sexta-feira, 31 de maio de 2013

Wolfe

Montenegro, onde me encontro desde ontem, é um nome algo mitológico em alguma literatura europeia, evocando o ambiente misterioso de uns Balcãs que, com frequência com forte razão, apareceram associados registos de mistério, intriga e violência.  

Há pouco, dei por mim a pensar nas personalidades montenegrinas de quem me recordava, para além, naturalmente, dos colegas diplomatas com que fui cruzando, alguns deles ainda tributários da excelente escola de diplomacia que existia na antiga Jugoslávia e que marcou muito, embora de forma diferenciada, os diversos países que resultaram da implosão do Estado criado por Tito. E cheguei, de imediato, a Nero Wolfe.

Nero Wolfe foi, verdadeiramente, o primeiro montenegrino que "conheci". Na minha adolescência li muitos romances policiais de Rex Stout onde a figura do sedentário e avantajado Wolfe, nascido no Montenegro e emigrado na juventude para os "States", acolitado pelo ativo Archie Goodwin, resolvia pela inteligência os mais complexos imbróglios.

Também eu, como muitos "fanáticos", procurei um dia, em Nova Iorque, a casa de pedra castanha onde Nero Wolfe teria "vivido", na West 35th street (onde não há casas de pedra castanha...). Devo dizer que passei a olhar as orquídeas de outra forma depois de ler as descrições que Stout fazia desse "hobby" requintado de Wolfe. E que a gastronomia começou a ganhar para mim uma importância maior nas páginas em que Stout descrevia os requintes alimentares da sua personagem (bem antes de Vázquez Montalbán, nos seus policiais, nos ter ensinado os truques culinários de Pepe Carvalho ou do Francisco José Viegas nos abrir o apetite com os gostos mais prosaicos de Jaime Ramos).

Neste último capítulo, e cá por coisas, sou hoje levado a pensar que não terá sido no Montenegro que Wolfe se aculturou à alta culinária... 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Montenegro

Os acasos das funções levam-nos, por vezes, a sítios inesperados. Saído de Lisboa às seis e tal da manhã, cheguei há pouco a Podgorica, capital do Montenegro, um jovem país que emergiu dessa complexa realidade que foi a ex-Jugoslávia. Basta dizer que se encontra rodeado pela Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Kosovo e Albânia para melhor se entender o que a "balcanização" significa. E convém também não esquecer que o Montenegro tem duas "jóias" turísticas fabulosas - Kotor e Budva - na costa adriática e, lembrou-me o prolixo taxista que me trouxe do aeroporto, soberbas montanhas no nordeste do país.

Há quase uma década, eu havia passado, em férias, na periferia de Podgorica, ao viajar entre a curiosa antiga capital do Montenegro, Cetinje, e a cidade albanesa de Shkoder. Na altura, havia ficado com alguma pena de não visitar a moderna capital montenegrina. Agora, nos intervalos da conferência em que intervenho e dos contactos oficiais que vou ter, tenciono concretizar esse objetivo.

Contrariamente à mitologia "glamourosa" que rodeia a vida internacional, e no que me toca, devo dizer que há muitos países dos quais conheço apenas o aeroporto, o hotel, alguns departamentos do Estado e a paisagem do caminho entre tudo isso. Às vezes isso foi frustrante, outras vezes ter-me-á poupado desilusões. De toda a forma, e por mais caricaturais que acabem por ser as imagens que fixamos dos locais visitados, acabamos sempre por sair um pouco mais ricos de todas as experiências. 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Que raio!

Saí enraivecido de um hospital, onde fui ver um amigo. Um excelente amigo. Saí enraivecido com a vida dele, que tendo sido ótima poderia agora ser outra, mais do que com a morte, que não anda por aí senão para fazer o serviço que lhe compete.

Desde há uns tempos para cá, fico com a sensação de que familiares e amigos me escapam com uma alucinante rapidez, à medida que os dias passam. Aumenta assim o rol das conversas que ficaram por acabar. E que já não irei concluir. Tivesse eu jeito para isso e escreveria um livro imaginando as conversas que não cheguei a ter com todos os amigos que entretanto se me foram embora. Como dizem os brasileiros, seriam uns interessantes "papos" virtuais.

Por estas e por outras é que já percebi que se torna cada vez mais urgente ter as conversas com os amigos que por cá estão.

Em tempo: e o esperado aconteceu.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Mia Couto

Com imensa justiça, o prémio Camões acaba de ser atribuído ao escritor moçambicano Mia Couto.

Não resisto a reproduzir uma história (verdadeira) que, há mais de quatro anos, por aqui contei, a propósito de um outro galardão entregue ao escritor.

Foi no Maputo, há já uns bons anos.

A lista dos condecorados era longa e o respectivo leitor, de nacionalidade portuguesa, era, manifestamente, uma pessoa pouco sensível às letras moçambicanas. Assim, sem hesitação, anunciou, a certa altura da solenidade: "E agora, vai receber a ordem X a Senhora Dona Mia Couto".

Um frémito de embaraço e riso sacudiu a audiência. Mia Couto, o excelente escritor de Moçambique, afivelou um sorriso por detrás dos óculos e da barba, encaminhando-se para o palco onde o presidente português o aguardava, claramente um pouco incomodado com a inesperada feminização do agraciado.

Um colega meu, de graça rápida, logo deixou cair, baixo: "Ainda bem que hoje não é condecorada a Senhora Dona Sara ... mago!".

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Citação

Durante anos, uma expressão de um dirigente vimaranense constitui-se como uma graçola que ficou histórica: "o que é verdade hoje pode não ser verdade amanhã".

Todos gozámos com a frase, muitos a citámos. E, no entanto, os dias que ai andam deram plena razão ao respetivo autor.

Quem havia de dizer que, mês após mês, os números das previsões macro-económicas do país, ao não coincidirem (nem de perto, nem de longe!) com aquilo que havia sido anunciado, iriam transformar um tal Pimenta Machado num grande "clássico" português?

Esta é a outra vitória do Guimarães. A menos gloriosa.

domingo, 26 de maio de 2013

Fim de tarde

Está um belo fim de tarde em Guimarães.

sábado, 25 de maio de 2013

José Alberto de Sousa

Longe de Lisboa, não posso ir hoje despedir-me do meu amigo José Alberto de Sousa.

Na última vez que falámos ele estava em Timor-Leste e eu em Paris. Pelo telefone, convidou-me para ir a Dili, numa iniciativa em que estava envolvido, ao tempo que trabalhava com José Ramos Horta. As agendas não coincidiram e, a partir daí, perdemos o contacto, salvo esporádica troca de emails, que foram rareando com o tempo.

O Zé Alberto, de que muitos portugueses lembram a figura elegante e o estilo sóbrio na apresentação dos noticiários da RTP, foi um bom amigo que fiz quando, por algum tempo, coincidimos no MNE. Não esquecerei a forte cumplicidade que criámos e o sentido lúdico da vida que ambos partilhávamos. Reencontrámo-nos várias vezes e sempre parecia que nos tínhamos visto na véspera. Ele com o seu sorriso claro e o cigarro que lhe alegrava as horas e lhe ia apressando os dias. Custa-me muito imaginar que não vamos voltar a trocar as histórias da vida que nos alimentavam longas e divertidas conversas.

Um último abraço, Zé Alberto.

Almoçar por almoçar

A frieza anglo-saxónica consagrou a frase "there is no such a thing as a free lunch" para significar que um convite para uma refeição, por princípio, tem sempre de trazer "água no bico", isto é, nunca será totalmente "grátis". Lembrei-me disto, há umas semanas, quando convidei para almoçar um conhecido com quem tenho uma relação de simpatia e que já não via há alguns anos. A certo ponto da conversa, talvez surpreendido por eu não lhe ter pedido nada, comentou: "E então? Necessita de alguma coisa de mim?"

