quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Língua portuguesa

A convite do Observatório da Língua Portuguesa, falei hoje, na Academia das Ciências, em Lisboa, sobre o estatuto da língua portuguesa nas organizações internacionais. 

Na avaliação que fiz não fui muito entusiasta quanto ao modo como o português tem vindo a consagrar-se, na prática, no âmbito das instâncias multilaterais, nomeadamente de natureza regional.  O que eu disse surpreendeu algumas pessoas, nomeadamente pela constatação de que, no seio da União Europeia, e não obstante a letra dos tratados, o recurso cada vez mais frequente a um número limitado de línguas de trabalho configura, no plano objetivo, um recuo do português nesse contexto. Expliquei também que, em outras organizações regionais, a presença do português é hoje pouco mais do que simbólica, dado que, na prática, é uma língua muito pouco utilizada. Para concluir que, na minha opinião pessoal, mesmo que tendo de contrariar o otimismo de certos discursos oficiais, o português não está hoje num curso de progressão positiva nas instâncias multilaterais. E disse mesmo isto: "porque não é uma língua de suporte efetivo de poderes à escala global", o português, "não sendo institucionalmente uma língua menor no quadro multilateral (é língua oficial ou de trabalho em 20 organizações internacionais) é, contudo, uma língua com um estatuto inferiorizado face a outras com valor simbólico idêntico".

No decurso da minha apresentação, contei uma história comigo ocorrida em 1995, no "grupo de reflexão" criado para a revisão do tratado de Maastricht. A regra era os debates terem lugar em francês e inglês. Por essa altura, a Alemanha vivia um período de afirmação da sua importância institucional e impunha a interpretação do alemão nos trabalhos, o que era dificil de recusar, por se tratar da mais falada primeira língua dentro da UE. Contudo, aproveitando a "boleia", a Espanha, que tinha a presidência do "grupo de reflexão", e a Itália, que era a nova presidência semestral da UE, colocaram discretamente as respetivas línguas entre as que poderiam ser utilizadas na reunião seguinte do "grupo", na qual, por coincidência, eu iria substituir o titular português, o professor André Gonçalves Pereira.

Mandei dizer a Bruxelas que, no que me tocava, se os representantes italiano e o espanhol tivessem interpretação, eu não dispensaria interpretação a partir do português. A resposta foi que, de momento, não havia "disponibilidade" para colocar intérpretes de português Era, naturalmente, uma falsidade. Recordo-me que telefonei aos colegas holandês e grego para tentar que se juntassem a mim no protesto, mas dei-me conta de uma estranha complacência com a "golpada" espanhola e italiana. Não desisti: informei então que, a persistir a teimosia desses dois países, quer houvesse ou não interpretação, eu falaria em português. E, para aqueles que não me compreendêssem, eu faria depois uma tradução de toda a minha intervenção (seis ou sete minutos) em francês ou inglês. Avisava, assim, que contassem com um quarto de hora de intervenção portuguesa...

O ambiente que me acolheu em Bruxelas não foi o mais simpático. O presidente espanhol do "grupo de reflexão", Carlos Westendorp, pediu para me ver e explicou que a ausência da interpretação para português era meramente "conjuntural" e que, numa próxima reunião, o assunto "se resolveria". Segundo ele, a nova presidência italiana da UE havia imposto o italiano e eu deveria compreender que a Espanha, "até porque tinha a presidência dos trabalhos", não poderia ficar numa "posição de inferioridade". Por isso, além do inglês, francês e alemão, os trabalhos teriam a possibilidade de interpretação em espanhol e em italiano. Pedia, "encarecidamente", que eu não criasse dificuldades. Recusei. E avisei: se ele ou o italiano falassem nas suas línguas, eu falaria português, traduzindo depois. Westendorp não gostou do que ouviu. E o encontro não acabou de forma muito agradável.

Recordo-me bem que me sentia numa posição de alguma dificuldade, tanto mais que estava ali como substituto do titular da representação portuguesa, a agir sem instruções (embora os meus colegas em Bruxelas o não soubessem). Mas decidi não ceder. Fomos para os trabalhos e, com agrado, notei que Westendorp os abriu em francês. Não pedi logo para falar, esperando a atitude do representante italiano, Silvio Faggiolo. Notei que este estava muito nervoso e que, quando nos cruzámos, praticamente não me falou. A certo passo, inscreveu-se para usar da palavra. Eu fi-lo de imediato, também. Quando chegou a vez da Itália, Faggiolo falou... em inglês, dispensando assim a interpretação de que dispunha. Eu fiz o mesmo, logo de seguida, falando francês ou inglês (já não me recordo bem), não recorrendo à anunciada intervenção em português, seguida de tradução. A "crise" acabara.

Diga-se, para a história - e quem, à época, estava a trabalhar em Bruxelas recordar-se-á disto -, que foi "remédio santo": nunca mais houve interpretação em espanhol ou italiano do "grupo de reflexão", nem na "conferência intergovernamental" que se lhe seguiu, por quase um ano, e que deu origem ao tratado de Amesterdão. O mesmo viria a suceder, anos mais tarde, com o tratado de Nice. Bater o pé, quando se tem razão, compensa. E não perder posição para outros é, pelo menos, uma possibilidade de ir "empatando" o jogo. E, quando se empata, não se perde...

O convite

A vida tinha-me levado, por umas semanas, à chefia interina do Protocolo de Estado. Numa conjuntura complicada, a maioria dos funcionários do serviço tivera de se ausentar para o estrangeiro e coube-me a mim, a pedido do Secretário-geral, tomar conta das coisas. Essencialmente, tratava-se de assegurar a rotina e procurar garantir que todos os dossiês pendentes iam sendo encaminhados.

(Recordo-me que me deu "uma de zelo" e que mandei recolher a montanha de papelada que pairava sobre todas as secretárias e pastas de despacho, dando andamento imediato a tudo e procurando resolver todos os problemas pendentes ou atrasados, fosse de que ordem fossem. Os funcionários administrativos do Protocolo ficaram siderados e os dois diplomatas que comigo colaboravam, Fátima Mendes e João Corte-Real, andavam divertidos e deliciados. Constou-me que alguns dos meus colegas ausentes, quando regressaram, ficaram verdadeiramente furiosos, ao depararem com tudo "limpo" e em dia...)

Uma tarde, entrou-me no gabinete um velho embaixador, há muito aposentado. Era uma homem com um sorriso constante, quase um esgar, que nos habituáramos, ao longo dos anos, a ver calcorrear os corredores da casa. O ministério era a sua verdadeira família e passear-se por lá estava-lhe na massa do sangue. Por isso, ele fazia já parte da "mobília".

Recebi-o com a atenção que lhe era devida. Era um nome célebre na casa. Estivera em grandes postos, tivera grandes responsabilidades, sobre ele circulavam inúmeras historietas, tendo sempre como pano de fundo o facto de ser um grande servidor público. Dizia-se que detestava tudo quanto dissesse respeito à cultura ("a cultura só traz chatices", seria uma sua frase célebre), que era um "charmeur" com as senhoras e de uma persistência profissional sem limites. Constava também que mantinha uma grande influência nas colocações e promoções de pessoas amigas. Os seus protegidos eram conhecidos pelos "rapazes do..." e, na realidade, era prova provada que obtinham vantagens por virtude dessa tutela. Aquele embaixador era, assim, uma verdadeira lenda.

Com toda a deferência, mandei-o sentar. "O colega deve estar com muito que fazer, não quero incomodá-lo", disse, delicado. Fui referindo que estava ali "por empréstimo", interinamente. Ele sabia vagamente quem eu era, devia ter recolhido de mim a "opinião de corredor", que é uma espécie de "label" que, com maior ou menor justiça, todos vamos criando e "afinando" ao longo dos anos de carreira, na memória coletiva. A ele era-lhe indiferente quem eu era, o seu propósito era outro.

"O colega está a tratar da visita presidencial?" Tratava-se de uma próxima deslocação de um chefe de Estado estrangeiro a Portugal. O dossiê andava por ali, mas ainda faltavam algumas semanas, seguramente já não seria eu a conduzi-lo, embora houvesse coisas que estavam já a ser feitas por nós, nesse contexto. Expliquei-lhe o estado da arte.

O velho embaixador, continuando a insistir em que não queria perturbar o meu trabalho, deixou então cair a razão da sua visita: "Eu só queria pedir ao colega um favor. É que, se possível, deixasse no processo uma nota para serem convidados, para o banquete de Estado na Ajuda, os embaixadores portugueses - os vivos, claro... - que serviram nesse país. É que, como por certo concordará, os estrangeiros estranhariam se nós lá não estivéssemos..."

