domingo, 22 de dezembro de 2013

O rapto

Creio que foi em 1983. Era um casal muito jovem. Ainda estou a vê-los a entrar, pela primeira vez, no meu gabinete, na embaixada em Luanda, onde tinha a meu cargo as questões relativas aos professores cooperantes.

(Como um dia já aqui expliquei, Portugal assegurou, por muito tempo, o envio de cooperantes para as antigas colónias, em especial professores, pagando-lhes uma parte do salário e preservando-lhes o lugar de base. Coube-me, no início da carreira, pré-selecionar os primeiros professores para S. Tomé e Príncipe e a segunda "leva" para a Guiné-Bissau. Em Angola, voltaria a ter os professores cooperantes sob a minha responsabilidade. À distância, acho curioso constatar que, sendo esse tempo um dos mais complicados nas relações bilaterais entre Lisboa e Luanda, a cooperação no ensino se mantivesse intocada).
 
A Dora e o seu companheiro haviam chegado há pouco de Lisboa. Estavam cansados, algo aturdidos com Luanda, uma cidade difícil, incómoda para deslocações, com imensas limitações em matéria de abastecimentos. A proposta das entidades angolanas era que fossem para Sumbe, antiga Novo Redondo, cidade marítima situada umas centenas de quilómetros a sul de Luanda. Recordo-me que se passaram alguns dias antes que isso acontecesse. Havia uma certa preocupação com essa deslocação. Ao que julgo, seriam os únicos professores cooperantes nessa zona que a guerrilha da Unita de há muito rondava.

Os meses passaram. Um dia, fomos informados que a Dora e o companheiro, bem como cooperantes de outras nacionalidades, haviam sido raptados pela UNITA. Durante semanas, foram conduzidos a pé através de Angola, numa viagem de muitos e muitos quilómetros, da costa até à Jamba, no extremo sudeste do país. Lembro-me da nossa constante preocupação com a possibilidade da coluna poder ser atacada, nesse percurso, pelas forças governamentais angolanas, nomeadamente por via aérea, colocando em risco a vida dos cooperantes. Em especial, tenho presente - e um "antigo vizinho" leitor deste blogue recordará bem isto - um jantar em minha casa, com a presença de um oficial das FAPLA, em que esta questão foi discutida em termos que chegaram a ser muito tensos.

Tudo acabaria em bem. A Dora Fonte e o seu companheiro viriam a ser entregues pela UNITA a instituições internacionais. Depois do seu regresso a Portugal, trocámos mensagens e, como é da lei da vida, acabámos por nunca mais nos ver. Há dias, a Dora contactou-me (vantagens do Facebook). Lançou um livro sobre essa sua fantástica aventura de juventude em Angola. Tenho uma grande curiosidade em lê-lo.

18 comentários:

margarida disse...

"facebook"?

Isabel Seixas disse...

Bem, imagino os arrepios no percurso...Sem dúvida que os nossos cooperantes eram corajosos.

Anónimo disse...

Também tenho muito interesse em ler esse livro. Consegue saber qual é a editora e onde poderá ser adquirido?

patricio branco disse...

boa capa a do livro...

Unknown disse...

Gostei de ler, mas não foram só umas semanas que caminhámos. Caminhámos três meses e esperámos na zona da Jamba (Kuando Kubango) mais três meses, portanto, meio ano. Sem notícias de nada nem de ninguém. Nem nós, nem a nossa família.
O livro encontra-se à venda nos locais normais. A editora é a Húmus.
Dora Fonte

Anónimo disse...

O Seixas no Facebook????????????????

dora fonte disse...

