das suas ideias, não se revia no socialismo e nos partidos da esquerda dominante, optando igualmente por não seguir as ideias em torno das quais Sá Carneiro instituíra o PPD. E havia decidido apoiar o partido que Freitas do Amaral criara logo após a Revolução e que apelidou de "centrista", pretendendo identificá-lo com uma matriz democrata-cristã. 

Um dia, um grupo de responsáveis do CDS, chefiado por Sá Machado e integrado por Emídio Pinheiro e uma outra personalidade que não recordo, foi recebido, a seu pedido, pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), numa reunião que teve lugar naquele que é hoje o Instituto de Defesa Nacional, na calçada das Necessidades. Não consigo precisar a data, mas tenho a ideia de que deverá ter sido em fins de outubro ou novembro de 1974, isto é, depois do "28 de setembro", que forçou o afastamento de Spínola e levou ao isolamento temporário de um importante setor da ala direita militar. A delegação do MFA era dirigida pelo então coronel Franco Charais, meses mais tarde graduado em general e que viria a chefiar a Região militar do centro, sendo uma das figuras do chamado "movimento dos Nove", que se opôs às corrente comunista e populista no MFA.

Nessa reunião, Sá Machado expôs, com elegância e sem dramatismos, a penosa existência do novo partido, praticamente desde a sua criação. Ele sabia, de certeza segura, que o CDS estava longe de ser visto com bons olhos no seio da maioria dos setores que haviam feito a Revolução, mas também não desconhecia que as Forças Armadas, que conviviam com Diogo Freitas do Amaral no Conselho de Estado, não se podiam dar ao luxo de aceitar a exclusão da vida política, por via da força, de um partido que afirmara cumprir os princípios básicos que orientavam a Revolução e cuja ação não suscitava objeções importantes.

A certo passo da sua intervenção, feita no tom calmo embora um tanto pomposo que era o seu, Sá Machado inquiriu se as Forças Armadas estavam ou não disponíveis para garantir condições básicas de segurança para as sedes e as reuniões de propaganda que o CDS procurava organizar pelo país. Recordo ele ter dito mais ou menos o seguinte: "São os senhores que têm de decidir se querem ou não que continuemos a existir. Se o direito de reunião e organização política nos continuar a ser negado, talvez tenhamos de vir constatar que deixa de haver condições para o exercício da nossa atividade enquanto partido. Nesse caso, o MFA deve ter consciência de que um setor da opinião pública portuguesa se sentirá alienado do sistema político instituído pelo "25 de abril". E isso terá naturalmente as suas consequências na própria legitimidade futura do regime". Foi uma declaração frontal, corajosa para os padrões da época. Vários partidos considerados extremistas de direita e saudosistas haviam já desaparecido (Partido do Progresso, Movimento Federalista Português, Partido Liberal) e, com isso, o CDS ficara "colado" ao limite direito do espetro político.

Charais reagiu, dizendo que "outros partidos de direita, como o PPD" (nem o CDS se assumia como de direita, quanto mais o então PPD, mas a linguagem dos tempos era essa...), também sentiam dificuldades em organizar-se em certas regiões, mas que isso era devido ao facto de, nesses locais, CDS e PPD serem "o refúgio dos fascistas", pelo que a aceitação "popular" da sua legitimidade de afirmação política passava muito por uma escolha mais criteriosa dos seus quadros, que deviam ter "sólidas credenciais democráticas". Sá Machado retorquiu que o CDS não permitia a adesão de pessoas ligadas ao anterior regime e que, por isso, eram infundadas as acusações feitas ao seu partido.

A discussão prolongou-se por uma boa meia hora. Já não me lembro se houve algum "follow-up" no âmbito militar. Mas a mensagem passou. À distância dos anos, há que reconhecer que a criação do CDS acabou por permitir a organização de um espaço político para enquadramento democrático de uma certa direita. E isso não foi um serviço menos relevante que o CDS prestou à vida política portuguesa. O facto do partido! um ano depois, não ter votado a Constituição emanada da Assembleia Constituinte fixaria claramente a sua identidade no contexto político-partidário futuro. Mas, nesse futuro, o CDS não deixou de evoluir muito, de uma forma que se pode mesmo considerar singular.

Vem-me agora à memória esta cena, que hoje aparecerá quase como surreal, num tempo em que se verifica a assunção pelo CDS de uma força, inédita na sua história de quase quatro décadas como formação política, no seio da governação portuguesa. É também por estes e por outros episódios, que entendo interessante recordar, que melhor se constata o imenso caminho que (todos) percorremos desde esses já longínquos dias.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

União nacional

Vi por aí algumas vozes de esquerda indignadas com o apelo feito pelo primeiro-ministro para uma "união nacional", esquecendo a conotação fascistóide da expressão com o partido único salazarento. A verdade é que o tempo vilarealense do dr. Passos Coelho o poupou à "União Nacional" do sr. Grilo e às delícias jornalístas da sua "Ordem Nova".
 
A mim, confesso, espanta-me bastante mais que a direita não se tenha crispado pelo facto do chefe do governo ter ousado ecoar o apelo de Luíz Carlos Prestes, o lendário chefe dos comunistas brasileiros.

Allan Katz

Na última noite de Santo António, no largo do Chafariz de dentro, dei de caras com Nancy e Allan Katz, os embaixadores americanos que ontem deixaram Lisboa, no termo do seu mandato. Naquela noite, como milhares de lisboetas, comiam sardinhas e divertiam-se, perdidos no meio da multidão. Essa era a sua forma natural de estar entre nós.

Conheci Allan num debate promovido pela FLAD, há já uns anos, em que ambos fomos convidados a falar sobre o "11 de setembro". Conversámos longamente desde então - em Paris, em Lisboa e numa semana em que partilhámos a inesquecível experiência do Douro. Allan ensinou-me a entender melhor a nova América de Obama, nas suas virtualidades e contradições. É um "americano tranquilo", sem a menor arrogância, sem nunca se ter dado ares de representante da hiperpotência, compreensivo e sempre dialogante. Leiam-se as declarações que deixou em alguns órgãos de imprensa para se perceber o excelente diplomata que os americanos nos deram o privilégio de ter por cá nos últimos anos, um grande e atento amigo de Portugal.

A vida diplomática, mais do que outras profissões, é feita de regulares separações. Mas é também um rico espaço para a construção de sólidas amizades. Um forte abraço para vocês, Nancy e Allan! "See you soon"!

domingo, 28 de julho de 2013

Os estagiários

Por muito que me pareça justo dar oportunidades aos "novos", acho abusivo, e uma objetiva falta de respeito por uma Administração pública que se fez "a pulso", estar a colocar em cargos governamentais figuras sem um mínimo de experiência que os recomende para as áreas específicas que vão dirigir, ungidos apenas pela confiança política ganha num gabinete, num qualquer lugar de nomeação/eleição partidária, num banco ou numa consultora amigalhaça. 

A situação é ainda mais absurda se pensarmos que, de há uns tempos para cá, no âmbito do Estado, se segue a regra de sujeitar a concurso público rigoroso a seleção de técnicos para ocuparem certas funções de chefia. Ora parece-me incrível que esses responsáveis, logo de seguida, sejam colocados sob a "orientação" de um meninote qualquer, só porque tem um MBA tirado na estranja ou o cartão partidário em voga no momento. Muitas vezes essas figuras nem sequer têm legitimidade eleitoral ou, em casos em que ela existe, é apenas uma obscura passagem pelo parlamento, depois "legitimada" por presenças palavrosas em debates "prós-e-contras" nas televisões, na blogosfera ou nas colunas com retratinho no canto, onde demonstraram a sua lealdade às lideranças de serviço. Convido os leitores a olharem para alguns currículos e avaliar aquilo que neles resultou de meras escolhas político-ideológicas e compará-los com os de outros políticos, de pessoas oriundas do mundo real, de quem "fez pela vida" e tem uma história profissional a apresentar.

Observando o caso de alguns secretários de Estado - e este governo apenas abusa de uma prática que não é de hoje - verifica-se que estamos perante verdadeiros estágios pagos, à custa do erário público, ainda por cima atribuindo responsabilidades ao mais elevado nível.

sábado, 27 de julho de 2013

O mistério dos Negócios Estrangeiros

Foi em 2011. Na lista da nova equipa governamental para o MNE surgia o nome de uma senhora, de seu nome Vânia, com a categoria de subsecretária de Estado. A casa, sempre à cata da novidade e da raridade de género, ficou curiosa. O título do cargo, muito comum no Estado Novo (que teve muito poucos secretários de Estado e bastantes subsecretários), lembrava, por ali, aquele que fora usado por Ruy Patrício, antes de ser nomeado último ministro "dos Estrangeiros" da ditadura. Passada a Revolução, a designação fora utilizada no MNE (se a memória me não trai) apenas por três vezes, sempre para um não confessado controlo político da administração da casa, por ministros desconfiados ou preguiçosos. Desta vez, com Vânia, nem sequer era esse o caso.