Há pessoas que não entendem que uma ocasião como um almoço pode não ser mais do que isso e que nem todos são como eles, que vivem na ansiedade de aproveitar o instante "entre la poire et le fromage" (nunca percebi por que diabo os franceses trocam, na expressão, a ordem natural dos pratos dentro da refeição) para avançarem com um qualquer pedido.

No que me toca - gabando-me, com prazer, de nunca ter convidado alguém para almoçar para lhe "meter uma cunha" -, cada vez mais aprecio almoços "sem agenda", de pura e grave "conversa fiada"...

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Quem é Eça?

Foi no "Diário de Notícias" de ontem. Uma senhora que dá pelo nome de Joana Emídio Marques termina assim uma notável peça sobre a descoberta do texto para uma opereta que Eça de Queiroz terá escrito "a meias" - na incisiva expressão da escriba - com Jaime Batalha Reis:

"Eça de Queiroz (1845-1900) é um grande romancista da literatura portuguesa, autor, entre outros, de Os Maias, O Crime do Padre Amaro; este último é considerado por muitos o melhor romance realista português do século XIX. O escritor foi ainda jornalista, polemista, diplomata e membro do movimento literário Geração de 70".

Note-se a elegância da escrita, o rigor da pontuação e o estilo didático e de cultura de almanaque de quem podia estar a fazer uma nota necrológica sobre um poeta romântico da Transnístria. Confesso que desconhecia esta vocação do "Diário de Notícias" de nos servir textos dignos das páginas da Wikipedia. Até o Palma Cavalão, na "Corneta do Diabo", tinha uma pena bem "mais catita". 

Já agora, talvez alguém devesse explicar, lá no jornal, à ilustre plumitiva, que esse tal de Eça de Queiroz escreveu, precisamente na folha que hoje tão generosamente a acolhe no seu seio (como diria A.B. Kotter, personalidade cuja biografia a senhora não conhecerá, pela certa), também "a meias" com Ramalho Ortigão, um folhetim intitulado "O Mistério da Estrada de Sintra" - que, no estilo da "notícia", deveria ser qualificado como um concelho situado a Oeste da Amadora, a qual também já se chamou Porcalhota.

Em tempo: modestamente, eu disse que o texto era "digno das páginas da Wikipedia". E não é que a abertura do mesmo é exatamente tirada daí? 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Adeus, Moustaki

Morreu hoje Georges Moustaki.

Dou-me conta que não vale a pena escrever nada sobre ele. Quem o conhece, sabe quanto lhe deve e o grande vazio de memória que o seu desaparecimento acarreta para uma certa geração. Quem o não conhece, pronto!, não o conhece e isso já diz tudo.

Cenadores da República

Alguém me comentava, há pouco, que as televisões estão cheias de comentários de figuras políticas que, tendo embora um passado algo "light" em termos de responsabilidades e cargos políticos assumidos, passaram, por uma espécie de "usucapião mediático", a ter um estatuto de "senadores" do país, sendo ouvidos a propósito de tudo e de nada.

Uma outra pessoa, presente à conversa, teve uma boa sugestão: que essas pessoas, as tais que nos enchem os écrans e estão permanentemente em cena dando-se ares de guardiões (e guardiãs) críticos do regime, passassem a ser designadas por "cenadores da República".

Não me parece mal!

Notícias de Lisboa

Tal como os Conselhos de Ministros, os Conselhos de Estado foram, historicamente, locais reservados, de cujas discussões raramente transpirava algo para o exterior. Com o tempo, iam-se sabendo alguns "fait-divers", mas o secretismo dos debates era a regra e muito raramente, nos tempos imediatos à reunião, se sabia o que lá se tinha passado, em particular as posições assumidas por cada conselheiro.

O último Conselho de Estado rompeu com essa prática, imagino que pelo facto de alguns dos presentes se terem sentido menos bem representados no relato que transpareceu do comunicado final - do qual, contudo, não terão discordado.

Não é nada saudável (mais) esta degradação das regras de Estado. 

Notícias de Madrid

É muito curioso, e até algo surpreendente, o ressurgimento de José Maria Aznar na vida política espanhola (onde, recordo, ainda não há presidenciais...). Mas há quem pense que se trata apenas de ganhar "estatuto" para um elevado cargo europeu, quando o último companheiro ativo da fotografia das Lages tiver de mudar de ares (porventura para um país onde há presidenciais).

A tentação de um regresso é forte, mas os factos provam que raramente os "remakes" ficam à altura das expetativas. 

Noutro jogo, Mourinho irá também testar isso no Chelsea.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Mediterrâneo

Coube-me falar da dimensão política da parceria mediterrânica, durante uma conferência na tarde de hoje, no Grémio Literário, em que foram igualmente abordadas as vertentes económica e de defesa e segurança dessa nossa importante vizinhança geopolítica.

A propósito do modo como o mundo europeu, e ocidental em geral, olha para a instabilidade em alguns países marcados pelas "primaveras árabes", dei comigo a dizer que "temo que, daqui a uns tempos, comecem por aí a emergir discursos de "realpolitik", assentes na seguinte questão: é preferível um mundo árabe dominado por governos autoritários, mas que se revelem capazes de combater o extremismo islâmico e travar ações terroristas, ou valerá a pena continuar a apoiar a emergência de modelos de expressão democrática, através de cujas eleições acabem por chegar o poder correntes fundamentalistas que transformem essas sociedades em regimes religiosos radicais?".

Há terceiras "vias" para este falso dilema. Por exemplo, o trabalho que fazemos no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, que tenho o gosto de dirigir desde Fevereiro, pretende, à sua muito modesta escala, contribuir para a criação de plataformas de diálogo no seio da sociedade civil dos Estados do norte de África, em especial pelo diálogo intercultural, inter-religioso e sobre temáticas como o ensino da História. Trabalhamos e promovemos iniciativas com redes de organizações que se batem pelos direitos das mulheres - acesso à política, combate à violência contra as mulheres e ao tráfico de seres humanos -, e pela participação ativa dos jovens na vida cívica, desenvolvendo "universidades" e cursos (nomeadamente informáticos), tendentes à aprendizagem da cidadania democrática, à promoção da liberdade dos media e à utilização intensiva das redes sociais.

Ao longo dos 25 anos da sua existência, o Centro Norte-Sul do Conselho da Europa envolveu já largos milhares de pessoas, de muitos países, num conjunto muito alargado de atividades destinadas a consolidar a democracia, a promover os valores da liberdade e as garantias do Estado de direito. É apenas uma "gota de água" perante o oceano das perturbações que atravessam o mundo? Será, mas se não persistirmos em multiplicar este tipo de iniciativas nunca chegaremos a nenhum resultado. Quem tem a razão consigo, na política como na vida, só é derrotado se desesperar.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Insultos cultos

Nos tempos que correm, a vontade de chamar nomes a algumas pessoas é um sentimento quase intravável. A língua portuguesa é muito rica nesse tipo de qualificativos mas, por vezes, eles soam demasiado pesado e vulgar.

O capitão Haddock (no meu tempo do "Cavaleiro Andante", chamava-se capitão Rosa), figura maior da constelação Tim-Tim, é um conhecido criador de qualificativos depreciativos, somados a expressões que marcaram o imaginário de muitos (fui pela primeira vez a Brest motivado pela sua famosa exclamação "tonnerres de Brest!").

Uma opção possível a chamar a alguém "paralelepípedo batizado" ou "pedaço de asno", como alguém dizia, será usar nomes saídos do léxico colérico de Haddock. Isso torna-se agora mais fácil com este "gerador de insultos do capitão Haddock" (abra o link e carregue na imagem que aparece), que alguém me mandou. As vantagens são óbvias: só percebe quem fala francês e dá um ar muito mais culto...

E não é bem óbvio quem, por cá, merece ser chamado de "ostrogoth" ou "bachi-bouzouk"?