Francisco Seixas da Costa, não éramos tão jovens assim. Eu tinha 30 anos e o Luís 37, portanto mais velho do que o Francisco, que teria 35.
Continuando, quando chegámos a Angola, ficámos no aeroporto horas sem fim, porque, segundo a embaixada, quem tinha que "tomar conta de nós" seria Angola. Então, Portugal, deixou-nos lá a penar.
Quando Portugal considerou que já tínhamos sofrido o suficiente, mandou uma carrinha "foleira" buscar-nos. Professores cooperantes não merecem mais.
Quando entrámos no gabinete, fomos muito bem recebidos. Não tínhamos um tostão. (era proibido levar divisas, kwanzas, só quando lá chegássemos.
O nosso representante em Luanda, Francisco Seixas da Costa,foi muito gentil. Ficou lá com as nossas malas, pagou do bolso dele esse fim de semana... e na segunda feira seguinte, fomos entregues à nossa sorte.
Muita coisa para contar. Outro livro para escrever.
A editora é a Húmus. O livro está à venda nos locais normais.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dora
Não tinha a "contabilidade" das nossas idades...
Já não recordava a odisseia da vossa chegada a Luanda, embora algo me dissesse que tinha havido problemas.
A ida de um cooperante para um país tinha regras comuns: desde a chegada, toda a logística era a cargo das autoridades locais (transportes, alojamento, alimentação). Supostamente, as embaixadas desses países em Lisboa articulavam-se previamente com as estruturas nacionais de cooperação, a quem competia todo o acolhimento e acompanhamento. As embaixadas portuguesas apenas eram informadas. Essa era, porém, a "história" normal: frequentemente, ninguém local esperava os cooperantes, os alojamentos não apareciam e as embaixadas, que não tinham os menores meios, funcionavam como "serviço de urgência" improvisado. Foi uma carrinha "foleira" ao aeroporto? Só tínhamos uma... Se tivesse ido o meu carro de trabalho, um "carocha" do tempo militar com quase quinze anos, com buracos no chão, por onde entravam baratas, teria sido pior...
Um excelente Natal para si

Unknown disse...

Meu amigo e caro Francisco,
Esqueçamos as contabilidades das idades. Aliás, ainda bem que nos achou assim tão jovens.
Sei bem que era obrigação de Angola receber os cooperantes.
Mas eu pergunto. Portugal não sabia o que estava a acontecer? Não sabia da situação?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Unknown: como compreenderá, a esta distância, não tenho memória para pormenores específicos do vosso caso. Mesmo não me lembrando, tenho, porém, uma única certeza: eu não sabia do que se estava a passar. Mas não posso excluir, em absoluto, que alguém na embaixada o soubesse e estivesse a tentar (para além do que seria legítimo, atendendo à vossa situação pessoal) que as autoridades angolanas assumissem as responsabilidades que lhes competiam. É tudo quanto, a esta distância de 30 anos, posso dizer. Um abraço, Boas Festas e um bom 2014.

jose reyes disse...

"Mas eu pergunto. Portugal não sabia o que estava a acontecer?"

Puxa! Que importante a senhora se acha!
A ver se entendo: um par de jarras aproveita a boleia da "cooperação" para conhecer exóticas paragens, e chegado ao destino depara-se com a completa indiferença dos indígenas. 30 anos depois ainda pensa que o corpo diplomático do seu país tinha obrigação de intervir nos seus assuntos particulares, ir buscar as jarras ao aeroporto, levá-las ao hotel, abrir-lhes a caminha, e embalá-las até fazer ó-ó.
Oh! Tão importantes que nós somos!

Defreitas disse...

A odisseia dos cooperantes em terras hostis sempre mereceram a minha admiração. Não sei se os dois heróis da longa marcha angolana chegaram a desempenhar a sua missão, mas que de dedicação, altruísmo e coragem para abraçar uma causa impregnada de espírito de solidariedade como aquele que demonstraram.

Não sei se o fizeram por convicção ou outro, mas quando o pais que os envia, também não tem os meios para os ajudar a cumprir a missão, num pais em plena guerra civil, é caso para perguntar se não houve negligência "quelque part" ! Estamos longe das carrinhas rutilantes e dos meios enormes das ONG, esses cooperantes de hoje, financiados e protegidos pelas instituições internacionais. Eu sei, a missão não é mesma.

Não fazendo parte dum corpo consular nem diplomático, o combate dos cooperantes , mesmo se merecem toda a nossa admiração, assemelha-se bastante ao combate dum D. Quixote contra os moinhos de vento.
Sem renegar a simpatia que se pode ter pelos povos que se quer ajudar, o cooperante precisa de algo mais para agir: uma certa ideia de humanismo para partilhar a felicidade e a desgraça de servir um pais, agora estrangeiro, em nome de Portugal. Mas, não sei se Portugal lhes é ou foi grato e se as pessoas "sentem" o valor real da missão dos cooperantes. E não é só de conservar o elo com o passado que se trata.

Ainda não li o livro de Dora Fonte. Estou curioso de o ler. A sociologia propõe uma análise global destes milhares de homens e de mulheres, na maioria jovens, que se dedicaram e se dedicam ainda à cooperação. Questão : Em nome de quê ? Quais motivações concretas ou simbólicas? E quais esperanças ? O livro nos dirá.