Balbuciei a minha concordância de que seria "impensável" se assim não fosse e, desde logo, prontifiquei-me a deixar uma nota no processo e, mesmo, a chamar a atenção do chefe do Protocolo. O embaixador ajuizou melhor o meu ar interino e, arguto, tendo-se apercebido da fragilidade da minha influência na decisão final, acrescentou: "Fico-lhe muito grato que faça isso. Mas eu ainda passarei por cá outra vez, daqui a uns tempos...".

Quando saiu, senti tristeza pela imagem de um embaixador a mendigar um lugar numa mesa oficial. E prometi a mim mesmo lembrar-me disso, quando deixasse o serviço ativo, para nunca vir a ter a tentação de incorrer numa atitude similar. É precisamente isso o que estou a fazer agora. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A entrada

Dormi lá há dias. É um belo, tradicional e renovado hotel do Norte de Portugal, com uma sala de refeições magnífica, a lembrar outros tempos, e com uma cozinha agora com o dedo do meu amigo Rui Paula, mas que ainda não experimentei.

Há cerca de dois anos, entrámos lá uma noite, para jantar, com dois casais amigos. Abancámos num extremo da sala e, minutos depois, vislumbrei-o, precisamente do outro lado. Era um colega meu, embaixador, arrulhando, com toda a evidência, imerso num "caso", numa mesa de canto, com uma senhora loira. Nada de pecaminoso, nem de invulgar. Apenas uma curiosidade. Ele "nem" nos via, ela não nos conhecia.

Veio a lista, começámos a escolher e eu, confesso!, não resisti e liguei-lhe pelo telemóvel. Identifiquei-me e ele respondeu, algo incomodado:

- Você desculpe, mas eu agora estou ocupado.

- Eu sei... Só lhe queria perguntar se me recomenda alguma entrada. Houve alguma coisa que o tivesse tentado mais?

Vi-o levantar a cabeça, escrutinando a sala. E lá me descobriu, no outro extremo, a acenar-lhe, sorridente mas convenientemente discreto.

- O abacate não estava mal, esclareceu, pedagógico, numa esforçada tentativa de manter um registo sério.

Agradeci e deixei-o na paz da senhora.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O preto?

Certeiro e desassombrado, Ferreira Fernandes aborda hoje, na sua crónica no "Diário de Notícias", a ridícula polémica que por aí se desencadeou, por virtude de um comentário do líder da CGTP, Arménio Carlos, que teve a "ousadia" de anunciar assim o regresso da "troika": "vêm aí outra vez o três reis magos: um do BCE, outro da CE e o mais escurinho, do FMI". Algumas vestais saíram logo a terreiro com a alegação de que a referência ao "mais escurinho" era uma pura manifestação de racismo.

Confesso que tenho cada vez menos paciência para o "politicamente correto" e para o modo policiesco como alguns olham qualquer frase que, remota ou diretamente, toque um conjunto de temas que se convencionou colocar numa espécie de redoma.

Um dia, em Angola, estava numa festa no Hotel Panorama, a que tinha ido com um grande amigo angolano, Manuel Domingos Augusto, hoje membro do governo daquele país. A certa altura, chamei-lhe a atenção para uma pessoa que estava do outro lado da sala, que eu tinha a ideia de conhecer de qualquer lado. Expliquei que era "aquele tipo baixo, de casaco escuro, encostado à janela". Havia duas pessoas nessas condições, pelo que foi preciso dar outro pormenor: "o que está a fumar". Aí o Manel reagiu: "Ora bolas! É o preto? Já podias ter dito...". Era, mas eu, "travado" pelo politicamente correto, estava a hesitar dizer isso ao Manel, ele próprio bem negro. Nada como gente sem complexos para nos colocar à vontade.

Por este andar, um destes dias, ainda alguém nos vem chamar a atenção se dissermos que "a coisa aqui está preta". E não está?

"Epicur"

A vida, a profissão, os gostos, a comida, os vinhos e os restaurantes de Paris (com uma ousada nota de algumas dezenas de mesas de restauração na capital francesa) - tudo isso aparece hoje, sob a minha responsabilidade, no novo número da revista "Epicur". 

Foi o resultado de uma entrevista que dei em dezembro. Estou com muita curiosidade de ler o que vai sair dali, até porque (aqui entre nós...) já não me recordo bem do que então disse... 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Anos

Leio no "Público": Mikhail Baryshnikov faz hoje 65 anos. Tenho pena de nunca ter encontrado o bailarino russo, porque confesso que gostava de conhecer alguém que nasceu precisamente no mesmo ano e no mesmo dia que eu. O jornal esquece-se de mencionar que Nicolas Sarkozy e Alan Alda também são hoje aniversariantes, embora opte por recordar (e faz muito bem!) que Maitê Proença faz hoje (uns belos) 55 anos. É também um orgulho fazer anos no mesmo dia que António Arnaut, uma grande figura moral da política portuguesa. E, todos os anos, volto a encontrar-me virtualmente nesta data com Cardoso e Cunha, ex-ministro e ex-comissário europeu.

O que nos liga a quem faz anos no mesmo dia que nós? Nada de particular, mas, por qualquer razão, não deixamos de assinalar a coincidência. É que nada há de mais diferente do que entre mim e Baryshnikov: eu sou um inigualável "pé de chumbo"...

PS - Aproveito para agradecer aqui todas as simpáticas mensagens recebidas nesta data em que passo a ter acesso a descontos em teatros, museus e passes de transportes, até que alguém se decida pôr devido cobro a esses injustos privilégios milionários... 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Cantores

Estávamos no belo e espaçoso jardim em volta daquela nossa embaixada, num país da África Oriental. Recordo-me de estar a beber um Pimm's, a bebida mais adequada para o cenário pós-britânico em que nos encontrávamos, nesse final de tarde, com uma temperatura deliciosa, descansando depois de muitas horas de "jeep" a atravessar um deserto, vindos de outro país, onde havíamos participado numa reunião internacional.

O embaixador português e a sua mulher, pessoas muito agradáveis e educadas, haviam insistido para que parte da delegação que acompanhava o membro do governo português ficasse instalada com ele na residência, fugindo ao ambiente inóspito do hotel.

A conversa ia boa e solta. Já não sei bem porquê, falou-se de música e, de repente, dei comigo a elaborar, de forma muito crítica, sobre as letras das canções de alguns dos mais conhecidos intérpretes da nossa praça, atacando o seu sentido "popularucho" e a sua frequente deriva para o facilitismo. O meu discurso aproximava-se, a passos largos, do inevitável "name-dropping" quando comecei a notar, na cara do meu colega António Monteiro, uns esgares um tanto estranhos, que não me pareciam derivados do sabor do Pimm's. Outro diplomata presente, o João Salgueiro, fazia-me sinais crípticos. O Manuel Lopes da Costa, sempre imperial na sua barba branca, arregalava-me os olhos. Só o membro do governo se mantinha, como o estatuto porventura exigia, numa serena e impenetrável impassibilidade. O embaixador, esse, sorria.

Foi então que a embaixatriz, delicada e inteligente, com um tato superior, atalhou: "Você tem toda a razão. Esses cantores e compositores, às vezes, vão por caminhos um tanto ridículos. Tenho avisado disso, para que procure evitar esses erros, o meu irmão, o José Cid. Acha que ele caiu nesse pecadilho?".

Escondi-me atrás da palhinha do Pimm's, porque, infelizmente, aquele imenso jardim não tinha um buraco para eu me meter...

sábado, 26 de janeiro de 2013

384 livros

São 384! São os livros que, pela primeira vez na minha vida, deixo para trás, aqui em Paris.

Realisticamente, eles não caberiam nas minhas estantes em Portugal e os milhares que encheram muitos caixotes, que já estão a caminho no contentor, terão de ficar num armazém, em Lisboa, até que eu consiga espaço (sei lá como!) para acomodá-los.

Até hoje, num otimismo sem sentido, mantive sempre a ideia (que sabia falsa) de que poderia vir a relar qualquer dos livros que possuía. Nesta lógica, começo a ficar preocupado comigo mesmo por "desistir" de ler estes 384 livros. Tenho de pensar melhor nisto...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

... e Le Pen

Aquele meu conhecido, um homem encantador que vive numa "péniche" atracada a um cais do Sena, estava claramente hesitante quando me abordou. Queria ter-nos como convidados para um jantar no seu barco, onde vive rodeado de antiguidades, mas não sabia se eu aceitaria que na ocasião também estivesse o seu "ami Jean-Marie". À primeira não percebi, à segunda lá entendi que se tratava de Jean-Marie Le Pen, o líder da extrema-direita, à época ainda presidente do Front National, personalidade que, pelos seus propósitos negacionistas e outras tomadas de posição inaceitáveis, faz claramente parte das figuras "non fréquentables" para uma grande maioria dos franceses.

