terça-feira, 17 de setembro de 2013

Diligência útil


Foi no final dos anos 70 do século passado. Portugal não tinha uma embaixada naquele país. Aquele ministro português, de uma área técnica, quis ter um encontro com o seu homólogo local, de cujo departamento dependia um importante contrato de uma empresa nacional do seu setor. O encontro foi marcado, à margem do nosso Ministério dos Negócios estrangeiros, através de uma representação diplomática desse país num terceiro Estado, numa espécie de "diplomacia paralela", estimulada pela empresa e decidida pelo estilo "operacional" do governante.

Um forte contencioso tinha-se instalado entre a empresa e aquele Estado, por virtude de um atraso de pagamentos. O país era distante, a viagem fora longa, mas a importância do assunto justificava, no entender do ministro, o esforço e a diligência política. Porém, porque não havia a menor garantia de sucesso, optou-se por não noticiar a deslocação. O ministro chegara nessa madrugada e partiria ao final do dia.

O nosso governante tinha a "lição" bem estudada. Preparara a sua argumentação com cuidado. Na conversa com o seu colega, fez uma longa explicitação das nossas razões e, para atenuar o peso das reivindicações feitas, deixou algumas pistas, articuladas com a empresa, no sentido de promover um faseamento dos valores atrasados.

O ministro estrangeiro ouviu-o, em silêncio. No fim, comentou:

- Agradeço muito a sua visita. Este é, de facto, um assunto complexo, um de entre muitos que, não obstante os esforços que fiz, não consegui resolver. Tenho pena de não ter podido ir mais longe. Mas não posso fazer mais nada. Aliás, seria incorreto da minha parte ter agora qualquer intervenção na matéria, como compreenderá.

O nosso ministro, algo estupefacto, disse que não, que não compreendia. Por que diabo não podia ele intervir?

- Como é do conhecimento público e veio inclusivamente publicado na imprensa, pedi a demissão do cargo há cerca de 15 dias. Estou à espera,  todo o momento, de ser substituído. Espero que possa passar por cá num outro dia e falar com a pessoa que me vier a suceder no cargo.

Às vezes, vale a pena ter embaixadas pelo mundo. Evitam coisas destas.

5 comentários:

Anónimo disse...

Efectivamente vale a pena ter representações diplomáticas pelo mundo, dotadas de meios adequados para cumprir a sua missão de informar e defender os interesses de Portugal. O problema é que no momento actual é só fechar e diminuir...

patricio branco disse...

amadorismo, poderia dizer se..

Anónimo disse...

E um telefone, não sairá mais barato?

Anónimo disse...

Pois… qualquer “empresazeca” já não lhe pagava a viagem de volta!
Se era assim naquela altura, imagine-se o que aconteceu durante este tempo todo!
Mas não aproveitou para fazer uma “prainha” ou fazer um “joggingzito”?...

Anónimo disse...

Neste relato tudo me parece sem a devida preparação. Nem um Consulado português, fosse ele Geral ou Honorário, havia naquele país para dar algumas informações antes da chegada do Sr. Ministro português. Enfim... também tudo depende da época em que isto se passou. Houve épocas recentes dificeis de facto em que a balbúrdia pode ter sido grande.