Mas, afinal, quem era Vânia? Que funções iria ter? Como não havia delegação de competências para ler, a interrogação prosseguiu por alguns dias. Até que um colega com responsabilidades institucionais, cumpridor dos formalismos, tentou pedir uma audiência a Vânia para lhe apresentar os seus respeitos. Logo percebeu que a senhora, saída do anonimato centrista da edilidade portuense, jamais aportaria às Necessidades, ficando "na Gomes Teixeira", sede da presidência do Conselho de ministros, a coadjuvar o também ministro de Estado. Era uma espécie de deslocalização e, por isso, uma verdadeira "première" no MNE.

Nunca mais se ouviu falar de Vânia. Ou melhor, soube-se pela imprensa colorida que terá comemorado a sua permanência no governo dando à luz uma criança, o que não é um despiciendo contributo à pobre natalidade pátria. Espero bem que o nosso Protocolo se não tenha esquecido de lhe enviar um gentil ramo de flores. Em nosso nome e da casa em cujos anuários Vânia vai ficar para sempre, como diria Margareth Thatcher, como "one of us".

Um dia, daqui a anos, a historiografia ficará confundida, através da leitura dos diplomas da época, pelo facto de ter existido uma Vânia no quadro oficial da política externa portuguesa. Dela não surgirá um simples despacho, atestando a designação de um chanceler para um consulado, ou uma foto sorridente junto aos candelabros de uma embaixada de charme, ou tão só a assinatura, com o ar compenetrado e a saia-e-casaco de rigor, de um qualquer convénio sobre um tema grave. Vânia vai ser, para os futuros coscuvilheiros da história diplomática, o mistério dos Negócios Estrangeiros.

Uma coisa Vânia talvez não saiba, mas eu vou revelar-lhe: não obstante nunca ter aparecido com frequência no largo do Rilvas, ela não vai ser, dentre os membros do governo que estiveram, até hoje e desde a primeira hora, ao lado do ministro que agora abandona "os Estrangeiros", aquele que deixa menos saudades. E mais não digo, porque as charadas políticas não são de borla e eu ando muito dedicado a elas para entreter os ócios da reforma. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ele aí está!

Ele explicou. Olhar frio, como se falasse de Saturno. Mas era de Portugal que ele falava. As coisas, para ele, eram muito claras. E "simples". Em linhas gerais, o nosso défice tinha três componentes: o serviço da dívida pública (isto é, o pagamento dos juros), os gastos correntes do Estado (em especial, os custos salariais da função pública) e as pensões de reforma. Ele esclareceu: o pagamento dos juros é incontornável, porque disso depende a nossa credibilidade externa; no caso da função pública, há limitações constitucionais para a sua redução e uma frente sindical que faz com que seja bastante elevado o custo político para impor mudanças com impacte quantitativo significativo; restam, assim, as pensões, área em que "forçosamente" terão de incidir os principais cortes. Não pode deixar de ser tido em conta o facto de se tratar de "uma categoria social com fraca capacidade reivindicativa", o que "compreensivelmente" converte os pensionistas no "alvo prioritário natural" para a redução da despesa pública. E ele disse mais. Sobre quão importante seria se pudesse haver mecanismos ("não constrangentes", concedeu) que fizessem com que muitas das pessoas reformadas se convencessem a regressar "à província", de onde grande parte delas é originária, onde o custo de vida é mais baixo e "mais compatível com as novas e mais reduzidas reformas que forçosamente passarão a ter no futuro". Para concluir, ele também disse: "faço parte de uma geração que não tem receio de dizer alto que não está disponível para pagar o preço de ter de sustentar as reformas que o atual sistema criou". Agora, ele aí está!

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Eduardo Fortunato de Almeida

As ocasiões fazem os homens. Um dia de 1968, Mário Soares foi deportado para S. Tomé pela ditadura, já no estertor salazarista. Um jovem oficial do Exército, Eduardo Fortunato de Almeida, em serviço na colónia, procurou o político e afirmou-lhe a sua solidariedade. Mário Soares não esqueceu o gesto e registou-o. Anos mais tarde, na primeira vez que conheci Fortunato de Almeida, expressei-lhe a minha admiração por essa atitude de grande dignidade e algum risco. Falámos algumas vezes, a partir de então, nomeadamente no quadro de iniciativas que envolviam publicações a que esteve ligado.

Já o não via há mais de uma década. Acabo de saber que Eduardo Fortunato de Almeida morreu. Com justiça, das notas necrológicas a seu respeito faz parte o episódio atrás referido. É que certas ocasiões definem um homem.

Papel apanhado do chão

"Este governo, que agora se apresenta remodelado perante os portugueses, tem mais ministros do que antes. Só posso lamentar a opção que fiz, em 2011, ao criar um executivo muito pequeno. Tenho de reconhecer que tinham razão todos quantos, à época, consideravam tal modelo insensato e impraticável. Sou também responsável pela decisão, que hoje constato que teve bastante maus resultados, de criar dois "mega-ministérios", unidades que se verificou não serem geríveis, política e tecnicamente.  Durante estes dois anos, várias outras coisas não correram bem no tocante ao modelo do nosso governo, pelo que entendi ser chegado o momento de as corrigir. Assim, de retorno à lógica tradicional, o Emprego voltou ao lugar de onde nunca devia ter saído, isto é, junto com a Segurança Social e com o Trabalho. Não nego que pode ter havido algo de ideológico nesta nossa opção, mas os factos foram mais fortes e mostraram que ela era profundamente incorreta. Com o tempo, também ficou claro que não foi adequado colocar o Ambiente juntamente com a Agricultura, tal como a Energia no seio da Economia. A nossa inexperiência - porque é disso que se tratou, há que assumi-lo - levou-nos a cometer esses erros, de que agora sinceramente me penitencio perante o país. Uma última nota para a AICEP. Uma má avaliação fez também com que pensássemos que a tutela da diplomacia era o lugar certo para esta agência. Novo erro! Ao final destes dois anos, chegámos à conclusão que o seu lugar natural é sob o "chapéu" da Economia, embora articulada com o MNE, como já antes acontecia. Peço assim perdão aos portugueses pelo facto de ter feito este conjunto de más avaliações, que fizeram perder tempo ao país e afetaram seriamente a capacidade de execução das políticas do governo. Vamos agora tentar corrigir o que fizemos de errado. Mas, repito: uma palavra especial de desculpas é devida a quantos, em especial nos partidos da oposição, mas também em setores da maioria, me alertaram então para a inconveniência de tais decisões. Não lhes dei ouvidos. Fiz mal, reconheço."
  
Um papel com o texto acima publicado caiu há pouco de um automóvel, junto à calçada da Estrela. Parei o meu "Smart" e apanhei-o, movido pela curiosidade. À primeira leitura, fui levado a suspeitar de que se tratava de parte do discurso que o primeiro-ministro iria fazer esta semana, aquando da apresentação do novo governo na Assembleia da República. Mas, no segundo seguinte, pensei melhor: nós estamos em Portugal! Nenhum primeiro-ministro - de direita, centro ou esquerda - confessará, alguma vez, que se enganou. Ou, para usar uma expressão de um antigo chefe do governo, "arrepender-se é errar duas vezes". É isso: estamos em Portugal...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Associações

Embora Dennis Farina, que agora morreu, tivesse uma longa carreira no cinema e na televisão, o meu olhar de distraído e pouco cultivado cinéfilo ligaram-no para sempre à figura do tenente Mike Torello, na série "Crime Story", que fazia as minhas delícias nos idos de 80.

Embora Del Shannon tivesse muitos outros sucessos musicais na sua carreira, a verdade é que, para mim, o seu nome surge sempre associado a um grande tema de culto que é "Runaway", escrito nos anos 60.

Ora a série televisiva "Crime Story" escolheu uma versão do "Runaway" para seu principal tema musical, razão pela qual, sempre que vejo uma foto de Farina/Torello, essa música me vem de imediato à memória.

Ouçam aqui o "Runaway" na versão de apresentação da série ou aqui numa versão mais clássica.

