domingo, 25 de agosto de 2013

Chiado

Foi uma reação coletiva de choque. A delegação oficial, que se havia deslocado a uma reunião internacional a Oslo, chefiada por um membro do governo português e na qual eu ia integrado, ficou tomada por uma emoção forte, face à informação que o embaixador português na Noruega lhe transmitiu: o Chiado estava a arder, na manhã daquele dia 25 de agosto de 1988.

Nesse tempo, não havia telemóveis, a única televisão portuguesa não era captável fora do país, nenhum de nós tinha, como era óbvio, um aparelho de rádio de ondas curtas. Os pormenores disponíveis eram, assim, muito escassos. Falava-se da possibilidade do incêndio poder atingir o largo do Carmo e mesmo a Bénard e a Brasileira, levando o Grémio e a Bertrand. Telefonou-se para Lisboa, mas as informações continuavam muito imprecisas e incertas. A ideia de que o Chiado - todo o Chiado! - corria o risco de desaparecer fez-me uma imensa impressão, transmitiu-me uma rara sensação de perda irrecuperável.

Não sou lisboeta. A minha memória do Chiado é quase toda adulta, da cidade para onde fui viver em 1968. De criança e do Chiado, lembro-me apenas da excitação de andar nas escadas rolantes do Grandela, nos anos 50. Para um miúdo ido de Vila Real, onde o único elevador da cidade (do edifício da Gomes) nunca até então funcionara, aquelas ruidosas engrenagens eram o "máximo" da modernidade. Depois, as cenas do "Pai Tirano" fizeram o resto. Claro que viria a fixar a memória queiroziana da montra da Férin, onde o Artur Corvelo ia ver se os "Esmaltes e jóias" se vendiam. E visitara com regularidade a Valentim de Carvalho. Fora também cliente do José Alexandre, mas (ironias do destino...) não tenho ideia de alguma vez ter entrado no Jerónimo Martins e, muito provavelmente, no Martins e Costa. A Ferrari também não fazia parte dos meus percursos, nos anos em que trabalhei pelo Calhariz e em que o Chiado entrava no meu quotidiano. E, de certeza segura, nunca fui cliente da Perfumaria da Moda nem na Casa Batalha, que haviam de ser vítimas irrecuperáveis da tragédia.

Tenho a imagem muito nítida da rara angústia que me atravessou nessas horas, ao pressentir, na desaparição do Chiado, a amputação de uma parte do meu próprio património pessoal de memória. Hoje, em perspetiva, acho mesmo um tanto exagerada a reação emocional que então me atravessou. Quem é de Vila Real compreenderá melhor se eu disser que foi como se me tivessem dito que toda a rua Direita estivesse a arder. 

Regressado a Lisboa, no dia seguinte, fui, de imediato, ver os estragos. Depois, com o tempo, tudo se tornou mais natural. Por anos, como toda a gente, convivi e desesperei com as obras. E, à medida que elas se concluíam, fui-me habituando ao "novo" Chiado, embora o resultado final esteja muito longe de ser do meu agrado. Mas isso é uma outra história. O que agora me interessa deixar expresso é que o incêndio do Chiado, em 25 de agosto 1988, há precisamente 25 anos, continua, até hoje e para sempre, a ser uma das mais traumáticas experiências de toda a minha vida.

6 comentários:

patricio branco disse...

havia então no meio da rua do carmo, então já só pedestre, uns feios bancos de pedra que impediram a passagem dos carros de bombeiros, parece que foi uma das dificuldades, o acesso facil ao local impossibilitado, depois foram os anos de ruinas e parece que nunca mais se saia daquilo, depois as obras, finalmente a abertura, não sei se quando da expo 98, depois a normal especulação imobiliaria, as expropriações, etc
interessante a evocação de lojas já historicas e esquecidas, valentim carvalho, eduardo martins, outras, cruz abecassis chorava e estava como paralizado, viu se na tv, apesar da afluencia durante o dia, comercio e empregos, o chiado ainda não recuperou totalmente e há por ali cantos não terminados à pressa, mas enfim, podemos lá ir e fazer muita coisa ludicamente...

São disse...

Relembrei hoje nos meus espaços o tremendo choque que foi ver, de chofre, na televisão de um Centro Comercial uma cidade em chamas com uma densa coluna de fumo a subir contra um céu tão azul que tornava tudo ainda mais absurdo...e só ao fim de alguns minutos perceber ser o Chiado a desaparecer em cinzas à minha frente.

As imagens terríveis da luta metro a metro dos bombeiros contra as chamas ficarão até à minha morte tão vivas quanto no momento em que as vi naquele trágico dia da minha cidade e em que largas centenas de pessoas ficaram sem emprego de um momento para o outro.

Bom domingo.

Helena Sacadura Cabral disse...

Da sua e da minha, porque estava no meio dele!

Anónimo disse...

Assisti ao vivo, a partir da rua do Ouro, a toda aquela tragédia. Estivesse o vento no sentido contrário e então menos Chiado ardia e mais rua do Ouro e ruas limítrofes teriam ardido. Achei curioso o nunca ter entrado na loja Jerónimo Martins, sinal de como os tempos mudam...Falou também na loja "mercearias finas" Martins e Costa, na rua do Carmo. Curiosamente era uma loja com características únicas, onde nos seus clientes, predominavam os Embaixadores de países estrangeiros em Lisboa. Esta foi uma loja que não teve substituta, o que é pena. Lembro ter comprado lá um vinho tinto da Adega Cooperativa de Via Real, que nunca mais encontrei à venda.

Portugalredecouvertes disse...

Sr. Embaixador
o país arde todos os anos em tudo o que é sítio,
temos experiências traumáticas garantidas anualmente,
as imagens do aniversário do incêndio de há 25 anos vêm juntar-se à situação kafkiana do verão, que já tem bastantes filmagens, e
que requer a sua dádiva de vidas humanas

tão normal que se alguém perguntasse como diria o outro "le Portugal brûle-t-il?"" bien sûr!

Anónimo disse...

Cruz Abecassis o homem, contra todas as opiniões da época e foram muitas, colocou os obstáculos na Rua do Carmo que impediram o acesso aos veículos dos bombeiros. Como lisboeta, o que mais lamento é o desaparecimento da entrada do edifício Chiado, uma monumental escadaria em madeira.
JPS