quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Pontualidade

Era na Noruega. Aquele nosso amigo, diplomata brasileiro, ia regressar ao seu país. Havíamos decidido fazer-lhe, em nossa casa, uma festa de despedida, com colegas de outras nacionalidades, além de seus conhecidos locais. Acontece que ele era famoso pelos seus históricos atrasos, em todos os jantares e atos sociais para os quais era convidado. Numa certa tradição brasileira. 

(Uma grande tolerância em matéria de horários, em ocasiões sociais, faz parte dos hábitos brasileiros. Aprende-se a viver com ela e, no Brasil, é essencial interiorizá-la, saber interpretá-la e segui-la. Recordo-me de, pouco tempo após a nossa chegada ao Brasil, termos sido convidados para uma festa de aniversário. Era uma sexta-feira ou um sábado, dias da semana em que a flexibilidade nos horários costuma ser ainda maior. O convite dizia 20.30. "Maçaricos" das práticas locais, chegámos cerca das 20.40. Entrámos na sala vazia, onde ficámos por cerca de dez minutos, sendo servidos de uma bebida pelos empregados. Chegaram entretanto outros convidados? Não, chegou o dono da casa, pedindo desculpa pela sua mulher, que ainda não estava "arrumada". Todos os convidados, vá lá!, antecedidos da pessoa aniversariante, chegaram depois das 21.00. Foi uma instrutiva lição! )
 
Só que nós não estávamos no Brasil. Estávamos na Noruega. E, na Noruega, os convidados costumam entrar nos jantares ao bater da badalada da hora que está escrita no convite. Nem um minuto mais tarde. E os restantes diplomatas iriam chegar, seguramente, dentro dos quinze minutos posteriores a essa hora.
 
Começámos a preocupar-nos: se o nosso amigo brasileiro mantivesse os seus hábitos, isso quereria dizer que chegaria muito depois dos convidados para a sua festa, o que era um pouco desagradável, até para ele próprio. E dissemos-lhe isso mesmo. Ele assegurou que não, que dessa vez faria um esforço para vir a horas. Mas nós não acreditámos. "Old habits die hard". 
 
No dia da festa, o nosso amigo brasileiro chegou... com 20 minutos de atraso! Desfez-se em desculpas. Nós sorrimos: ninguém mais tinha chegado. Nos convites enviados aos convidados tinhamos informado que os esperávamos... meia-hora depois daquela a que tínhamos dito ao nosso amigo brasileiro que a festa começaria.
 
Lembras-te, René? Um abraço aí para o Rio!

8 comentários:

iseixas disse...

Boa Estratégia...

Joaquim De Freitas disse...

Hoje, esperar pelos atrasados é mais fácil : Com um pouco de paciência e um bom Smart Phone descobrirá que se pode utilizar os imensos recursos do Web para perder o seu tempo com uma eficácia que nunca tínhamos ousado imaginar.
Fui algumas vezes ao Brasil, onde tenho alguns amigos. O Sr. Embaixador descreve muito bem o caracter brasileiro. Sempre pensei que o acordo ortográfico luso-brasileiro devia ter aproveitado a oportunidade para criar o passado-presente ... isto é, o tempo que falta à conjugação dos verbos!

Anónimo disse...

A questão do tempo nas nossas vidas: o jornal i noticia hoje que "Machete interrompeu as suas férias para participar numa reunião em Bruxelas"(sic). Toda a gente acha normal? Acho que toda a gente acha! O homem acabou de tomar posse e já está de férias? Será que é mesmo preciso um titular para o lugar por maioria de razão? Tudo é possível dizer no nosso País com a maior das canduras. Não é verdade que Relvas se tenha ido embora. Provavelmente também estará apenas "de férias".

Anónimo disse...

A pontualidade é uma das formas de boa educação, até por causa do "souflé" da anfitriã. Hoje com os telemóveis já se pode prevenir o ligiero atraso inesperado. Mas também... em Roma temos de ser romanos.

Anónimo disse...

atrasos...

a hora legal foi adoptada em inglaterra em 1848
em portugal so a partir de 1878 e que houve, na lei, a mesma hora para todo o pais (nao havia televisao...)
mas a hora era a hora do meridiano de lisboa e nao do meridiano de greenwich... iguais aos ingleses so a partir de 1912

portanto antes de 1878 nao havia atrasos em portugal

e nao sera por acaso a pontualidade britanica, pudera um conceito criado pelos ditos!...


bem haja






Anónimo disse...


"A necessidade aguça o engenho", diz o ditado.

Aprendemos, assim, a lidar com o atraso dos brasileiros e também com o de muitos portugueses que conheço.

Anónimo disse...

No Brasil quem chega no horário é tido como deselegante, o famoso arroz de festa.
Coisas do Brasil

Anónimo disse...

Vai ver que essa prática veio com D. João VI as terras Tupiniquins, que se atrasou tanto em tomar uma decisão, que em 1808, precisou sair às pressas para não dizer correndo de Napoleão.