O Estado do Conselho

Ainda bem que foi possível aos conselheiros de Estado dedicarem-se, durante sete horas, à importante questão da união bancária e da coordenação das políticas económicas no seio da União Europeia. De facto, já tardava esse debate.

Pena é que, como resulta evidente do comunicado sobre a reunião que foi distribuído há minutos, não tenha havido tempo para analisar a situação política, económica e social que o país atravessa. Às tantas, fica para outra vez.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dias

Há dias privilegiados. 

Ontem, tive o gosto de estar num almoço de amigos com Eduardo Lourenço, uma voz cuja lucidez cresce com a idade - ele que fará 90 anos dentro de alguns dias. Vale bem a pena ler a entrevista que, também ontem, concedeu ao "Público", excelentemente conduzida por Teresa de Sousa. Eduardo Lourenço é, de certo modo, a nossa consciência nacional, em particular no meio das dúvidas que o presente nos traz.

À noite, "agarrei" uma recém-publicada antologia de Manuel António Pina, figura que nos deixou há pouco tempo. Tem por título "Crónica, saudade da literatura" e recolhe textos publicados entre 1984 e 2012. A mesma lucidez, outras perplexidades e reflexões imperdíveis sobre a difícil arte de ser português. Horas de leitura bem ganhas.

Há dias assim. Ainda bem.

domingo, 19 de maio de 2013

A bola

O Futebol Clube do Porto acaba de ganhar o campeonato. O Benfica, que, sem a menor dúvida, mostrou no campo um melhor futebol do que o de qualquer outro clube, ao longo de toda a época, ficou em segundo lugar, aquele que alguns consideram ser "o mais parecido com o último". O meu Sporting teve uma classificação historicamente modesta, mas bem merecida pela mediocridade do futebol que praticou.

Estou a ouvir na televisão os adeptos dos dois clubes que hoje mais estiveram em evidência. Para alguns, de um lado e de outro, estas coisas parecem ser o mais importante das suas vidas. Provavelmente, são mesmo! 

sábado, 18 de maio de 2013

Identidade germânica

Foi dom João VI quem decidiu a criação de Nova Friburgo, uma cidade no Estado do Rio de Janeiro onde se estabeleceu aquela que foi a primeira colónia estrangeira no Brasil. O nome adveio-lhe da localidade originária dos colonos, Friburgo, na Suíça alemã.

O orgulho nas origens germânicas faz até hoje parte da identidade da cidade, que sempre as sublinha e releva aos visitantes. Por maioria de razão, naquele ano, a visita do embaixador alemão constituía um momento importante para a urbe, com o prefeito a querer destacar essa dimensão histórico-cultural. Uma grande corrente de simpatia dominava a conversa entre o edil e o diplomata, no gabinete do primeiro, na visita de cortesia que o embaixador lhe fazia. A certo passo do encontro, o prefeito quis dar conta de que, também no plano religioso, as relações com a origem se mantinham, com uma presença germânica na igreja local:

- Sabe? Nós temos por cá um pastor alemão.

A resposta do embaixador ficou nos anais do corpo diplomático estrangeiro no Brasil. 

A "doutrina" divide-se, até hoje, sobre se se tratou de uma ironia rápida ou se foi o natural interesse em ser simpático, correspondendo à indicação sobre o que entendeu ser a raça do cão da Prefeitura, revelando a natureza do seu próprio animal doméstico:

- Nós, lá em casa, temos um schnauzer.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Portugal

Foram em número de algumas dezenas as pessoas que, na chuvosa e fria noite de ontem, na Fundação Engº António de Almeida, no Porto, se juntaram para ouvir o professor Alberto Castro e eu próprio falarmos de "Diplomacia e comércio externo", no contexto de um ciclo de conferências sobre o novo "Conceito estratégico de Defesa nacional". Foi um debate muito interessante, com ativa participação do público, que, durante mais de duas horas, nos levou a alinhar ideias sobre diversas temáticas que se ligam a questões essenciais para o destino do país.

O processo de preparação do "Conceito", como fiz questão de contar na sessão, não foi linear nem isento de alguma polémica criativa. Uma equipa dirigida pelo professor Luís Fontoura, empossada pelo primeiro-ministro e convidada pelo ministro da Defesa, trabalhou, durante alguns meses, para produzir um documento que refletisse linhas prospetivas para enquadrar o nosso futuro coletivo. Nesse grupo de duas dezenas de pessoas, do qual tive a honra de fazer parte, as sensibilidades eram bastante diferentes, embora comum fosse o interesse em colaborar numa tarefa  de reconhecido interesse nacional. 

Luis Fontoura - as melhoras, Luís! - conduziu o exercício dando-nos total liberdade, sem tabus que não fossem algumas linhas de óbvio consenso apriorístico: a preservação da independência nacional, a preeminência da soberania do Estado, a integridade do território, a defesa dos valores democráticos e um conjunto de outros valores essenciais. O texto que produzimos foi oportunamente entregue ao governo, que dele extraiu, com a legitimidade que o mandato democrático lhe confere, o que considerou ser essencial e politicamente desejável. Entre o texto elaborado pelo grupo e o documento aprovado pelo governo há algumas diferenças. Naturais e legítimas.  

O Instituto de Defesa Nacional, uma estrutura a cujo trabalho os portugueses muito devem, sabiamente conduzido nos últimos anos pelo general Vitor Viana, tem vindo a ser o impulsionador de um trabalho de reflexão sobre o nosso futuro coletivo que, praticamente, não tem hoje par no país. Agora - e muito bem! - decidiu trabalhar com o público as grandes linhas do novo "Conceito" (que substitui um trabalho de idêntica natureza elaborado em 2003), num esforço para ajudar o país a olhar serenamente em frente, desconstruindo as suas fragilidades, dando pistas para a superação das suas insuficiências e, no essencial, tentando pôr-nos a trabalhar sobre o nosso destino comum. Pense cada um o que pensar sobre o novo "Conceito", julgo que seria de grande utilidade que os portugueses o lessem. O que podem fazer aqui

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Postal do ajustamento

Para quem não saiba, a rua Sá da Bandeira foi, por muitos anos, uma das artérias comerciais mais conhecidas da Porto. Recheada de boas lojas e com um comércio de qualidade, lado a lado com lugares mais populares, era um dos eixos mais importantes da capital nortenha.

Passei por lá há pouco. Aqui fica um retrato da atual rua de Sá da Bandeira. Se não tivessemos a abertura de espírito para acreditar que, graças ao processo de ajustamento em curso, os "amanhãs" vão trazer por ali Vuitton, Armani e Hermès, até podíamos ter a tentação de pensar que era apenas a pobreza que vinha aí. Qual quê!

Futebóis

Por regra, apoio todas as equipas portuguesas que disputam jogos internacionais. Porquê? Porque entendo que é bom (talvez agora mais do que nunca) ver o nome de Portugal associado a sucessos e porque sei o que representa para os portugueses que vivem no exterior poderem exprimir orgulho nas vitórias nacionais. Contudo, com honestidade, confesso que já cometi exceções a esta regra. 

Por um imperativo de agenda, não pude ontem ver a transmissão televisiva do Benfica-Chelsea. Estava num jantar com amigos estrangeiros, num restaurante do Porto. A meio, consultei discretamente a net no iPhone e vi que o resultado estava em 1-1. Mais tarde, voltei a olhar o telefone e dei-me conta do 2-1 a favor do Chelsea. Porque da notícia se não se deduzia se o jogo já tinha acabado, perguntei isso mesmo a um dos empregados que nos servia. Era um ferrenho portista, como logo se deduziu pelo largo sorriso. E pela resposta:

- Não acabou, não! "Quer-se dizer": com o Chelsea eles já "andaram". Mas ainda falta "levarem" com o Guimarães na taça...