Le Pen é, a grande distância, dentre as personalidades do espetro político francês, a mais polémica. Confesso que tinha alguma curiosidade em conhecer, ao vivo, essa figura, com a qual, como já aqui recordei, eu próprio tivera uma "accrochage" no Parlamento Europeu, em 2000. E, ultrapassando algumas hesitações íntimas, aceitei o convite para jantar.

Há figuras que são exatamente aquilo que é a sua caricatura. Le Pen é uma delas. As suas reações em privado, a sua forma de estar e de interagir, reproduziam precisamente a imagem que eu tinha dele, recolhida das muitas aparições que lhe vira na televisão. Foi cordial para com o embaixador de um país que conhece bem e sobre cujos nacionais, sem ser entusiático, disse as coisas óbvias do "politicamente correto" francês. Contou-me das suas viagens ao Porto, como velejador, onde conheceu o "Duque" da Ribeira, de quem se teria tornado amigo. Elogiou as qualidades gastronómicas de um restaurante português da periferia de Paris, que ainda hoje é uma espécie de cantina informal do "Front National", por se situar ao lado da respetiva sede. Não me disse, mas isso eu sabia, que há uma presença de portugueses e luso-descendentes nos apoiantes do partido.

À mesa, fiquei à sua direita (tem alguma graça, ficar "à direita" de Le Pen). Dominou a conversa, com um discurso bastante crítico do então presidente Sarkozy, muito centrado na necessidade de reforço das políticas securitárias e no combate ao que considerou ser a "permissividade" na gestão dos fluxos migratórios. Os circunstantes, gente claramente conservadora, mostravam-se simpáticos perante o que ouviam. Um, dentre eles, chegou mesmo a afirmar que, pela primeira vez, encarava votar "Front National" nas próximas eleições. O ambiente não era desfavorável a Le Pen.  

Durante muito tempo, mantive-me bastante discreto na conversa, interessado que estava em olhar a  personagem. "Entre la poire et le fromage", decidi intervir. Disse que o fazia como observador estrangeiro, não comprometido com a vida política francesa. Mas que não resistia a expressar uma curiosidade. Como ele bem constatara, algumas das suas propostas políticas até eram relativamente aceites, porque, aparentemente, iam ao encontro das angústias, em matéria de segurança, uma certa França alimentava. Por essa razão - perguntei eu a Le Pen - por que razão persistia em manter, no seu discurso político, uma outra dimensão, assente em pressupostos como a desvalorização da barbárie nazi nos campos de concentração, temática com óbvias conotações antijudaicas que acabava por radicalizar a postura do "Front Nationale" e dele afastar potenciais simpatizantes?

Le Pen olhou-me, talvez surpreendido pela frontalidade da questão. Mas reagiu bem. Sem hesitações, perguntou-me: "Está a referir-se ao 'detalhe'?". Estava. Ficou famosa a frase em que Le Pen, a propósito da quantificação do número de assassinatos nazis nos campos de concentração, disse que isso não passava de um "detalhe" no contexto das mortes do segundo conflito mundial. E voltou a repetir isto. E acrescentou, por exemplo, que era muito estranho que nunca se falasse no facto das linhas de caminhos de ferro que levavam a esses campos alemães nunca tivessem sido bombardeadas pela aviação aliada (confesso que nunca ouvira isto!).

Tudo isto deu, por completo, em poucos minutos, a volta ao ambiente. As mostras de simpatia pelas políticas securitárias ou de controlo da imigração preconizadas por Le Pen dissolveram-se no ar, que se tornou pesado. O jantar terminou um tanto de forma apressada. À saída, o convidado que havia dado mostras de poder vir a votar "Front National" aproximou-se de nós e, em voz baixa, pediu desculpa por termos sido testemunhas de "algumas tomadas de posição que envergonham a França".

Como já era previsto, Jean-Marie Le Pen veio a ser substituído na liderança do "Front National", meses depois, pela sua filha, Marine Le Pen. O discurso desta abandonou, em absoluto, as questões que faziam parte do temário "maldito" do seu pai. Marine Le Pen e o "Front National" recolheram, nas eleições de 2011, uma muito razoável quota de votos e, de certo modo, começaram o processo de "naturalização" do partido na vida política francesa. Jean-Marie Le Pen, que nunca mais vi, não deve ter mudado de ideias. Em França, uma questão que ainda se coloca é saber se o "Front National" verdadeiramente rejeita a agenda do pai Le Pen ou se a sua nova postura é meramente tática. 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Comunistas

Acabei de escrever há pouco o prefácio para um interessante livro do professor Janela Antunes sobre a vida política portuguesa entre 1974 e 1976. É um trabalho que desejo que seja publicado em breve, porque nele muito se aprende sobre esse tempo agitado de mudança de paradigma na vida política portuguesa. O texto é acompanhado por uma riquíssima e inédita seleção de documentos diplomáticos franceses da época, que têm a curiosidade de nos pôr a ver a nossa realidade sob os olhos do Quai d'Orsay.

Um dos focos importantes do livro e da documentação que o acompanham é a ação do Partido Comunista Português. E dei por mim a pensar que foi uma delegação do PCP a primeira a visitar-me, após a minha chegada a Paris.

Nunca tive qualquer relação política pessoal com o PCP, partido onde tive e tenho vários amigos. De há muito que conservo um grande respeito pela indiscutível coragem dos comunistas portugueses na luta contra a ditadura do Estado Novo. Como muitos oposicionistas, estive, com grande gosto, ao lado deles nas "batalhas" da CDE de 1969 e, frequentemente, na luta associativa académica antes do 25 de abril.

No período subsequente ao 25 de abril, tive fortes divergências com certo tipo de atitudes e opções que o PCP tomou, nomeadamente no âmbito da política militar de então. A leitura do livro do professor Janela Antunes ajudou-me, aliás, a perceber melhor o fundo dessas divergências.

Desde então, a minha relação institucional com o PCP pautou-se sempre por uma atitude de grande respeito democrático, que, na minha perspetiva, tem de estar sempre para além das opções políticas. Tive o privilégio de ter estabelecido um relação muito cordial com figuras do PCP já desaparecidas como João Amaral, Luís Sá ou Joaquim Miranda. E recordo a supresa de Jerónimo de Sousa, o atual secretário-geral, quando, como embaixador de Portugal no Brasil, o fui cumprimentar no início de uma conferência que proferiu numa instituição do Rio de Janeiro, gesto que não me parece que seja muito comum na diplomacia portuguesa. Os comunistas, podendo cometer erros como qualquer força política, não "comem criancinhas ao pequeno almoço" e a democracia portuguesa tem tudo a ganhar em tratar com consideração e equanimidade democrática o PCP.

Mas voltemos à visita que a delegação do PCP me fez, nesse mês de março de 2009. Eram três elementos e, durante quase uma hora, mantivémos uma agradável conversa, em particular sobre a vivência política no seio da diáspora portuguesa em França. No final, um dos integrantes da missão comunista congratulou-se com o facto do pedido de audiência ter sido concedido com grande rapidez, decorridos muito poucos dias após ter sido formulado.

Com um sorriso, esclareci-os: "Eu quis que esta conversa tivesse ligar na data de hoje, que sei que ela lhes é muito grata..". Olharam uns para os outros e, nesse momento, deram-se conta que estávamos em 11 de março, data que os comunistas portugueses intimamente comemoraram como sendo a das grandes nacionalizações de 1975...   

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Saudades do senhor Aguieira

No MNE, em matéria de embalagem dos nossos pertences, quando partimos de Lisboa ou mudamos de posto, há duas épocas distintas: o tempo do senhor Aguieira e o tempo que lhe sucedeu. 

O senhor Aguieira pertencia a uma empresa de transportes que, por um daqueles mistérios que já não vale a pena tentar esclarecer, noutros tempos ganhava, com insistente regularidade, quase todos os concursos. Muitos meses antes da viagem, ainda antes dos decretos "saírem", quando a nova colocação era apenas um rumor consistente pelos claustros das Necessidades, os diplomatas eram aproximados, pessoalmente ou por carta, pela empresa a que pertencia o senhor Aguieira, com o objetivo de pôr à disposição os respetivos serviços. 

O senhor Aguieira circulava pelos corredores do MNE, sempre de pasta na mão, como se fosse dos quadros da casa. Tinha o ar daquilo a que, em certa época, se qualificava como "um velho ministro de segunda" (sendo que "ministro" significa, no nosso jargão interno, "ministro plenipotenciário", bem entendido!). Sempre a caminho ou a sair do "quarto andar" (a área administrativa), o senhor Aguieira distribuía cumprimentos a muitos que ia encontrando, porque era estimado e apreciado genuinamente na casa. Em situações complicadas, o senhor Aguieira "desenrascava" as coisas, colocando-nos no estrangeiro, sem custo, bagagem de que só tarde nos tínhamos apercebido que necessitávamos. E, em Lisboa, guardava em armazem, por meses, pacotes que não tínhamos onde deixar. Entrar em contacto pessoal com o senhor Aguieira era uma experiência magnífica. Homem de grande cordialidade e muito educado, tinha toda a rede necessária para nos facilitar a vida. 