Cargos

Rui Machete, que hoje entrará no governo como ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, assume, com este seu regresso, uma atitude muito rara na política portuguesa: ocupar um lugar inferior a outro já exercido na orgânica institucional do Estado. É que Machete foi já vice primeiro-ministro, num governo do "bloco central". Posso estar enganado (e não tenho à mão meios para confirmar esta ideia), mas iria jurar que, na historia política pós-25 de abril, só Freitas do Amaral passou por uma situação idêntica, quando entrou para o governo socialista, em 2005.

Contrariamente ao que sucede em alguns países, em Portugal raramente se vê alguém "baixar" de posição. Em França, Laurent Fabius e Alain Juppé foram ministros dos Negócios Estrangeiros depois de terem sido primeiros-ministros. Nos governos italianos, Andreotti teve vários cargos ministeriais, depois de chefiar o executivo.

Em Portugal, pelo contrário, só se "sobe". O que torna mais simpática a atitude de Rui Machete, a quem, a título pessoal, envio um abraço de parabéns e votos para que saiba e possa conduzir a bom porto uma "casa" da qual pode sempre esperar grande profissionalismo, uma inexcedível lealdade institucional e um raro espírito de serviço público. Aliás, ele sabe isso bem, porque por lá já passou como secretário de Estado, há muitos anos. 

terça-feira, 23 de julho de 2013

Comentários

Alguns amigos têm-me falado da dificuldade ao colocarem comentários no blogue, falando de um "percurso" complicado, com diversas exigências, em que por vezes se "perdem". 

Eu sou um "nabo" nestas questões informáticas mas julgo poder informar que a maneira mais simples para alguém colocar um comentário é escolher a opção "anónimo" (eventualmente, escolhendo essa opção no quadro "Comentar como"), escrevendo ou não o seu nome no termo do texto, e carregando depois em "Publicar o seu comentário". 

O texto será publicado depois de visualizado pelo proprietário do blogue. Este reserva-se naturalmente o direito de recusar comentários cujo conteúdo possa ser considerado ofensivo (quase sempre mais para terceiros do que para o autor do blogue, como já devem ter percebido) ou que passe pela utilização de um léxico menos próprio. 

Profissionalismo real

A operação mediática em torno do nascimento de um novo príncipe britânico, a exemplo do que ocorreu com o casamento de seus pais ou com o "jubileu" da raínha, está a ser feita com um imenso mas já tradicional profissionalismo. Se o interesse dentro do país é natural, acompanhado do "merchandising" de regra, já a exportação intensa, um pouco por todo o mundo, deste "glamour" acaba por ser muito curiosa, pelo facto de conseguir mobilizar, durante semanas, jornais, revistas e televisões de culturas muito diversas e nada similares à britânica.

O que será que torna a coroa britânica mais apelativa, face aos seus congéneres? Seria muito interessante fazer uma análise deste fenómeno, que leva a que a coroa londrina suplante, a grande distância, qualquer dos seus pares europeus. Ainda há dias, verificámos que a transmissão de poder real na Bélgica, tal como há semanas ocorrera no caso holandês, quase que passou despercebida, tal como o nascimento de um príncipe sueco ou luxemburguês apenas suscita algumas modestas linhas. Dir-se-ia que só as coroas monegasca e espanhola conseguem concitar algum interesse similar, mas sempre a uma imensa distância do caso britânico.

É claro que, nas últimas décadas, quase todas as coroas tiveram de viver, lado a lado com estes fatores simbólicos de sedução, com a revelação de crises familiares que as ensombraram, que vieram a provar (o que já ocorria, mas era um pouco disfarçado) que, afinal, a vida das realezas sofre dos mesmas problemas da do comum dos mortais - com os seus dissídios, traições, divórcios, corrupção e coisas análogas. Essa circunstância, se bem que algo debilitante do caráter "mágico" das coroas, pode contudo ter servido como um fator de aproximação da existência da coroa à vida vulgar de cada um de nós. No caso britânico, o fenómeno Diana trouxe mesmo uma figura com um final trágico a esta saga familiar.

Dito isto, só cabe desejar longa vida ao novo príncipe e, provavelmente, futuro chefe do Reino Unido da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, bem como chefe da Comunidade britânica. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Que há-de ser de mim?

Afeganistão, 2013

"Deixem-nos trabalhar!"

Foto de MFPLCB

... e logo verão!

O Sporting ganhou ontem a Taça de Honra.

"Desassa!"

Lá pela minha terra, por Vila Real, havia em tempos um homem bastante forreta, que era conhecido por aproveitar todas as "borlas" que se lhe ofereciam. Um dia, estava à porta de casa, esperando a hora do jantar. A mulher tinha acabado de ir para a cozinha, dizendo que ia assar uma carne. Entretanto, um amigo passou pela rua e convidou o nosso homem para ir comer uns petiscos lá a casa. Entusiasmado, gritou para a mulher, uma frase que ficou famosa:

- Ermelinda! Desassa!

Ontem, ao ouvir o presidente da República, lembrei-me desta historieta. Porquê? Sei lá!

domingo, 21 de julho de 2013

Uma janela em Belém


O telefone do Rato


Renovação

Leio que Honório Novo, deputado do PCP, vai abandonar as lides parlamentares e ser substituído por uma colega mais jovem, regressando à sua profissão de professor. Os comunistas, mais do que qualquer outro partido, mantêm esta regra de jogar livremente com as unidades do "coletivo", numa leitura muito própria do sistema de representação parlamentar.

De há muito que conheço Honório Novo. Conversámos e divergimos sobre a Europa (mais nesses tempos do que hoje), tivemos mesmo um debate televisivo a dois muito vivo, ao tempo em que ele era parlamentar europeu e eu andava pela vida política. É um homem que estuda muito bem os dossiês, que usa uma argumentação forte, por vezes contundente, mas sempre com um quantum satis de saudável ironia. Sei que deixa uma imagem de seriedade e competência entre os seus colegas. É um amigo que, com pena, mas também com democrática naturalidade, vejo abandonar as bancadas de S. Bento.

Um abraço, caro Honório. Ver-nos-emos um destes dias pelo nosso norte. Quase que se pode dizer que você e o Gaspar passam agora a ter mais tempo um para o outro. Embora alguns portugueses desconheçam que Gaspar é (apenas) o nome do seu gato. 

'The powder room"

Uma cena do filme sobre Margareth Thatcher, na qual, depois de um jantar, as senhoras presentes são convidadas delicadamente a saírem, deixando os cavalheiros sozinhos, a fumar um charuto e a beber alguns álcoois fortes, trouxe-me ontem à memória uma cena passada, há umas décadas, numa embaixada portuguesa num país nórdico.

Tinha sido um jantar em "smoking" e vestido longo, com o qual o novo embaixador quisera ter um gesto elegante de cortesia para com algumas das personalidades locais que o haviam acolhido nesses primeiros meses, desde a sua chegada. 

Tudo correra a preceito e o ambiente, no final do jantar, era distendido e alegre. A primeira ronda de cafés fora servida. Forte da sua experiência em países anglo-saxónicos, o diplomata iniciou o ritual:

- Minhas senhoras, convido-as a passarem ao "living". "And the powder room is over there", - disse, apontando para a porta e na direção da casa de banho das visitas, que o embaixador cuidara em ter bem equipada, com escovas, perfumes e tudo quanto presumia necessário para as senhoras "retocarem" a sua aparência, depois da função gastronómica, enquanto aguardariam que os cavalheiros se lhes juntassem.

Mas estava-se num país nórdico. A maioria das senhoras não tinha a menor intenção de deixar os companheiros numa tertúlia masculina. Algumas, contudo, ainda anuíram por gentileza ao convite e fizeram menção de se levantar, mas outras permaneceram no seu lugar e reagiram de uma forma que desarmou o anfitrião:

- "Powder room"? Nem pensar! Eu vou ficar aqui! E, se o senhor embaixador não se importa, vou beber um cognac!

Uma outra disse mesmo que, pensando bem, lhe estava a apetecer um charuto e um "scotch". Outra, ainda, que vivera uns anos entre nós, pediu um Porto.

Toda a sala sorriu. E quem se havia levantado voltou a sentar-se. O embaixador tomou consciência, nesse instante, que tinha entrado num mundo diferente. E também noutro tempo, no modo como os homens e mulheres se comportam socialmente, de forma mais igualitária. Aquele seria o último jantar em que, por ali, as senhoras seria convidadas, no fim de um jantar, a passar pelo "powder room"...

sábado, 20 de julho de 2013

Livros

Distraído com outras coisas, dou-me hoje conta que a "Sá da Costa", a histórica livraria do Chiado, vai fechar nas próximas horas. Sinto-me especialmente triste pelo facto? Nem por isso, exceto na medida em que o encerramento de uma livraria é sempre uma machadada no património cultural.

