domingo, 24 de novembro de 2013

Votar com os pés

Como ato final celebratório do lançamento de "A Strategy for Southern Europe", teve ontem lugar um interessante debate no Teatro nacional D. Maria II, que assim prossegue uma inteligente aposta na abertura a diversas outras dimensões culturais. O relatório, da responsabilidade da "London School of Economics", nasce em Portugal associado à faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, de que sou consultor.

Moderada pelo jornalista e economista Nicolau Santos, a conversa envolveu José Reis, diretor da faculdade de Economia da universidade de Coimbra, António Costa e Silva, docente universitário e presidente da Partex, os professores do Instituto Superior de Economia e Gestão, João Peixoto e José Maria Brandão de Brito, e eu próprio. Coube-me abrir a sessão com uma análise subordinada ao tema "Portugal numa encruzilhada geopolítica", na qual abordei o modo como o nosso quadro referencial na área externa é marcado pela atual conjuntura económico-financeira.

Foi um debate vivo, no final bem participado pelos membros de um auditório que, mesmo numa tarde de sábado, se sentiram mobilizados por uma discussão sobre o futuro do país, que o relatório agora divulgado ajuda a contextualizar no quadro europeu.

A certo passo da sua intervenção, o professor João Peixoto, especialista em Demografia, notou que, em 2012, saíram de Portugal mais portugueses do que a média anual registada durante a grande vaga migratória portuguesa para a Europa, nos anos 60 e 70. E revelou que, com colegas internacionais, está envolvido num projeto que tem como título "Votar com os pés", significando que, com a sua saída dos respetivos países de origem, esses novos emigrantes assumem já um gesto em si mesmo bem político.

10 comentários:

Anónimo disse...

Que reforma s sua caro embaixador...

Anónimo disse...

Passei há dias pela FCSH, zona de Lisboa onde, sem exageros, há 10 anos não me deslocava. Muito me apraz saber que o edifício vizinho, anteriormente ocupado pelas Forças Armadas (DRM de Lisboa), é hoje em dia destinado às várias estruturas de investigação da Faculdade, encontrando-se totalmente renovado no seu interior. É um bom exemplo de reformulação de funções de património do Estado, aplicado em novas funções, de que o país tão profundamente necessita - a produção de conhecimento.
Quanto às tipologias de voto, devo dizer que os meus pés preparam-se também para proceder a um acto político, mais semana, menos semana.

Anónimo disse...

Eu pensava que uma das grandes vantagens da pertença ao projecto europeu era a "mobilidade". O pertencer a uma comunidade maior onde as pessoas se sentissem em casa, estando onde estivessem. Tenho uma filha lá fora. Gostava que ela estivesse mais perto? Claro, no andar de baixo, se fosse possível. Mas esta de continuar a pensar os portugueses a nascerem, viverem e trabalharem, desde que nasceram, no mesmo sítio parece-me um bocado contra a "velocidade dos transportes e das comunicações"!
João Vieira

Anónimo disse...


Parece que ninguém se preocupa que nos levem tudo! agora também nos levam os filhos!

Isabel Seixas disse...


Já tarde… sem opção



Já tarde sem opção,pus os pés a caminho,
levo na alma fotografias dos que ficam,
flores silvestres fenecem sem carinho
o meu país asilo dos que crucificam...

Já tarde sem opção tomei rumo sem destino,
cruzo-me com os amigos, na solidão,
deixamos os sonhos com a desilusão
enxoval sem casamento, futuro clandestino...

Já tarde sem opção à procura vou embora,
alisto-me no Mundo vou a trabalho,
abraços a prazo nos regressos já sem hora.

Inverno...Arrefece, deixei o agasalho
enquanto a vida acontece adio amor,
voltar(...) ó minha prece, faz-te razão,dá flor...

Isabel Seixas in espólio

Anónimo disse...

Depois de o Primeiro-ministro, de uma forma um tanto ligeira e irresponsável ter apelado aos portugueses para emigrarem, uma conhecida socióloga veio dizer que não era bem assim e que emigrar tinha um alto preço, e também afectivo, para as famílias que podiam ter os seus laços familiares fragilizados. A igreja Católica seguiu-se-lhe e o governo modulou o discurso a seguir com Cesário compondo a linguagem e moderando-a. Há um significativo esforço e investimento feito pelo País na formação e em capital humano que poderá efectivamente perder-se e ser transferido, a fundo perdido, para outros países, que beneficiarão com um capital por vezes altamente qualificado. E, sobretudo, o desejo da 'Migração Circular' preconizado pela União Europeia não parece minimamente estar na mesa quando os actuais governantes em Portugal não alimentam um sentimento de auto-estima e de confiança. Nota de rodapé: a FCSH da NOVA, onde estudei, corre o risco de se tornar numa Grande Universidade. O reverso da medalha, positivo, são elites que Portugal forma, cada vez mais cosmopolitas. O que é bom e moderno.

Anónimo disse...

No tempo das guerras coloniais, os desertores e retratários que "davam à sola" eram vistos por alguns setores politicos como "revolucionários" e aquele gesto considerado um ato de coragem e luta contra o colonialismo.
Pessoalmente faço parte daqueles que o praticaram consciente de enfraquecer a máquina repressiva... Todavia confirmou-se que foi bem do interior, com a eclosão do Movimento das Forças Amadas, que a coisa vingou.
Hoje, todavia, "desertar", nem sequer enfraquece a máquina repressiva. Hoje, emigrar, reforça e alimenta o bem estar dos que ficam (entenda-se dos politicos que ficam). A muito curto prazo, mas alimenta. E Passos Coelho compreendeu bem essa politica do curtissimo prazo. A politica de uns remendozitos para aguentar enquanto aguentar. O problema é o mais médio e longo prazo.
Se antes havia ilusões quanto ao regresso hoje todos sabem que os que saem não mais regressam e Portugal empobrece.
José Barros

Defreitas disse...