Na minha primeira mudança para o estrangeiro, não tínhamos a noção da importância de contactar diretamente o senhor Aguieira. A minha mulher ligou um dia para a empresa, para tratar de uma qualquer questão relacionada com esse transporte. Por minutos, a chamada andou de um lado para o outro. Até que, esclarecidos que se tratava de um diplomata, a puseram em contacto com o senhor Aguieira. A reação deste foi extraordinária: "Ó minha senhora! Porque não falou logo comigo? Andou aqui pela casa a ser tratada como "louça de Sacavém" quando, afinal, se tratava de "porcelana da Vista Alegre"!". E logo resolveu tudo. De forma inexcedível.

Quando, nessa primeira saída, os meus livros chegaram a Oslo, embrulhados dois a dois, antes de serem colocados nos caixotes de cartão, recordo os olhos dos vikings encarregados da desembalagem, surpreendidos com o esmero do empacotamento do pessoal do senhor Aguieira. 

Ontem, naquela que é a minha derradeira mudança, tive imensas saudades do pessoal do senhor Aguieira, ao observar o modo primário como por aqui se embalam os livros, sem cuidar da delicadeza de alguns. Tudo a esmo!

Não sei se o senhor Aguieira, o nosso senhor Aguieira, ainda é vivo. Espero bem que sim*. Se o for, deixo-lhe um forte abraço; se o não for, fica a expressão da minha saudade. E, conhecendo razoavelmente muitos dos meus colegas, tenho a certeza de não estar só nestes meus sentimentos. O MNE tem saudades do senhor Aguieira, podem crer.

*um comentador diz que não, infelizmente

Portugal e a UNESCO

Uma organização como a UNESCO tende a ser inundada por ofertas dos vários países, em especial por obras de arte cuja qualidade é, por vezes, muito discutível. Por essa razão, a organização possui um comité que faz uma triagem das potenciais ofertas e define aquelas que podem ser aceites.

Em 2011, esse comité apenas aprovou uma obra candidata a oferta: uma fotografia de Jorge Molder, um dos mais reputados fotógrafos de arte portugueses, oferecida por Portugal. Hoje, na despedida que fui fazer à diretora-geral da UNESCO, Irina Bukova, fiz-lhe entrega formal dessa obra.

Irina Bukova, que se vai recandidatar à direção-geral da UNESCO, é uma amiga pessoal de longa data. Tivemos responsabilidades governamentais similares e, mais tarde, fizemos parte de um "think tank" sobre política internacional que se reunia anualmente na Grécia, sob a coordenação de Georgios Papandreou - um nome que agora não está muito "na moda", mas um amigo de quem ambos gostamos muito.

Nos anos 90, em funções oficiais, Bukova esteve em Lisboa a meu convite e visitei-a em Sófia. Um dia, regressado à Bulgária numa outra visita, pedi para que ela fosse convidada a estar presente num certo ato público, por nós organizado. Foi-me chamada a atenção para o facto dela estar na oposição e isso poder ser visto como um gesto inamistoso pelo poder da época. Confirmei o convite e recordo-me que ela teve a amabilidade de se deslocar de muito longe, só para poder aceitá-lo. Depois disso, Irina foi ministra dos Negócios Estrangeiros do seu país e hoje dirige a UNESCO, funções onde sempre deu notas de grande simpatia para com Portugal. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

"Et pourtant..."

Por ocasião da saída do seu posto, os embaixadores escrevem, em geral, aos restantes colegas estrangeiros colocados na mesma cidade ou organização, cartas de um modelo tipificado, em que, para além de anunciarem a sua partida, fazem referência às "relações, tanto oficiais como pessoais" mantidas com os colegas, que sempre "refletem as excelentes relações entre os nossos dois países e missões". Acrescenta-se mesmo que foi "um privilégio e um prazer" manter esse relacionamento.

Verdade seja que estes salamaleques, que muitas vezes nada têm a ver com a realidade das coisas, são apenas almofadas de retórica que ajudam a tentar preservar a fluidez do relacionamento entre os agentes diplomáticos, para além de todas as conjunturas políticas. Como embaixador de Portugal, país que tem uma rede muito estável de relações externas, nunca senti necessidade de ser hipócrita ao assinar estas coisas, embora o gongorismo da carta assuma, em muitos casos, um evidente exagero em termos de proximidade no relacionamento. Casos há em que nem me lembro bem da cara do colega, quanto mais da "excelência" das relações com ele mantidas. É que estamos a falar de cerca de 300 pessoas, somados os embaixadores bilaterais em Paris com os da UNESCO. Como, em relação aos mais próximos, é de bom tom deixar uma palavra adicional à mão, fácil é perceber o tempo gasto. Já tive de mudar de caneta...

(Diga-se que os meus colegas estrangeiros que são embaixadores junto da UNESCO devem estar um tanto perplexos: contando desde fevereiro de 2009, o meu sucessor irá ser o quinto chefe de missão português que vão conhecer. Em quatro anos!)

Mas, hoje, a curiosidade deste tipo de cartas prende-se apenas com facto de uma das que assinei ter sido dirigida a Charles Aznavour. É que ele é o embaixador da Arménia junto da UNESCO. "Et pourtant", nunca o cruzei nos corredores da organização ou em alguma reunião. Fica a ideia de que dá apenas o nome e muito menos a honra da sua presença. Mas não deixei de achar graça ao facto de ter tido o ensejo de me corresponder, com presunçosa intimidade, com o grande Aznavour.

Afonso Costa

Durante 10 anos, entre 1927 e até à sua morte, em 1937, Afonso Costa residiu em Paris, no Hotel Vernet, no nº 25 da rue Vernet, a dois passos dos Champs Elysées.

Sempre me pareceu significativo - embora não achasse estranho - que ninguém até agora se tivesse preocupado em deixar assinalado o local onde morreu um dos mais destacados estadistas republicanos, perseguido e exilado pela ditadura militar e pelo "Estado Novo".

Essa falha foi colmatada, passando o Hotel Vernet a consagrar, a partir de hoje, um dos seus mais ilustres hóspedes, com uma placa com os seguintes dizeres: "Afonso Costa / Ancien Premier Ministre du Portugal / a vécu dans cet hôtel / pendant son exil en France / 1927-1937".

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Eliseu

Na passada semana, acompanhando o primeiro-ministro português, passei uma hora no palácio do Eliseu. Foi uma - provavelmente a última - das bastantes visitas que, durante os últimos 17 anos, fiz àquele magnífico "hôtel particulier", sempre impecavelmente conservado. O Eliseu reflete hoje o esplendor da República, curiosamente num "décor" que recorda tempos muito distantes dela. Para as memórias que talvez nunca escreva, durante conversas que foram dos acontecimentos no Mali ao próximo orçamento da UE, tomei notas sobre pormenores da sala e do mobiliário, complementadas por algumas liturgias do encontro.

Ontem, no "Le Figaro", o correspondente do "Die Welt" em Paris, Sasha Lehnartz, escrevia: "de cada vez que tenho o privilégio de aceitar um encontro do palácio do Eliseu, tenho a impressão de ser recebido numa audiência pelo Papa". O jornalista contrastava a sobriedade espartana das residências oficiais alemãs com o ambiente palaciano, "mistura de pompa pós-feudal e de grandeza republicana". Mas, curiosamente, não elogiava o seu modelo.

O poder também se faz de símbolos. Sem uma certa coreografia, sem alguma pompa, os cidadãos tendem a olhar para os titulares da autoridade com um sentimento de banalidade, embora quiçá de simpatia. Mas a distância que o poder cria parece ser essencial para essa mística que sustenta as hierarquias de que a política - toda a política - é feita. A questão estará sempre na sabedoria necessária para encontrar um tom exato, suscetível de sublinhar a importância da função exercida sem apoucar os cidadãos, os quais, no fundo, são a verdadeira razão de ser dos sistemas políticos. 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Do "Cercle" à "Confraria"

Creio que em 1998, numa passagem por Paris, fiz uma palestra a convite um grupo de portugueses. Compunham-no empresários, gente da banca, figuras da cultura e diplomatas. Reuniam-se em jantares aperiódicos, sendo hábito convidarem uma personalidade portuguesa para lhes falar de aspetos da vida do país. O grupo tinha como nome "Cercle".

(Eu já havia vivido uma experiência similar em Londres, onde existia (ainda existirá?) o "CPE - Centro Português de Estudos", em tudo idêntico ao seu congénere parisiense.)

