quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Lugares da vida urbana

A iniciativa insere-se no âmbito da Trienal de Arquitetura de Lisboa. O projeto chama-se Gargantua Collective e, em síntese, tem por objetivo refletir sobre as perdas, para o património humano e cultural das cidades, que pode representar a desaparição de alguns locais públicos de convívio lúdico e de restauração, que estão hoje sob forte ameaça, em grande parte pela crise económica, mas, noutros casos, pela mera inadequação da sua oferta, algo estática, face aos desafios do consumo contemporâneo.

O olissipógrafo José Sarmento de Matos e eu próprio, fomos anteontem convidados a falar, perante um público jovem, atento e interessado, que se juntou no restaurante "Pessoa" - uma casa com 164 anos, por onde o homónimo poeta também passou, na clássica rua dos Douradores - sobre a importância desses locais, como plataformas de sociabilização e, em alguns casos, como espaços de criatividade e diálogo cultural, com dimensão histórica significativa.

Dediquei a Lisboa grande parte daquilo que disse, nessas quase duas horas e meia de convívio, onde também se leu poesia e se avaliou a evolução do usufruto da "rua" e da noite pelas gerações, chamando à conversa as redes sociais e a globalização da cultura do imediato, que hoje atravessa as camadas mais jovens, que olham preferencialmente para outros suportes, muito para além dos livros, dos jornais ou da televisão. 

Sem a menor nostalgia mas com o carinho devido, falei de cafés, bares e restaurantes perdidos ao longo dos anos, realçando sempre, contudo, que nunca como hoje a cidade de Lisboa esteve tão "gloriosa" e diversa em termos de oferta gastronómica e de locais de convívio, não apenas para os jovens, mas para todas as gerações e gostos. E abordei, com alguma atenção, a evolução da vida urbana fora da capital, no Porto e em outras cidades de província que conheço bem, notando as mutações nos hábitos e, com elas, a perda inevitável e irreversível do lugar social de certos espaços, como, aliás, acontece um pouco por todo o mundo que se nos assemelha.

Houve ocasião para abordar o tempo da vaga avassaladora dos bancos sobre muitos cafés, explicando o papel que estes tinham desempenhado, durante muitos anos, na atenuação da solidão de quem, vindo da província - e, à época, "quase não havia lisboetas..."- caía desamparado numa cidade que parecia imensa, fosse ele estudante ou trabalhador. Falámos das tertúlias políticas, intelectuais e literárias, desportivas ou simplesmente lúdicas, da noite "que era predominantemente masculina", salvo num seu certo lado... Falámos muito, de facto, dessa noite, da boémia, pobre e rica, dos bares, dos cabarés, até do fado, dos escritores e dos seus lugares preferidos, dos locais operários e estudantis. E da cultura, dos suplementos literários, das revistas que marcavam um tempo que era muito mais lento e menos perecível, agora apagado de imediato pelo dia seguinte.

Sarmento de Matos, com o seu conhecimento histórico ímpar da capital, deu-nos notas curiosíssimas sobre a evolução espacial de Lisboa, dos círculos de identidade em que a capital se desdobrou, das dinâmicas sociais urbanas e no modo como a cidade se foi construindo.

Na sala estava uma das figuras a quem a divulgação da vida e obra de Eça de Queiroz mais deve, o arquiteto Campos Matos, que contribuiu com traços muito interessantes dessa Lisboa novecentista. Apelámos à audiência para que lesse "A Capital", onde está tudo: os cafés, as tertúlias, os lugares de restauração, a vida social e intelectual, visto sob um (falso) olhar provinciano. Olhar essa Lisboa é meio caminho andado para entender a Lisboa de hoje. E Portugal.

6 comentários:

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Imagino que tenha sido interessantíssimo. Penso que falo pela maioria dos leitores do blog, quando digo que seria muito agradável se o Sr. Embaixador nos avisasse antes dos eventos, contando que sejam abertos ao público. Pessoalmente, teria o maior interesse em ouvir a sua opinião e as suas reminiscências sobre diversos temas.

Com os melhores cumprimentos,

Henrique Souza de Azevedo

opjj disse...

V.Exª levou-me à minha juventude. De facto pontos de encontro,como café Martinho, Pastelaria Colombo e Versalhes e outros. Os bailaricos nas casas; Beiras, Alentejo, no I.S.Técnico, as meninas eram sempre acompanhadas pelos seus pais.
Tempos bonitos e mais sãos.
Cumprimentos

patricio branco disse...

muito desapareceu com os anos, pouco ficou do antigo a funcionar, será assim que tudo ou quase evolui, se transforma, talvez. nem a brasileira é o que era, transformada num longo balcão onde os clientes se apinham a tomar a bica e pastel, e com poucas mesas.
as tertulias, os grupos que se reuniam nesses locais são interessantissima materia de estudo, sim.
ora deve ter sido uma sessão interessante essa no pessoa, não sei se o nome vem do escritor ou do proprietario fundador do restaurante, se tem 164 anos com o nome não será do escritor, mas o historiador deve saber...
por outro lado, agora começam a abrir se espaços ludicos de restauração agradaveis, com mesas, serviço de mesa, onde até é agradavel ir.
mas tertulias creio que já pouco existem, etc

Anónimo disse...

Muitos locais de convivio foram definitivamente perdidos e a net que poderia alimentar certas tertúlias não pode substituir a falta de convivialidade que ali se vivia.
Na cidade onde cheguei há já algumas dezenas de anos os portugueses alimentaram durante muito tempo dois lugares distintos que foram dois pontos de encontro por excelencia embora quase exclusivamente frequentados por homens:
o primeiro foi o café da peia, perto da gare, que em realidade não tinha aquele nome mas foi assim batizado pelos portugueses por ser ali que deixavam uma parte importante do salário (paye) sobretudo "a peia" dos solteiros;
o segundo era o café da Maria por estar situado mesmo em frente da "Mairie".
Na altura ainda não havia aqui nenhum comércio dirigido por portugueses e estes foram durante muitos anos frequentados pela comunidade como ponto de encontro.
Em Paris, antes do 25 de Abril, um ponto de encontro muito frequentado pelos contestatários do regime português foi também o café Luxemburgo, perto do Odéon, que afinal podia facilitar a "vigilância" da Pide que como sabemos também agia na emigração.
Mas os portugueses encontravam-se ali como se para desafiarem...
José Barros

Anónimo disse...

E o Monte Branco no Saldanha, talvez o primeiro café gelataria em Lisboa. Nele pontificavam Herberto Helder e meia dúzia de estudantes atentos e divertidos...

Saudações.

Guilherme.

Helena Oneto disse...

Este "convidativo" post poderia ser um belo preludio a um outro "Diário de Bordo"...

Senhor Embaixador,
Dar-nos-à, um dia, esse prazer?

PS: Subscrevo o comentário de Henrique Souza de Azevedo.