segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A cicatriz

Naquele tempo, naquele período de menos de seis anos que mediou entre a queda de Salazar (queda dupla: da cadeira de lona, em agosto, do poder efetivo, em setembro) em 1968 e a Revolução iniciada em abril de 1974, alguma coisa mudou na vida política portuguesa, embora não o suficiente para garantir um fôlego salvador à ditadura.

A televisão seria um dos instrumentos onde essa mudança se fez sentir. Ainda antes de 1968, Marcello Caetano havia sabido colocar alguns homens de mão dentro da RTP, um espaço de afirmação de poder onde, no "swap" de ditadores, se iria passar uma das lutas surdas entre o salazarismo decadente e o marcelismo nascente. Para além das "conversas em família" do novo chefe, um proselitismo monologante que o "presidente do Conselho" quis fazer passar por um ato de transparência democrática, a RTP passou a oferecer outras curtas palestras ideológicas, sem imagens que não fossem as das caras estáticas de jornalistas serventuários, alguns de muito considerável qualidade intelectual, oriundos de órgãos de imprensa do regime moribundo - o "Diário da Manhã", o "Novidades", "A Voz" e, mais tarde, a "Época". Os nomes não era muitos: Barradas de Oliveira, Dutra Faria, João Coito, Artur Anselmo e alguns mais.

Sempre tive um estranho fascínio e uma dedicada atenção a tudo quanto se situa do lado contrário àquele que defendo. Da mesma maneira que não dou prioridade a artigos, livros ou blogues que assumam teses com que sei, à partida, que vou concordar, acabo por ter um bizarro e quiçá masoquista tropismo para tudo quanto tenho a certeza de ir detestar. Por isso, as intervenções dos integrantes da lista de panfletários do regime que acima elenquei eram, para mim, momentos imperdíveis do espetáculo televisivo, por mais que isso chocasse familares e amigos.

Uma noite, numas férias, em Vila Real, aí por 1972 ou 1973, "divertia-me" a observar na RTP Dutra Faria, um jornalista da "situação", de ar grave e façanhudo, que se desdobrava numa qualquer diatribe anticomunista ou contra os "terroristas" que operavam nas colónias. Ao meu lado, o meu pai mostrava alguma indiferença à palestra e só não punha termo ao meu obsessivo "voyeurisme" do regime porque, havendo um só canal televisivo, o "zapping" era então um conceito inexistente.

Num certo momento da charla televisiva, o meu pai comentou:

- Já reparaste naquela cicatriz que o Dutra Faria tem sobre a sobrancelha?

De facto, mesmo no preto-e-branco da imagem desses tempos, era visível que o homem tinha uma marca muito clara na cara.

- Eu assisti ao momento em que o Dutra Faria "ganhou" aquela cicatriz. Foi há mais de 40 anos...

Olhei com alguma surpresa para o meu pai. Ele era o que se pode chamar um republicano "dos quatro costados", nunca escondera a ninguém o seu pendor oposicionista, havia-me levado pela mão a ver o Humberto Delgado em 1958 e, em 1969, tinha apoiado a minha participação na aventura eleitoral vilarealense contra o regime. Mas, confesso, não imaginava que tivesse estado imerso num combate político com decorrências físicas. Por isso, fiquei à espera da explicação.

- Julgo que foi em 1930, na "casa de pasto" Liège (*), no início do elevador da Bica. Era um restaurante de galegos, que os funcionários da Caixa Geral de Depósitos, como eu, então frequentavam. Um dia, durante um almoço, assisti a uma cena que me ficou na memória. Um grupo de "camisas azuis" - os nacional-sindicalistas, dirigidos por Rolão Preto (**) - começou, numa mesa, a dar vivas à contra-revolução e ao fascismo. Os tempos políticos eram muito tensos. A ditadura estava em pleno e os nacional-sindicalistas andavam então numa grande euforia, julgando ser possível instituir em Portugal um modelo próximo do fascismo italiano. Pouco tempo depois, Salazar iria pôr um ponto final nesse radicalismo. Os comensais das restantes mesas olhavam o ruidoso grupo, mas mantinham-se em silêncio. Dei-me então conta que um homem que almoçava sozinho começou a agitar-se e, a certa altura, não se conteve e gritou: "Viva a República!". Os nacional-sindicalistas, sentindo-se provocados, levantaram-se e cercaram a mesa do republicano. Este, ameaçado por todos os lados, pegou numa garrafa e enfrentou o grupo agressor. Na luta que se seguiu, um dos "camisas negras" foi atingido no sobrolho e começou a sangrar. Aproveitando a confusão, o republicano conseguiu fugir pela calçada da Bica abaixo. O ferido era o Dutra Faria e o republicano chamava-se Carvalho Araújo(***). Tu sabes quem é...