Em 2009, logo após a minha chegada a Paris, perguntei pelo "Cercle". Havia desaparecido, já há algum tempo. Porque achava o conceito curioso, procurei mobilizar alguns dos seus antigos integrantes. Cedo percebi que o modelo se esgotara e que não parecia haver interesse em ressuscitá-lo.

Foi então que chamaram a minha atenção para a existência de uma recém-criada "Confraria dos Financeiros", um nome, com uma irónica simplificação, dado a um grupo de jovens (em média, muito mais jovens do que os integrantes do "Cercle") que tinha um modelo de agregação idêntica. Dele faziam parte portugueses de segunda geração e pessoas colocadas em França em vários lugares técnicos de destaque, com uma predominância na área financeira, o que justificava a designação. 

Durante os últimos quatro anos, tive vários contactos com a "Confraria" e, na medida do que me era possível, estimulei o seu reconhecimento. Na passada semana, os seus integrantes convidaram-me para um jantar de despedida. Foram momentos muito agradáveis de conversa com gente interessante, integrada em setores bastantes diversos, que entre si estabelecem uma rede de amizade e conhecimentos que consagra, por si só, uma nova imagem do nosso país. 

Do "Cercle" à "Confraria", consagrou-se um rejuvenescimento e, em particular, o surgimento de gente já nascida em França e que aqui fez todo o seu percurso de ascensão profissional. Há, cada vez mais, um novo e diferente Portugal a impor-se neste país.

Maison du Portugal

Desde que cheguei a Paris, contestei sempre, aberta e publicamente, o facto da residência em que, maioritariamente, se acolhem os estudantes portugueses na cidade universitária ter deixado de ser referida como "Maison du Portugal", passando a ser designada apenas por "Residência André de Gouveia", uma importante personalidade da história da cultura portuguesa, de há cinco séculos, mas cujo nome não diz rigorosamente nada a 99,9% das pessoas que o ouvem. E, em particular, uma figura que apenas alguns especialistas estrangeiros identificam como ligado a Portugal.

A "Maison du Portugal" tem fortes tradições históricas na memória portuguesa em Paris e fiz ponto de honra tentar inverter a situação que aqui encontrei. A qual era tanto mais estranha quanto, pouco antes da minha chegada, sob o impulso do meu antecessor, a comunidade empresarial portuguesa em Paris havia-se mobilizado financeiramente para renovar radicalmente a residência, aumentando-a e tornando-a mais confortável. Tinha algum sentido, depois desse esforço, que vai aliás continuar, que a casa perdesse o caráter português?

Durante estes quatro anos, em "démarches" pessoais feitas perante as autoridades da Cité Universitaire de Paris e junto da Fundação Calouste Gulbenkian, em sessões públicas e em documentos e correspondência oficiais, lutei para que o nome "Maison du Portugal" fosse inscrito formalmente na designação oficial daquela residência, a qual, aliás, as placas de sinalização interna da Cité já reduziram à "esclarecedora" sigla RAG...

Na passada semana, fiquei muito satisfeito ao ser informado que esta "luta" acabou por valer a pena: na reunião do conselho de administração, com a anuência da direção da Cité, foi decidido que a residência passará a designar-se "Maison du Portugal - André de Gouveia". Aqui fica o meu agradecimento e os meus parabéns à diretora da casa, professora Ana Paixão, bem como ao dr. Artur Santos Silva, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian. Com a cumplicidade de ambos, pudemos ter sucesso neste objetivo. A teimosia compensou...

sábado, 19 de janeiro de 2013

Despedidas

Estes têm sido, como é natural, os dias das despedidas, dos amigos e dos conhecidos. É um ciclo por que já passámos outras vezes e que sempre nos dá alguma medida daquilo que, ao longo de cada posto, fomos criando de relação pessoal e profissional. É um período algo "stressante" mas muito agradável, em que nos damos conta de que talvez devêssemos ter passado mais tempo com essas pessoas. Mas a vida é o que é. 

Ontem, ao final da tarde, mais de duas centenas de amigos tiveram a amabilidade e a simpatia de afrontar a temperatura negativa e a neve que cobria as ruas de Paris, para virem juntar-se a nós num encontro, não de "adieu" mas de "au revoir". Tive então oportunidade de assumir, perante eles, que nós, os diplomatas, somos uns verdadeiros privilegiados. Menos por aquilo que os sinais exteriores indiciam mas, muito mais, pelas oportunidades que fomos tendo, ao longo desta vida errante, de conhecer gente diferente, muitas pessoas interessantes, oriundas de outras culturas e com diversas perspetivas de vida. Guardamos para a vida amigos de imensas nacionalidades, alguns com quem mantemos relações regulares, outros que fomos reencontrando, outros que cruzamos a espaços, com o email e o facebook a ajudar. Essa é a verdadeira riqueza que se acumula numa carreira como a nossa, a qual, no meu caso, se suspende no final do mês.

Com boa música à mistura - Irene Lima no violoncelo, Adriano Jordão ao piano -, juntámos algumas das muitas pessoas que Paris nos proporcionou o ensejo de conhecer. Sentimos pena por não ser possivel ter conosco todos quantos nos ajudaram a transformar este nosso posto de Paris na bela jornada profissional e humana que foi. Mas cada um sabe bem o que lhe devemos.

Dei comigo a pensar que é muito interessante olhar, em perspetiva, para esse círculo de relações. Os embaixadores são diferentes uns dos outros, nas ideias, na forma de estar, nas opções que tomam. Tudo isso ajuda a defini-los, pela positiva e pela negativa. São medidos no plano profissional, desde logo por Lisboa, mas também pelos diversos setores que se ligam às embaixadas: comunidade, empresários, meios culturais, imprensa e, também, pelos estrangeiros, os outros diplomatas, autoridades e amigos locais de Portugal. Mas são igualmente avaliados no plano humano, pelo que projetam, pelo que dizem, pelo modo como se relacionam. É assim, em toda a parte.

Não conheço nenhum embaixador que, em algum posto, tenha feito a unanimidade. Há quem goste de nós, como haverá sempre quem nos olhe de forma distante, às vezes por nossa culpa, outras por falta de empatia ou por alguns terem sentido que lhes não foi dada a importância a que achavam ter direito. É a lei da vida. No que me toca, e por onde passei, tentei sempre garantir duas coisas. Em primeiro lugar, que os interesses portugueses fossem protegidos: a imagem do país, os interesses económicos, os valores culturais, a defesa dos direitos das comunidades, a manutenção de uma interlocução positiva e eficaz com as entidades locais. Mas cuidei também, sempre, em que, no plano pessoal e humano, fosse possível manter uma relação com as pessoas de onde transparecesse o respeito que devemos aos outros, a cordialidade que há que transmitir na relação com terceiros. Se consegui, ou não, fazer isso, não me compete a mim dizê-lo. 

Ontem à tarde, nos dourados quase aristocráticos da rue de Noisiel, não deixei de recordar - talvez para surpresa de alguns - que, ao longo de todo este tempo em Paris, nunca me deixei de considerar embaixador de "todo" o Portugal que por aqui está, desde logo, e a começar, por quantos vieram para França em condições muito difíceis, em registos de tragédia e de aventura humana que o país não tinha o direito de lhes exigir. E, por isso, ao lado de embaixadores estrangeiros, de empresários portugueses e franceses, de figuras gradas da vida social e política parisiense, tivemos o gosto de ter conosco amigos que vieram para França "a salto", que viveram no "bidonville" de Champigny, que por aqui passaram "as passas do Algarve" ou que são oriundos dessa geração. Gente de todas - de todas! - as cores políticas, de todos os estratos sociais. Hoje, simplesmente, amigos.

No final, confesso que gostei muito que a última música, escolhida e interpretada pelo Adriano Jordão e pela Irene Lima, tivesse sido de Fernando Lopes-Graça. Uma canção popular transmontana.   

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Portugal, Portugal

1. Não se pode dizer que a sua cara reluza seriedade. O homem tem um esgar estranho, de alguém que se situa à entrada do desequilíbrio. Trata-se do falso "estripador", uma figura que, para obter popularidade e "ajudar" à do filho, envolvido num "reality show", anunciou que era o autor do assassinato de algumas mulheres, um mistério antigo por resolver, nos anais da nossa polícia. Ontem, lá estava ele na televisão, dizendo-se semi-arrependido pela mentira que espalhou em entrevistas, perante um jornalista que não se ria, informando que vai pedir uma indemnização (claro!) ao Estado, pelo tempo que esteve preso, pelo crime que "confessou" e que, afinal, não tinha praticado.