Recordo, bem jovem, entrar naquele ambiente escuro e sentir, com alguma incomodidade, as conversas da tertúlia idosa que abancava no local suspenderem-se com o surgimento do intruso. Por alguns anos, a "Sá da Costa" intimidava-me, criava-me um certo desconforto, o que me levava a ser um visitante esporádico. Em certas alturas, tinha a sensação de que faziam um favor ao venderem-me algum livro. Nos últimos tempos, sentia, por vezes, alguma curiosidade em entrar naquele espaço decadente apenas para apreciar a estranha mescla de volumes que compunha as mesas laterais de entrada: "best sellers" misturados com obscuras edições de autor, estudos microscópicos sobre temáticas raras junto a volumes para turistas, prolongando a especiosa escolha que era feita nas duas montras. 

Nunca percebi a "Sá da Costa", a sua lógica e a sua filosofia. Reconheço que o defeito deve ser meu. E deve ser o mesmo que fez com que não tivesse sentido muito o fim da vizinha "Diário de Notícias" ou da "Portugal". Ou que me faz ser algo "neutral" face à "Bertrand", que apenas reconheço fazer parte da identidade da zona, hoje transformada numa espécie de Algarve lisboeta. Por mim, guardo saudades livreiras do Chiado apenas para a "Moraes" e para a "Opinião".

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Equação

1. O ministro de Estado e das Finanças demite-se.
2. O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros demite-se.
3. Os mercados internacionais reagem muito mal à crise no seio do governo.
4. O primeiro-ministro anuncia ao país que a crise no governo foi superada e que propõe ao presidente da República uma remodelação do executivo.
5. O presidente ignora a proposta de remodelação e pede que os partidos do governo, com o principal partido da oposição, o Partido Socialista, procurem um entendimento programático.
6. O Partido Socialista aceita dialogar com os partidos do governo.
7. Os partidos encontram-se durante uma semana, anunciando, no final, que não foi possível chegarem a um acordo.
8. A culpa da crise de governabilidade em que o país fica é do Partido Socialista.

Fácil e claro, não é?

Algarve

Para o imaginário português (e não só), Algarve em julho (e agosto) é sinónimo de férias.

Há exceções. Eu fui uma delas. Por pouco mais de 24 horas, estive no Algarve, mas em trabalho. Com um tempo fabuloso, lá vi o mar. Mas ao longe.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

FHC

Fernando Henrique Cardoso, que por dois mandatos foi presidente do Brasil, abrindo depois caminho ao presidente Lula, esteve alguns dias em Lisboa. Muito respeitado internacionalmente, é uma personalidade que honra o seu país, em cuja história democrática tem um lugar destacado. Tive o gosto de o encontrar, em excelente forma e bem disposto, no passado fim de semana, durante um almoço de amigos.

Ser uma figura pública tem, por vezes, o condão de proporcionar episódios curiosos. FHC, como é conhecido no Brasil, contou-nos duas histórias deliciosas.

A primeira foi passada numa rua de uma capital sul-americana, onde se deslocara, vários anos decorridos após a sua saída de funções. 

Um casal, ainda jovem, olhava para ele fixamente. Tinham ar de turistas, pelo que deduziu que fossem brasileiros. Não se enganou, ao ouvir o cavalheiro dirigir-se-lhe em português:

- Eu conheço-o! Deixe-me ver...

O presidente estava divertido com a hesitação dos seus compatriotas. Foi então que a senhora se decidiu:

- Já sei! O senhor trabalha na "Globo"! Não é isso?

- Trabalhava! Agora já não apareço mais na "Globo". O meu contrato acabou...

A segunda historieta é mais recente. Passou-se num elevador onde FHC seguia. Entram duas senhoras. Ambas o fitam. Uma delas, após alguma hesitação, pergunta:

- Desculpe! Não é o Fernando Henrique Cardoso?

O antigo presidente decidiu brincar um pouco:

- Não, esse é o meu irmão...

Ao que outra comentou:

- Pois é! O senhor é bem mais velho que ele!

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O MES ainda anda por aí?

Foi um partido cheio de ambições. (Alguns não perceberão, outros não concordarão, muitos sabem "onde eu quero chegar" quando afirmo que as suas mais importantes ambições foram realizadas). Criado em 1974, dissolveu-se, "na boa", em 1981. Com uma jantarada, como deve ser!

Por ele passaram um presidente da República, vários ministros, um líder da oposição, muitos secretários de Estado e outros políticos, reitores e professores universitários, altos magistrados, embaixadores e várias figuras com saliência na sociedade portuguesa contemporânea.

Lembrei-me ontem do MES, ao ver Alberto Martins como negociador do "acordo de salvação nacional", exercício a cujas conversações assiste, em representação de Belém, David Justino. Para quem não saiba, ambos foram antigos militantes do MES.

Isto não quer dizer nada? Talvez não, mas não deixa de ter alguma graça.

Uma outra esquerda

A democracia portuguesa tem alguns fenómenos curiosos.

Um deles, bem conhecido, é o Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV), uma formação na qual nunca ninguém votou diretamente em qualquer eleição, porquanto aparece sempre incluída numa "frente", que em tempos já se chamou APU e que agora se designa por CDU, onde o PCP é, sem surpresas, o partido dominante. O aproveitamento constitucional de uma "quota" de representação política, que permite a criação de um outro grupo parlamentar, duplica assim os tempos de palavra e, como agora se vê, garante que, no âmbito da mesma CDU, possam ser suscitadas duas moções de censura. Durante muitos anos, o PEV tinha como face mais visível a minha amiga Isabel de Castro. De há já algum tempo para cá, é a inconfundível voz de Heloísa Apolónia que passou a fazer parte do património sonoro do nosso parlamento.

A mais enigmática formação neste âmbito é, porém, a "Intervenção Democrática", uma estrutura política cuja visibilidade e atividade quotidiana mereceria, estou certo, ser estudada numa tese de doutoramento. Desde sempre dirigida por um homem simpático, com quem tenho uma relação bem cordial, Corregedor da Fonseca, surgiu como que uma espécie de herdeiro do MDP-CDE, esse "alter ego" ou "compagnon de route" dos comunistas, que chegou a ganhar um lugar na história político-partidária portuguesa. Até 1988, a ID (é esta a sigla de uma formação a cujos comícios os portugueses nunca terão o privilégio de assistir) teve um grupo parlamentar e tudo. Desde então, surge apenas sazonalmente, numa espécie de "troika" com o PCP e o PEV no seio da CDU, criando a ideia de que forma uma aliança política, de incidência eleitoral, fruto da laboriosa conjugação dos três programas.

Se estas três organizações - PCP, PEV, ID - se mantêm independentes, uma lógica de razoabilidade deve levar-nos a pensar que têm doutrinas e programas próprios, os quais, tendo necessariamente pontos comuns que justificam a permanência da "aliança", também têm, com certeza, divergências que justificam a sua existência autónoma. Ora esse é, para mim, o grande mistério. Em que pontos se afastam? Qual a sua idiosincrasia própria? Que conflitos ideológicos alimenta a ID com o PC? Em que se opõe o PEV ao PCP? Que temáticas dividem "Os Verdes" da ID?

Estas são dúvidas com que vivo há anos. Serão bem-vindos comentários que me ajudem a atenuá-la. 

terça-feira, 16 de julho de 2013

"Gazeta da Selvagem Pequena"

"Há quem tenha a ilusão de que o presidente da República pode impor aos partidos, contra a vontade destes, a sua participação em governos de coligação, por vezes apelidados de salvação nacional".

Aníbal Cavaco Silva, in "Roteiros", vol VI, 2011/12, pag. 22

Os pretos

Na minha infância, em Vila Real, praticamente só havia brancos. O primeiro preto que recordo ter aparecido na cidade foi o Ângelo, um jogador de futebol, depois reconvertido em massagista, que por lá ilustrava a "diferença". Era um homem encantador e educado, que conquistava pelo seu trato humano. Casou com uma senhora branca e, lembro-me bem, isso provocou localmente alguns comentários de desaprovação.

(Por que razão ele escreve "preto" e não "negro"?)

A imagem que, à época, a minha geração cultivava dos pretos era mais de estranheza do que hostilidade. Verdade seja que os livros e as coleções de cromos sobre as raças humanas, então muito populares, mostravam-nos esses outros mundos bizarros e apenas estimulavam uma certa curiosidade antropológica. Os pretos do "Tintin no Congo" não eram muito diferentes, no seu exotismo, do "preto da Casa Africana", que fazia sorrir os passantes. O preto que nos era dado por essas imagens era uma espécie de criança grande, parada no seu tempo mental. Não havia racismo em Portugal? Pois, pois...

