domingo, 3 de novembro de 2013

Ainda a "reforma"

Uma leitora atenta deste blogue deixou, num comentário, a nota e a constatação de que, em Portugal, os socialistas haviam criado um ministério para a "reforma do Estado", sem, contudo, nunca a terem levado a cabo. Concedo que possa ser verdade.

Já agora, e se puxarmos pela memória, talvez devamos recordar que o primeiro membro de um governo que teve a seu cargo a "reforma administrativa" foi um (então) militante do CDS, Rui Pena, ministro do governo PS-CDS, nos idos de 70. A "reforma administrativa" tinha aliás uma tradição pré-25 de abril, com um famoso "secretariado", ainda dos tempos marcelistas.

Aproveito o mote para dizer que, em minha opinião, a "reforma do Estado" tem duas vertentes, que quase sempre surgem misturadas.

A primeira são as adaptações a introduzir no formato e funcionamento da Administração Pública, tarefa a que todos os governos se dedicam. Desde logo, para colocarem as estruturas em consonância com as novas leis orgânicas com que sempre se entretêm a balharar e dar de novo, bem como para despacharem algumas promessas que deixaram nos programas eleitorais. No bom sentido, recordo que ninguém como Maria Manuel Leitão Marques, membro de um governo socialista, foi tão longe em medidas para agilizar o Estado. Nunca vi isso seriamente contestado.

A segunda vertente prende-se com a questão das funções do Estado, que, por mais voltas que se lhe dê, é sempre uma questão que releva do modelo constitucional e do que dele decorre para o quadro de responsabilidades que competem ao Estado. É essa a origem dos conflitos com o Tribunal Constitucional. Ora a Constituição só pode ser alterada por um amplo consenso, movimento que, como é da lógica do desenho de todas as leis (e, por maioria de razão, da lei fundamental), deve ter menos a ver com uma pressão conjuntural de urgência e mais com uma análise serena e pactuada dquilo que a moderna sociedade portuguesa hoje deve exigir.

Permito-me agora dizer duas coisas talvez polémicas.

A primeira é que um repensar das funções do Estado não pode ser, necessariamente, sinónimo de redução do papel do Estado. "Reformar" não é reduzir e, por mais que isto possa surgir como sacrílego, não excluo liminarmente que, em alguns domínios, possa vir a constatar-se a necessidade de "mais Estado". Pense-se, por exemplo, na segurança pública e na proteção civil.

A segunda será talvez mais chocante para alguns, mas é o que sinceramente penso. Este governo tem uma maioria, conferida por uma indisputável lógica eleitoral. E, em democracia, isto é o essencial. Nessa qualidade, tem todo o direito de apresentar ao país as propostas que entender. Mas, se acaso tivesse um mínimo de sensibilidade, já deveria ter percebido que a evidente erosão da sua legitimidade política é menos conforme com projetos para cuja concretização necessitaria de maiorias que nem as mais fantasistas hipóteses lhe conferem. E quando essas propostas são de um ridículo quase pungente, então não se deve admirar que a gargalhada seja a resposta. A menos que o momento da apresentação do "guião" não tenha sido inocente e tivesse como objetivo ser uma mera cortiina polémica de fumo para fazer esquecer a brutalidade deste orçamento, hipótese que, curiosamente, não vi suficientemente explorada. Se assim é, de facto, qualquer papel serve.

30 comentários:

Anónimo disse...

O Estado, não o actual endividado até ao pescoço, deve limitar-se a ser um Regulador de actividades e confinar-se apenas ás seguintes funções:

Justiça
Segurança e Defesa
Relações Internacionais
Administração descentralizada do País

Alexandre

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Alexandre: registo a sua opinião. Não é a minha, longe disso.

Anónimo disse...

O problema resume-se:
Temos um Estado que olhava por todos nós como um paizinho olhava pelos filhos dando ensino, saúde, trabalho, etc.etc.
Agora já não há meios financeiros para se poder existir assim.
Das duas uma: Ou iremos continuar como dantes individando-nos até aos ossos ou.... teremos que adaptar a nossa visão do mundo à actualidade, esquecendo como era dantes.

Anónimo disse...

Contribuição - impertinente, como sempre - da 'velha senhora':

grande alexandre
chegou e disse
piou e foi-se

pois volte e mande
mais direitices
como esse coice

Anónimo disse...

"Velha senhora",saudosista. das 15:39.

Obrigado!


Alexandre

Anónimo disse...

