segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Good bye, Lenin?

A impressiva imagem do derrube da estátua de Lenine, que figurava numa avenida de Kiev, está, compreensivelmente, a correr mundo. (A similitude com a queda da estátua de Sadam Hussein é inevitável, mas as diferenças são grandes). Trata-se de uma espécie de "bofetada" numa Rússia onde, diga-se de passagem, terão também já desaparecido, noutros dias de raiva, muitas dessas relíquias da antiga URSS. O ato é uma marca clara de que há hoje duas Ucrânias, uma seguidista face a Moscovo, outra desejosa de aproveitar a "boleia" histórica de um mundo europeu que hoje funciona como miragem. Ou, para usar a expressão cínica de um amigo que há pouco me falava de Londres, "a Europa está a passar pelo "efeito Gorbachov": gostam mais dela fora do que dentro".

A crise ucraniana é muito complexa, mas tem de ser resolvida na própria Ucrânia, só podendo nós esperar que o venha a ser de uma forma pacífica e com uma resultante final democrática. Lembro-me bem que, nos anos 60, Adriano Moreira nos falava muito nas "zonas de confluência de poderes". Referia-se então às áreas geopolíticas da Guerra Fria onde o braço-de-ferro entre os Estados Unidos e a URSS prosseguia, muitas vezes quase à revelia das vontades nacionais. Essa Guerra Fria acabou, mas muito do que ela gerou está ainda por resolver. Mas não deixa de ser quase uma ironia que Ialta, onde o mundo foi dividido entre a Rússia e o ocidente no termo da Segunda Guerra mundial, seja uma cidade da Ucrânia.

10 comentários:

Anónimo disse...

Nem o facto de escrever a altas horas da madrugada tira lucidez e pertinência aos seus comentários!

Defreitas disse...

Boa síntese da situação. Vê-se bem que uma formidável pressão , um género de "putsch , "soft" mas eficaz , se desenvolve na Ucrânia, pelo menos naquela mais sensível às sirenes ocidentais. O coro que se ouve do ocidente, raivoso, esconde o servilismo ou a beatitude, segundo os temperamentos, abafando os gritos : " Integração ao Ocidente e à NATO". Os ocidentais bebem " du petit lait" como se diz por aqui!

O Senhor Embaixador escreveu-o numa só palavra : "Miragem ! E tem razão. Lançando-se ao assalto da doutrina defendida até hoje pela nação Russa, desde a sua recuperação que sucedeu ao quase naufrágio dos anos 90, derrubando à passagem o símbolo leninista da grande praça da independência, os Ucranianos querem participar aos intercâmbios internacionais, num mundo "multipolar"". Estes "putschistas" querem uma integração num Ocidente mítico, pólo da "Civilização", admitindo a suserania dos USA !
A anos-luz do monolitismo do pensamento e da acção política das nomenclaturas ocidentais impondo às nossas nações, via os média de propaganda, o "partido único", com o seu ballet de dois barretes e a sua alternância bidão!
Sim, porque entre "democratas" e "republicanos" nos USA, "conservadores" e "trabalhistas" na Grande Bretanha, UMP e PS em França, impossível de introduzir uma folha de papel de cigarro! Tanto as visões, objectivos, práticas, são similares. Fora dos slogans eleitorais elaborados pelas agências de PUB, aplicando as mesmas "receitas" , para distinguir as duas lixívias que saiem da mesma fábrica!
Subitamente, exigir o "direito internacional" para "integrar a NATO" afim de assegurar a sua "segurança", pôr os "Pershing" na soleira da porta do Putine, não é simplesmente voltar as costas ao "multipolar", é mais que cair no "unipolar"! Que diabo !

Mas o que me faz cogitar é porque razão querem alinhar-se sobre um Ocidente declinante, os recursos do qual provêm de países submetidos e pilhados?

Ceder, por fraqueza ou por medo, às pressões da NATO que exerce sem descontinuar a manobra de cerco do vizinho Russo, pode levar longe.

Mas creio bem, que a única preocupação da maioria que vocifera nas ruas, além dos carneiros nacionalistas, é o sonho de enriquecimento rápido e a vontade de conservar os privilégios . Para isso é preciso ligar-se à "elite do Ocidente". Submeter a Ucrânia aos interesses estrangeiros. Sonho duma plutocracia persuadida que renunciar à soberania do pais, no servilismo, os cobrirá, de riqueza infinita. Vimos bem o resultado desse sonho na Georgia e na Arménia e Azerbaïjan.

A impaciência de integrar a NATO e deitar-se à bota do Império, é o preço a pagar para uma "Ucrânia Ocidental". Este é o credo dos homens de negócios.
Evidentemente, eles representam a testa de ponte dos "affairistes" ocidentais, que os mimam, fazendo-os passar por génios nos média.

patricio branco disse...

tem de haver diferentes zonas de influencia para o equilibrio geopolitico se manter, isso é uma regra básica. a ucrania pertence àquele lado, é mesmo assim.
a europa que assista sem intervir, as tensões internas e externas da ucrania devem ser eles a resolvê las, etc

Catinga disse...

Esperemos que os que defendem a "integração" da Ucrânia na esfera russa não sejam os mesmos que, depois, andam para aí a dizer mal da Troika porque vai contra a nossa... soberania.

Gonçalo Pereira disse...

Confesso-me desiludido, senhor embaixador. Cuidei que hoje abordaria a extraordinária performance do senhor Secretário de Estado para os Assuntos Europeus na Grécia e na Polónia!
:-)

Eduardo Saraiva disse...

Vou "roubar"

Catinga disse...

E é perturbante ver que há quem defenda que a razão de ser de alguns países é servirem de munições às guerras de orgulho de algumas nações "maiores". "Humanismos", com certeza...

Anónimo disse...

Derrubar estátuas! Derrubar ideologias! Pois é... bom para uns, mau para outros. E assim segue o mundo, com muitas e muitas mortes à mistura, sem que isso nada resolva.

A.Teixeira disse...

Permita-me comentar a frase que remata o seu texto onde, por detrás dessa sua «quase ironia», haverá uma outra ironia, essa provavelmente completa: a de que Ialta, sendo-o hoje, à data em que a refere (1945), não era, nem nunca fora anteriormente, ucraniana…

jose neves disse...

E o que dizer do nosso "corajoso" Durão, antes medroso e fujão de sua Pátria, a quase promover uma guerra civil na Ucrânia? Por acaso quer ser outra vez o grande incentivador de nova guerra depois do Iraque?
Mas quem elegeu Durâo e quem é Durão para se intrometer no cerne político do povo ucraniano? Será que já foi o tempo das "soberanias limitadas" ou elas estão de volta e em força, precisamente, pela mão de um burocrata menor e medíocre ao serviço de potencias às quais, parece,está sempre disposto a ser lacaio.
E ninguém manda calar este enfatuado burocrata servil com os fortes e ameaçador com os fracos.