2. O cenário era-me bem conhecido, o assunto também. Um funcionário da embaixada portuguesa em Brasília reclamava ontem, na televisão, uma indemnização milionária ao Estado português pela "degradação" do seu salário. E um juíz "trabalhista" recomendava o arresto de um avião da TAP. Tudo isto porquê? Em 2004, foi feita uma reavaliação em alta dos salários dos funcionários que prestam serviço nas estruturas diplomáticas portuguesas no Brasil. Havia duas opções, à época: o salário futuro ser fixado em reais, a moeda local, ou ser tabelado em dólares. A livre escolha, assinada com alegria pelos funcionários, foi a do dólar, que, ao tempo, estava a valorizar-se progressivamente face ao real. Recordo-me de uma funcionária administrativa que chegou a ganhar um montante mensal superior ao salário nominal do presidente da República brasileira. Depois, as coisas mudaram: o real foi-se firmando no mercado e os dólares recebidos passaram a representar cada vez menos reais. (Nada que não tivesse acontecido a imensos funcionários do MNE, incluindo eu próprio, ao longo de décadas, um pouco por todo o mundo). Chegados a este ponto, aqui del-rei! O Estado português deve indemnizar os funcionários pelas "perdas" salariais, retroativamente, a partir do momento em que o real começou a subir face ao dólar. E se o movimento tivesse sido ao contrário? Estariam os funcionários - os quais, repito, optaram livremente pelo dólar - dispostos a devolver o diferencial ao Estado? Ou isto é "sol na eira e chuva no nabal"?

3. O ar dela é "standard". É o tipo puro de algumas "piquenas" da Linha, com a voz a caminhar para aquela rouquidão que, por um mistério traqueio-social, algumas mulheres "bem" adquirem depois de Paço d'Arcos (a doutrina divide-se, mas eu defendo, há anos, que no Alto da Barra começa a verdadeira fronteira, que se reproduz, do outro lado, numa linha muito irregular que vai da Malveira da Serra ao Vassoureiro), que aprendeu a falar com o lábio de cima quase imóvel (os britânicos chamam a isso o "stiff upper lipp"), a acompanhar o débito de um léxico restrito que vai bem com a "Caras", que deve ter à cabeceira, ao lado das obras completas da "Guida" Rebelo Pinto, que ela conhece "de toda a vida". Ela, a Pepa, nome da "piquena", que já tem blogue e tudo, explica num anúncio, que anda no "Youtube", que tem, para 2013, o objetivo de vida de comprar uma "carteira" Chanel (não é "mala", porque isso é "possidónio", no universo "pepal", onde só há "presentes" e não "prendas", "moradias" e não "vivendas", "telefonias" - a ler sempre sem o "l" -  e não "rádios", e coisas assim, "tá a ver?") da Dior que custa 5 mil euros. É o verdadeiro "regresso aos mercados", versão Pepa. Apetece-lhe, coitada! Porquê? "Sei lá!", dá "imenso jeito"! Diz isto sentada num sofá (deve ler-se como se o "ó" tivesse acento), com uma candura pateta, recheada de bordões de expressão do social "bem". Uma delícia! Mas, diga-me uma coisa, Pepa: o anúncio não lhe terá rendido já os 5 mil euros? Quer que leve a "carteira" aqui se Paris? Não me custa nada, a Chanel "tá li no faubourg", logo à mão, querida! Um beijinho (mas só um!), Pepa!

4. Desta vez, foi mesmo o cão a morder humanos a ser notícia em Portugal, prova de que já batemos no fundo em matéria de originalidade mediática. O cão é o Zico, um pitbull que matou uma criança sem nome. Em lugar de recomendar prisão imediata para os donos do cão e para quem teve a irresponsabilidade de deixar a criança ao seu alcance, o país divide-se sobre se o Zico deve ser abatido ou reeducado. Colunistas políticos, ferozes, indignam-se, associações protetoras dos animais, com canina solidariedade, mobilizam-se. Num país onde metade dos desempregados deixou de ter subsídio de desemprego, onde as pessoas arrastam doenças por longas horas nas urgências dos hospitais, a notícia são as aventuras do Zico. Exemplar!

5. No final deste post, neste blogue já quase à beira-tejo plantado, apetece-me que ouçam o magnífico "Portugal, Portugal", de Jorge Palma, talvez porque, por mais algum tempo, não ouse ainda colocar aqui o "FMI", de José Mário Branco.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Zé

Não, o senhor embaixador não está, só volta amanhã, explicou a secretária ao cavalheiro que estava do outro lado da linha. Diga-lhe que é um amigo dele, dos tempos de Roma, que estou por aqui dois dias e que gostava muito de o encontrar, disse o interlocutor.

A cena passou-se numa embaixada portuguesa no Norte da Europa, há muitos anos. A secretária ouviu o nome, tomou a devida nota e deixou um pequeno apontamento sobre a mesa do embaixador: "Telefonou um senhor italiano, o Dr. José Fireli". Na realidade, a pessoa que a contactara tinha dito "o Zé Fireli", mas a secretária entendeu por bem não usar o "petit nom", fruto seguramente da intimidade do cavalheiro com o embaixador. E, pelo sim pelo não, colocou o "Dr." atrás, porque os amigos do seu embaixador eram, quase sempre, gente com curso universitário.

No dia seguinte, o embaixador leu a nota, sorriu e lá pediu à sua colaboradora para lhe ligar para o seu amigo e realizador de cinema Franco Zeffirelli.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sarmentos

Há dias, o antigo ministro Moraes Sarmento disse numa entrevista que "a rede diplomática (portuguesa) é ainda hoje a de um país com ambições imperiais ou de potência regional". Para concluir, grave e sentencioso, que "manifestamente, não é esse o tempo em que vivemos". Na altura, tomei disso nota aqui, para não esquecer. E agora comento.

A ignorância política, como infelizmente se tem visto em bastantes outros registos, é uma das mais perigosas formas de estar na vida pública. As pessoas falam "de cátedra" do que não sabem nem conhecem bem, com uma ligeireza a que já ninguém reage. Aparentemente, o dr. Moraes Sarmento, que chegou a ministro de um governo presidido pelo dr. Durão Barroso, não estará convencido da adequação da atual dimensão da máquina diplomática e consular portuguesa às necessidades de defesa dos interesses do país na ordem externa. Não sabemos se o dr. Barroso, que foi ministro da pasta, concorda com aquele seu antigo colaborador; e é pena que o não saibamos. Para memória futura.

Ao que parece, nunca ninguém terá explicado bem ao dr. Sarmento que, jogando Portugal muito do seu futuro na área internacional - em termos da importância cada vez maior da projeção de interesses económicos (comércio, investimento, turismo) e de proteção da influência que criou à escala global, com efeitos na diáspora e na língua, bem como na margem possível de manobra na ordem europeia -, se torna absolutamente indispensável para o nosso país, com um dispêndio orçamental que não chega a 1% do orçamento geral do Estado, preservar um mínimo razoável de capacidade interventiva externa. Digo "mínimo" porque, no que toca ao Ministério dos Negócios estrangeiros, e como bem se sabe, estamos já "no osso" e tornar-se-á impossível, se acaso os meios vierem a reduzir-se ainda mais, continuar a trabalhar com uma eficácia aceitável.

Ouviu-se alguém reagir às ideias do Dr. Sarmento, das bandas do governo ou da oposição? Alguém, das estruturas de representação sindical da diplomacia ou da dos quadros administrativos, teve uma palavra de resposta firme e esclarecimento público perante a absurda asserção do dr. Sarmento? Qual quê! Silêncio foi o que se ouviu. Porquê? Porque não há nada mais popular, nestes tempos de "voyeurisme" orçamental coletivo, do que zurzir os diplomatas, a estrutura diplomática e a sua suposta inutilidade. Por isso, o dr. Sarmento sabe bem que está no "safe side" e que pode, com total impunidade, dizer as frases sonantes que diz, não obstante a sua gritante irresponsabilidade.

As declarações ligeiras do dr. Sarmento são a prova de que este modelo de afirmação política arrogante, quando assumido com um fácies grave e a dar-se ares de sentido de Estado, por muito pouco ou nada que se saiba daquilo de que se está a falar, continua a ter um direito de cidade garantido no Portugal em que vivemos. Mais uma razão para o denunciar, sem tibiezas.  

Salazar e Garnier

Há dias, encontrei na biblioteca da embaixada um livro com uma dedicatória de Christine Garnier, dedicado ao embaixador Marcello Mathias. 

Christine Garnier, como é sabido, era uma jornalista francesa que terá tido um "affaire" com Oliveira Salazar, ao tempo que sobre ele escreveu um livro apologético, intitulado "Vacances avec Salazar". As versões sobre a dimensão desse envolvimento romântico do ditador são diversas, mas o livro que Marcello Mathias publicou, onde insere parte da sua correspondência com Salazar, dá-nos muito mais pistas que certas versões romanceadas que entretanto apareceram. 

