sábado, 24 de agosto de 2013

Embaixadores políticos

Há dois dias, a propósito de um artigo de José Cutileiro, falou-se neste blogue dos chamados "embaixadores políticos".

Historicamente, todas as carreiras diplomáticas começaram por ser providas por embaixadores que eram personalidades públicas designadas pelo chefe de Estado, oriundas da aristocracia ou de setores poderosos ou influentes da sociedade. Com o tempo, o serviço diplomático profissionalizou-se e os embaixadores passaram, em regra, a ser escolhidos dentre os diplomatas mais credenciados. Alguns países, porém, continuaram a manter a prática de designar, para a chefia de certos postos, figuras exteriores às respetivas carreiras diplomáticas. Em geral, algumas ditaduras e regimes mais ou menos autoritários abusam desta prática. Mas um país democrático como os EUA vai mais longe e coloca, com regularidade, na chefia de muitas das suas embaixadas, figuras ligadas ao financiamento das campanhas que estiveram na base da eleição do presidente. Bem assessoradas, claro está, por competentes profissionais da diplomacia...

Em Portugal, a República e a ditadura escolheram várias personalidades políticas e sociais para a chefia das principais missões diplomáticas, que, aliás, eram então muito poucas. Esta prática não viria a desaparecer com o 25 de abril. Com vários pretextos, diversos governos colocaram o seu pessoal político em algumas embaixadas. Desde a Revolução, a diplomacia portuguesa haveria de albergar cerca de trinta de "embaixadores políticos". A partir de finais de 2010, vive-se um tempo diferente: não existe nenhum "embaixador político" na diplomacia portuguesa. Até quando, não se sabe, porque nenhum governo foi capaz, até hoje, de excluir em definitivo essa prática, por via legislativa.

Como é compreensível, dentro da carreira diplomática profissional existe um profundo e (quase sempre) justificado sentimento contra a indigitação de figuras que, não tendo feito a tarimba da vida diplomática, não tendo subido por mérito, ao longo dos anos, os seus diversos escalões, surgem um dia, de "pára-quedas", num determinado posto, qualificados como "embaixadores", por uma simples decisão política, muitas vezes para acomodar uma figura pública sem função ou que apenas se pretende premiar. Imagine-se o que aconteceria se alguém aparecesse nomeado "general", vindo da vida civil, para chefiar uma Região militar...

Na nossa história democrática recente, alguns desses "embaixadores políticos" serviram num posto e, depois, saíram. Outros acabaram por rodar entre vários postos, usufruindo de uma legislação que lhes permitiu passar a integrar o quadro dos embaixadores profissionais de carreira. Com justiça e julgo que com alguma objetividade, há que dizer que muitas dessas figuras pouco trouxeram à carreira. Outras foram mesmo algo nocivas. Nesses casos, nós costumávamos dizer que, se era para selecionar incompetentes, tínhamos já por lá alguns, não era necessário ir procurá-los fora...
Mas houve sempre algumas boas exceções. A certos "embaixadores políticos", o consenso no Ministério dos Negócios estrangeiros acabou por reconhecer que aportaram um real valor acrescentado ao serviço diplomático. José Cutileiro, que anteontem citei aqui, foi, seguramente, um desses nomes. A sua excecional competência ficou bem provada e o seu trabalho foi muito útil ao serviço externo do Estado. Por isso, na carreira, sempre reconhecemos José Cutileiro, sem qualquer favor, como "one of us". Ele e muito poucos.