(E ele insiste! Escreve "pretos"...)

Depois de 1961, no nosso imaginário juvenil, fomos estimulados  a identificar os pretos com os "terroristas". Para quem hoje não saiba ou possa ter esquecido, lembro que os "terroristas" eram os pretos que "atentavam contra a soberania portuguesa no Ultramar". O facto dos primeiros ataques da UPA (União dos Povos Angolanos), antecessora da FNLA, terem dizimado, de forma particularmente bárbara, muitos civis angolanos (e, para nossa surpresa, também muitos pretos, ditos "fiéis" aos portugueses, isto é, aos brancos), tornou vulgar na comunicação social de então o conceito de "terroristas", logo, de forma simplificada, apodados de "turras". No ambiente jingoísta da época, um preto era um "turra".

(Pior! Agora fala de "pretos" e de "turras"...)

Para dar mostras de abertura, o regime ditatorial português promovia os seus pretos de estimação. Para além do futebol, onde o "4-2-4" era um espaço de convivência inter-étnica que mostrava ao mundo como sabíamos integrar com sucesso o pé-de-obra colonial, a ditadura mostrava alguns dos "seus" pretos, que apresentava ao mundo como a prova provada da abertura do Portugal-do-Minho-a-Timor e da nossa ímpar capacidade de convivência inter-étnica.

Uma dessas caras foi Pinheiro da Silva, que, creio, foi secretário provincial de Educação de Angola e morreu há muito pouco tempo. O que o regime não permitiu que se soubesse através da imprensa, porque não ia bem com a história que pretendia propagar, é o episódio em que o deputado salazarista Júlio Evangelista insultou publicamente Pinheiro da Silva e, perante a reação deste, que se preparava para vingar fisicamente a humilhação, lhe atirou à cara: "Alto aí! Preto não bate em branco!"

(Que história sórdida! Mas, se calhar, é verdadeira!)

Mas a que propósito vem isto hoje, perguntará o leitor? É muito simples: surge a propósito da afirmação de um senador italiano que ontem decidiu qualificar de "orangotango" uma ministra do seu país.

O mundo evoluiu muito. A mesma América que, há escassas décadas, impedia a entrada de pretos em certos autocarros, elegeu Obama. A África do Sul, que não permitia senão a brancos que se sentassem em certos bancos de jardim, revelou Mandela como uma figura ímpar no seu humanismo. E, no entanto, neste século XXI, continuam a subsistir e a ser eleitos atrasados mentais como o tal senador italiano. E a revelarem-se diariamente, no anonimato cobarde dos comentaristas nos "sites", um racismo e uma xenofobia larvares, que mostram que há um Portugal desconhecido (ou menos conhecido) que espera por nós, ao virar da esquina do populismo.

Porque razão utilizei a palavra "preto" e não "negro"? Porque há muito que me convenci que uma postura anti-racista não se demonstra pelo léxico que se utiliza, por muito que alguns puristas nos queiram convencer do contrário. Eu digo, indiferentemente, preto ou negro e desafio quem quer que seja a inculpar-me do menor racismo nas minhas ações. Tenho amigos pretos, ou negros, se quiserem, e a sua cor é uma coisa que só os outros me lembram. A tolerância e a capacidade de convivência com a diferença é uma atitude de vida, de respeito pelos outros e, muito em especial, de orgulho em fazermos parte de um país que, no plano internacional, é hoje distinguido pelas suas políticas de integração das comunidades imigrantes (sabiam?). E onde, contrariamente a outras sociedades mais desenvolvidas, nunca se ouviu um eleito nacional assumir publicamente palavras tão torpes como as do triste senador italiano.

Termino com uma nota menos pesada.  

Sobre a questão do "preto" e do "politicamente correto" (para além do que um dia já referi aqui), recordo uma pessoa que, nos seus primeiros tempos do Brasil, foi um dia apanhada a dizer "Ouro Negro", porque temia que, ao falar em Ouro Preto, estivesse a pisar alguma linha vermelha (ou "encarnada", como o salazarismo subtilmente recomendava e um certo ridículo social lisboeta teima em querer impor).

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Comidas

A delegação portuguesa, chefiada por um jovem governante que, pela primeira vez, se deslocava a Bruxelas, saía do edifício comunitário e encaminhava-se já para os carros quando o mais graduado dos técnicos presentes se aproximou do político e lhe sugeriu:

- Não alinha em comer uma "moules"? Conheço um sítio excelente, onde as há magníficas!

O governante (que nada tinha a ver com os Negócios Estrangeiros, note-se), um pouco embaraçado, respondeu:

- Sinto-me tentado! Mas o que é que fazemos com a nossas mulheres?...

Com maior ou menor rigor, garanto a veracidade desta história.

domingo, 14 de julho de 2013

Ainda a "salvação nacional"

O conceito de "salvação nacional", há dias invocado pelo presidente da República, remete, na memória da minha geração, para a "Junta de Salvação Nacional", criada na tarde de 25 de abril de 1974 e que viria a sobreviver até à criação do Conselho da Revolução, na sequência dos acontecimentos de 11 de março de 1975. 

Quem conhece melhor esse período sabe que a Junta deixou, na prática, de funcionar como tal após o chamado "golpe" de 28 de setembro de 1974. Embora alargada na sua composição na sequência desses acontecimentos (Nuno Fisher Lopes Pires, que ontem foi a enterrar, integrou-a a partir de então), julgo que não reunia regularmente nessa sua nova composição, passando a trabalhar sob o formato do chamado "Conselho dos Vinte", que incluía os chefes dos três ramos e outras figuras do MFA. Na noite de 11 de março de 1975, quando um grupo de militares, do qual eu fazia parte, se deslocou ao Palácio de Belém para interpelar os poderes militares aí reunidos sob a presidência de Costa Gomes e reclamar a realização de uma Assembleia "ad hoc" do MFA para essa mesma noite, foi o "Conselho dos Vinte" que por lá encontrámos.

A minha "relação" pessoal com a Junta começou bastante cedo, na noite de 25 de abril, quando, como Aspirante, fiz parte do grupo de militares que recebeu os membros Junta à entrada da RTP, na alameda das Linhas de Torres, que a minha unidade tinha ocupado na madrugada desse mesmo dia. Os carros que vinham do "posto de comando do MFA", na Pontinha, que traziam os membros da recém-criada Junta, pararam junto ao acesso à rampa que dava acesso aos estúdios, ao lado de uma bomba de gasolina que por ali havia. Atrás de Spínola, surgiram então umas fardas e alguns civis. Esse grupo começou a subir a rampa mas, porque tememos que alguém se aproveitasse da confusão para ter também acesso à RTP, tomámos a decisão de identificar cada um dos civis - já que quanto àqueles que estavam fardados a questão se não colocava. Recordo-me de, com a minha pequena metralhadora FBP, ter travado o passo a algumas dessas figuras. Uma delas, um homem de fato escuro e ar sorridente, identificou-se: "Eu sou o coronel Galvão de Melo, membro da Junta de Salvação Nacional". Não fazia a menor ideia sobre quem constituía a Junta, salvo Spínola e Costa Gomes. E, atrapalhado, lá deixei passar Galvão de Melo (na histórica foto de Alfredo Cunha, à direita), um dos dois membros da Junta oriundos da Força Aérea (o outro membro, Diogo Neto, estava em Moçambique).

Por razões que não vêm para o caso, em meados do mês de agosto seguinte, eu tive de ir procurar o então major Costa Neves, chefe de gabinete  de Galvão de Melo, que estava de visita à penitenciária de Lisboa, onde, na véspera, tinha terminado um motim dos agentes da "Direção Geral de Segurança", o nome que o marcelismo tinha dado à PIDE, e que aí se encontravam detidos. Eu era então membro da "Comissão de Extinção da ex-PIDE/DGS e LP". Costa Neves ouviu o que eu tinha para lhe dizer e, a certa altura, perguntou-me: "Você é do Exército, não é?". Eu ia "à civil". Respondi que sim. A ordem foi imediata: "Então, fica, desde já, nomeado representante do Exército na Comissão de Inquérito sobre o motim dos pides. Sou eu que presido, há um representante da Marinha e você fica relator. Espero que saiba escrever...". Expliquei que tinha uma "guia de marcha" para me apresentar na prisão de Caxias, onde iria trabalhar nos arquivos da polícia política. Costa Neves não hesitou: "Não se preocupe com isso. Eu requisito-o. A partir de agora, fica a trabalhar comigo". E, logo nessa tarde, fui nomeado "assessor da Junta de Salvação Nacional", no gabinete do então já graduado general Galvão de Melo, que tinha precisamente na sua tutela a "Comissão de Extinção" - nada mais nada menos, a pessoa a quem eu tinha criado momentâneas dificuldades na entrada na RTP, na noite de 25 de abril. E por ali fiquei, até à demissão de Spínola e outros membros da Junta, entre os quais Galvão de Melo.