Claro que sim! Era o Carvalho Araújo, um homem com quem eu tinha colaborado, ali mesmo em Vila Real, na referida batalha oposicionista de 1969 e de quem já um dia contei uma divertida história neste blogue. Fora afastado da função pública pelo Estado Novo e, depois de uma vida difícil e tumultuosa, regressara a Vila Real, pouco tempo antes. Muito radical e com mau feitio, acarretava consigo uma aura de resistente à ditadura que muito impressionava a nossa geração local.

Nessa noite, fiquei a saber a quem se devia a (republicana) cicatriz que nunca mais abandonou o rosto de Dutra Faria.

(*) - A casa Liège ainda hoje existe. Voltei lá um dia, com o meu pai, num almoço em que me descreveu a coreografia da cena.
(**) - Por um bambúrrio histórico, eu tinha conhecido Rolão Preto, no Fundão, numa noite em meados de outubro de 1969, numa reunião oposicionista. O antigo nacional-sindicalista, então com 76 anos, tinha-se aliado a uma lista monárquica anti-regime. Deixo uma imagem dos seus tempos áureos.
(***) - Carvalho Araújo viria a ser reintegrado na Caixa Geral de Depósitos, depois da Revolução de abril. No escasso tempo que lhe restava antes da aposentação, ficou colocado sob a autoridade do meu pai, gerente da Caixa na cidade, que também não lhe gabava o feitio... 

15 comentários:

Isabel Seixas disse...

Às vezes mau génio até dá jeito...

Anónimo disse...

Os nacional-sindicalistas eram "camisas azuis", e não "camisas negras"

ignatz disse...

o mau feitio da oposição em contraponto ao nacional porreirismo do regime é normal e compreensível.

Anónimo disse...

“Engraçada” a composição da reunião oposicionista que incluía Rolão preto: “Ninguém olhava “ao meio” para atingir o fim… (digo eu). Só discutiriam as “bombas”?…
Nestes tempos tristes (“só” para muitos), é de reparar, no seu texto, a expressão: “demissão” da função pública por motivos políticos. Agora, “requalifica-se” por motivos “óbvios”…
(Gosto mais do voyeurismo eclético)
António pa

Defreitas disse...

Curiosamente, também resisto mal à atracção dos escritos que considero tendenciosos, mas que leio para melhor situar as nossas divergências e... combatê-las "le cas échéant" , num debate democrático. Confesso que este "blog" me atraiu não pelas divergências ocasionais que aqui encontro, mas pela qualidade do Português que aqui se escreve, que procuro conservar o melhor possível, "en me frottant" àqueles que escrevem bem. O Sr. Embaixador é o melhor exemplo. Claro que sou sensível às palavras amigas do Sr. José Barros , Isabel Seixas e Isabel BP. Partilhar ideias é um prazer.

Não conheci o ambiente politico de Portugal da década de 60, porque já tinha emigrado, ou antes, os meus Pais já tinham emigrado. Mas recordo os anos da juventude logo após as eleições de 1948, creio, com o General Norton de Matos como candidato da oposição, eleições que Salazar ganhou ...sem contar os votos! E em 1958 as de Arlindo Vicente.
Recordo que em Guimarães também existiam essas figuras republicanas da primeira hora, como as que descreve o Sr. Embaixador, figuras que o meu Pai conhecia bem, alguns dos quais passaram muitos períodos de "férias" nos hotéis de luxo da Rua do Heroísmo, no Porto, da Rua António Maria Cardoso e no forte de Caxias em Lisboa.

Eram homens defensores dos ideais de liberdade e de justiça . Esses mesmos republicanos que vão reagir ao encontro de Salazar com Franco, em Ciudad Rodrigo, em 1957, onde debateram da conveniência de ambos os regimes ibéricos evoluírem para a monarquia. Salazar negou-o e Caetano clarificou à United Press o conteúdo do encontro e afirmou, mentindo: "Não existe em Portugal problema de regime." A Censura mandou eliminar as declarações e silenciar a matéria.