Do trabalho que Christine Garnier elaborou sobre Salazar constam algumas belas fotografias em que ambos figuram, uma das quais reproduzo acima. A curiosidade é que delas é autor Rosa Casaco, um sinistro agente da polícia política, que chefiou a brigada responsável pelo assassinato de Humberto Delgado, em Villanueva del Fresno. A boa arte de Casaco ia, assim, da fotografia à mais sórdida criminalidade política.

Porque refiro isto, aqui e agora? Porque, há minutos, numa livraria, deparei com um livro sobre alguns ditadores e as suas amantes. E, devo dizê-lo, ao folhear o índice, senti uma certa "pena" por nele nada encontrar sobre os amores de Salazar com a bela jornalista francesa. É muito curioso ter este tipo de reação, algo "nacionalista", como que a protestar intimamente: então os ditadores dos outros têm direito a uma descrição e os "nossos" não?

A França no Mali

A intervenção militar da França no Mali é um ato que consagra um grande sentido de responsabilidade política e que constitui uma inestimável contribuição para a segurança global. Legitimada por um mandato inequívoco do Conselho de Segurança da ONU, com o apoio político - e, espera-se, rapidamente também militar, em termos significativos - dos países da região, a decisão do governo francês permitiu evitar a "débacle" do poder político no Mali e conseguiu travar a escalada de progressão das forças extremistas, com forte componente estrangeira, no Norte do país.

São perfeitamente irresponsáveis, pelo que devem ser tidos por irrelevantes, os comentários negativos feitos a propósito desta intervenção militar. A França não está a praticar nenhum ato de "neo-colonialismo" ou a somar um episódio mais à história da "Françafrique", uma política que, por muitos anos, apenas significou a defesa das ditaduras do continente que Paris entendia dever conservar no poder. Esta ação é essencial para tentar evitar a disseminação do extremismo islâmico, levado a cabo por um "franchising" do Al Qeda. Os países responsáveis não devem furtar-se a contribuir para complementar esta ação liderada pela França, muito em particular ajudando as estruturas malianas a reforçarem as suas capacidades próprias, por forma a garantirem futuramente a soberania e a estabilidade no país.

Esta ação militar não deve fazer esquecer que permanece, no Mali, um sério problema político, que se prende com os equilíbrios entre o Norte e o Sul do país. A intervenção militar, com os custos humanos e financeiros que implica, deve também aproveitar a oportunidade, em estreita ligação com as forças regionais da CEDEAO, para forçar as autoridades de Bamako a encetarem, logo que as condições de estabilidade mínima estejam garantidas, um processo de reconciliação interna. Mas é importante deixar claro que, sem esta ação militar, o Mali entraria numa situação de caos que seria impeditiva de qualquer solução política minimamente eficaz. Só não vê isto quem não quer ver. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Eu e Roberto Carlos

Há dias, um comentário de uma leitora brasileira trouxe a este blogue o nome de Roberto Carlos e a admiração que o cantor suscita em muitas pessoas. E isso fez-me lembrar um episódio que se passou comigo, creio que em 2008.

Ia numa longa viagem pelo Ceará adentro, tendo ao meu lado uma senhora brasileira. Era uma mulher com responsabilidades na área da cultura, com sólida formação universitária. Muitas coisas vieram à conversa e, a certo ponto, surgiu o nome de Roberto Carlos. Perguntei-lhe como é que, depois de tantos anos de exposição pública, o cantor ainda era visto no país. A sua reação foi espontânea: "O rei? É o ídolo de todo o Brasil, adorado por todos! É o maior!". 

Cometi o erro de não levar o comentário à letra e, um tanto brutalmente, disse-lhe o que pensava. Roberto Carlos fora um cantor muito popular em Portugal nos anos 60, com êxitos que, à época, muitos conhecíamos de cor, como "O Calhambeque" e coisas assim. Depois, ao que eu observara, a sua popularidade entre nós fora declinando progressivamente. A meu ver, isso ficava a dever-se ao facto de ele ter enveredado por um romantismo possidónio, quase "pimba" (terei dito "cafona"), num certo período com letras de cariz religioso, numa linha melódica repetitiva e, para o meu gosto, nada criativa, A tudo isto se somava uma imagem pública ridícula, típica de um canastrão irreconciliado com a idade, com um cabelo de arrepiar e trajes "retro", quase anos 70. Estranhava muito, por isso, ouvir expressada uma admiração pelo cantor, por parte de uma pessoa como ela. Lembro-me de não ter sido muito subtil...

A minha paciente interlocutora explicou-me então uma coisa que eu, apesar de estar no Brasil há vários anos, não entendera. Roberto Carlos estava "para além" das gerações, era uma figura mítica que unia todos os brasileiros, que tinha tido uma vida familiar trágica, com um comportamento que lhe grangeara um grande respeito público. Todos os anos - e acabou por ser a minha segunda grande surpresa - fazia pelo Natal um espetáculo que dava origem a um disco, o qual, por tradição, era uma das prendas dadas nessa época, por todo o Brasil.

"Mas... e aquela música? O que é que aquilo tem a ver com a fantástica riqueza da música brasileira, de Tom Jobim a Chico Buarque, de Milton Nascimento a Gilberto Gil, de Ivan Lins a Caetano?" A minha acompanhante, com serena pedagogia, explicou-me que essa música, que eu ridicularizava, continuava a ser apreciada por muitos milhões de brasileiros, coexistindo, sem dificuldade, com as outras sonoridades que eu tanto apreciava. O seu romantismo era parte da alma brasileira e a religiosidade, que marcara fases da sua vida, era bem entendida e respeitada por todos.  "No Brasil, há espaço para toda a música e nela haverá sempre um lugar eterno para o nosso "rei", para Roberto Carlos". Embatuquei.

Com o tempo, fui testando a mesma questão com outros amigos brasileiros. Nem um só, dentre todos eles, deixou de concordar, no essencial, com a opinião da minha interlocutora do Ceará. Aprendi assim que, às vezes, devemos relativizar em público os nossos gostos e, em particular, temos de fazer um esforço maior para entender os dos outros. Por muito que, no íntimo, continuemos a pensar o mesmo, claro.

Vieira

Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos, apenas duramos.

Padre António Vieira

domingo, 13 de janeiro de 2013

Um desafio

Há tempos, falou-se aqui da grande patranha feita, há mais de quatro décadas, por uns falsos árabes no restaurante Tavares, enganando o jornal "O Século" e lançando alguma polvorosa política.

A propósito disto, gostava de desafiar os muitos leitores deste blogue (com os diabos! São já cerca de 1.200 em média diária) a ajudarem-me a reconstituir uma outra história em que um ato de ficção enganou a imprensa portuguesa. 

Do que me lembro - mas posso estar errado - tratou-se do seguinte: nos anos 60, na Sociedade Nacional de Belas Artes, teve lugar uma (falsa) conferência, creio que apresentada por uma personalidade que se apresentava como um académico estrangeiro, o qual, a meio da sua apresentação era "assassinado". Tudo não passou de um exercício teatral quase surrealista, mas que era um pouco ousado para a "séria" sociedade portuguesa de então. Por um qualquer lapso de interpretação, a agência de informação portuguesa para África, a "Lusitânia", terá dado a notícia como tendo-se tratado de um real assassinato (ou tentativa, já não recordo bem). Alguma imprensa portuguesa das colónias (ou seria da África do Sul?) publicou a história, como se ela correspondesse a um crime verdadeiro. Outros órgãos de informação estrangeiros terão também repescado a notícia, dando-a como boa. O assunto começou a constar em Lisboa. Porém, em Portugal, nada surgiu nos jornais, porque a censura não deixou. Assim, a história correu num boca-a-boca, tendo sido dessa forma que eu a soube.

Alguém se recorda disto? Terá sido assim mesmo? Alguém tem mais dados sobre esta fantástica história? Quem me pode ajudar?

sábado, 12 de janeiro de 2013

Delphine Seyrig

Não sei qual é data da colocação da placa, mas tinha grande vontade de estar discretamente presente na inauguração da estação Delphine Seyrig, num percurso de transportes coletivos no XIXème arrondissement. Li a notícia ontem, no "Libération". 

Pena é que a maioria de quantos vierem a utilizar essa estação nem sequer saibam que esse nome está ligado a um dos mais fascinantes olhares do cinema francês, a uma delicadeza, ao mesmo tempo serena e agitada, de uma figura para sempre recortada pelas câmaras na soleira de uma grande aventura. Resnais, Buñuel, Truffaut, Losey, Demy e outros perceberam bem essa riqueza, que a França perdeu em 1990, aos 58 anos.

