quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O combate

Foi uma tarde que ficou na história das Necessidades, nesses anos 70. De súbito, surgiu pelos corredores a indicação de que um colega, conhecido pelas suas fúrias e pelo seu espírito belicoso, que mais tarde haveria de revelar-se noutras frígidas paragens, pretendia "dar uma sova" num determinado diretor-geral, que, por acaso, era o meu. Já não recordo o motivo que levava esse diplomata, então cônsul-geral num posto no estrangeiro, a querer tirar desforço dessa figura da hierarquia. Mas, conhecendo-o bem, alguns colegas apostavam em como as coisas acabariam forte e feio.

A perspetiva de uma briga, que prevíamos pudesse ter lugar no pátio de entrada (na imagem), levou muitos de nós a não abandonar o serviço no termo do dia de trabalho, curiosos em saber como acabaria o assunto. No meu caso, tendo atrás da minha secretária uma bela janela lateral da qual se "controlava" toda a área desse pátio, fui assistindo à coreografia agitada do putativo agressor. Dando expressão à técnica negocial que ilustra a prática da casa, íamos observando que vários emissários se esforçavam por conciliar as partes. Ou melhor, tentavam isso junto da parte mais agitada, dado que o diretor-geral permanecia escudado dentro do seu gabinete, acolitado pelo meu "chefe de repartição", um seu íntimo que, ao final de cada dia, o conduzia reverentemente a casa. A nossa atenção dividia-se, assim, entre a agitação reinante no corredor da direção-geral e o pátio, onde o colérico colega permanecia, rodeado de "plenipotenciários". 

As coisas terminaram antes da hora de jantar. E sem o espetáculo por que todos ansiávamos. O colega foi convencido a regressar a casa. E o diretor-geral, pelo-sim-pelo-não, abandonou discretamente o ministério pelo "palácio velho", o mesmo que foi a residência do último rei, da qual fugiria, a 4 de outubro de 1910, a caminho do exílio. 

No dia seguinte, soube-se que o frustrado agressor teria dito a seguinte frase, que ficou nos anais da casa, referindo-se ao "encontro" que pretendia ter com o diretor-geral, que teria alegado não ter tempo para o receber: "Eu não demoro nada! Só o tempo de lhe dar dois murros nas trombas..."

9 comentários:

aldema ( www.correndomundo.blogspot.com ) disse...

Gostei muito desse texto. De tal maneira fui envolvida por ele, que lamentei o fato de o espetáculo ficar "inconcluso"...

Anónimo disse...

Já um cisne teria menos sorte, anos depois.
a)Cascais

Carlos Fonseca disse...

Mais uma manifestação do nosso tão característico "Agarrem-me, se não eu mato-o"

Dentro do anedotário das brigas, nunca me esqueci daquela vez em que, no pátio do Liceu Gil Vicente, o Henriques e Capela se desentenderam, resolveram brigar e, depois de tirar os óculos para não os partir, o Henriques disse: "Já nem te estou a ver bem!" Perante a resposta do Capela: "Então põe os óculos outra vez!", desatou "tudo" à gargalhada, incluindo os contendores. E a briga acabou ali.

Anónimo disse...

Caro Seixas. Chamemos os bois pelos nomes: CAbral de Moncada e João Pequito. E conheço alguns pormenores que não vale a pena acrescentar. Do que você se foi lembrar, homem!

CSC

Anónimo disse...

CSC,
O Moncada era diminuto para ir a brigas, mas...quem sabe!
FD

Anónimo disse...

Também houve uma história (com h pequeno) na Finlãndia, se bem me lembro...metia polícias e carro.

Isabel Seixas disse...

Bem mais mais aliciante seria um duelo...

Mas de facto não há como a expectativa...Enquanto não sai gorada claro

Anónimo disse...

Sinceramente, acho este tipo de histórias escusadas. Não têm especial piada e, além disso, dão má impressão dos diplomatas.

Talvez não faça grande mal pensar-se que são todos sujeitos calmos e educados.

Anónimo disse...

@ Anónimo das 12.33.
É que tudo isto se deve ter passado antes de 1974.