sábado, 7 de dezembro de 2013

Votar no carrasco?

É já para o ano que a Comissão Europeia vai mudar. Portugal vai poder indicar um comissário, coisa que não aconteceu durante os últimos 10 anos (os poderes europeus cooptaram um nome de nacionalidade portuguesa e o nosso país não teve oportunidade de escolher o seu comissário). E vai poder pronunciar-se sobre o nome do futuro presidente da Comissão Europeia, figura cuja posição e atitude perante as políticas da União não nos pode ser indiferente, atendendo à continuação da nossa dependência da boa vontade de Bruxelas, nos tempos que aí vêm.

O governo tem vindo a justificar que, não obstante todos os seus "esforços" (fomos testemunhas do episódio da sua proposta de 4,5% de défice, que terá sido reconduzido a 4% por recusa desses credores), é da inflexibilidade das instituições da "troika" (em que a Comissão Europeia tem um papel decisivo e até punitivo) que se deve o facto da vaga de austeridade que se abate sobre o povo português não poder ter sido atenuada.

Por tudo isto, resulta natural que o governo português, chegado o momento de dar o seu voto para a escolha (que terá de ser unânime entre os governos, como se sabe) do futuro presidente da Comissão se incline para o candidato em cujo programa possa figurar uma leitura mais flexível, menos penalizante e gravosa das medidas de austeridade que nos são impostas. Ninguém compreenderia que o governo, apenas por solidariedade ideológica no âmbito das linhas partidárias europeias, viesse a inclinar-se em favor de um candidato que fosse adepto de uma linha que mantivesse a mais estrita e condicionante leitura dessa austeridade.

Por essa razão, a lógica apontaria para que Portugal, na sua postura europeia - em declarações, artigos e tomadas de posição nas instâncias adequadas - fosse desde já deixando claro que o seu voto irá para o candidato, com condições de ser eleito, que afirme e se comprometa a demonstrar uma sensibilidade para um tratamento ponderado da situação dos países europeus com maiores fragilidades macroeconómicas, que, no nosso caso, possa vir a atenuar o atual sofrimento do povo português. Se acaso procedesse de forma contrária, optando por um nome da linha económico-financeira mais dura, o governo estaria simplesmente a votar no carrasco dos portugueses. Acho que devíamos estar muito atentos a isto.

9 comentários:

António Pedro Pereira disse...

Caro Senhor Embaixador:
Isso era se houvesse inteligência, bom senso e racinalidade para aquelas bandas governamentais.
Desde quando é que o pragmatismo se sobrepõe à ideologia naquelas cabecinhas loucas?

Helena Oneto disse...

Meu caro amigo,
Este post é deveras pertinente. Que os deuses o oiçam porque os que decidem teem mostrado uma surdez aflitiva.
Contra toda espectativa, se o actual presidente da Comissão Europeia não tivesse anunciado que "dois anos de presidência ja era muito", o que nos leva a pensar que ele não sera candidato à sua re-eleição, a maioria dos Estados membros seria bem capaz, hélas, de o re-eleger pela terceira vez!

opjj disse...

V.Exª. não estará a penalizar Durão Barroso? Um elemento por si só, pode não conseguir demover outros.Acho que o nosso representante certamente deu o máximo.
Acredito e penso até que qualquer português naquelas situações faria o seu melhor, desde o B.E. até ao CDS.
Somos antes de tudo, Portugueses.
Cumprimentos

Defreitas disse...

Ah, se a Europa tivesse homens políticos à altura do momento que vivemos. Em vez de eleições seria antes um grito de revolta que seria necessário para acordar os povos europeus.
Quem fala da nova montagem do velho projecto duma zona de livre troca entre a UE e os USA ? Se os políticos estivessem à altura, deviam explicar aos cidadãos europeus o que significa este acordo que se "cozinha" nas nossas costas, e que é nada mais nada menos que um ataque frontal contra a nossa democracia, ou o que resta.
Quem conhece o famoso TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), um acordo de comércio e investimento européo-usa. Quem sabe que este acordo que deverá ser assinado em 2014 alinhará as normas das duas zonas e que serão as grandes firmas e os investidores que decidirão do seu conteúdo.
Em linguagem que toda a gente compreenda, trata-se duma corrida ao "moins-disant" , o mais competitivo, permitindo às firmas americanas de pôr no mercado europeu todas as porcarias transgénicas assim como os frangos às hormonas clorados e o porco e o boi às hormonas. No caso de recusa destas normas, sanções severas duma duração ilimitada ou indemnizações astronómicas ameaçam os Estados recalcitrantes.

Simplesmente, este tratado visa antes de mais a supressão de todas as "barreiras"que existiriam ainda (os direitos alfandegários entre a UE e os USA tendo sido já largamente abolidos) dito doutra maneira, tudo o que desagrada aos patrões - direito do trabalho, leis sociais e de protecção dos trabalhadores, normas de segurança alimentares, medidas de protecção do meio ambiente e do clima e de regulação dos mercados financeiros - enfim! tudo o que torna a vida suportável aos trabalhadores normais.
Se este acordo é assinado, é claro que os direitos dos investidores passarão antes das leis que protegem a nossa saúde, o meio ambiente e os direitos sociais. A soberania dos Estados passará depois dos direitos das empresas. O resto da democracia será abolida.
A "livre troca" subordinará todos os direitos democráticos ao direito de propriedade das empresas. Trata-se duma questao de vida ou de morte. Por isso, se os Europeus fossem mais informados, as eleições de 2014 deveriam ser transformadas num grande fiasco. Ninguém devia votar.

Anónimo disse...

Engraçado! É esta a expressão que andava à procura e que melhor revela o sentimento das pessoas comuns que votam… agora sinto, também, que sempre foi assim…
antonio pa

João Figueiredo disse...

Certíssimo Sr. Embaixador!
João Figueiredo

João Avelar disse...

Então Senhor Embaixador, não convém ser tão explícito na defesa do que interessa às suas cores!

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, o seu alerta é muito pertinente, mas tenho enormes receios, face a posições tomadas e desempenhos do SE dos Assuntos Europeus. Não são certamente pessoais!
Maria Eduarda Boal

Anónimo disse...

Com o devido respeito julgo que o mais importante é definir uma linha de rumo que não tem existido até aqui. O Ministro dos Negócios Estrangeiros tem que ter um papel mais activo e as suas posições têm que ser conhecidas. Têm de ser articuladas posições com a oposição. Portugal tem que se definir se quer estar na linha da vanguarda ou continuar a identificar-se com os países beneficiários da coesão. Tem de se pôr gente qualificada na REPER capaz de fazer a promoção dos funcionários portugueses nas instituições europeias e não gente colocada por conivências ou cumplicidades com A ou B, como sucede, e mal, no presente. Portugal tem de dispor de Directores Gerais e Directores bem colocados na Comissão europeia. Tem de se fazer um grande esforço de generalização do conhecimento e da pratica da gestão dos fundos comunitários. E tem de colocar pessoas de alta craveira e com efetivo know how nos Assuntos Europeus. Tudo o resto é conversa. Saber se é Maduro ou um seu émulo a ser Comissário é questão de somenos.