Em tempo: aqui deixo a lista dos 29 "embaixadores políticos" nomeados após o 25 de abril, não excluindo poder haver alguma falha, que corrigirei de bom grado:

Albertino Almeida (Maputo)
António Flores de Andrade (Lusaka)
Vitor Alves (itinerante para as comunidades portuguesas)
Manuel Bello (OCDE)
Manuel João da Palma Carlos (Havana)
Manuel Maria Carrilho (UNESCO)
Eugénio Anacoreta Correia (S. Tomé, Praia)
Francisco Ramos da Costa (Belgrado, Copenhague)
José Cutileiro (Conselho da Europa, Maputo, Pretória)
José Fernandes Fafe (Havana, México, Praia)
Raquel Ferreira (Estocolmo, Tóquio)
José Silveira Godinho (OCDE)
Henrique Granadeiro (OCDE)
Álvaro Guerra (Belgrado, Kinshasa, Nova Deli, Conselho da Europa, Estocolmo)
Basílio Horta (OCDE)
André Infante (Argel)
Ernani Lopes (CEE, Bona)
António Coimbra Martins (Paris)
Fernando Santos Martins (OCDE)
Pedro Pires de Miranda (itinerante para as questões de petróleo)
Mário Neves (Moscovo)
Maria de Lurdes Pintasilgo (UNESCO)
Vitor Cunha Rego (Madrid)
Eduardo Ferro Rodrigues (OCDE)
Walter Rosa (Paris, Caracas)
Pedro Roseta (OCDE)
José Augusto Seabra (UNESCO, Nova Deli, Bucareste, Buenos Aires)
José Veiga Simão (ONU)
José Manuel Galvão Teles (ONU)

21 comentários:

EGR disse...

Senhor Embaixador: já algumas vezes me tem ocorrido que, certamente por mera casualidade, e se não erro, V. Exa nunca se tenha referido ao Embaixador José Cutileiro.
Sou um leitor habitual dos seus textos publicados no "Expresso, e ouço sempre que posso os seus comentários num programa emitido ao domingo na Antena 1,entre o meio dia e a uma da tarde.
Embora eu não seja mais que um simples interessado nas matérias sempre aprecio, em ambas circunstancias as opiniões do Senhor Embaixador Cutileiro.
E, ignorava, até hoje que ele não era diplomata de carreira.

AMT disse...

Penso que a carreira "lucrou" com a nomeação de alguns embaixadores políticas. Para além de José Cutileiro, estou a lembrar-me de Fernandes Fafe, de Ernâni Lopes, de Álvaro Guerra, de Cunha Rego e até de António Coimbra Martins. Pessoas que souberam representar condignamente o Estado Português e trouxeram para o serviço visões e experiências importantes e úteis.

Anónimo disse...

Meu caro Francisco. Tem razão naquilo que escreve sobre os Embaixadores políticos em geral mas também gostaria muito de o ler sobre os diplomatas de carreira que se comportaram como Embaixadores políticos...Não falo daqueles, como é o seu caso, que exerceram funções políticas, o que é um direito e um dever de qualquer cidadão, mas dos que subiram na carreira devido exclusivamente à colagem a um Presidente, a um Primeiro-Ministro ou a um Ministro. Há bons e maus diplomatas neste caso, como nos Embaixadores Políticos. Quanto a estes, concordo inteiramente com a relevância dos nomes mencionados no " post " anterior, que aliás constituiram uma grande mais-valia para a própria carreira, e também, por exemplo, com os de Ferro Rodrigues que foi um estupendo Embaixador na OCDE enquanto eu estava em Paris, e Manuel Maria Carrilho, que, graças aos seus conhecimentos, trouxe até à delegação da Fundação Gulbenkian naquela cidade nomes excepcionais da Cultura francesa como Wolton, Lipovetsky ou Gauchet, quando era Embaixador na UNESCO, para conferências brilhantes. E como gostaríamos de ter hoje Ernâni Lopes a negociar com a troika! Um abraço. JPGarcia

Anónimo disse...

O fenómeno novo não são os embaixadores políticos: é a promoção vertiginosa de colegas que conseguir entrar para a carreira por óbvias pressões políticas e que depois ascenderam em rápida velocidade. Caso do ex presidente da JSD em Coimbra. Consul em Macau... A quem Amado confiou a colocação de diplomatas no Ministério!

patricio branco disse...

o ultimo embaixador politico creio ter sido ferro rodrigues nomeado por josé socrates para a ocde e tambem esteve outro na unesco para onde iria pacheco pereira que desistiu. outros como j f fafe e alvaro guerra foram igualmente assimilados, de qualquer modo a lei organica do mne e estatuto da c diplomatica fixam o limite destes funcuionarios. há outros casos didtinguindo de coimbra martins em paris que negociou macau com a china.
no antigo regime houve alguns bem conhecidos, da confiamça do grande hefe, theotonio pereira, armindo rodrigues (parece que fez um excelente papel em londres durante a guerra)e antonio ferro.
durante a 1ra rapublica temos tambem varios, etc

Alcipe disse...