O futebol acaba por extremar tudo. Verdade seja que, se acaso fosse o Porto a jogar e o empregado fosse do Benfica, a atitude era, com toda a certeza, simétrica. Ou não? 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A minha freguesia


Aprendi ontem, num jantar de amigos, que a minha freguesia se chama agora Estrela. Ando desatento a estas realidades bairristas e, por isso, não tomei nota da fusão das velhas freguesias dos Prazeres, Lapa e Santos-o-Velho.

Não tenho opinião formada sobre esta ideia modernaça de fundir freguesias, embora me pareça um pouco estranho que essa tenha sido essa a simplória opção alternativa ao - já de si bizarro! - compromisso assumido no "memorando" assinado com a "troika" de reduzir os municípios. (Já agora, sabiam que não há uma tradução oficial portuguesa desse texto quase "paraconstitucional", salvo a versão que aqui ficou acessível há quase dois anos?). Como, politicamente, isso "doía" mais, a caminho de eleições autárquicas, as freguesias acabaram por ser o "elo mais fraco". Gostava de conhecer números realistas sobre a poupança que isso gerou...

Uma amiga, mais atenta a estas coisas, porque nativa de uma área onde, como morador, eu não passo de um simples "paraquedista", revelou-me o seu desagrado pelo facto de se não ter optado por nome bem mais sugestivo: Santos Prazeres da Lapa. 

Ela tem imensa razão: esta imaginação lisboeta anda pelas ruas da amargura...

A importância de se chamar Ernesto...

Ver os dourados das Necessidades encherem-se para ouvir Jorge Sampaio falar de Ernesto Melo Antunes foi um momento muito agradável do final da tarde de ontem. O antigo secretário de Estado da Cooperação externa de Melo Antunes - Jorge Sampaio tinha então 36 anos - fez um magnífico bosquejo sobre o percurso diplomático daquele que, na minha perspetiva, foi a mais importante personalidade militar do processo político que, com todos os sobressaltos do tempo, nos conduziu da ditadura para a democracia.

Jorge Sampaio desfez alguns mitos instalados, explicando, muito em particular, certas opções diplomáticas feitas em direção ao que então se chamava "terceiro mundo", passo político essencial para recentrar a política externa portuguesa, saída de uma época em que estava "coincée" pelo colonialismo e necessitando de ganhar espaço para um novo posicionamento em tempos democráticos, marcados pelo "regresso" à Europa e pelo direito à palavra respeitada pelo mundo multilateral.

Gostei muito de ouvir Jorge Sampaio, subliminarmente evocando Oscar Wilde, relembrar "a importância de se chamar Ernesto" Melo Antunes um dos homens que mais lucidamente soube interpretar o destino estratégico de um Portugal em liberdade.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Brasil

Soube-me bem, devo confessar. Receber a notícia de que entidades luso-brasileiras do Ceará decidiram convidar-me para ir a Fortaleza, por ocasião do 10 de junho, a fim de me ser entregue um prémio anual com o nome do português fundador do Estado, Martim Soares Moreno, representa para mim um "atestado" de que o tempo que passei no Brasil, aos olhos de setores da nossa Comunidade, não foi em vão. E essa é a melhor recompensa que um diplomata pode desejar.

Nesta ocasião, apetece-me ecoar um dito que o cearense e antigo embaixador brasileiro em Lisboa, António Paes de Andrade, sempre fazia questão de repetir: "o Brasil é grande, mas o Ceará é maior".

"Ex"

Há dias, numa notícia a propósito de um qualquer tema sobre diplomacia, divulgada por uma agência noticiosa e retomada por vários jornais e blogues, o meu nome apareceu antecedido do epíteto de "ex-embaixador".

Não contesto a opção qualificativa do jornalista, mas já avisei um conhecido general do nosso Exército do destino que, por este andar, espera as suas estrelas.

Não sei se vem a propósito, mas isto lembra-me a gargalhada que um dia dei, ao deparar, na esquina de uma rua da capital de uma antiga colónia portuguesa, com uma placa que indicava "rua ex-Adriano Moreira". Só espero que, a este meu antigo mestre, a imprensa não passe a tratar, um destes dias, por "ex-professor".

segunda-feira, 13 de maio de 2013

OCDE

Gostei de ver a "inflação" de notícias que, nos últimos dias, surgiu sobre as projeções e recomendações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE) sobre Portugal. Fico muito confortado com a importância que Portugal dá às atividades e os pareceres desta relevante organização.

Resta-me, contudo, uma interrogação que, pelos vistos, não suscitou nunca a menor perplexidade à nossa atenta comunicação social: a razão pela qual Portugal deixou a sua representação junto da OCDE sem titularidade, de maio de 2011 a fevereiro de 2013.

A imagem de um país

Como diplomata, dediquei-me frequentemente ao estudo da situação interna de diversos países, com vista a tentar perceber as respetivas instituições e os seus sistemas jurídicos e políticos. Nesse trabalho, preocupava-me em tentar perceber se havia, nesses Estados, uma estabilidade e um ambiente gerador de confiança que os pudesse recomendar aos nossos agentes económicos, como espaço futuro para o seu trabalho e negócios.

São vários os fatores que importam a quem olha um país como um potencial parceiro. Um investidor estrangeiro não valoriza apenas o custo e a formação da mão-de-obra, as imposições fiscais sobre as empresas e trabalhadores, a legislação e o modelo vigente nas relações laborais, o peso da burocracia, os riscos de corrupção, o caráter mais ou menos expedito do funcionamento do serviço da Justiça, os incentivos fiscais ou os estímulos financeiros aos projetos que apresenta. Importa-lhe também o grau de estabilidade política e a possibilidade da sua alteração no tempo, as tensões sociais, as questões de segurança, a existência ou não de uma real equidade no tratamento dos operadores económicos nacionais ou estrangeiros, etc. Mas, tanto ou mais importante do que tudo isso, um empresário procura ter a certeza de que aquilo que é subscrito pela administração do Estado que com ele lida não vai ser, em nenhuma circunstância, unilateralmente posto em causa por uma legislação posterior elaborada por esse mesmo Estado. Chama-se a isso segurança jurídica e a colocação dos países no "ranking" internacional de confiança tem esse elemento no seu centro.

O mais importante e sacrossanto princípio da segurança jurídica, como aprende qualquer aluno de Direito, é a não retroatividade das leis. Em termos simples, isto significa que, num Estado de direito, nenhuma lei pode vir a alterar o quadro de relações jurídicas pré-estabelecidas. Porquê? Porque se assim não for, nenhum cidadão sentirá confiança no momento em que estabelece uma nova relação jurídica, porque existe o perigo de a ver alterada por uma lei futura. E, quebrada a confiança, o investimento retrai, porque ninguém quer correr riscos estúpidos, se acaso pressente que tem à sua frente um parceiro que é capaz de mudar as regras a meio do jogo.

Mas, perguntará o leitor, como é que se poderá ter essa certeza? Não pode, em absoluto. Porém, pode sempre olhar-se - e a comunidade internacional fá-lo - para o comportamento dos Estados, no tocante ao respeito face àquilo a que se comprometeram, na observância das leis em vigor, e daí extrair as necessárias ilações para o futuro. Se um país coloca em causa, na sua ordem jurídica interna, o princípio da não retroatividade das leis, então a possibilidade desse desrespeito pelos princípios do Estado de direito poder vir a ocorrer com parceiros estrangeiros não pode deixar de ser seriamente considerada. Um investidor estrangeiro pensará duas vezes antes de colocar dinheiro num país cujas autoridades, num ato de desrespeito pela palavra dada, comprometeram seriamente a relação de confiança entre o Estado e os seus cidadãos. E legitimamente poderá pensar que, se esse Estado o faz face aos cidadãos que elegem os seus titulares, muito mais facilmente o poderá fazer face a entidades oriundas do mundo exterior. É assim que, ao afastarem o Estado da sua imagem de pessoa de bem, as autoridades podem comprometer decisivamente a credibilidade do seu país à escala internacional. Para a perda dessa credibilidade, basta um único ato político-jurídico. Para a voltar a recuperar é preciso muito mais tempo. E, claro, outras pessoas.

domingo, 12 de maio de 2013

PSG

Há quase duas décadas que o Paris Saint-Germain (PSG) não vencia o campeonato francês. Curiosamente, a França é um dos poucos países do mundo cuja capital não teve, até hoje, um clube com grande expressão nacional. O reerguer do PSG, com capitais árabes a ajudar, pode ser um sinal de inversão desta tendência.

