terça-feira, 12 de novembro de 2013

Responsabilidade

Costumo lembrar que, durante a minha carreira diplomática, tive 21 ministros dos Negócios Estrangeiros. Sem recorrer ao "name-dropping", posso dizer que alguns me deixaram orgulhoso do os poder representar, outros foram-me relativamente indiferentes, outros ainda me deixaram em forte embaraço pelo modo desajeitado ou mesmo incompetente como não souberam ou não conseguiram defender os interesses do país. Mas nunca, em nenhuma circunstância, me regozijei pelo facto de um ministro, qualquer que fosse a sua coloração política, ter sido infeliz em declarações públicas no estrangeiro. Porquê? Porque, bom ou mau, fora de Portugal o chefe da diplomacia representa sempre o país. Se não se perceber isto, alguém pode ir à final da taça entre a S. Caetano à Lapa e o Rato, com o Caldas em episódicos permeios, mas quem perderá somos todos nós.

13 comentários:

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador, Ganhou-me! Eu também tive uma quantidade razoável...Porém quando me iniciei nos meandros da diplomacia (como manga de alpaca) esta era ainda a da velha guarda, patriota e sabia do ofício...
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Depois do 25 Abril começaram a surgir nas missões uns "rapazotes" que do mister nada entendiam ou vocacionados para diplomatas.Os ofícios eram martelados nas velhas máquinas, algumas com mais de 30 anos.
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As missões eram catedrais de segredos, chegados os telegramas pela máquina do telex e decifrados pela velha decifradora, alemã e usada na 2ª Guerra Mundial. O velho Capitão Zacaria, meu amigo, ensinou-me a manutenção daquele velho traste quando vinha a Banguecoque.
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Viviamos com o que tinhamos, bem, e poupavamos no papel. Aqueles relatórios, calhamaços, de muitas folhas que nos enviava a embaixada americana, era aproveitada a folha em branco para cópias de arquivo.
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As paredes da chancelaria apostos estavam os nossos herois da expansão. O meu mestre o saudoso Embaixador Melo Gouveia, pela manhã, quando entrava na chancelaria o seu primeiro olhar era para as paredes e se algum quadro não estivesse direito lá estava ele a colocá-lo como deveria.
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Com a integração de Portugal na UE o sentido patriótico deixou de o ser e surgiu a era da informática em que as missões foram invadidas por computadores que avariavam e poucos, funcionários, entendidos nos objectos. Chega a ociosidade e os tais "rapazotes", enviados pela rotina das Necessidades, empenachados, já se julgavam diplomatas/embaixadores.
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Ministros conheci uns poucos que passaram por Banguecoque um de pera bem aparada que até montou num elefante... Mas um ministro que me tocou foi o Prof. Jaime Gama (conheci em Banguecoque) pela sua simplicidade e graças a ele, fui guindado, como outros, ao funcionalismo público e um ordenado com dignidade, por poucos anos, porque entrei na reforma.
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Hoje sou um velho, feliz contente, mas apesar de tanto que haja passado tenho saudades de ter servido Portugal, embaixadores e bons diplomatas, na Tailândia. Os maus continuam andar por aí.
Seu admirador
José Martins

Anónimo disse...

Tem toda a razão, Senhor Embaixador.
Infelizmente, são entre nós cada vez menos os que têm esses sentimentos e são cada vez mais os que se apressam a exprimir a sua mal disfarçada indignação por situações dessas, quando no fundo estão felicíssimos com as escorregadelas dos seus adversários ou desafectos, mesmo que elas ponham em causa os interesses do País.

José Sousa e Silva disse...

Raciocínio bem elaborado. Conclusões inevitáveis.
Se me permite subscrevo.

patricio branco disse...

alem de que somos um país onde o instrumento da demissão de um responsavel politico, auto ou imposta,não existe, não é nossa tradição, etc

bonito postal, fotografia colorida à mão...

Anónimo disse...

Só quem não tem noção (ou com maldade, porque não sou nenhum santo) do que é pertencer a uma comunidade é que não pensa assim como o Sr. Embaixador.
Mas, cá para nós, ele parece a Mr Magoo! Não é? Vai fazendo asneiras atrás de asneiras e lá vai indiferente (ele e o governo) a tudo… Bem, mas se só fosse o MNE… aqui à minha volta é só Messrs e Mmes maggos!...
antonio padua

Anónimo disse...

Senhor Embaixador
Este seu pertinente comentário tem muito que ver com o remate de Viriato Soromenho-Marques no seu artigo semanal no DN hoje publicado, como sempre digno de ser lido e e tido em conta:
"Portugal precisa de inventar estadistas, se não quiser perecer".
Leão do Amaral

Anónimo disse...

Lá fora todos somos portugueses. Há um sentido de Nação e orgulho no País.
Infelizmente, cá dentro, passamos a vida a olhar para o nosso próprio umbigo. Era bom que os nossos partidos e dirigentes e demais parceiros pensassem antes de mais no bem do País e se deixassem desta forma egoísta e mesquinha de fazer política.
Um bem haja

Catinga disse...

Este ministro tem sido tão "infeliz" que até apetece dizer que é um... triste.

Anónimo disse...


Se me é permitido fazer um breve interregno nesta espécie de comentários, devo dizer que o achei óptimo na entrevista de hoje ao Etv.

É claro que estou inteiramente de acordo com o que disse e apraz-me registar o novo "look" que ainda não tinha tido oportunidade de ver.

Parabéns por tudo!

Beli

Anónimo disse...
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Anónimo disse...

1. O MNE fez a entrevista no estrangeiro é certo mas foi à agêcia oficial portuguesa, em português. Não proferiu as suas palavras perante uma audiência estrangeira. Para todos os efeitos, era como se estivesse em Portugal. De qualquer maneira, não são declarações menos felizes. São, sim, palavras de muita gravidade que nenhum amador poderia dizer. Portugal não se pode dar ao luxo, na actual conjuntura internacional, de ter um fraquíssimo MNE, a não ser que este para nada sirva - o que aliás poderá ser o caso. Portas e Maria Luís tratam de muito daquilo que, num país normal, o MNE deveria tratar. Espero que o MNE volte, num futuro próximo, a ter as atribuições e as competências que deveria ter e que nunca deveria ter perdido. Não me lembro de uma equipa tão má nas Necessidades.

Anónimo disse...

Oh! E eu a julgar que o MNE era a figura da actual SG, com tanta delegação de poderes! Com o jovem SEAE, com a condução dos Assuntos Europeus, os restantes com poderes semelhantes, fica o quê para Machete?

Anónimo disse...

Quem será o archote/farol da democracia em Portugal?


Alexandre