Eram tempos vergonhosos para Portugal. Só de pensar que esse regime foi capaz de apreender o romance de Aquilino Ribeiro, "Quando os Lobos Uivam", "considerado injurioso pelo regime, processando o autor , vimos de longe. Recordo que François Mauriac, Luis Aragon e André Maurois, tinham redigido uma petição em favor de Aquilino Ribeiro.
Pensar que esse regime, ousou pôr na cadeia durante 8 meses , um homem como António Sérgio, nascido em Damão, amigo de Paul Langevin, grande físico francês, mais tarde professor em Santiago de Compostela e tantos outros acusados de serem ...patriotas.
Os "Camisas Azuis" que cita eram da mesma essência daqueles que durante a guerra fundaram a Emissora Radio Luso, financiada pelos Alemães, especializada da propaganda do regime nazi, como o Radio Clube Português foi o do franquismo .
Por isso, quando há anos fui a Portugal e soube da sondagem feita pela RTP, que deu Salazar em 1° lugar como a personalidade portuguesa mais iminente, sofri ainda mais da minha portugalidade.

"Por ti, pelo teu ódio à liberdade,
à razão e à Verdade,
a tudo o que é viril, humano e moço
a fome e o luto apagaram os lares
e os homens agonizam aos milhares
no exílio, no hospital, no calaboiço.

Passas .. e ergue-se, vai de cerro a cerro,
dos hospitais, do fundo das masmorras
às inóspitas plagas do desterro,
um coro de ais, de impressões, de morras"
Jaime Cortesão

Fernando Correia de Oliveira disse...

Dutra Faria foi, com Barradas de Oliveira, fundador da ANI, a agência de notícias anterior a 1974 e que tinha uma linha um pouco mais liberal que a Lusitânia, do Lupi. Disseram-me que tanto o Dutra como o Barradas foram dos poucos exilados do regime, mas pela direita, aquando da exaltação nacional-sindicalista. Terão regressado pouco depois ao país.

Anónimo disse...

Várias lições de história ... quando é assim contada, ganha vida e cor.

N371111

patricio branco disse...

boa história, fico com curiosidade em espreitar a casa de pasto.
havia ainda um correspondente de paris, não sei se na rtp se na emissora nacional, tinha um timbre de voz e uma entoação particulares, boas aliás. o couto com a sua pronuncia não tinha graça e o ramiro valadão era execravel...

opjj disse...

Confesso, sempre apreciei um bom discurso, morfológicamente e sintaxe.Por volta de 1952, meu PAI foi e levou-me (camioneta) ao Terreiro do Paço ouvir Salazar. Era miúdo, sofri imenso no meio da multidão,pois queria fazer chichi.
Ouvi Salazar, Marcelo Caetano,Sá Carneiro , Almeida Santos,Santos Silva,Adriano Moreira e outros. Tinham em comum discursos bem formulados, ricos em linguagem.
BH

Anónimo disse...

O correspondente da Emissora Nacional em Paris, que o Senhor Patrício Branco refere, era o jornalista José Augusto, director da Casa de Portugal em Paris, na rue Sribe, e marido da historiadora francesa Suzane Chantal, autora de obras sobre História de Portugal.
José Augusto fazia pela rádio umas crónicas intituladas "Varanda da Europa", com uma pronúncia muito afrancesada nos nomes de origem anglo-saxónica. Ao referir-se ao então presidente norte-americano, Eisenhower, dizia "Aisénoverr".
Por esse tempo, falo dos anos 50, trabalhava na Casa de Portugal em Paris, uma encantadora senhora francesa, madame Cardoso, que era a viúva do Amadeo de Souza-Cardoso.
Ainda a conheci...
Mário Quartin Graça

Carlos Fonseca disse...

1 - Quando li: "Julgo que foi em 1930, na "casa de pasto" Liège (*), no início do elevador da Bica.", pensei, "ora bolas! Estou mesmo a ficar velho! Tantos anos a passar no início do elevador da Bica, a apanhá-lo de vez em quando, a petiscar em casas de pasto e pequenos restaurantes da zona, e não me lembro do Liège! Maldita memória!"