Pedro Pauleta, uma figura modelar de desportista, unanimemente considerado o maior jogador da história do clube, ajudou muito os portugueses em França a passarem a apoiar o PSG. Recordarei sempre a impressionante homenagem que o clube lhe prestou, em 2010. 

No dia de hoje, muitos portugueses, em especial na região de Paris, estão seguramente muito felizes com a vitória do seu clube francês. (E digo "francês" porque, em todos e em cada um deles existe sempre um outro clube português de adoção). E eu também estou, porque o PSG é o "meu" clube em França. 

A bomba

O facto de um passageiro ter sugerido, numa graça de duvidoso gosto, que uma sua mala poderia conter uma bomba, fez há dias atrasar, por cerca de quatro horas, um avião que trazia um ministro português de S. Tomé.

Há já bastantes anos, no aeroporto de Lisboa, dentro de um avião, pertencente à companhia de um país para o qual viajaria um ministro português que eu acompanhava, o voo não partia e ninguém era capaz de explicar as razões do atraso. Uma estranha agitação atravessava idas e vindas para a cabine de pilotagem e induzia um ar preocupado à generalidade dos tripulantes. A certo passo, argumentando com a presença do ministro, tentei saber o que se passava. Foi então que me disseram que se tratava de uma ameaça de bomba. Exigi que saíssemos, de imediato, do aparelho, enquanto o assunto não fosse esclarecido em definitivo. Assim aconteceu, mas apenas para a comitiva oficial, que foi colocada na sala VIP. Os restantes passageiros, para nosso grande espanto, foram mantidos no avião, enquanto as buscas sobre a possível bomba prosseguiam.

Lembro-me de que não deviam ter decorrido mais de 20 minutos quando fomos convidados a regressar ao aparelho. A viagem iniciou-se e estávamos já a voar há mais de meia hora quando o comandante do avião, com grande simpatia, veio pedir desculpa ao ministro português pelo atraso provocado. Inquirimos pormenores sobre o que se passara e foi-nos dito que uma chamada telefónica anónima desencadeara o alarme. Todos ligámos o incidente à morte violenta em Portugal, na véspera, de um opositor do regime do país que íamos visitar.

O comandante do avião, explicou então ao nosso ministro:

- Este atraso foi lamentável, mas nós tentámos que ele fosse o menor possível, tanto mais que fomos informados que o senhor ministro tem um programa muito sobrecarregado, logo à chegada. Por isso, muito embora as regras habituais neste tipo de situações obriguem a uma busca muito mais rigorosa e a um tempo de espera de cerca de quatro horas, posso revelar-lhes que recebemos instruções da nossa capital para apressar as buscas. E assim fizemos. Espero que estejam satisfeitos!.

Entre os membros da delegação, olhámos uns para os outros, siderados. Vi um pânico nos olhos de alguns, chocados com a "simpatia" que levara à ligeireza no rigor da vistoria feita. No que me toca, devo confessar que me custou bastante começar a dormir...  

Em tempo: para quem aprecia a precisão factual, e se interrogou quando à veracidade dos factos, posso informar que a viagem teve lugar no dia 22 de abril de 1988. E mais não direi.

sábado, 11 de maio de 2013

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Aquele casamento estava a ser uma coisa interminável. O baile abrira com os noivos a convidarem todos os convidados para um pé-de-dança. O velho diplomata hesitou um pouco mas, a certo ponto, para ajudar a passar o tempo, lá se decidiu convidar uma senhora que lhe pareceu um pouco solitária.

Em jeito de início de conversa, perguntou o nome à sua parceira:

- Juliana Sardinha Carneiro, respondeu a senhora.

- Ó minha senhora! Isso é uma refeição completa!, foi a reação imediata do seu par.

Com pequenos pormenores de diferença, esta é uma história verdadeira.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Diplomacia e Comércio externo


quinta-feira, 9 de maio de 2013

António de Belém Lima

Tenho muita pena de não poder estar, na noite de hoje, na conferência que Jorge Figueira fará, no museu da Vila Velha, em Vila Real, sobre o tema "Imaginar Trás-os-Montes - Belém Lima e a Arquitetura Portuguesa".

António de Belém Lima, um arquiteto transmontano com expressão nacional e crescente divulgação internacional, integra uma magnífica geração que, durante as últimas décadas, ajudou a transformar a paisagem urbana do país e a prestigiar fortemente pelo mundo a arquitetura portuguesa - Portugal é o único país que, com o Brasil, hoje dispõe de dois "prémios Nobel" da arquitetura, os Pritzker, nas pessoas de Siza Vieira e Souto Moura.

A obra de Belém Lima, relevada hoje em livros e diversas publicações nacionais e estrangeiras, qualificou, muito em especial, Vila Real e a sua região, contribuindo fortemente para contrabalançar, no panorama da cidade, o brutal surto de construção que algum "patobravismo" desenvolvimentista, a partir dos anos 70, nos impôs e ainda hoje nos polui o olhar. Obras como o Conservatório de Música ou a Biblioteca de Vila Real, bem como o próprio Museu da Vila Velha, onde a conferência desta noite terá lugar, falam por si próprias, bem melhor do que tudo quanto eu possa dizer - no meu caso, com uma descomplexada  "declaração de interesses" de quem é familiar e amigo daquele cuja obra Jorge Figueira vai hoje retratar.  

Um abraço, António, extensivo ao Jorge Figueira, que encontrei algumas vezes pelo mundo no seu teimoso e magnífico esforço de divulgação da grande arquitetura portuguesa.

Em tempo: sei que o António não gosta do Acordo Ortográfico, mas o cartaz (oficial e que, por isso, deve cumprir estritamente as leis da nossa República) tem dois lamentáveis erros - nem "arquitetura" nem "projeto" têm "c". Aliás, é assim que se ensina em todas as escolas do país, não é? Não tem a menor graça, apenas para teimosamente disputar uma batalha já perdida, estar a criar desnecessárias confusões às crianças! Também eu sou do tempo em que, lá por Vila Real, a "Pharmácia Almeida" tinha o "ph"...

"Salários milionários"

Uma vez mais, a demagogia saloia marca as notícias sobre os "salários milionários" dos diplomatas em posto no estrangeiro. Uma notícia hoje publicada no "Correio da Manhã" insere números globais, descontextualizados, dando a impressão de que os funcionários que o Ministério dos Negócios Estrangeiros envia pelo mundo auferem, por um qualquer "golpe" ou conluio inexplicável, rendimentos astronómicos. E, desta forma, ajudada por alguma "aveludada" insídia sindical sempre marcada pelo despeito, a diplomacia portuguesa é posta no pelourinho da inveja nacional. 