A Junta de Salvação Nacional funcionava no palácio da Cova da Moura, perto da Avenida Infante Santo. Algumas décadas depois, como acontece até hoje, o edifício passou a acolher a Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus. Que eu viria a dirigir, entre 1995 e 2001. De facto, o mundo é pequeno...

sábado, 13 de julho de 2013

Campanhas eleitorais

Desde há anos que a "inteligência" portuguesa, na área política e mediática, se refere à irracionalidade do extenso calendário necessário para a realização de qualquer ato eleitoral, muitas vezes sublinhando, como exemplo a seguir, a "sabedoria" de um sistema como o britânico, onde um processo destes se resolve em escassas semanas. Como principal desvantagem do nosso atual modelo, assinala-se a paralisia da vida política e a indecisão que isso induz no país, com efeitos sensíveis no processo económico.

Se se falar individualmente com qualquer deputado do PSD, do PS ou do CDS-PP (tenho menos certezas no que toca ao PCP ou ao BE), quase que posso assegurar que uma maioria esmagadora coincidirá com a ideia de que o tempo que medeia entre o anúncio da dissolução da Assembleia da República e a entrada efetiva em funções de um governo saído de um ato eleitoral é mais do que absurda, fruto de um formalismo de outros tempos. Aliás, há dias, todos ouvimos o presidente da República referir-se a isto, na sua comunicação ao país.

Mas então, se assim é, e se esses deputados são bem mais do que suficientes para encetar e concluir um rápido processo de revisão pontual da Constituição que arrume com o assunto, por que é que ninguém toma a iniciativa de propor uma solução? E, já agora, por que razão o senhor presidente, que deu mostras de estar atento ao problema, não aproveita o ensejo e estimula o nosso parlamento a ultrapassar rapidamente esta situação? 

Estes são os grandes mistérios da nossa classe política!

Nuno Fisher Lopes Pires (1930-2013)

O 25 de abril teve também os seus heróis discretos. Nuno Fisher Lopes Pires, que hoje desaparece, foi um deles. Tenente-coronel do Exército num movimento onde abundavam os capitães, esteve na conspiração desde as primeiras horas e fez parte de quantos, na Pontinha, dirigiram as operações militares.

Conheci-o mal, trocámos apenas breves palavras nesses corredores dos tempos revolucionários, mas recordo-lhe a postura serena, o cachimbo reflexivo e a saudável ausência de ambição ou desejo de protagonismo. É um dos homens a quem, no seu silêncio, devemos a nossa liberdade.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Secreto

Mão amiga, atenta ao meu último post, fez-me chegar a tradução de um telegrama há minutos enviado pelo embaixador da Bordúria em Portugal, dirigido às suas autoridades em Szohôd. Estou em crer que os leitores deste blogue não deixarão de compartilhar a discrição que me foi pedida na sua divulgação:

"De: Embaixada em Lisboa
 Para: Ministério das Relações Exteriores
 cc: nossa Embaixada em Washington

Guardo em minha posse a carta, chegada nesta mala diplomática, destinada ao chefe da diplomacia portuguesa, na qual Vexa transmitia ao seu homólogo o gosto que tinha tido em com ele trabalhar nos últimos dois anos, recordando, muito em especial, o entusiástico apoio que tem vindo a ser concedido por Lisboa à nossa pretensão de adesão à União Europeia, à NATO, à OMC e à UEFA. Um dia, com certeza, ocasião surgirá para poder entregar essa missiva de despedida.

Contrariamente ao que eu adiantara no meu 23, informação pela qual muito me penitencio, afinal acabou por não ter lugar aqui a anunciada remodelação governativa. (Fica assim sem efeito quanto eu pedira para ser transmitido, com urgência, à nossa embaixada em Washington.) Vexa perdoar-me-á o lapso cometido, mas fui induzido ao equívoco por uma comunicação ao país feita, no passado sábado, pelo chefe deste executivo, que tinha a seu lado o líder do segundo partido da coligação.  Reconheço agora que não o deveria ter feito, porque, ao que tudo indica, deixou aqui de aplicar-se a máxima do antigo ditador Oliveira Salazar segundo a qual "em política, o que parece é".

Neste país, que hoje reconheço que tem muito mais de balcânico do que nós, as aparências não só iludem como frequentemente desiludem. Hoje, durante a manhã, num debate sobre o "estado da Nação", o chefe do executivo foi muito elucidativo, ao dizer que "o que aconteceu não devia ter acontecido, mas aconteceu". Veio-me à memória, nesta ocasião, a discussão teológica que, em tempos medievais, se processava em torno da questão sobre se Deus teria o poder de fazer deixar de acontecer o que já tinha acontecido. Depois de anteontem ter ouvido com atenção o chefe de Estado deste estimável país que tão generosamente me acolhe no seu seio, fico com a sensação que tal debate ainda se prolonga por aqui.

a) Kûrvi-Tasch"
     

Diplomacias

"E agora, como vai ser?" É uma sensação curiosa estar do "lado de cá", quando os embaixadores estrangeiros nos colocam esta questão, entre divertidos - não é o país deles... - e intrigados, perante a complexidade da situação política portuguesa.

Ontem, com esta ou outra formulação, a pergunta foi-me posta, bem mais de uma dezena de vezes, em duas ocasiões da "saison" diplomática lisboeta. A minha resposta foi, quase sempre, um modelo mais ou menos elaborado de um simples "sei lá!", seguido de uma tentativa de previsão da atitude dos protagonistas relevantes desta novela - que há dias parecia de tons brasileiros mas que, nas últimas horas, mostra tonalidades mais mexicanas. 

Da parte desses diplomatas sinto uma genuina perplexidade e interesse, desde logo porque sabem que as ocasiões de crise política são das poucas em que podem ter a certeza de que alguém lê, nas respetivas chancelarias, aquilo que escrevem de Lisboa - essa capital ensolarada e cálida para onde os enviaram, num país ameno e de sorriso triste que, à beira de um flagrante precipício, se dá ao luxo bizarro de fazer piruetas institucionais e se entretem em jogos de gestão do que resta do poder caseiro de decisão. 

Às vezes, desses amáveis interlocutores estrangeiros, pressinto uma interrogação sobre se haverá por aqui a consciência de estarmos a "brincar com o fogo", ao observarem alguns a não conseguirem escapar ao compulsivo e absorvente tropismo de trabalhar para a mera salvação dos seus lugares no pé-de-página da história da paróquia.

Saio sempre pouco alegre destas conversas. Depois, para me auto-sossegar, penso, cá para comigo, que, também eles, esses diplomatas estrangeiros, têm, lá por casa, questões tanto ou mais graves que as nossas. Mas logo caio em mim: com os problemas dos outros posso eu bem...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O novo verão quente

Ontem, ao atentar na surpreendente evolução da situação política interna, senti-me como que regressado aos tempos depois de abril.

Aí temos um apelo à "Salvação Nacional", um conceito de sentido trágico que acarreta um subliminar tom de "finis patriae", de arrebanhar do que resta de quem seja capaz de "deitar uma mão a isto", um tempo que, além da obrigatória esperança, traz consigo a ideia dos homens providenciais (os medievos "homens bons"), iluminados pela autoridade que, pelos vistos, ainda projetam. 

Uma dúvida, porém, me assaltou: se a crispação na vida político-partidária é um dos fatores que aconselha a não realização de eleições a 29 de setembro (caramba, por pouco era quase o 28 de setembro!) então ela já se diluirá, pelos vistos com bastante mais facilidade, no pretendido processo de consensualização de uma nova plataforma partidária "a três"? Não estou a ver bem como é que isso se fará, mas admito que possa ser das minhas lentes.

Também muito interessante é o caso do ex-futuro do governo, que ontem vinha já desenhado por toda a imprensa, fruto de um recalibrar dos partidos e das figuras, que todos criam já abençoado por Belém. Ou muito me engano, ou acaba de criar-se, para a nossa pequena história política, um novo "governo Fabião", aquela formação de executivo que, em 1975, foi pré-desenhada à exaustão por quantos não aceitavam ter de optar entre a febre gonçalvista e as propostas "burguesas" que acabaram de servir de matriz ao VI governo provisório. Não quero ser irónico para os meus amigos do CDS, mas não consigo evitar que me escape algum sorriso. Aconteceu-lhes como ao Otelo: o cavalo do poder passou-lhes ao lado. Ou, como diria Mário Mesquita, perante outras desilusões desses tempos, "Deus não dorme".