Nos países independentes de fresca data, em África, o cooperante é agora frequentemente visto pelos nacionalistas como ferro de lança dos antigos colonizadores. Em que medida a cooperação é vivida ou não como uma experiência de reciprocidade, de solidariedade ou de participação ao "desenvolvimento" é a grande questão. Sem dúvida, a cooperação toma uma forma politica hoje, ao ponto que os cooperantes são alvo de ataques mortais da parte dos nacionalistas.

Claro que se trata dum outro tipo de cooperantes: os "especialistas" . Vindos da antiga URSS, Cuba, China, e outros "países amigos", e não de antigas metrópoles!

Unknown disse...

Pois, o senhor reyes não entendeu mesmo nada.

margarida disse...

Quando as pessoas se propõem dedicar-se a uma causa num país longínquo e em estado de ebulição, fazem-no por sentido de missão ou por instinto aventureiro?
Terão de possuir um pouco deste, para se lançarem em tal empreitada, mas, não duvido, a vontade de prestar auxílio ao próximo será essencial. Eu acredito na generosidade de quem se propõe atravessar meio mundo para ensinar o que sabe.
Ninguém imagina o que estes protagonistas terão sofrido desde o momento em que as coisas começaram a desandar do que haviam pensado. É que se pena por se gorarem as expectativas. Começa aí. Depois, ser-se raptado e forçado a deambular pela selva por meio ano, longe de tudo o que lhes era familiar, sem um contacto, sem, talvez, um arremedo de esperança, é inimaginável. Vimos coisas semelhantes nos filmes, no conforto dos nossos sofás, tilintando o gelo do copo, com o comando à mão pronto a suspender o medo. Eles, não. Eles e tantos que viveram - e vivem, agora - situações-limite do género, convivem com a consciência da linha subtil entre vida e morte, e têm de continuar. Julgarmos a dor dos outros, seja ela de que intensidade for, é abusivo. Fizeram bem em escreverem as suas memórias daquele calvário, exorcizando talvez um pouco os pesadelos que os devem acompanhar até hoje. Que sabemos nós do mundo interior do próximo? Que sabemos nós de nós mesmos?

Francisco Seixas da Costa disse...

Porque acompanhei o trabalho de várias dezenas de professores cooperantes, que prestaram serviço em diversas antigas colónias, devo testemunhar que o exercício desta sua função raramente se fazia da forma idílica que alguns podem julgar. O seu salário estava longe de ser chorudo, as condições de acolhimento eram, quase sempre, deficientes, as modalidades de trabalho, dentro de administrações em gestação, eram frequentemente muito precárias. E, no entanto, vi gente muito determinada, correndo riscos (como a Dora e o Luís desta história) e tentando superar dificuldades, que iam da falta dos materiais pedagógicos à circunstância de serem alvos das tensões políticas decorrentes da descolonização. Acho, sinceramente, que o nosso país lhes ficou a dever uma palavra de gratidão.

Isabel Seixas disse...

Também vou comprar este livro e concordo que merecem a nossa palavra de admiração e gratidão.

Maria Gonçalves disse...

Francisco Seixas da Costa,
Aproveito esta troca de ideias para lhe agradecer, em meu nome e do meu marido, as palavras de louvor que dedicou aos Cooperantes. É verdade. As condições de trabalho eram as mais precárias possíveis e o salário não era assim tão tentador. Mas o espírito de missão, de ajuda, de cooperação que nos inflamava ajudou a superar muitos desses infortúnios.
Quero acrescentar que também nós (Né e Manuel Alberto) o conhecemos e ficamos com as melhores referências do seu trabalho na difícil tarefa de coordenação da Cooperação com as entidades Angolanas.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Né: não vai acreditar mas, há dias, passando na Póvoa de Varzim, interrogámo-nos sobre como poderíamos contactá-los, chegando então à conclusão que não tínhamos como fazê-lo. Mandem-nos pf essas referências através de franciscoseixasdacosta@gmail.com.
E muito obrigado pelas suas palavras. Tenho a consciência de que, com os meios na altura disponíveis, teria sido difícil fazer muito melhor, nas condições da época. Vocês e todos os outros foram uns "heróis". Essa experiência ajudou-nos a "crescer" a todos. Um bejo nosso para si e um forte abraço ao Manuel Alberto.
PS - soube da morte do Zé Guilherme?