Lamento sinceramente que o MNE, em termos oficiais, não saia de imediato a terreiro para explicar que estes valores incluem salários ao nível dos de quaisquer outros funcionários da função pública (na base dos quais são contadas as respetivas futuras pensões de aposentação), complementados, como não pode deixar de ser, de valores para compensar as diferenças de custo de vida para um cidadão estrangeiro que reside nesses países (fixado com base em tabelas internacionais também utilizadas por outros Estados e organizações internacionais), de montantes para a ajuda ao aluguer de casas no tradicional mercado especulativo de rendas para diplomatas, de apoio parcial às despesas para acorrer à educação dos filhos em escolas internacionais estrangeiras (sem o que lhes será difícil darem continuidade a estudos no regresso dos pais a Portugal), além de (cada vez mais limitadas) verbas de "representação", para o exercício (a ser justificado e detalhado superiormente) de funções no quadro habitual - e universal - da ação diplomática, na promoção dos interesses portugueses que lhe cumpre defender junto de colegas e autoridades locais, com as imperativas atividades de natureza social que lhes compete organizar. Resta dizer que muitos desses funcionários são ainda obrigados a manter uma segunda casa em Lisboa, sem o que teriam de reiniciar contratos de arrendamento ou compra de cada vez que regressassem a Lisboa, e que, para os poderem acompanhar, os seus cônjuges são frequentemente obrigados a suspender os seus empregos, sendo assim obrigados a uma "dupla exclusividade", afetando em definitivo as respetivas carreiras profissionais.

Mas de tudo isso ninguém se lembra, nesta mediatização populista, e não vejo a comunicação oficial, tão exímia nas Necessidades para outros fins, surgir preocupada em esclarecer estas coisas simples. Porquê? Talvez porque não vá bem com "l'air du temps" e fique melhor com a colagem a um certo discurso miserabilista que marca os dias do país. E é tão fácil comparar estes "salários milionários" com a média dos salários portugueses ou com a trágica situação dos desempregados, não é?

Sei de certeza segura que esta será sempre, para os diplomatas, uma "guerra" mediática perdida. Mas porque já estou completamente afastado da carreira, sinto-me mais à vontade para poder colocar aqui, para todos os fins úteis, algumas da explicações que o Ministério tinha a estrita obrigação de usar para tentar esclarecer e desmontar este tipo de notícias. 

Estratégia nacional

Ontem e anteontem, em contextos completamente diferentes, estive envolvido, por horas, em debates que se prendem com a definição da nossa futura estratégia nacional enquanto país. Em análise estiveram as diversas condicionantes externas que nos envolvem, a maioria das quais insuscetíveis de podermos influenciar, a nossa política de alianças e a discussão sobre o melhor modo de poder vir a defender os nossos interesses à escala global.

Para quem, como eu, começou há muitos anos neste tipo de exercícios, mas que só os frequentou a espaços, está a ser notória uma mudança da qualidade dos intervenientes, cada vez mais "soltos", mais imaginativos e menos presos ao medo de explorar alternativas e de pôr em causa certos tabus. Cada vez estamos mais longe de algum "politicamente correto" que nos tolhia a expressão e isso deve-se, em grande parte, ao esforço feito por vários "think-tanks", por vezes ligados a universidades, que nos têm ajudado a refletir muito para além das ideias feitas e de alguns determinismos que agora se constata não terem qualquer sentido.

Considero esta "democratização" do debate estratégico essencial e entendo que ela talvez nos possa ajudar a consensualizar (expressão que hesitei em usar, por razões de conjuntura) algumas linhas de rumo para um país onde elas escasseiam. Confesso que, não tendo descoberto o "graal" nos exercícios em que participei, saí deles mais animado e moderadamente otimista.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Ainda o Tua

Ao que me chegou, a UNESCO decidiu aceitar por boas as explicações dadas pelo Estado português na questão da compatibilidade entre a construção da barragem na foz do rio Tua e o estatuto do Alto Douro Vinhateiro como "património mundial". Desta forma, a construção da barragem pode prosseguir. 

Aqueles que se opõem à construção da barragem afirmam que não concordam com essa decisão e vão recorrer da mesma, junto das instâncias competentes da organização. Estão no seu legítimo direito.

O que me parece menos curial é que a diplomacia portuguesa, que trabalhou o dossiê o melhor que soube e pôde, correspondendo a instruções do poder político, venha agora a ser acusada, por quantos se opõem à construção da barragem, de "um zelo diplomático que não tem limites".

Essa agora! Então não compete aos servidores públicos do Ministério dos Negócios Estrangeiros executar o que lhes é determinado? O que aconteceria se os diplomatas que tinham o dossiê a seu cargo se tivessem recusado a cumprir as instruções recebidas?

Posso perceber a frustração das pessoas, e respeito os valores afetivos que motivam muitas delas, mas, no meu caso pessoal, não aceito ser criticado por ter cumprido o meu dever. Acho que os opositores à barragem deveriam parar um pouco para entender e respeitar a posição de quem mais não é que um mero agente da administração pública.     

Estatuto bloguista

Hoje, num jornal "de referência", deparo com o autor de um artigo a dar como elemento curricular ser "co-autor" de um determinado blogue.

Vamos a ver se nos entendemos: escrever num blogue é um exercício de participação no espaço público que pode ter a sua graça - para o próprio e para quem entender lê-lo - mas que não deve ser assumido como uma espécie de estatuto. Trata-se de uma atividade de dimensão lúdica, mais ou menos efémera, que não se pode levar nunca muito a sério. Para escrever num jornal é preciso que alguém nos convide; para escrever num blogue, basta ter vontade e um computador. Quem dá importância excessiva àquilo que exprime através de um blogue, por maior leitura que ele conjunturalmente possa ter (e há blogues excelentes com escassos leitores), é porque não tem, na vida real, coisas mais relevantes em que se consiga realizar.

Honra

Achei muito estranha a reação surgida em alguns setores quanto ao pedido feito às crianças que ontem fizeram exames do 4º ano de subscreverem uma declaração segundo a qual não levavam telemóveis para a sala onde faziam a prova.

Quem é que tem medo que as crianças comecem a entender, desde cedo, o conceito de verdade e de honrar a palavra?

terça-feira, 7 de maio de 2013

Vitória brasileira

É uma boa notícia para a expressão internacional dos países de língua portuguesa a eleição do diplomata brasileiro Roberto Azevedo para o cargo de diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), há pouco anunciada. Mas esta eleição é, em primeiro lugar, uma grande vitória para a diplomacia brasileira e fico muito satisfeito que ele tenha sido titulada pelo seu ministro das Relações Exteriores, António Patriota, um bom amigo pessoal.

O Brasil tem-se revelado, de há muito, um participante ativo e relevante do processo negocial multilateral na área do comércio internacional. Dispondo de uma diplomacia muito capaz e interventiva, que sabe bem o que quer e como o obter, através de uma hábil política de interlocução e de alianças, o Brasil tem vindo a ganhar um estatuto que lhe permite consagrar institucionalmente, de forma progressiva, a sua influência e o seu poder. O modo como soube colocar-se na fase derradeira do "ciclo de Doha" da OMC, não podendo ser considerado culpado pelo seu fracasso e tendo-se mesmo revelado um parceiro construtivo na construção de modelos de compromisso final que não chegaram a vingar, poderá justificar muito do prestígio de que este resultado também é fruto.

Faço notar que este novo cargo internacional vem a somar-se ao que, desde 2012, foi obtido pelo Brasil na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, com a eleição para seu diretor-geral de José Graziano da Silva, também já sob o consulado diplomático de António Patriota.

Volto a repetir uma ideia que há muito alimento: nenhuma das áreas potenciais de afirmação estratégica do Brasil (como, aliás, de todos os restantes países de expressão portuguesa) é contraditória com interesses portugueses. Pelo contrário, o reforço do papel do Brasil à escala global é positivo para o conjunto dos países de língua portuguesa. E esperamos que, por algum efeito de arrastamento, o possa ser também para a CPLP, enquanto entidade coletiva.

O senhor Matos

Por algumas décadas, a portaria do MNE foi dirigida pelo senhor Jaime Matos. O ministério era então uma "casa" quase "familiar", em que, à entrada, havia mais pessoas com nome e menos rotativos agentes da Securitas.