De acordo com AT, excluindo o "ate" restritivo aposto a Antonio Coimbra Martins. Cunha Rego foi para Madrid ajudar a formar a AD com o apoio da UCD espanhola, o que nao foi propriamente uma missao diplomatica. Ernani Lopes foi evidentemente um grande valor acrescentado e Jose Cutileiro sem duvida. Fafe, Guerra e Coimbra Martins foram profissionais competentes e escritores, classe que tambem tem que se defender. Eu tambem era contra os embaixadores políticos, mas agora, mais cínico com a idade, pergunto-me se com eles a bordo nao teríamos nos os diplomatas mais garantias para a defesa das nossas reformas.

Alcipe disse...

E tambem a Maria de Lurdes Pintasigo!

Guerra disse...

Sr. Embaixador, todos sabem que, no nosso país, assentar praça em general é recorrente. O poder político vigente (quer sejam gregos ou troianos) promove os seus dilectos e primas donas ao posto de general. Se essas promoções viessem acompanhadas de saber, vá lá que não vá, mas é frequente que o saber esteja ausente, sendo substituído por títulos e diplomas vazios de conteúdo. É com agrado que vejo enaltecer as excepções, é uma forma de criticar a regra instituída pelo poder político.
Os resultados dessa prática não estarão á vista de todos?

Cumprimentos

iseixas disse...

Num universo de 28 Embaixadores políticos basta que dois sejam do sexo feminino, chega perfeitamente para ser uma amostra representativa...

Anónimo disse...

Salvo erro, Ramos da Costa também foi Embaixador em Copenhaga e José Cutileiro foi ainda Embaixador em Estocolmo ( CDE) e Director Político, também salvo erro o único Embaixador Político a exercer estas altas funções no MNE. Outra vez salvo erro, foi o único Embaixador, político ou não, a exercer as mais altas funções numa organização internacional - Secretário-Geral da UEO - com a ajuda da carreira e das autoridades portuguesas mas certamente por mérito próprio.

Anónimo disse...

Olhando para a lista do Senhor Embaixador, só seis nomes me parecem indignos de figurarem entre os Embaixadores de Portugal, ou seja 20% do total. Este número é certamente inferior ao dos diplomatas lamentáveis que exerceram, ou ainda exercem, chefias de missão nos mesmos 38 anos, e que foram admitidos por outros, ou pelos mesmos, diplomatas lamentáveis em concursos de adidos, ou por eles promovidos em concursos para conselheiros. Ora aqui está um caso raro em que os políticos ganharam em toda a linha. Opinião certamente subjectiva mas com o mesmo valor de outras...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 19.39: Ora aí é que você se engana. A sua opinião não tem "o mesmo valor de outras". A minha é dada com o testemunho de 38 anos de carreira. A sua é dada com a "autoridade" de um anónimo cujas credenciais para julgar embaixadores (ou generais ou juízes) nós desconhecemos. As "opiniões" sobre carreiras não são uma espécie de jornalismo generalista, em que cada um pode mandar "bitaites" feitos de "achismo", à mesa de café. Eu não me sinto qualificado para me pronunciar sobre a capacidade dos oficiais da Armada para chefiarem navios, ou sobre o modo como o fizeram, como não me sinto qualificado para opinar sobre se um determinado magistrado é ou não qualificado para entrar para o Supremo Tribunal de Justiça. Quando não sei, não falo. O distinto Anónimo tem todaa liberdade para dizer o que lhe apetecer. O que não tem - salvo credenciais que terá de provar - é autoridade para dizer que a sua opinião "tem o mesmo valor de outras". Enxergue-se, homem (ou senhora)!
Quanto às personalidades que elenquei, a minha opinião baseou-se, não no se perfil pessoal ou intelectual, mas, muito simplesmente, no saldo global que a sua ação enquanto "embaixador" deixou no MNE. E sobre isso, estou à vontade para afirmar que sei do que falo.