Deixo-os com as palavras desse excelente poeta que é Vitor Nogueira, com as quais ontem fechei o meu "zapping" do dia. Ele falava do totobola, mas também dá para outros jogos de sorte:

Diz-se que há sempre uma hipótese.
É assim que o sistema funciona. Mas
para onde foge o tempo?
Para onde vai tanta força?

Restos de grandes fogueiras.
É para isso que as pessoas vivem.

Do Estado

O lançamento de "Ideologia e Razão de Estado - uma história do Poder", um novo livro da autoria de Jaime Nogueira Pinto, juntou ontem no Centro Cultural de Belém algumas dezenas de seus amigos e admiradores. Por ali encontrei figuras de setores políticos muito diversos, embora, com naturalidade, com uma maioritária presença da área conservadora, de onde o autor é oriundo e onde ainda hoje permanece, curiosamente num registo singular e independente. 

O livro, com mais de 1000 páginas, foi objeto de uma brilhante apresentação feita por Jaime Gama, o qual, com erudição e um magnífico sentido de observação política, contextualizou a obra no percurso de escrita e maturação intelectual do autor. 

Ao ouvir Gama, dei comigo a pensar se pode ser considerado natural que o país prescinda, nos dias de hoje, do contributo ativo de uma figura da sua craveira. Sendo o mais bem preparado político da nossa geração, com um elevado sentido de Estado, uma rara experiência política nacional e internacional, um reconhecido equilíbrio e uma inteligência culta, bem distante da vulgaridade, creio ser muito injusto para o país que Jaime Gama permaneça afastado da vida política ativa, mesmo se isso corresponde a uma sua legítima opção pessoal. Entendo que há momentos em que esse tipo de opção tem de ceder o passo a imperativos de interesse nacional. E, cada vez mais, verifico que não sou só eu a pensar assim.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Notícias da crise

Até há minutos, eu pensava que a crise política que tem andado por aí havia sido criada pelo surgimento de uma conflitualidade no seio da maioria governativa, provocada pela demissão sucessiva de dois ministros-chave, fruto de profundas divergências de natureza política, o que havia conduzido a uma reavaliação do próprio equilíbrio interpartidário dentro dessa maioria.

Isso era o que eu pensava. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Política externa e política europeia

Há muito quem pense que, nos dias que correm, a política europeia já não é uma matéria do âmbito exclusivo dos Negócios Estrangeiros, tantas são as implicações sectoriais daquilo que é decidido em Bruxelas sobre diversas dimensões da vida governativa. Uma coisa, porém, foi sempre evidente: a posição portuguesa sobre as grandes questões de formatação institucional europeia nunca deixou de ser preparada e coordenada pelo MNE, sob a natural tutela do primeiro ministro. E talvez não seja por acaso que sempre existiu, sob a alçada do chefe da diplomacia, um membro do governo formalmente encarregado do pelouro europeu.

Presumo que o facto da política europeia estar hoje "obcecada" pelas negociações económico-financeiras tenha conduzido ao estranho silêncio que, nos últimos anos, paira sobre a posição portuguesa nos temas centrais da reorganização do projeto integrador. Benevolamente, quero crer que seja essa a razão. Durante algum tempo, o ministro dos Negócios Estrangeiros esteve associado a uma reflexão, organizada em conjunto com alguns dos seus pares, sobre o futuro da Europa. Mas não se viu o governo português subscrever essas posições, pelo que ficámos sem saber se o resultado desse exercício - um texto que mereceria um interessante debate - correspondeu a uma linha programática em que Lisboa se reveria. E, o que não é menos importante, desconhece-se a posição que a diplomacia portuguesa deve hoje defender neste âmbito. Lamento ter de constatar isto, mas é pura verdade.

Há semanas, ficou a sensação de que o novo ministro do Desenvolvimento regional, uma personalidade com comprovado conhecimento das temáticas europeias, iria propor uma linha de orientação na matéria. Da declaração do primeiro-ministro, no sábado, perpassou também a ideia de que algo iria surgir neste domínio, eventualmente no eixo programático da nova aliança que se corporiza em termos do executivo. 

Só nos podemos felicitar que isso aconteça. Porém, aproveitaria para lembrar duas coisas.

A primeira é o facto de ao MNE competir dar coerência àquilo que vier a ser proposto, nomeadamente em consonância com a tradição da política europeia de Portugal. Estou certo que o próximo ministro dos Negócios Estrangeiros não deixará de recordar, no seio do governo, esta preeminência das Necessidades na matéria. E de utilizar a massa crítica aí existente para propor as orientações necessárias.

A segunda questão, que também creio importante recordar, é o facto das grandes opções em matéria de política europeia não serem, historicamente no nosso país, simples tarefa de um governo. Há uma tradição fundada no tempo democrático de procurar, a este particular respeito, consensos muito mais alargados dentro do espetro político, muito para além de qualquer conjuntural suporte partidário das soluções de governo. Sei do que falo. Tenho assim esperanças que a compreensível tentativa em encontrar substância programática ao entendimento dos dois atores partidários atuantes na cena governativa, nomeadamente com vista às eleições europeias, lhes não faça esquecer que, em matéria externa e europeia, há mais Portugal político-partidário para além daquilo que este governo representa. Quero crer que o senhor presidente da República não deixará de lhes manter isso presente.

Comidas (1)

O aproximar do período de férias aconselha a opção por alguns apontamentos de cariz mais lúdico. Este blogue não escapa a essa regra, pelo que convido os leitores a uma visita à "casa ao lado", ao Ponto Come, onde poderão ter informação sobre o modo como o autor deste blogue olha para os restaurantes lisboetas. 

É uma "conversa" pouco adequada para os tempos de crise? Será! Mas se deixarmos de frequentar restaurantes, pior ficarão as coisas, do lado do emprego e do investimento.

Por isso, quem puder, inspire-se aqui.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Em boas mãos

Era já tarde. O meu encontro com o ministro Vitor Gaspar estava aprazado para minutos depois. Na rádio, eu ouvira que o governante tinha terminado, há pouco, um debate importante no parlamento. Mas uma certeza eu tinha: o ministro não chegaria atrasado à conversa que tinha combinado com o embaixador em França que eu então era, nesse ano de 2012. Vitor Gaspar não chega atrasado aos encontros.

Entrei com o meu carro no pátio interior do Ministério. Um GNR levou-me por um corredor até à base de uma grande escadaria.

Nesse instante, dei-me conta de que nunca tinha ido ao Ministério das Finanças, nem nos cinco anos e tal que passara no governo, nem em qualquer outra ocasião, numa visita de uma personalidade estrangeira ou a uma posse.

Olhei aquela escada larga diante de mim e interroguei-me se seria por ela que Salazar subia. Provavelmente não. As portas dos ministros são quase sempre outras.

Na base da escada estava uma secretária, com uma senhora sentada. No topo da mesa, uma criança, seguramente filha da senhora, fazia os seus "deveres". Expliquei ao que vinha. Eram 19.25. Ela tinha anotado que o senhor ministro me receberia às 19.30. Gentilmente, disse-me que me acompanharia, escada acima, para me encaminhar ao gabinete, onde uma adjunta me aguardava. Foi então que, voltando-se para a criança, que teria aí uns 11 ou 12 anos, lhe disse:

- Olha! Tu ficas aqui, a guardar isto, enquanto eu vou lá em cima levar este senhor, está bem?

A criança disse que sim com a cabeça. As Finanças ficavam em boas mãos.  

domingo, 7 de julho de 2013

Fim de semana inglesa?

A mais recente crise governativa ter-se-á resolvido ontem. Os dois partidos, no sábado, apresentaram ao presidente da República um novo arranjo bilateral, com incidência na composição do executivo, que, com toda a verosimilhança, corresponde ás exigências do chefe de Estado.

Desde há dias, não se tem ouvido outra coisa: é preciso andar rápido, é necessário aquietar os mercados, evitar que, na abertura das bolsas, os "spreads" da dívida pública se agravem. Sendo assim, agora que a "solução" está encontrada, parece que seria importante passá-la à inquieta opinião pública internacional.

Ora, perante tudo isso, o que vemos? O presidente da República recebe, na 2a feira, os partidos. E, só depois disso, em data a anunciar, dá posse ao recauchutado executivo.