O senhor Matos era também o mais prestigiado dos "procuradores", essa "instituição" de que já aqui falei, que quase todos os diplomatas eram forçados a contratar e que, na realidade, lhes facilitava a vida e lhes permitia resolver uma imensidão de problemas, em especial quando colocados no quadro externo. Mas ter o senhor Matos como procurador era um verdadeiro "must" de prestígio. Enquanto muitos contínuos e motoristas batalhavam para representar os novos diplomatas chegados à casa, o senhor Matos dava-se ao luxo de selecionar aqueles que aceitava como seus representados. E, não raramente, "cedia" mesmo diplomatas a outros colegas dedicados à mesma tarefa.

Como contei noutro post, o senhor Matos tinha a peculiaridade de informar os seus representados dos rumores que circulavam sobre futuras nomeações para embaixadas ou lugares de chefia superior na casa. A isso chamava, nas cartas que enviava, "o movimento que se diz que vai haver". Raramente se enganava, tal a qualidade e a "reliability" das fontes de que dispunha.

Com os anos, com a experiência e tendo já ouvido muito, o senhor Matos chegou mesmo ao ponto de ousar ter opinião sobre a própria justeza de certas indigitações. Um dia, ficou famoso um comentário que, por carta, deu a alguns dos seus representados: "Dizem que o senhor doutor Fulano de Tal pode vir a ser o próximo diretor político. Seja o que Deus quiser!..." Noutra ocasião, depois de anunciar ua determinada colocação, acrescentou, eloquente na sua apreciação: "enfim!..."

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Ainda o consenso

Os apelos ao consenso político, como por aqui já se notou, têm estado no centro do debate público dos dias que correm. A necessidade de tentar alargar a base de apoio, político e social, para a execução de novas medidas de austeridade levou o executivo a procurar chamar a um novo modelo de consenso o principal partido da oposição e os parceiros sociais. O tempo e o modo de surgimento destes apelos foram bem percebidos por esses destinatários e, naturalmente, não deixaram de determinar a forma como por eles foram recebidos. 

Porém, as últimas horas vieram confirmar que, afinal, continua ainda por obter um outro consenso, a ser feito a montante das próprias declarações do governo. Uma vez mais, ficou claro que a falta de consenso político começa por se verificar, desde logo, no âmbito da maioria que suporta o executivo. E não escapa a ninguém que isso condiciona fortemente a credibilidade do discurso deste último.

Se, como tudo indica, esta coreografia declaratória, aliás desenvolvida por todos os lados do espetro político, é, nos dias de hoje, essencialmente "para alemão ver", imagino a perplexidade que deve existir nas mentes geometricamente formatadas de Berlim quanto ao que por aqui se passa. Por isso, confesso que teria uma imensa curiosidade em ler o teor do telegrama que o embaixador alemão vai, daí a poucas horas, mandar para a sua capital. Pior: temo mesmo poder antecipar o que ele vai dizer. 

domingo, 5 de maio de 2013

Europa

No dia 9 de maio, dia da Europa, a partir das 21.30 horas, participarei de um debate sobre a Europa do pós-guerra, subsequente à apresentação do filme "Alemanha: ano zero", de Roberto Rossellini, a ter lugar na Cinemateca Nacional, Rua Barata Salgueiro, 39.

A Europa já não está fisicamente em ruinas, mas as ameaças sobre o projeto europeu são hoje muito sérias e obrigam a que reflitamos sobre os caminhos do futuro.

sábado, 4 de maio de 2013

Jogos de azar

Quando foi lançado, há quase 30 anos, o Totoloto tinha como slogan "é fácil, é barato e dá milhões".

Hoje, o moto aplica-se à Função Pública e aos reformados, enquanto alvos tributários. 

Ainda o Estado

Ontem, em Coimbra, após uma reunião do Conselho Consultivo da Faculdade de Economia da universidade, estrutura de que faço parte há uns anos, pude assistir a uma interessante palestra feita por um colega desse mesmo Conselho, o presidente do Tribunal de Contas, Guilherme de Oliveira Martins.

A intervenção, entre outras interessantes questões, abordou os problemas da responsabilidade financeira no exercício das funções do Estado, um tema que o Guilherme soube desenvolver com uma profundidade não contraditória com a sua perceção, sem ambiguidades, por um auditório interessado e inquisitivo. Uma das pessoas presentes, numa pergunta que apresentou, felicitou-se pelo facto daquela palestra, na agitação dos dias que correm, ter servido para nos fazer parar um pouco e ajudar a refletir, com seriedade e rigor, sobre temáticas que o nosso dia-a-dia tende quase sempre a envolver num sinal de polémica de oportunidade e, por essa via, de alguma demagogia. Fiquei a pensar que tinha toda a razão.

Num registo mais alargado, ao ouvir com atenção Guilherme de Oliveira Martins, que tem desempenhado com um notável equilíbrio e competência as funções de presidente do Tribunal de Contas, dei comigo a refletir sobre se o país o não poderia vir a aproveitar noutro tipo ainda mais elevado de responsabilidades, noutros patamares do Estado. No "baralho" das nossas figuras públicas reconhecidamente impolutas e competentes, ele surge como um dos poucos nomes verdadeira lente incontroversos. Será que o país poderá vir a ter a sabedoria para perceber isto?    

Em tempo: correspondendo a alguns pedidos, esclareço que a fotografia representa uma vista interior do hotel Movich, em Pereira, uma cidade da Colômbia. A figura ao fundo, acreditem ou não, é António Barreto, que fotografava o "panorama" seguinte.

A outra senhora

No tempo da "outra senhora" - isto é, da ditadura, para os leitores mais novos -, o meu pai, servidor público cumpridor e madrugador, costumava deitar-se relativamente cedo. Por ironia, que não por convicção, há muito que me repetia - a mim, que sempre fui um impenitente notívago - que só admitia que o acordasse se, nas notícias televisivas do fim da noite, fossem anunciados aumentos para a Função Pública, coisa que há anos não acontecia e que era muito improvável que ocorresse.

Numa noite de um desses anos cinzentos, comigo um pouco distraído a ler, mas com a televisão ligada, ouvi um comunicado oficial que anunciava, em linguagem oficiosa, típica do "discurso" do Estado Novo, que tinha sido determinado um aumento salarial para os servidores públicos. A internet estava a décadas de existir e, por uma qualquer razão, não consegui "recortar" a suposta informação nos noticiários da Emissora Nacional. Não era ainda muito tarde, mas o facto de eu ter ouvido a notícia sem grande atenção, fazia-me desconfiar de "tanta fruta". Optei por não acordar o meu pai, com receio de ter entendido mal e poder suscitar-lhe falsas esperanças. No dia seguinte, ao almoço, encontrei-o exultante, com a confirmação de um pequeno aumento salarial decidido para os funcionários públicos.

Porque é que me lembrei disto agora? Sei lá! Talvez porque a ditadura acabou em 25 de abril de 1974.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Elvas e a diplomacia

No próximo dia 10 de junho, Elvas vai ser palco das comemorações do Dia de Portugal. É uma distinção bem merecida para uma cidade que também irá, em breve, comemorar, um ano da sua elevação a Património Mundial da UNESCO.

Tive alguma coisa a ver com essa "operação" e, por essa razão, foi com prazer que, há quase duas semanas, recebi a medalha de ouro de Elvas, durante a cerimónia pública que consagrou os 500 anos da sua elevação a cidade. A inclusão de Elvas e das suas fortalezas na lista da UNESCO, durante a reunião anual do respetivo Comité, que teve lugar em junho de 2012, em São Petersburgo, foi um trabalho que me deu muita satisfação.

Porque estes exercícios nos fazem aprender sempre alguma coisa, acho que vale a pena registar alguns pormenores desse processo, porque ele é significativo e instrutivo do que pode ser uma ação diplomática. Desde que feita com um pouco de jeito, alguma capacidade de improviso e não menos sorte.