Discordo em absoluto de Alexandre e do anónimo das 15.00. E concordo com o autor deste Blogue.
O Estado deve ter outras funções, para além daquelas enumeradas por estes comentadores. Ou seja, não deve ter uma posição residual na Sociedade. Dando a primazia ao Privado.
O que muitos pretendem hoje em dia (a começar por este Governo, embora não sejam, longe disso e felizmente, a maioria) é que o Estado abdique da sua, útil, intervenção na Sociedade, o que daria origem a maiores desigualdades sociais e mesmo de acesso à qualidade de certos Direitos, inscritos na Constituição, como a Educação, a Saúde, para além de questões de ordem Social.
O Estado tem de ter, também, um papel fundamental na Economia (até como regulador, designadamente junto do sector financeiro – veja-se no que deu a falta de regulação, ou “desatenção” do Regulador). E vou mais longe neste capítulo, deveria manter o controlo (pelo menos maioritário) em áreas do interesse público, como a energia (EDP), Correios, Água, em circunstância alguma permitindo que esse interesse pudesse ser entregue a accionistas privados.
O Estado tem igualmente como obrigação suavizar e diminuir as clivagens e difenças entre a Cidade e o Interior, preocupação que num Estado de cariz ultra-liberal pouco ou nada importa.
Muito mais se poderia adiantar, sobre as funções do Estado e sobretudo da necessidade de manter um Estado forte (embora dinâmico e a par das necessidades do País, da sua modernização e seu desenvolvimento) mas julgo não ser este o local para se ir mais além.
Quanto ao dito “Guião”, daqui a 1 semana já ninguém se lembrará dele. E ainda bem. Portas deu um tiro no pé com este “documento” ficcional. Que o PM não deixou de registar.
R.


Anónimo disse...

Estou convencido que o consenso é maior do que se pensa! O problema está no prurido que se tem para o uso das palavras claras. A palavra “reforma” (do Estado) é subentendida pelas pessoas sensatas como “LIMPEZA” (do Estado). O enfoque na palavra “reforma”, pelos políticos (y sus muchachos), é intencional porque mascara a necessidade primeira de se “limparem” a eles próprios.
Como é possível alguém pegar numa vassoura e “varrer-se”?... Só por masoquismo (e malabarismo) dirão…(eles)
antonio pa

Defreitas disse...

O discurso que consiste a dizer que os funcionários não servem para nada , discurso habitual dos média e das conversas de café, serve de pretexto aos imbecis para estigmatizar milhões de trabalhadores da função pública que fazem correctamente o seu trabalho para o bem da comunidade nacional. Se trabalhassem para uma multinacional ninguém diria nada.

Claro que há quem ache que os funcionários não produzem nada! Como explicar então que quando se privatiza ,o grande prazer dos capitalistas é visível na maneira como se precipitam para os comprar? Muitos dizem que os trabalhadores dos serviços públicos são inúteis. Mas se são privatizados são mais úteis? Claro que se confunde aqui criação de riquezas e criação de lucros. Se os professores, a policia, ou as enfermeiras/os não produzem nada, são inúteis? Quando tudo for privatizado, seremos privados de tudo.

Considero que é um insulto para a inteligência de massacrar assim os funcionários quando o sector privado é incapaz de criar empregos em numero suficiente. A taxa de desemprego nos nossos países é um verdadeiro escândalo . Segundo alguns, haveria funcionários a mais no Estado. Depende. As filas de espera nos diferentes serviços (hospitais, correios,...) provam o contrário. Para o sector privado, um sector publico forte é uma fonte de crescimento.

Vive-se melhor nos países onde os serviços públicos são inexistentes? Mesmo num pais como os Estados Unidos, a carência de serviços públicos é sentida pela população. Claro, aqueles que não têm seguro social privado, como é o caso de 47 milhões de americanos. Obama fez desta necessidade premente o objectivo essencial da sua candidatura. E foi eleito por isso. E mesmo se falhou e desiludiu noutras promessas, parece respeitar ao menos esta.

Vivo num pais onde os serviços públicos ainda resistem à pressão dos adeptos da privatização. O público tem uma certa culpa na opinião que os serviços públicos dão , por vezes. Toda a gente acha normal de esperar na fila das caixas do supermercado, quando há varias caixas fechadas. Mas não no correio. Desculpa-se um atraso de entrega duma sociedade privada, mas se um comboio chega com 5 minutos de atraso num trajecto de 800 km. é um escândalo. Apoia-se raivosamente no teclado do telefone para conectar um servidor vocal duma companhia de seguros, mas acha-se inadmissível de não obter resposta imediatamente do serviço publico.

Em definitivo, estes milhares de funcionários custam-nos menos caro que os empregos de "conforto" atribuídos aos amigos dos nossos políticos!

Anónimo disse...

Pois é, Reforma não significa o mesmo que Esvaziar, Despedir.

Reforma tem sido feita desde o 1º dia deste Governo: Fusões e mais Fusões, acompanhadas de Estudos encomendados a amigos e mais alguns Estudos, assessores por tudo o que é vão de escada.

E, no fim, vão repescar o que já havia (às escondidas), porque para governar não basta uma mão invisível (ou duas ou três).

Sobre as fusões, algumas, passados 2 anos e meio, ainda não estão feitas. Outras desfizeram-se, à espera de mais alguns estudos dos amigos. Algumas, as "modelo", causaram prejuízos incalculáveis, tanto ao nível financeiro, como da capacidade de resposta do Estado às famílias e empresas (e aos parceiros internacionais).

Sobre o papel do Estado: é óbvio que qualquer privado quer ficar com a saúde (desde que o Estado pague, com os nossos impostos); ou com a Educação (desde que o Estado pague, com os nossos impostos); ou com as prisões, segurança, assistência social, com os nossos impostos.

Depois, é ver os Conselhos de Administração desses empreendedores com carros de alta cilindrada, dividendos e salários milionários, amigos e filhos de amigos nos melhores lugares, a queixarem-se, durante um qualquer governo socialista, de que o Estado não liga à Educação, nem à Saúde, com o PCP a concordar.

É para mim óbvio, cada vez mais óbvio, que o Estado administra melhor que os privados inúmeras áreas de atuação. E que um dos principais problemas que o Estado enfrenta é o outsourcing de inúmeros estudos que acabam por se revelar desastrosos para os contribuintes (que não para as clientelas do costume).

Anónimo disse...

Mas afinal o que é o Estado?

Acabe-se com o Estado!

Fiquemos só com o estado da nação.

Enfim, ao estado a que chegámos.

Com força, armas e muito tiro a dinâmica de poderes iluminará outro estar.

Silva.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, o Estado aqui no Golungo serve para muito (e aí sabe-se...) e os nossos amigos chineses também pensam exactamente assim. Os chamados emergentes, perante quem a Europa se baba, desarma e desmaia têm todos Estados fortes, bem como os Estados Unidos (como está agora bem à vista), e ninguém (como o FMI está a mostrar) já está com paciência para internar a Europa num lar e lhe tratar o Alzheimer. A Europa suicida-se com este liberalismo de pacotilha da "união europeia" e do "livre comércio globalizado", como já se tentou suicidar com fascismo, nazismo, comunismo e outras drogas duras. Está-lhe no feitio... Mas o resto do mundo não lhe vai pagar a reforma, de acordo aliás com os mesmos princípios que a Europa proclama.

a) Feliciano da Mata, emigrado da Europa

Carlos Fonseca disse...

Para um democrata, o seu texto não pode deixar de merecer um aplauso.

Felizmente em Portugal não abundam os Alexandres.

Defreitas disse...

O autor do "blogue" tem perfeitamente razão quando defende a ideia de "mais Estado" . O que é necessário é de definir o que entendemos por "Estado".
Enquanto o capitalismo pode praticar a exploração social num quadro dito "democrático", ele tolera espaços de liberdade. Mas desde que esta exploração social acaba por ser mais complicada, o capitalismo impõe as suas leis de maneira mais autoritária. O capitalismo contém sempre nele esta propensão a endurecer as suas instituições. O mal entendido vem do facto que se chamou "democracia" estes espaços de liberdade que são os média, a assembleia parlamentar, etc.. De facto, estes espaços de "liberdade" só existem se forem controlados pelo sistema. Isto é, estes espaços de liberdade subsistem na forma de logro.

O Sr. Embaixador escreve " que existe uma maioria eleita", o que é verdade, e que ela pode votar as leis, e portanto as reformas, o que é também verdade.

Mas enquanto se faz votar "gentilmente" os cidadãos sobre "programas reformistas", as oficinas consultam a temperatura quanto ao risco de eventuais movimentos sociais de grande amplitude. Os balões de ensaio lançados pelo governo não riscam grande coisa em Portugal. Já ninguém acredita na capacidade e talvez mesmo na vontade do governo para reformar o que quer que seja. Mas também o governo já antecipou desde há muito a passividade dos Portugueses .

Os Portugueses ainda não chegaram ao ponto de ruptura.

O Estado actual é o Estado da grande burguesia que NUNCA deixará escapar o poder . Toda e qualquer reforma que terá como objectivo de melhorar a situação daqueles que aspiram a uma vida melhor, será considerada pela classe que possui tudo como um ataque aos seus privilégios. Ora a reforma só pode ser orientada neste sentido : reduzir o mau funcionamento da sociedade e reduzir o fosso entre as classes.

Uma reforma que cria a ilusão que a democracia permitirá as conquistas sociais , visa a adormecer o povo , na esperança que se fará a economia dum afrontamento de classes.

O politico que vem com um "guião" e diz querer a reforma, esquece de dizer que é unicamente quando ela é cozinhada com um molho liberal! Noutros tempos "reformar" significava "melhorar progressivamente" afim que as condições do maior número melhorem. Hoje, reformar quer dizer adaptar-se às exigências dum mercado que, ele, é capaz de se reformar sozinho, de "se auto regularizar". Reformar o hospital, isto é fechar unidades de tratamentos, é apresentado como uma necessidade inelutável, um dever para não ser obrigado a fechar amanhã ainda mais unidades de tratamentos !
Não é necessário agora de se questionar se uma reforma é boa . A partir do momento em que ela é proposta pelos liberais ou os sociais democratas, é que ela é má !

Anónimo disse...

Sr. Fonseca,

Depois de ver a sociedade-por-quotas dos dois partidos rosa/laranja instalarem-se como lapas, talvez existam mais a pensar o mesmo !


Alexandre

Anónimo disse...

Ó Feliciano, os emergentes e os americanos têm Estados fortes, não têm é Estado social... E o real poder (o financeiro) não perdoa a ninguém!

a) Henrique de Menezes Vasconcellos (Vinhais)

opjj disse...

Acabo de ver há minutos que a dívida total portuguesa passa de 210 mil milhões.Esta dívida que é suportada pelo estrangeiro, permitiu manter durante anos, muito emprego e para uns milhares boas e grandes mordomias. Alguns,ex.(poder judicial)se arroga a reinvindicações feitas na praça pública como ontem ouvi.Se não forem atendidas, serão inconstitucionais. Tirar sim na quinta dos outros.
Só por irracionalidade muitos outros não vêem a realidade. O emprego público ganha mais e tem mais segurança.
A factura é esperada à muito, e ei-la.
Fugi um pouco do assunto.

Cumprimentos

opjj disse...

Por esquecimento não mencionei que neste momento a despesa pública passa 5 mil milhões a receita dos impostos.

BH

Anónimo disse...

Caro opjj
Não se terá esquecido também que esses 5 MM são, mais MM menos MM, os juros da dívida contraída com os desvarios do forrobodó? Estou a perguntar porque é o que ouço para aí falar.
Sem prejuízo de considerar, como já disse, que o Estado deveria ser reformado, levando uma enorme "barrela". E sabemos muito bem onde deveríamos "enxaguar"... Que não é onde lhes convém... O problema "só" é este...

EGR disse...

Senhor Embaixador: inteiramente de acordo com o post de hoje.
E, a propósito do "guião" permito-me transcrever a opinião do Prof. Teixeira dos Santos ontem expressa na TSF:
"E um documento que eu diria feito por um aluno, que falhou o prazo, que não estudou a matéria e, instado a apresentar o trabalho, foi a Wilkipédia buscar umas ideias, fez um corte e cola e apresentou o documento"
Evidentemente que toda a encenação montada em redor da apresentação do "guião" foi uma manobra para distrair as atenções em torno da discussão do Orçamento do Estado.
Na verdade se a matéria em causa tem a importância que a propaganda oficial lhe atribui como explicar a longa gestação do dito?
E porque motivo se escolheu cirurgicamente o dia anterior a discussão do Orçamento para o apresentar.
Permita-me um desabafo: não me considero mais uma pessoa dotada de uma inteligência normal mas irrita-me que queiram fazer de mim parvo.
Já agora mais uma observação: Alberto Martins foi, de facto, Ministro da Reforma Administrativa, suponho que essa era a designação oficial.
Mas do que tenho a certeza é que nunca apresentou um "guião" e o titulou de "reforma do Estado"

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro EGR: Alberto Martins foi ministro da Reforma do Estado e da Administração Pública

Anónimo disse...

Ao leitor/comentador Alexandre:

Será que a falta de referência à Administração Fiscal significa que a considera dispensável, porque advoga a total inexistência de impostos, ou a inclui na Administração descentralizada do País, ou ainda porque pensa que ficará muito bem entregue à iniciativa privada, por exemplo a um futuro banco tipo BPN (com o mesmo tipo de fundadores, claro)?!

Isabel Seixas disse...

(...)A menos que o momento da apresentação do "guião" não tenha sido inocente(...)in FSC

Bem visto, dá que pensar.

saudações cordiais à minha velha amiga, também gostei de alguns comentários nomeadamente do comentador Defreitas e do sr. Feliciano da Mata.
Gostei do post bem atual e pertinente.

Anónimo disse...

A 'velha senhora', minha amiga, pede licença pra se explicar ao caro Alexandre:

a alexandre direitista
devagar vou explicar
não sou nada saudosista
mas sem dúvida esquerdista
e dispenso o obrigadar

'coice' usei pra rima ter
rima 'foice' esteve em vista
que também podia ser
mas não o quis ofender
foice é só pra comunista

Defreitas disse...

Claro, claro, Sr. Vinhais : Os EUA não têm Estado social , mas os doentes sem segurança social morrem nos dispensários de Brooklin, quando esperam pela sua vez para serem recebidos pelo médico de serviço. E ainda com a condição de ter tido a boa sorte de tirar um bom numero do ticket de admissão na lotaria quotidiana. Se tiver o n° 21, já tem de voltar no dia seguinte, porque só 20 doentes serão admitidos. Mesmo que sofra dum cancro!
Quarenta e sete milhões de americanos estão sujeitos a esta lotaria.

Claro, claro, Sr.Vinhais, os EUA são um Estado forte! Mas não têm previdência social. Mas são os campeões dos "défices" comercial e orçamental. Mas que Estado "forte" é este que, periodicamente, fica à merci dos credores do mundo inteiro para pagar os seus funcionários, que falta de salário e de meios cessam o trabalho, incluindo os bombeiros? Mas a policia e o exército, não, esteja tranquilo ! Recordo o grito de revolta de 25O americanos que, no mês passado, tendo atravessado o Atlântico para fazer uma visita de saudade a familiares e amigos que repousam no cemitério de Colleville sur Mer, na Normândia, caídos no Dia J do desembarque de 1943, não puderam entrar porque os empregados americanos do cemitério ( território dos EUA) estavam ausentes por falta de salários. Choravam de raiva!

Estado forte, claro, mas que com a divida colossal única no mundo devem esperar que a China e os outros credores continuem a fazer-lhe crédito para viver. A América vive do crédito universal. Mas não tem Estado social ! Mas tem a maior força militar do mundo. E é isso que os salva! Os "amigos" que compraram o "papel" do tesouro americano esperam que esta força os protegerá da revolução social! Comprar o "papel" equivale a uma protecção do valor dos dólares, que todos compraram e tesaurizaram !

Os EUA que o Sr.Vinhais cita como exemplo, é o melhor exemplo do egoísmo da classe rica e da direita mais retrógrada do mundo, quando provoca o "shutdown" do governo pela sua recusa de votar o orçamento, impondo como condição a anulação da reforma da saúde, de Obama.

EUA, Estado forte, mas veremos de novo no próximo mês de Fevereiro o nível superior da divida de 16 700 bilhões de dólares ser atingido e , de novo, este Estado forte ficar na impossibilidade de assumir as sua obrigações financeiras : não podendo reembolsar a divida, não poderá voltar ao mercado para levantar dinheiro. Isto é o que se chama uma falência, ou, mais tecnicamente um "defaut"!

Eu sei, eu sei, que no ultimo instante, o mundo inteiro, retendo a respiração, verá um acordo entre os dois partidos, para continuar no mesmo caminho! O mundo inteiro , os tais que detêm o poder real, como diz, serão aliviados do pesadelo!

No seu exemplo de Estado forte, Sr.Vinhais, se compararmos o "shutdown"do governo ao impasse do patamar da divida, é como comparar uma boa gripe a uma ruptura de aneurisma !

Claro que estamos longe do caso Portugal, que não tem nada para oferecer excepto os seus filhos, para enriquecer as economias dos países onde procuram aquilo que não encontram no pais natal : trabalho! E se um dia se retira aos Pais que ficam na terra, a protecção social mínima para evitar que se transformem em párias, então não haverá mais nada a perder !

patricio branco disse...

houve em tempos uma isabel corte real que foi secretária de estado da modernização administrativa entre 1989 e anos 90, negociou durante meses com parceiros sociais o novo sistema retributivo da função pública que entrou em vigor em ainda em 1989, pois essa senhora recebeu o grupo fundador ou 1ra direcção da asdp que lhe foi expor o projecto do sindicato diplomático que esperava aprovação do min do trabalho, o gabinete dela era na estrela, na Borges carneiro ou por ali...
pois de acordo, o documento contem propostas alinhavadas assim como à pressa, apesar da demora, algo tinha de sair ou era a continuação do ridículo e das piadas, a montanha nunca mais paria o rato, proverbio latino, sim, ideias quase pungentes, em suspeita ocasião, há tantas coisas uteis que se podiam ir fazendo gradualmente dentro da constituição, a reforma do estado deve aliás ser permanente, continua, etc

Anónimo disse...

Ao Anónimo das 23:40 do dia 3.

Os impostos não seriam cobrados pelos bancos (?), mas sim pela Administração Descentralizada, regulados pela respectiva Entidade Reguladora de Impostos.

Como sabe o BPN, foi um caso de polícia, "encoberto" para não incomodadar aslgumas lapas do poder. O BCP, no admirável mundo novo do Sr.Sousa, era também um caso de polícia.

Alexandre

Anónimo disse...

Senhor Defreitas

O Estado social esta a ser desfeito aos bocadinhos e os sociais democratas tambem nao tem sido pecos a cortar nele...

Agora esta direita liberaloide quer enfraquecer o Estado, porque sim, promover uma abertura comercial curta de vistas ( ninguém esta a defender o proteccionismo puro, so se pedia que a Europa deixasse de ser a otária dos mercados internacionais).

A América e respeitada so porque tem a forca bruta militar? E verdade. E conhece outra forma de ser respeitado?

Para terminar cito Alvaro de Campos para definir a minha posição político-social: "eu sou monárquico, mas nao sou católico" ("Opiario"). O que quer dizer: eu defendo El Rei de Portugal, mas nao sou parvo.

a) Henrique de Menezes Vasconcellos (Vinhais)

Anónimo disse...

O Senhor Vasconcellos Vinhais quer dizer que o Estado fica mais forte se deixar de ser social? Mas então em que se distingue Vossa Excelencia destes liberais que nos governam? So em preferir o Senhor Dom Duarte Pio ao Professor Cavaco Silva? E curto...

a) Feliciano da Mata, republicano assanhado

Anónimo disse...

Diz-me a 'velha senhora' que agradece ao caro Autor não ter publicado as suas rimalhices sobre o "Guião da Reforma do Estado", concordando que poderia ofender quem muito estima. Ditou-me agora uma nova versão, estritamente não-nominativa, que espera possa passar:

o guião é documento?
papelucho é dos piores.
o cabal não-documento
documenta é que os autores
não têm falta de talento
falta têm é de valores

que desculpe a boa gente
- e a má gente, pois, também -
a esta velha, que só sente
vergonha e raiva por quem
envergonha, rouba e mente:
seus c------, filhos da mãe!

Defreitas disse...

Senhor Vinhais

O respeito imposto pela força militar não dura mais que um certo tempo. Se Esparta chegou a dominar e vencer Atenas, não é de Esparta que reza a História hoje, mas de Atenas, que nos legou a civilização, e com ela a democracia.

A força militar não consegue vencer sempre os povos. Os USA sofreram a derrota no Vietname, e não são respeitados nos países da América do Sul. Quanto aos fiascos do Afeganistão e do Iraque, e os milhares de mortos que eles custaram, sem falar dos custos financeiros que pesam ainda hoje sobre a economia americana, e por ricochete sobre a economia mundial, ninguém sabe realmente avaliar qual será in fine o impacto real sobre o futuro do mundo.
Vivemos na era dos direitos do homem e do cidadão, mas reconheço que ainda há muitos combates a livrar para os proteger e alargar na sociedade actual.
Prefiro os direitos para todos aos privilégios reais para alguns.
Prefiro os valores universais de liberdade e igualdade , e não me acomodarei nunca das terríveis desigualdades e opressões da nova sociedade industrial do XXI° século.