Anónimo disse...

Gostaria de referir que até aos anos de 1950, em Portugal, grande parte dos chefes de missão diplomática não eram Embaixadores mas sim Enviados Extraordinários e Ministros Plenipotenciários salvo em Madrid, Londres, Vaticano e Rio de Janeiro.
Durante muitos séculos os Embaixadores eram enviados apenas em missões temporárias de cortezia ou extraordinárias. Daí o caracter de Embaixador Extraordinário.
Foi depois de 1945 que a generalidade dos países graduaram as suas Legaçãos a Embaixadas.

Mônica disse...

Senhor Francisco
Eu ando muito andeja por isso nao tenho vindo aqui.
Mas continuo no mesmo lugar.
Hoje eu gostei imensamente de saber os nomes dos embaixadores.
Eu nao sei se ja te contei. Quando eu estava estudando historia em 1977, o ano que formei nos deram uma aula para ser dada a nivel de quarta serie sobre Portugal.
Na mesma hora mamae me ajudou a escrever para o embaixador da epoca. Ele me enviou varios materiais . E fiz um mapa enorme de portugal e dei minha aula tranquilamente. Ganhei dez. Graças a ajuda do embaixador. Pena nao ter guardado o nome nem a corrspondencia.
com carinho um grande abraço de saudade monica
Tenho novidade: Minha irma ganhou a rosa do rei roberto carlos para mim lá no rio de Janeiro
Vi de bem perto o Papa Francisco
Ganhei mais uma sobrinha Leticia . Duas meninas agora e quatro meninos.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador
Não se trata de uma rectificação mas de uma dúvida em relação a Manuel Burnay de Almeida Bello, nascido em 1913 e há poucos anos falecido. Formado em Economia, ele ingressoui na carreira diplomárica e teve, creio,o seu primo posto em Roma, onde mandou fazer um magnífico uniforme, que é hoje propriedade do meu filho Luís, diplomata. Por motivos políticos, Manuel Bello abandonou compulsivamente a carreira durante o Salazarismo. Após o 25 de Abril foi rapidamente recuperado pelo MNE, sendo Ministro Mário Soares, e colocado na OCDE. Mas fica-me uma dúvida: ele terá sido objecto de uma nomeação política ou foi reintegrado na carreira?
Mário Quartin Graça

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro amigo, tive um baque. É que, não sendo eu ninguém, conheço a maioria desses embaixadores que referiu.
Não me pareceu nada bom sinal, para quem tem a aversão que eu tenho à política sob qualquer das suas formas...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Mário Quartin Graça: desconhecia que Manuel Bello tivesse antes sido diplomata, como nunca tinha ouvido falar do seu afastamento compulsivo da carreira. A assim ser, é muito possível que se tenha tratado de uma reintegração. Logo que possa, vou procurar apurar isso. Muito obrigado pela útil dica.

Anónimo disse...

E a Ana Gomes em Timor?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 14.52: Ana Gomes entrou para a carreira dipomática em 1980. Foi nessa qualidade que assumiu funções como embaixadora em Jacarta - e não em Timor-Leste.

Anónimo disse...

E foi uma estupenda Embaixadora em Jacarta, como tive a ocasião de verificar "in loco" em mais de uma quinzena de deslocações profissionais â Indonésia, durante a sua permanência naquele País. JPGarcia

Jorge Ryder disse...

Já agora vale a pena mencionar um embaixador politico muito particular. Durante a 1a República. Ministro dos Negócios Estrangeiros (pouco mais de um mês creio) e Embaixador em Madrid (onde também não ficaria muito tempo). Abandonou depois a política... E umas décadas depois receberia o Prémio Nobel da Medicina...

Abraço

Jorge TP