sábado, 7 de dezembro de 2013

Argel antes de abril

"Amigos, companheiros e camaradas, esta é a Rádio Voz da Liberdade". Era assim que, duas vezes por semana, antecedido de um coro das "canções heróicas" de Fernando Lopes Graça, nos chegava pela noite a emissão da rádio que, de Argel, divulgava a mensagem da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN). O endereço que nos era oferecido para correspondência ("rue Auber, 13, Alger, Argélia") era então uma referência forte da luta exterior contra a ditadura.

Para o jovem estudante de liceu que eu era, nesses anos 60, com o ouvido colado à rádio para não despertar ouvidos hostis nos silêncios da madrugada de Vila Real, posso imaginar a curiosidade sobre quem seriam as vozes que, num tom épico, "conclamavam" as "massas populares" para, no dia seguinte, "saírem à rua" e derrubarem a ditadura - o que a dura realidade desse dia seguinte sempre teimava em desmentir. A mais marcante dessas vozes era Manuel Alegre - de quem, à época, creio que não conhecia sequer o nome.

Ontem, em Argel, passei por lá, pela "rue Auber", que agora se chama Mohamed Chabani, situada na zona antiga de uma cidade onde, a cada canto, surgem edifícios belíssimos de uma arquitetura colonial francesa onde se pode presumir uma vida urbana excecional. As coisas mudaram bastante, como a fotografia do estado do "nº 13" bem o demonstra.

Por uma curiosidade que sempre tive por esse tempo argelino da nossa vida política - Argel foi o mais importante centro da Oposição à ditadura, seguido de Paris, do Rio e S. Paulo e de Moscovo - fui ver também o (que deve ter sido o) imponente edifício em cujo 5º andar a presidência argelina instalou o general Humberto Delgado, depois da sua chegada, em 27 de junho de 1964. É o 118 do boulevard Salah Bouakouir, sede da Junta Revolucionária Portuguesa, de que também deixo uma foto.

5 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Francisco

Há viagens que nos proporcionam novas paisagens, mundos diferentes, turismo espectacular ou negócios rendosos, sobretudo os escuros.

Outros trazem à baila recordações: é o caso de Argel onde o meu Amigo pôde reviver tempos de antanho cuja memória devia alentar o nosso povo a tomar iniciativas contra quem quer apagar o passado e moldar o futuro.

Hoje, em Portugal, faz falta uma Frente qualquer, democrática, defensora da Liberdade, se necessário com as armas na mão. E aqui revejo o Manuel Alegre e o seu "Canto e as Armas". Ah, como nos faz falta um Buiça; melhor seria aparecerem uns bisnetos dele...

Anónimo disse...

E não foste visitar as pombinhas?!!!
Ex vizinho.

patricio branco disse...

muitas das emissões com a excelente voz de manuel alegre, e doutros que por lá se refugiaram e acolheram, piteira dos santos, não sei agora quem mais. mário soares lá deve ter ido, embora fosse paris o seu acolhimento.
faltam memórias, autobiografias dos actores desses tempos fundamentais das lutas contra a ditadura.
na suecia tambem havia nucleos de opositores, era país de liberdades que bem os acolhia, incluindo desertores da guerra colonial e membros dos movimentos de libertação de africa.
interessante revisitar esses locais argelinos das resistencias dos anos 60/70....

Anónimo disse...

aproveite e coma uma chakhchoukha sr embaixador

cumprimentos

alvaro disse...

Isto faz_me lembrar a adolescência e as estórias da rádio Argel Subsidiadas pelos 27000 contos desse tempo, subtraidas pelo sr Rosinhas mui digno chefe de finanças de Vila Nova de Cerveira que num qualquer sábado á tarde se pirou com o dinheiro, a esposa e a grana no seu MGB descapotável, rumo a Argel, onde com o dinheiro da câmara de Cerveira manteve os radialistas. Estranhamente ninguém nunca mais falou neste saque, anterior ao assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz.