domingo, 13 de outubro de 2013

O Nobel e a Noruega

Como (não) é (às vezes) sabido, a designação do prémio Nobel da Paz - contrariamente a todos os outros prémios Nobel, que são atribuídos na Suécia - é feita pelo comité Nobel da Noruega. Invariavelmente, a entrega do prémio tem lugar no dia 10 de dezembro, no Rådhus, a câmara municipal de Oslo, pelo primeiro ministro norueguês, na presença do monarca do país. Conheço bem o edifício e a sala, respetivamente com uma arquitetura algo "brutalista" e umas discutíveis pinturas, onde me coube participar num jantar oferecido pelo falecido rei Olavo V ao presidente Eanes.

Quando, por alguns anos, vivi pela Noruega, travei conhecimento com um dos membros desse comité, que era amigo do meu primeiro chefe em Oslo, o embaixador Fernando Reino. Integrar o comité é uma função prestigiada, sendo os seus membros vulgarmente (à época, o que pode ter mudado entretanto) próximos do Partido Trabalhista. Infelizmente, esse meu conhecido nunca se revelou aberto a revelar-me o modo como as escolhas e decisões do comité eram tomadas. A consciência do prémio configurar um momento importante para a imagem externa do país, o que, para um norueguês, assume uma importância extraordinária, deve ser a razão desta reserva secretista. Mas, devo confessar, a metodologia de atribuição do galardão sempre me intrigou.

Este ano, o Nobel da Paz é concedido à Organização para a Proibição das Armas Químicas. A escolha foi criticada por alguns, por poder ser lida como transportando para o centro da questão síria apenas uma das vertentes do conflito no país, podendo assim ajudar Assad a, resolvido que seja esse problema, considerar que está legitimado noutras dimensões do seu bárbaro esforço de guerra. Mas nada disto é novo: muito frequentemente, as decisões do comité Nobel da Paz têm, no passado, sido controversas, às vezes bem mais do que este ano.

De há uns anos a esta parte, tenho para mim que as escolhas dos prémios Nobel da Paz acabam por ser um espelho muito interessante da própria mentalidade norueguesa. Umas vezes, a seleção segue uma lógica simples e conjuntural, foi o caso deste ano. Outras vezes, parece obedecer a uma "naïveté" quase deslumbrada, como foi o caso de Obama, que, à época, ainda não existia enquanto político com história a premiar. Não raramente, o comité optou por algumas ousadias, quase sempre muito "politicamente corretas", que lhe conferem uma imagem de "espírito de ONG" - e mais não digo...

Se olharmos com atenção, ao longo dos anos, para os nomes escolhidos para os prémios Nobel da Paz, quase que poderemos, através deles, descortinar o verdadeiro perfil psicológico desse país singular que é a Noruega - gente simples, preocupada com a "rightouseness", as mais das vezes algo óbvia, mas sempre séria e "modestamente" surpreendida com o facto do mundo teimar em não se lhe assemelhar.

10 comentários:

Defreitas disse...

Ora, Sr. Embaixador: Obama não é o único caso caricato! Quando Kissinger foi recompensado com o mesmo prémio, ele, o pirómano da operação Condor ( bombardeamento do Cambodja) que suscitou a escalada da guerra do Vietnam, ele, que apoiou quando não fomentou directamente as ditaduras de extrema direita durante a guerra fria, particularmente na América Latina, ele, o carrasco de Pinochet.
A caricatura politica acabou por ser obsoleta quando Kissinger recebeu o prémio Nobel da Paz.
Os Noruegueses gostam de agradar aos Americanos. O prémio concedido a Obama, chefe dum Estado fautor de duas guerras, para as quais enviou alguns milhares de soldados suplementares quando recebeu o prémio ! Il faut le faire ! Terá o Sr. Embaixador absolvido este antigo colega diplomata? Não o mencionou!

Quanto ao prémio concedido à Europa, também este tem a sua piada, quando se conhecem as politicas económicas impostas na Europa, e particularmente a da nossa querida amiga Frau Merkel, favorecendo o desenvolvimento da pobreza, do desemprego e das desigualdades, ingredientes apropriados para pôr eventualmente em causa a paz entre os povos.

Os Noruegueses são eles mesmos algo caricatos nas sua escolhas!

margarida disse...

"gente simples, preocupada com a "rightouseness", as mais das vezes algo óbvia, mas sempre séria"
parece-me muito bem; às vezes mais, estraga.

Anónimo disse...

Sem dúvida que a atribuição deste Prémio Novel da Paz, sempre tem deixado algumas interrogações, que nunca foram esclarecidas para o comum dos cidadãos... mas eles lá sabem porquê!

Anónimo disse...

Concordo com o comentador Defreitas.

Ao contrário dos Prémios Nobel da outras áreas que não suscitam dúvidas, o da Paz há muito que deixou de ser unânime - Obama recebê-lo acabado de chegar à Casa Branca, a UE que "dá sem dó nem piedade" nos mais países mais pobres ou as ONG sistematicamente agraciadas.

Nesse sentido, pessoas, muitas vezes anónimas que dão a cara e o corpo às balas para dar voz e salvar os mais indefesops em detrimento de organizações que apenas se limitam a cumprir os objectivos para os quais foram criadas não parece lá muito justo.

Este ano então foi flagrante para agradar aos americanos (mais uma vez), quando havia uma jovem de apenas 16 anos a fazer o que compete aos mais velhos ou o médico congolês que trata/salva milhares de mulheres em países com regimes que, ainda, levam palmadinhas nas costas dos que apregoam a defesa dos direitos humanos.

Ora, na minha modesta opinião, a jovem activista Malala Yousafzai e o médico Denis Mukwege fazem devia competir às ONG e aos países mais desenvolvidos.

Sabia que o Nobel da Paz era o único a não ser atribuído pela Academia Sueca por vontade do próprio Alfred Nobel, talvez isso justique a diferença de critérios, embora o da Paz tenha uma componente mais política.

Isabel BP

patricio branco disse...

a destruição dum perigoso arsenal de armas quimicas é algo de muito importante para a segurança da população síria, da região e internacional. não me parece tarefa menor, secundária, mas nercessaria e urgente. tanto mais que foi precedida de negociações frutuosas e teve a concordancia (esperemos que sincera) de assad.
e rigoberta menchu tinha craveira intelectual (escreveu depois livro cheio de plágios)e obra para o da paz?

todos os nóbeis serão em certa medida discutiveis, porque recebeu dario fó o da literatura (!! quem o lê?)e nunca digamos carlos fuentes? e os quimicos e fisicos e medicos dirão o mesmo dos prémios dessas áreas, aquele investigador merecia mais, etc.

penso que foi um avanço para a segurança a destruição das armas sirias que já tinham começado a fazer vitimas...

Anónimo disse...

Peço desculpa pelas gralhas do meu comentário anterior porque o meu teclado anda igual ao governo, só que um corta nas palavras e o outro nos ordenados e nas pensões de sobrevivência.

Tenho teclas que é preciso carregar com mais força e depois dá nisto :))

Isabel BP

Anónimo disse...

Não é por acaso que este blog ganhou prestigio. Ganhou prestigio pela qualidade e conteúdo dos textos que nos são "oferecidos" mas também pela liberdade que aqui se deixa a outros intervenientes que trazem complementos muitas vezes enriquecedores. É o caso muito frequente do interveniente Defreitas com quem regularmente estou de acordo.
José Barros

Anónimo disse...

A OPCW não fez rigorosamente nada para merecer aquele prémio. Foi através da “iniciativa oportunística” , mas inteligente, russa que a Síria decidiu o que se sabe.
Quem conhece bem a OPCW (e eu conheci), sabe bem o peso que os EUA têm naquela Organização (ao ponto de terem “corrido” com um anterior Director-Geral por se ter “atrevido” a tomar iniciativas de inspecções ao arsenal norte-americano, o que desagradou muito a Washington que deixou de apoiar a sua recandidatura. Ali, se os EUA são contra um determinado candidato, aquele não tem a menos hipótese – o mesmo se houver oposição de Moscovo. Entretanto, os EUA conseguiram adiar a destruição do seu arsenal de armas químicas até 2021 ! - e os russsos pediram aos EUA que os apoiassem financeiramente para que eles conseguissem destruir o seu próprio arsenal, igualmente num prazo bastante alargado!).
Quanto ao Nobel da Paz, este e passados, julgo que já foi dito, e muito bem, o que deveria ter sido por outros comentadores antes de mim (sobretudo ao relembrar figuras sinistras como Kissinger, ou alguém como Obama!).

Isabel Seixas disse...

Também concordo com os comentários dos comentadores Defreitas e Isabel BP.
Aliás nos casos referidos houve um premiar promiscuo que desacredita o prémio,bem patente um tipo de adultério da guerra à Paz, velado nas virtudes da paz enfatizadas e publicas e os vícios da guerra abafados no privado...

Anónimo disse...

Boa noite,

E tarde e faz frio. Mas vem-me a cabeca uma chusma de palavras: Noruega, Oslo, Nobel, Paz,dinamite, nitroglicerina filmes Clouzot - Yves Montand - "O salario do medo". Tudo isto baralhado e pouco arrumado.Desculpem-me...

"Good night and good luck"

Saudades de Londres

F. Crabtree