Depois continuei a ler, e percebi que o seu "início do elevador" correspondia ao final das minhas viagens, no Largo do Calhariz.

2 - Achei curioso o seu seu hábito de saber o que dizem e pensam, os que não pensam como o senhor.

Isto porque também eu, embora às vezes me irrite, leio e ouço, o que dizem os que não estão do meu lado da "barricada".

Quando no início da década de 1970, foi criada a SEDES, eu militava na CDE, que embora oficialmente extinta, continuava activa, com especial relevo no apoio a famílias de presos políticos, pelo menos no concelho onde residia.

Uma noite, numa das nossas reuniões, cometi a heresia não só de trazer à baila a nova organização, mas também o meu interesse em me informar e procurar saber o que propunha de novo.

O que eu fui dizer! Alguns dos camaradas, principalmente membros do PCP, de que não era militante, olharam-me de lado durante algum tempo. E quando se referiam a mim diziam "o Carlos da Sedes", ou "aquele pequeno burguês bem definido!".

Depois, um determinado acontecimento levou-os a perceber que estavam a ser tolos, e passou-lhes.

Havia muita intolerância por ali.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Mário Quartin Graça. Ainda antes de eu ter tido tempo de esclarecer o Patrício Branco sobre a figura do José Augusto e já o meu amigo tinha dado completa nota da personagem, acrescentando-lhe mesmo a Suzanne Chantal. Quanto a esta última, noto na bibliografia na Wikipedia (que, como as sondagens, "vale o que vale", que não surge um livro dela que, ia eu jurar, existe: "A vida quotidiana em Portugal (ou em Lisboa?) no tempo do terramoto". Estarei enganado ao atribuir-lhe a autoria? Tenho a obra, mas não sei onde...
Muito grato fico pela informação sobre a viúva do Amadeo. Não fazia a mínima ideia!
Um abraço grato

Anónimo disse...

Não está nada enganado, Senhor Embaixador.
O livro, no seu original francês editado pela Hachette, , obteve o Prix Histoire da Académie Française, segundo reza a tradução portuguesa da obra, intitulada "A vida quotidiana em Portugal ao tempo do terramoto", feita por Álvaro Simões, numa edição de Livros do Brasil que, como era frequente na época (anos 50 ou 60, penso eu), não contém a data da publicação.
MQG

Anónimo disse...

Voltando à viúva do Amadeo de Souza-Cardoso, não resisto a contar uma pequena história que se passou nos princípios dos anos 50 quando fui pela primeira vez a Paris, na companhia dos meus pais e da minha irmã.
O meu pai tinha sido subsecretário de Estado da Agricultura no verão de 1948, tendo deixando de o ser ao fim de três meses porque o ministro da Economia, Daniel Barbosa, desentendeu-se com Salazar e, com a queda do ministro, os subsecretários caiam também, como aliás acontece hoje em dia.
Por aqueles anos, a Casa de Portugal, magnificamente instalada na rue Scribe, tendo ao fundo uma enorme e magnífica tapeçaria sobre Lisboa de autoria do Carlos Botelho, era muito visitada pelos portugueses que se deslocavam a Paris e que lá podiam, entre outras coisas, ler os jornais cá da terra.
Para não fugir à regra, lá entrámos nós um dia na Casa de Portugal e madame Cardoso, que simpatizava com o meu pai, mal o avistou, saudou-o à boa maneira francesa, que, como o senhor Embaixador bem sabe, mantém no seu tratamento os cargos que as pessoas algum dia tiveram.
Foi então que a minnha irmã e eu ouvimos, com espanto, madame Cardoso dizer alto e bom som: "Bonjour, monsieur le ministre" E como nos rimos com isso porque o nosso pai ministro nunca tinha sido e subsecretário de Estado já não era havia alguns anos!
Mário Quartin Graça

João Pedro disse...

Carvalho Araújo seria certamente um parente do malogrado oficial naval cuja estátua está no cento da Avenida com o seu nome, presumo eu?

quanto a Rolão, depois da aventura do NS, tornou-se rapidamente opositor ao salazarismo, apoiando inclusivamente Humberto Delgado.

O Pai do Senhor Embaixador devia ainda ser bem novo na altura. Ainda me lembro da minha Avó me o apresentar, aí há uns dez anos, na zona onde habitava, à Senhora da Conceição.