Estive a ler a Constituição. Nada na lei obriga, nem qualquer prática consuetudinária aponta nesse sentido, que as forças partidárias tenham, num contexto como este, de ser ouvidas pelo Presidente. Mas, mesmo que assim fosse entendido por desejável, não podia isso ser feito neste domingo? Os dirigentes do PCP estão, porventura, (ainda) a banhos em Sochi? Os Verdes foram arejar para o Meco? O Bloco foi de farnel para a Cova do Vapor? O PS está a trabalhar para o bronze na praia das Maçãs? O senhor Presidente rumou aos Algarves? Parece que sim, dá ideia que entraram todos de "fim-de-semana inglesa".

Então, sendo tudo atrasado, o que veremos nos telejornais da semana que aí vem? O CDS e o PSD irão a Belém, com as habituais figuras de segunda linha, para ganharem os tempos televisivos de antena, onde dirão as "rassurantes" banalidades do costume? E será mesmo essencial dar uma enésima oportunidade aos partidos da oposição, antes da sua saída para o Pátio dos Bichos, para reclamarem eleições antecipadas? Pronto! Já se sabe que as querem mas que o presidente não lhes faz a vontade. E se passássemos à frente e perguntássemos ao "novo" governo o que nos traz agora de diferente daquilo que, na semana passada, não nos podia apresentar? 

Voltando à "vaca fria": por que diabo os novos ministros não tomaram posse neste domingo? Então era tudo tão urgente e agora já não há nenhuma pressa? Já não percebo nada...

sábado, 6 de julho de 2013

Tudo bem!

Será que o povo português não tem direito a saber o que se passou, as razões de fundo da (suposta?) crise e qual a lógica subjacente às soluções encontradas? Porque é que o que não estava bem passou agora a estar bem? Teremos de ficar à espera dos oráculos mediáticos para nos ajudarem na interpretação do "body language"? 

De Lassa, com muita graça

Até ver, a vida não dá para ler tudo quanto queremos. Mas dá, pelo menos, para ler quanto vale a pena. Por isso, não perca o que o "Tim Tim no Tibete" aqui publica.

Gloriosa esperança

Jesus profetiza que Benfica está próximo da "hegemonia do futebol português".

Felizes quantos são tocados pela fé. No meu caso, como humilde sportinguista, modestizo-me à "fèzada". Pode ser menos excitante, mas reduz taquicardias. E evita o ridículo.

As cidades e o poder

Ontem e hoje, em Guimarães, discutimos as cidades. O pretexto é, como não podia deixar de ser, a experiência da Capital Europeia da Cultura.

Dei a minha contribuição com uma memória reflexiva, algo irónica para aligeirar o ar dos tempos, sobre o diferenciado peso das cidades em Portugal. Quem quiser, pode lê-la aqui.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Espanha (e nós)

Um exercício que sempre tive por interessante é cruzar testemunhos de personalidades que se combateram politicamente e que, em escritos, se citam mutuamente de forma crítica. Acho graça a este "voyeurisme" político, porque ele nos ensina muito sobre as culturas comportamentais dos agentes públicos de cada país.  

Anteontem à noite, ao passar por Barajas, comprei a biografia "definitiva" de Alfonso Guerra, "Una página dificil de arrancar". Guerra foi uma personalidade chave e ultra-polémica no seio dos socialistas espanhóis e, durante nove anos, a segunda figura do governo do país. Simultaneamente, adquiri "Les voy a contar", uma espécie de diário de José Bono, que foi ministro da Defesa e presidente do parlamento. Nas duas horas que passei no aeroporto e na viagem já dei "uma vista de olhos" a ambos os volumes. Por essa leitura, constatei, como já presumia, que Guerra detesta Bono e que Bono arrasa Guerra. De qualquer forma, em matéria de anti-guerrismo, constatei que Bono não chega aos calcanhares do brilhante "assassinato" político que Jorge Semprún lhe faz no seu "Federico Sánchez se despide de ustedes".

Tenho alguma pena em não ter vivido, em algum tempo da minha carreira, em Madrid. Uma vez, tive essa oportunidade e, por razões que não vêm para o caso, desperdicei-a. Digo isto porque a história política do nosso vizinho, em particular no século XX, sempre me fascinou e teria um grande gosto em aprofundar o que dela sei. A guerra civil, a subsequente barbárie franquista, a lucidez desenvolvimentista dos anos 60, a sabedoria da transição para a democracia e a luta democrática contra o terrorismo são tempos sobre os quais mantenho uma incessante curiosidade. Acresce que, em todo esse cenário, a história das esquerdas e das direitas espanholas é de uma impressionante riqueza.

Nesta noite em que procurei evitar as televisões, para não me aborrecer, refugio-me agora nestas leituras sobre a vida política da Espanha nos anos 90. E por ela confirmo que as lutas, por lá, tal como as touradas, são de morte. Por cá, já só há novilhadas, os grandes "diestros" foram substituídos por bandarilheiros, com alguns peões de brega à ilharga. Até as pegas (leia-se, claro, "pégas") já se não fazem de caras, dando praça e citando corajosamente de longe, aguentando depois os derrotes até chegarem as ajudas. Agora, elas fazem-se, e cada vez mais, apenas de cernelha. Com tudo isto, começo a ficar convencido de que o "inteligente" da corrida, a quem, na lide espanhola, se dá o nome de "presidente", deveria mandar entrar as chocas, tocar para recolha aos curros e preparar, logo que possível, a "sorte" seguinte.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Sozinhos em casa

Foi já há alguns anos. Aquele casal nosso amigo, depois de muito discutir, chegou à conclusão de que não havia condições para se manterem em conjunto. O problema era a casa: não havia dinheiro para irem cada um viver para uma habitação separada. E decidiram, por algum tempo, manter-se a viver juntos. Ainda tivemos esperanças de que, com a habituação, acabassem por se reconciliar. Nada feito! Meses mais tarde, folgadas um pouco mais as bolsas, foram cada um para seu lado. E lá seguem com a sua vida. Este é uma história verdadeira.

Demissões

Com naturalidade, toda a gente fala da demissão de Paulo Portas.

Mas parece que todos se esqueceram já que a crise começou com a demissão de Vitor Gaspar. Isto é, se o ministro das Finanças se não tivesse demitido, esta crise não teria sido iniciada.

Talvez convenha ter isso presente.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Spas

A ironia e o humor fazem parte da muito simpática maneira de ser dos tunisinos. 

Hoje, um amigo local ironizava, num grupo, sobre o sistema de transportes da Tunis. E sublinhava algumas dificuldades: "os nossos autocarros fazem uma concorrência que é tida por desleal por parte dos "spas" da cidade. De facto, eles oferecem, sem um custo acrescido, sauna, massagens e até uma particular forma de aromaterapia..."

Rir é o melhor remédio, como diziam as "Seleções do Reader's Digest". Também entre nós, não havendo opçāo, talvez valesse a pena tentar essa solução terapêutica.

Guimarães e as cidades

As "Cidades 20 20" é o tema geral de um ciclo de palestras e debates no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, que decorrerá nos dias 5 e 6 de julho, ainda no âmbito de "Guimarães - capital europeia da Cultura".

Cabe-me ser "keynote speaker" no dia 5 e, no dia seguinte, intervir no encerramento deste exercício que procura relevar o cada vez mais insubstituível papel das cidades nos processos de desenvolvimento cultural e promoção de uma cidadania ativa.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Briefing

Finanças

Há qualquer coisa de trágico no destino dos ministros das Finanças.

Há dias, Fernando Teixeira dos Santos ressurgiu de uma auto-decidida discrição para colocar os pontos nos is da História, para, finalmente, contrariar a "narrativa" (continuo a detestar a palavra) criada pela nova maioria, que abriu caminho ao modelo político-económico em vigor nos últimos dois anos. À época, havia ficado no ar a ideia de que o ministro e o antigo chefe do governo haviam terminado o mandato em terrenos algo opostos. Agora, fica a ideia que as convergências superavam as divergências e era talvez o método aquilo em que divergiam.

Ontem, Vitor Gaspar, o protagonista desta nova orientação, saiu de cena, visivelmente desgastado, talvez mais com as divergências no seio de um executivo que parece estar a perder os "nervos de aço", que a execução da sua agenda ideológica radical exigiria, do que com a constatação de que são os factos que não estão à altura da qualidade e justeza das ideias propostas.

No hall do hotel de Hammamet, na Tunísia, onde me encontro, ouve-se, um pouco alto, música de Vangelis.

PS - ... e logo hoje é que havia de dar-me para andar pelas "primaveras árabes"!