domingo, 18 de agosto de 2013

"Broadsheet"

Quando vivi na Noruega, no ínício dos anos 80, os dois canais televisivos do país, ambos públicos, bem como os homólogos suecos aí disponíveis, não tinham qualquer publicidade. Para quem chegava de Portugal, inundado de anúncios entre os programas da RTP, achei isso então o "máximo" da civilização.

Porém, logo da primeira vez que fui a um cinema em Oslo, dei-me conta que os filmes eram antecedidos por largos minutos de publicidade, estática ou fílmica. E, para minha grande surpresa, as pessoas achavam imensa graça a esse tempo publicitário, indo mais cedo para o apreciarem e reagindo com palmas e comentários aos vários anúncios. Era uma espécie de compensação pela ausência radical da publicidade televisiva.

Um dos filmes publicitários que fazia mais sucesso promovia o "Dagbladet", um tablóide que estava na moda e que contrastava com o estilo mais sóbrio dos clássicos "Aftenposten" ou "Arbeiderbladet", com uma dimensão maior, ao jeito tradicional dos "broadsheet". O anúncio mostrava duas pessoas a lerem os jornais numa paragem de elétrico. Quando este chegava, o leitor do "Dagbladet" dobrava-o com facilidade e entrava no transporte. O que lia o "broadsheet" (percebia-se vagamente que era o "Aftenposten", líder de vendas), desajudado pelo vento, atrapalhava-se na dobra do periódico e perdia o elétrico. Estas simplicíssimas imagens tinham o condão de pôr a sala sempre a rir às gargalhadas.

Lembrei-me disto, no último sábado, ao ver a "figura" que fiz, numa praia, quando uma rabanada de vento me arrancou páginas do "Expresso", obrigando-me, a correr pelo areal, à cata das folhas. Notei o sorriso complacente de alguns banhistas, agarrados aos bem mais maneirinhos "Correio da Manhã" ou "A Bola" (havia menos "O Jogo", talvez porque era uma praia do sul), bem como de damas achapeladas que se ilustravam com a "Caras" ou a "Lux". Todos tão seguros, aliás, como os possuidores do "Público", este agora bem agrafado, também à sua relutância em aceitar o Acordo ortográfico, o que, com o tempo, lhe conferirá cada vez mais um estilo antiquado, que vai bem com um certo "chique" urbano...   

10 comentários:

Anónimo disse...

Muitos destes leitores , são os mesmos dos concertos do Tony Carreira. A pescadinha de rabo na boca que alimenta estes governantes.

Isabel Seixas disse...

Só filmado...
A propósito estaria lá algum video amador, podia até ser norueguês...

Anónimo disse...

Cá por mim vim munido das ricas edições fim-de-semana do FT que não consigo ler em tempo de trabalho. E aqui no Algarve também não: tudo convida ao ócio, mas sobram ainda as parabólicas com improváveis ligações à China, à Etiópia, com o Eurosport a fazer figura de desempate. No Algarve 'tá-se bem...

Carlos Fonseca disse...

Nada que não me tenha acontecido no tempo em que comprava o Expresso.

(O "apagão" do MEO, que deixou Algés - que é o meu refúgio no mês de Agosto, em que o Algarve fica impossível - sem Internet, TV e telefone fixo, de 9 a 13 do corrente, levou-me a voltar a comprá-lo. E ontem repeti.)

Boas férias!

P.S. - "Solidário" com o Público, também eu estou a ficar antiquado.

Anónimo disse...

Que tal a velha técnica de fazer buraquinhos no jornal e dizer à companhia que servem para o vento passar sem levar o jornal? Uma espécie de “com a verdade me enganas”. No público até se podiam fazer os buracos nas palavras em desacordo…
Para quem não gosta de usar óculos de sol como eu e muito menos falar com quem os está a usar, em especial os ray ban espelhadíssimos da moda (até me assusto), dá muito “jeito” esta velha prática…

Anónimo disse...

Se o Senhor Embaixador fosse um homem moderno fazia uma app do Expresso no seu iPad e lia muito descansadinho em formato digital. Claro, mas isso digo eu que sou um pobre homem do Golungo...

a) Feliciano da Mata, homem digitalizado

Anónimo disse...

Realmente o "Expresso", de todas essas publicações a que faz referência, é aquele que menos se presta a uma leitura na praia, e sobretudo com algum vento. Como se dizia na minha aldeia, quando havia vento: "morreu algum escrivão"...

Helena Oneto disse...

:):):)!!!

Anónimo disse...

nao ha nada como ver um cota a defender ortografias modernistas...


bem haja

Catinga disse...

O Público não aceita o AO porque está demasiadamente ocupado a crioulizar a língua com termos "americanos".