Ter saudades de Delphine Seyrig é saber ser fiel a uma certa geração. E mais não digo, porque muitos poderiam não entender, nestes tempos em que, como dizia Simone Signoret, "la nostalgie n'est plus ce qu'elle était".  

Martin Schulz

Martin Schulz, o presidente do Parlamento europeu, esteve em Portugal. E deixou palavras muito simpáticas para o esforço que o povo português está a fazer, no quadro do processo de ajustamento estrutural em curso. Consequente com as ideias que sempre defendeu, Martin Schulz falou da necessidade de serem introduzidas políticas de incentivo ao crescimento e à retoma do emprego, sublinhando a evidência, para alguns, de que as políticas de austeridade são apenas instrumentais.

Conheço pessoalmente Martin Schulz há vários anos, desde os tempos em que nos cruzávamos no Parlamento europeu, por onde eu andava muito e onde ele criou bons amigos portugueses. Martin é um homem sério e com fortes convicções, como o demonstrou no modo digno como suportou uma canalhice que, há anos, lhe foi dirigida por um líder governamental latino de má memória. Encontrei Martin Schulz aqui em Paris, há alguns meses, já nas suas novas funções, cidade onde veio visitar os seus amigos. A Europa está muito bem servida com Martin Schulz à frente do seu parlamento.  

João Fatela

precisamente 40 anos, no início de 1973, vim a Paris "ver eleições". Estava prestes a entrar no serviço militar, "meti" duas semanas de férias no emprego que então tinha e, com um familiar, assisti ao vivo e a cores a um exercício da vida democrática, que entre nós era ainda uma miragem. Um amigo comum, o António José Massano, deu-nos o contacto do João Fatela, um português que havia saído clandestinamente de Portugal e que aqui trabalhava duramente, para pagar os seus estudos noturnos na universidade. Não obstante a sua extrema ocupação, o João foi de grande simpatia para conosco e apresentou-nos outras pessoas, que ajudaram a tornar mais interessante essa nossa estada. Grandes noitadas de discussão se fizeram então! 

Desde essa data, perdi o João de vista. Nas várias vezes em que vim a Paris, nunca ocorreu encontrá-lo. Vim entretanto a saber que tinha feito uma brilhante carreira na área da psicologia. Quando para aqui vim viver, em 2009, retomámos o contacto. Por seu intermédio, vim a conhecer a equipa que dirige a prestigiada "L'Esprit", uma publicação que tem um lugar central na história da intelectualidade francesa. Com o Guilherme Oliveira Martins e com o João Fatela, está em curso a preparação de um número especial da "L'Esprit" sobre Portugal, tema que já foi objeto de um encontro de trabalho na embaixada.

O João Fatela reformou-se, há dias (sabes?, João, acontece aos melhores!), das funções que desempenhava na associação "Parcours", uma iniciativa de que foi o grande obreiro. uma inovadora experiência de apoio a jovens com problemas, que dirigiu por mais de um quarto de século. O João é um homem discreto e duvido que aprecie que este meu blogue o saliente desta forma. Mas eu acho que ele merece que aqui se reproduza o perfil da "Parcours", a associação que ele fundou, e que um seu amigo publicou sob o irónico e sugestivo título "Obrigado, Marcelo Caetano", na sequência uma homenagem que lhe foi prestada.

"Como passar da estigmatização dos jovens marginais e toxicodependentes para uma prática de apoio psico-social-educativo, em que a dimensão da escuta psicológica personalizada significa que o jovem com dificuldades é colocado no centro de uma caminhada (parcours) de inserção social e profissional? Esta démarche inovadora e visionária considera a pessoa como ator e motor do seu próprio percurso, tendo em conta o aspecto global e não apenas os sintomas. A inserção do jovem é pensada como um percurso que deverá basear-se na compreensão de si próprio e na procura da inserção socioprofissional, a fim de adquirir uma larga autonomia. Os diferentes profissionais da associação facilitam, assim, ao jovem uma escuta personalizada, com encontros regulares destinados a ouvir as dificuldades e os sofrimentos com os quais se defronta, resolver as angústias e traumatismos e ajudar a canalizar as roturas. Na associação existem diversos ateliers, tais como, fotografia, ginástica, carpintaria, informática, etc. O objetivo destes cursos não é propriamente obter uma formação profissional, mas antes dar ao jovem a possibilidade de poder fazer um trabalho de estima de si próprio e de valorização das suas capacidades muitas vezes ignoradas ou incompreendidas. Terminada esta fase, a associação ajuda e orienta o jovem na inserção profissional, através da obtenção de estágios nas empresas que, com conhecimento de causa, lhes concedem um trabalho remunerado, dando-lhes assim uma chance para poderem voar para outros céus. Desta maneira, o jovem descobre o valor terapêutico através do seu próprio percurso de inserção, faz a experiência de sair da espiral dos repetidos insucessos e, pouco a pouco, adquire autonomia".

Na "Parcours" o João deixou parte da sua vida e honrou, com essa obra, o seu nome e, por essa via, o nome de Portugal. Esta é a homenagem que, também como embaixador, presto ao João Fatela, o meu mais antigo amigo em Paris.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Newsweek

Há alguns dias, num quiosque de aeroporto, deparei-me com o último número da "Newsweek" em papel. Ao lado, estava a sua eterna concorrente, a "Time", com uma foto soberba do Obama na capa. Comprei e passei uma rápida vista de olhos pelas duas. "For the sake of old times".

Terá sido no final dos anos 60 que comecei a ler, de forma intermitente, estas duas revistas americanas. Recordo-me que, por essa altura, com algumas semanas de atraso, elas eram disponibilizadas gratuitamente no Centro cultural americano, na avenida Duque de Loulé, onde eu frequentava um curso de inglês. 

Com o tempo, tornei-me assinante da "Time", talvez (confesso) porque era tida por mais "liberal" que a "Newsweek" - no sentido americano e não europeu do termo, isto é, mais "democrática" e menos "republicana". Depois, por necessidade de informação, passei a assinar as duas. Lia-as muito na Noruega, em Angola e em Portugal, na década de 80. Fiz entretanto uma longa pausa. Durante os meus mais de quatro anos em Londres, lia o "The Spectator", "The New Statesman" e o "Private Eye" (além, claro, dos diários "The Times" e "The Evening Standard" e dos semanários "The Observer" e "The Sunday Times"). E, para o futuro, em matéria de revistas anglo-saxónicas, fixei-me, definitivamente, no "The Economist", este sim, bem "liberal", mas já no sentido europeu (isto é, direita liberal). A sua escrita, porém, seduzia-me, como hoje ainda me seduz, o que me leva à situação bizarra de continuar a ser assinante de uma publicação em cuja linha doutrinária estou muito longe de me rever. É que convém que fique bem claro: não sou liberal (na aceção europeia), muito longe disso!

Com alguma regularidade, só voltei a ler a "Newsweek" (tal como a "Time"), no pouco tempo em que vivi em Nova Iorque. Depois, mantive a assinatura da revista (muito barata) durante a minha estada em Viena, mas sempre foi, claramente, uma leitura secundária. Desde então, vai para uma década, apenas a encontrava nos aviões e nas salas de espera. Folheava-a, lia um ou outro artigo, nada mais. Não sei bem porquê, a sua consulta regular (bem como a da "Time") deixou de me interessar, talvez por alguma excessiva "leveza" na abordagem dos temas, ou talvez por uma leitura excessivamente americana das coisas, para o meu gosto.

O mundo deixa agora de ter a "Newsweek" em formato de papel. Com o meu regresso a Lisboa, daqui a duas semanas, será que vou ter tempo e apetência para ler a "Time"? Duvido. Da imprensa americana contemporânea, e não podendo dar-me ao luxo do excelente "New Yorker", resta-me sempre o "The Herald Tribune", hoje um "genérico" para consumo internacional do "The New York Times", perdidas que foram as excelentes colaborações do "The Washington Post" e, já antes, do "Los Angeles Times".

Porém, para um "angustiado" da informação como eu continuo a ser, nem um dia de 72 horas chegaria para ler tudo quanto potencialmente me interessa. A prova provada é a pilha de papelada que tenho aqui ao lado: "Financial Times", "Le Figaro", "Libération", "Le Parisien", "Le Monde", "Les Échos", "L'Express", "Le Point", "Marianne", "Le Nouvel Observateur", "Challenges", "Le Canard Enchainé" e os portugueses "Expresso", "Sol" (ambos da semana passada, para acabar de ler), a "Visão" e a "Sábado" (de ontem) e, claro, o "The Economist", que acaba de chegar. Assim não dá! Para a semana, por mala diplomática, lá chegarão "A Voz de Trás-os-Montes", o "Notícias de Vila Real" e o vianense "A Aurora do Lima". Ao pé de tudo isto, que falta faz a "Newsweek"?