sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Jacques Vergès

Acabo de saber que morreu Jacques Vergès. E, nesta minha atitude preguiçosa de verão, aqui deixo o que sobre ele escrevi por aqui, há dois anos e meio:
 
"Jacques Vergès é uma espécie de "advogado do diabo". Aos 86 anos, esteve, há semanas, na Costa do Marfim a preparar a fundamentação para sustentar juridicamente a teimosia de Laurent Gbagbo em não abandonar o poder. No passado, entre muitas outras figuras, defendeu o terrorista Carlos, o nazi Klaus Barbie, o exterminador Pol Pot e outras figuras de recorte controverso. Saddam Hussein e Slobodan Milosevic estão entre os que não aceitaram a sua ajuda. George W. Bush é um nome que já anunciou desejar defender, no caso de ser possível a sua inculpação.
 
Membro da resistência francesa na 2ª guerra mundial, foi militante comunista e anti-colonialista, mantendo-se sempre próximo das ideias radicais de esquerda. É filho de pai francês e de mãe vietnamita, tendo vivido na ilha de Reunião e na Argélia, onde se tornou mundialmente famoso pela defesa com sucesso de uma militante da FLN, que viria a ser sua mulher. A sua história pessoal tem um "buraco negro" entre 1970 e 1978, período em que, sem explicação até hoje, desapareceu  de cena - o que gerou lendas sobre a sua eventual presença junto dos Khmers Vermelhos, do Cambodja, ou em campos da guerrilha palestiniana.
 
Mas a que propósito falo hoje dele aqui? Porque Vergès, numa iniciativa inédita mas muito curiosa, apresenta, duas vezes por semana, um espetáculo num teatro parisiense. Num monólogo de mais de hora e meia, em cenário do um escritório de advogado, fala dos criminosos e dos seus casos, contando histórias e desenhando perfis, tentando demonstrar que a sua famosa "estratégia de rutura", com que orienta as defesas, acaba por ser um modo de melhor fazer conhecer as pessoas por detrás dos crimes. A forma como apresenta a sua relação com a justiça torna a sua apresentação, apesar de algo monocórdica, bastante atrativa na substância. Com o caráter chocante que sempre confere a tudo em que se envolve, Vergès dá à sua prestação teatral o título de "Serial plaideur", da mesma forma que, em 2007, se prestou a ser a cara do filme com o nome de "O advogado do terror".
 
A juristas conhecidos que venham a Paris - com especial dedicatória ao meu velho amigo Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados - recomendo esta provocatória "performance" do seu incómodo confrade francês, em cena até 11 de abril."

13 comentários:

Anónimo disse...

Amigo do Marinho Pinto, ò Seixas!!!!

Anónimo disse...

Só tenho por este tipo o respeito que se deve aos mortos. De resto, era um verdadeiro pulha que desde a libertação da Argélia viveu deliberadamente e desafogadamente da sua pulhice, É um daqueles casos em que não se pode dizer "paz à sua alma", até porque ele não o quereria de certeza.

Anónimo disse...

Marinho Pinto, bem como outras personagens destes nossos tempos conturbados, há quem goste e quem desgoste... Isto, como resposta ao anónimo das 11:26.

Anónimo disse...

Provavelmente tinha por certa a máxima: "Se queres justiça vai a um bordel, se queres ser .... vai ao tribunal"

Anónimo disse...


Não era muito fácil seguir a linha de pensamento deste advogado. Sobretudo quando defendeu com “unha e garra” o Barbie que não merecia uma onça de perdão. Confesso que na altura a minha simpatia desligou-se de Vergès.
José Barros

São disse...

Resta só desejar que DEus lhe dê muita Luz e arrependimento.

Em ponto pequeno , temos J. Nabais , a quem ouvi afirmar que nada lhe importa se o cliente está a mentir ou não, pois a sua obrigação é conseguir livrá-lo daquela embrulhada!

Bom resto de dia

Anónimo disse...

Excelente, o Marinho Pinto. Uma certa Direita não gosta dele, bem como os advogados daqueles escritórios de tráfico de influências, sobretudo os ligados ao PSD e CDS. Bom tipo. E acutilante q.b.
Não gostam dele? O Diabo que os carregue!
"Sabe, meu caro colega, os apoios dele estão sobretudo na Província", dizia-me uma finório de um desses escritórios de advogados de Lisboa que vivem da teta da A.R.
Mandei-o bugiar!
Simpatizante do Marinho Pinto

Francisco Seixas da Costa disse...

António Marinho Pinto é meu amigo, desde os tempos de liceu. Ponto

Anónimo disse...

A alusão a M P, neste caso, parece ter sido feita de angulo errado. Pelo que observo nele, a justiça não é de direita ou de esquerda, mas sim de direito! J V terá levado ao extremo este conceito. Proponho eu.
Já agora é de referir que o PS também tem "bons" advogados... Se calhar haverá escritórios que parecerão a AR em miniatura...
Por estas e outras quem quer ser..."tramado" vai a tribunal...

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Francisco

... e faz vossemecê muito bem! Ser Amigo do Marinho Pinto é como ser sportinguista, sem qualquer bruma.

Por pura kunxedêçya eu também sou:

a) Amigo do Marinho Pinto desde 1979, quando começou a carreira de jornalista - excelente;

b) Sportinguista, este ano ninguém nos agarra! (Cf. Filme português "Sonhar é fácil" de Perdigão Queiroga, com um para de enormes artistas, António Silva e Laura Alves, acompanhados por outros também muito bons. Recorda-se Senhor Embaixador?)

Vergès - conheci-o; mal ,mas conheci-o.

São disse...

Amigo desde o Liceu de Marinho Pinto? Também gostaria de poder declarar o mesmo.

Acho, porém, que o estilo dele é , por vezes , vivo em demasia, poderia denunciar sem se exaltar: seria mais ouvido e os adversários não poderiam desviar a atenção do essencial argumentando ser "agressivo".

Eu jamais deixei de dizer o que quis e a quem quis.

Estrategicamente, porém, moderei o tom e aí o outro lado ficou sem um argumento, rrsss

Saudações a ambos.

ARD disse...

Foi um homem fascinante, um intelectual que nunca deixou de ser um homem de acção.
Um detalhe: Vergès foi advogado de Khieu Sampan, número 2 do regime kmher, mas não de Pol Pot, que só foi "julgado" pelo próprio partido.
O odor sulfuroso de Jacques Vergès, "defensor" de nazis, terroristas e genocidas, ajuda a tornar chocante o seu objectivo essencial - a demonstração de que a "justiça" praticada nos tribunais é a justiça do Poder e dos "vencedores".
Evidentemente, o resistente anti-nazi ( enquanto a maioria dos franceses colaborava bovinamente com o ocupantes alemão) não podia estar de acordo com Klaus Barbie; o amante, marido e defensor de Djamila Bouhired, militante anti-tortura, não desculparia os torcionários cambodjanos.
E, claro, toda a gente tem direito à defesa num tribunal, como aconteceu em Nurenberga.

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=voU62pHZ1dc