Europa! Europa! Europa! Isso faz-me lembrar a frase de De Gaulle: Não basta saltar como um cabrito e gritar Europa! Europa! para que esta se faça!
A mim, apetece-me perguntar: Qual Europa, Senhor Embaixador? Aquela que eu vejo actualmente, é o resultado da evaporação -balcanização organizada das nações, onde as euro regiões ricas querem sacudir o peso das regiões pobres, para poderem jogar em SOLO ou em associação com outras regiões ricas, a sua carta egoísta na caça euro mundializada ao lucro máximo. Como é possível conceber projecto de classe mais egoísta, mais retrógrado, menos patriótico, menos internacionalista, menos humanista e solidário, numa palavra: mais imperialista?

Creio que o plano de Monet já há muito que foi esquecido. Foi substituído por um outro muito mais ambicioso dum Império europeu do grande capital, centrado na sua capital histórica - Berlim -, e largamente teleguiado por Washington por intermédio do FMI e da NATO.
Este "Império federal" já está em movimento e visa o desmantelamento dos últimos obstáculos nacionais, como a política social, que estorvam a concentração monopolista e a caça ao lucro máximo no continente europeu.
Embora o eixo Washington-Berlim seja o eixo (esta palavra soa bem 1939) desta manobra giga imperialista, a grande burguesia europeia é completamente cúmplice deste suicídio das nações da Europa. Porque a burguesia, como o capital, não tem pátria. Basta ouvir o MEDEEF e os outros sindicatos dos patrões europeus falar de "nova pátria", esta "landerisaçao" dos Estados nações.

"Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma": a reunificação alemã permitiu a satelização pela RFA e os USA dos Países Baltas ex-soviéticos, a semi-recolonização da Polónia e a partilha satelização da ex-Checoslováquia e da ex-Jugoslávia (uma parte desta caiu directamente na zona mark!) o desmantelamento da Jugoslávia foi orquestrado pelo reconhecimento arbitrário da Croácia pelo amigo de Mitterrant, Helmut Kohl e pelo Vaticano. Dir-se-ia que foi uma espécie de ensaio da balcanização em curso do nosso sub-continente Esta Alemanha imperialista não esconde mesmo a sua vontade política de atingir por outros meios - os da dominação económica, a chantagem financeira e o euro- trabalho malabarista institucional os sinistros objectivos que foram os dos três primeiros "Reich".

Combater esta hegemonia como? Vê-se bem que os diferenciais económicos são tais entre as balanças comerciais alemãs e ...as dos outros, incluindo a França, que os gemidos não servem para nada. A zona euro-mark é uma zona proteccionista germano-yankee, que permite aos USA de continuar a colocar os seus dólares, moeda de referência graças ao poder da US Army, e, com este dólar fraco de dinamizar as exportações, ao mesmo tempo que o euro forte permite de impor aos países europeus do sul, (proibidos de desvalorização competitiva, como noutros tempos quando tinham a sua própria moeda, e que as coisas iam mal), as exportações industriais alemãs facturadas em euro forte, o clone do marco.

E Durão Barrosos pode levantar a voz a Merkel, contra os excedentes alemães, ela é surda de nascença. E os industriais alemães são surdos também que, obrigados pelo SPD socialista, contra participação no governo de Merkel, de criar um salário mínimo, já ameaçam de deslocalizar as industrias por que vão ser obrigados a pagar 8,50 euro/hora os escravos de leste!

Esta é a Europa, Senhor Embaixador, que temos hoje. Zona de livre troca desigual do Império anglo-saxão para a UE e da RFA para a Europa do Sul, mas proteccionismo hábil contra as exportações dos países da Europa do sul, que eles enchem de produtos alemães e americanos, proibindo aos "PIGS" de exportar largamente para a Alemanha e USA.
Estes pobres "PIGS", condenados à terço-mundialização.

Anónimo disse...

fraco

Defreitas disse...

Ao Senhor José Barros:

Tem razao !

Partir c'est mourir un peu ! E deixar esta Pátria que vive em nos é em si uma dor, mas não a deixamos realmente, porque ela habita sempre em nos.
A coragem deve motivar este gesto e nisso compreendo aqueles e aquelas que partem para uma vida melhor, se prometer o sucesso lá onde outros não o obtiveram, ir ao encontro duma nova cultura que pode ser hostil. Mas como o salmão, ser capaz de voltar a subir a corrente desse rio que faz sempre sonhar.

E se um dia tiver de fazer um processo aos governantes do meu pais, será o de não terem sido capazes de fazer do segundo império colonial do mundo, dessa nação que deu novos mundos ao mundo, ao menos um pais como a Bélgica ou a Holanda , já não digo a Suíça ! , em vez de promover agora a "exportação" dos seus filhos.

Porque a perda é considerável, como escreve o Sr. José Barros. Não só para o pais mas para os cidadãos emigrados também. Cada vez que "subo de novo o rio" da minha infância, ouço bem a pobreza cultural daqueles que de lá partiram e lá regressaram um dia.

Os vocabulários variados que obstruem a memoria tornam as suas percepções confusas: quando a ideia aparece, não sabem como a envolver, de qual idioma se servir para a explicitar melhor. Se só tivessem conhecido a língua deles, esta ideia ter-se-ia apresentado revestida da sua forma natural: o cérebro não a tendo pensado ao mesmo tempo em línguas diferentes, ela não teria sido o aborto múltiplo, o produto indigesto que por vezes é mesmo incompreensível.
Ah, sem dúvida, perder a sua língua é perder um pouco a sua alma.