Para a reunião de São Petersburgo, Portugal levava na sua agenda um objetivo prioritário: tentar obter do Comité do Património a possibilidade da continuidade das obras em curso na barragem da foz do rio Tua, sem com isso colocar em causa o estatuto de Património mundial de que o Alto Douro Vinhateiro dispõe, desde há anos. A UNESCO pretendia a suspensão imediata dos trabalhos. Foi-nos possível reverter essa posição e sustentar o pedido de uma nova avaliação, da qual viria a resultar, meses mais tarde, uma conclusão amplamente favorável aos interesses que o Estado português entendeu dever defender.

Nas restantes questões que estavam na agenda daquilo que aquele Comité iria apreciar, o caso da elevação de Elvas ao estatuto de Património mundial era apresentado com base num relatório negativo. A UNESCO considerava não estarem ainda colmatadas algumas deficiências no processo de candidatura, pelo que aconselhava que o assunto viesse de novo a ser visto em 2013. Os problemas apontados faziam parte de uma lista de cerca de uma dezena, três dos quais eram considerados totalmente condicionantes.

A delegação portuguesa partiu assim para a Rússia sem ter o caso de Elvas nas suas preocupações. Considerava - e eu, como embaixador junto da UNESCO, partilhava também essa perspetiva  - que todas as nossas "baterias" diplomáticas deviam concentrar-se no caso do Tua, pelas suas imensas implicações financeiras, pelo que Elvas poderia aguardar um ano mais, o que nos daria a possibilidade de colmatar os pontos em falha no respetivo processo. Por essa razão, sugeri à municipalidade de Elvas que apenas enviasse um especialista, para acompanhar o debate e recolher lições para a discussão de 2013.

As coisas acabaram por ter, porém, um rumo diverso. Resolvido positivamente o problema do Tua, e ao acompanhar atentamente os trabalhos, comecei a dar-me conta de que, em mais do que um caso, alguns relatórios negativos da UNESCO face a propostas para novas qualificações como Património Mundial eram contrariados pelo voto maioritário do Comité. A doutrina dominante para explicar isto, e que também atravessava a maioria da delegação portuguesa, tinha a ver com a ideia de que se tratava de países "do Sul", face aos quais haveria uma tradicional maior complacência. Embora a minha experiência da UNESCO fosse recente (era embaixador junto da organização, em acumulação com as minhas funções junto da França, há menos de cinco meses), esta perspetiva "eurocêntrica" começou, contudo, a não me convencer. E, a certa altura, dei por mim a matutar sobre se não poderia haver ainda uma janela de oportunidade para o caso de Elvas, libertos que estávamos já, com um sucesso que não deixava de ser prestigiante para a nossa imagem negocial, da questão do Tua.

Chegado o momento da apreciação do caso de Elvas, a UNESCO apresentou, como previsto, a proposta para diferir no tempo a aprovação da decisão que lhe respeitava. E lá elencou os pontos negativos, com três dentre eles a serem anunciados como totalmente impeditivos de uma decisão logo em 2012. Na lógica normal das coisas, o assunto encerraria ali e passar-se-ia ao ponto seguinte.

Foi então que um dos 21 membros do Comité, "trabalhado" discretamente por mim horas antes, perguntou ao Comité se não seria correto que fosse dada a palavra ao delegado português - porque só com um convite expresso essa intervenção poderia ter lugar. Na ausência de objeções, e numa apresentação que já tinha articulado tecnicamente com o especialista que Elvas tinha mandado à reunião, procurei rebater o argumentário que a UNESCO tinha apresentado, revelando os "importantes" avanços feitos, precisamente nos tais pontos tidos por essenciais. E perguntei se, perante essa "evidência", não seria mais correto tomar uma decisão, ali e agora, sem a adiar mais.

A cara dos representantes da UNESCO foi de alguma surpresa e não menor desagrado, porque pensavam, até então, que a aprovação do adiamento do caso de Elvas eram "favas contadas". Tal como eu, devem, nesses instantes, ter sentido o "mood" do Comité a mudar, tanto mais que a apresentação de um belo conjunto de fotografias das fortalezas de Elvas tinha claramente impressionado o Comité. Na discussão que se seguiu, na sequência de outras "boas vontades" entretanto manifestadas, que conseguira mobilizar junto de alguns outros delegados (passar vários dias numa conferência, se não ficarmos "acantonados" junto dos colegas nacionais, acaba por criar um útil círculo de relações), as quais ecoaram positivamente a nossa proposta, percebi que o sentido do debate começou a apontar em favor dos nossos interesses. Alguma experiência multilateral ajudou a ultrapassar alguns obstáculos de natureza formal que entretanto surgiram. E, para surpresa de quase toda a gente, o Comité viria a aprovar por unanimidade uma resolução que atribuía a Elvas o estatuto de Património Mundial.

Os relatores da UNESCO não ficaram muito satisfeitos comigo, porque lhes havia "puxado o tapete" nos dois casos - Tua e Elvas -, mas, aqui entre nós e como se diz na minha terra, esse é o lado para onde eu durmo melhor...

Elvas é hoje Património Mundial da UNESCO e quem visitar essa bela terra raiana do Alentejo pode perceber bem a justiça desta qualificação.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Jornalismo luso

Um ilustrado diário da nossa praça, traz hoje, na sua primeira página, o seguinte título:

Ex-colega do avô de Vitor Gaspar esteve na manif da UGT

Não li (nem tenciono ler) o texto da notícia, injustamente remetida para duas (!!) páginas interiores, mas posso presumir, sem dificuldade, a relevância informativa da mesma.

Os charutos


O jantar naquela embaixada tinha terminado há pouco. À volta da mesa já se serviam os cafés e as bebidas brancas. A embaixatriz lembrou então ao mordomo a necessidade de trazer a caixa dos charutos. Minutos depois, o homem aproximou-se da dona da casa, informando, em voz baixa, que, infelizmente, os charutos tinham acabado. A senhora estava desolada e desculpou-se junto do convidado principal, um diplomata sentado a seu lado, o qual, com imensa subtileza, logo menorizou a falta:

- Não tem a menor importância, senhora embaixatriz. Aliás, é muito raro eu fumar um charuto. Só às vezes, no final de uma grande refeição...

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Consenso

Agora que o "consenso" anda por aí como expressão retórica de uma atitude política que subliminarmente se insinua como diferente, vale a pena recordar, através de uma fotografia, o que foi o ilusório e fátuo consenso que, no 1º de maio de 1974, alguns julgaram possível entre quantos se haviam oposto à ditadura. 

Há 39 anos, o dia do trabalhador passou-se assim. Uma leitura atenta das expressões faciais das duas principais personagens presentes na imagem pode ajudar a explicar, se bem que apenas com a experiência que adquirimos a posteriori, a divergência de projetos que ditou toda a história subsequente da esquerda em Portugal. No ano seguinte, em 1975, Mário Soares seria impedido de entrar no estádio onde se comemorava a data, com Álvaro Cunhal a conseguir ser a figura central da festa, numa vitória pírrica, como iria ficar claro em novembro.

Precisamente porque se afastaram programaticamente dos comunistas, os socialistas passaram a ter vocação de governo, nas décadas seguintes. Para o PCP, nesse mesmo período, as trincheiras iriam ser a Constituição, a área sindical e algum poder autárquico, único setor onde pontualmente se encontrou com um certo PS.

Muita água passou, entretanto, sob as pontes. Bem mais recentemente, há dois anos, o voto comunista voltou a ser determinante para ajudar a derrubar um governo socialista e abrir caminho ao regresso ao poder de uma maioria de sinal bem oposto. Estas coisas pesam para sempre no historial das relações no seio da esquerda portuguesa. 

PCP e PS seguem assim caminhos diversos na vida política portuguesa. Até hoje e, presumo eu, até aos amanhãs que se podem vislumbrar. De algumas vozes, na área socialista, ouve-se às vezes a opinião de que, com um PCP diferente, seria possível um qualquer entendimento. Mas poderia o PCP ser diferente? Podia, mas não era a mesma coisa...