domingo, 28 de julho de 2013

Os estagiários

Por muito que me pareça justo dar oportunidades aos "novos", acho abusivo, e uma objetiva falta de respeito por uma Administração pública que se fez "a pulso", estar a colocar em cargos governamentais figuras sem um mínimo de experiência que os recomende para as áreas específicas que vão dirigir, ungidos apenas pela confiança política ganha num gabinete, num qualquer lugar de nomeação/eleição partidária, num banco ou numa consultora amigalhaça. 

A situação é ainda mais absurda se pensarmos que, de há uns tempos para cá, no âmbito do Estado, se segue a regra de sujeitar a concurso público rigoroso a seleção de técnicos para ocuparem certas funções de chefia. Ora parece-me incrível que esses responsáveis, logo de seguida, sejam colocados sob a "orientação" de um meninote qualquer, só porque tem um MBA tirado na estranja ou o cartão partidário em voga no momento. Muitas vezes essas figuras nem sequer têm legitimidade eleitoral ou, em casos em que ela existe, é apenas uma obscura passagem pelo parlamento, depois "legitimada" por presenças palavrosas em debates "prós-e-contras" nas televisões, na blogosfera ou nas colunas com retratinho no canto, onde demonstraram a sua lealdade às lideranças de serviço. Convido os leitores a olharem para alguns currículos e avaliar aquilo que neles resultou de meras escolhas político-ideológicas e compará-los com os de outros políticos, de pessoas oriundas do mundo real, de quem "fez pela vida" e tem uma história profissional a apresentar.

Observando o caso de alguns secretários de Estado - e este governo apenas abusa de uma prática que não é de hoje - verifica-se que estamos perante verdadeiros estágios pagos, à custa do erário público, ainda por cima atribuindo responsabilidades ao mais elevado nível.

22 comentários:

Anónimo disse...

Os dois lados da barricada teem de colocar os seus peões sempre que estão no poder. O que tem de acabar é este vai e vem constante com os mesmos vícios. Ando a pedir de mais ou então a sonhar alto. O diabo que escolha.

Anónimo disse...

É notória essa situação. Deveria haver outros critérios de escolha, como aquilo que já fizeram anteriormente e cujas provas então se reconhecessem. Mas o que são os partidos, senão colocarem os seus militantes nos "poleiros"? É isso! São todos iguais e lá estamos nós para sustenta-los, pois é certo que terminada a sua missão no governo, logo se abrem outros horizontes...É o País que temos!

Bmonteiro disse...

O resultado da libertação da sociedade civil.
Começou pouco depois da paródia do PREC, para chegar agora a esta edição de segunda categoria.
Sociedade civil, por oposição a quê ou a quem?
E quando a libertação da canga das cliques partidárias?

Um Jeito Manso disse...

Em deputados, secretários de estado, ministro e assessores (e devo estar a esquecer-me de mais alguns cargos) encontramos uma indigência que dá dó.

Jovens sem qualquer experiência profissional ou de vida, jovens muitas vezes sem percurso académico que se veja, vêm juntar-se a aparelhistas encartados, desprovidos de qualificações mínimas.

Numa empresa a sério não serviriam para porteiros. No entanto, nos tempos que correm, é-lhes permitido ascenderem a cargos que, directa ou indirectamente, têm influência na vida da população.

Grande parte da desgraça a que se assiste tem a ver com a mediocridade viral que alastra pelos órgãos do poder.

O medíocre escolhe o medíocre que, por sua vez, escolhe outro medíocre e assim sucessivamente. É uma questão de sobrevivência.

Conviria que alguém, um pouco mais acima, impedisse que os animais tomassem conta da quinta. Mas não. Mesmo que a título de exemplo, conviria que, quem pode impedir a pouca vergonha que é a tomada de posse de gentinha desqualificada, desse um murro na mesa e dissesse que lhes apresentassem gente capaz.

É isto que destrói o país e mina a confiança da população no regime.

Que pessoas como o Embaixador e outras vozes que são capazes de se fazer ouvir, façam o que está a fazer aqui: a dar esse murro na mesa. E que venham muitos mais.

Parabéns pelo que escreveu. E obrigada.

Anónimo disse...

Oportuno Post.
No fundo, a imagem política do país que - actualmente - temos.
Com gente desta estirpe, jovens inexperientes, mas apoiados nas "Jotas", subindo na escada do Poder, graças ao governo que temos.
Estes 2 anos (ou 4, quando a legislatura chegar ao fim, admitindo que chega) têm sido
marcados pelas subidas dos ditos Jotas (PSD e CDS). E lá temos mais do mesmo: um "novel jovem" Ministro e também no MNE (S.E).
a)Rilvas

opjj disse...

Caríssimo, por alguma experiência que tenho da vida, são muito poucos os que não têm ou não tiveram padrinhos.Muitos mostram-se fanfarrões falsos. Não é por acaso que nos bons lugares os jobs já vão em netos.Apenas um exemplo: quando M.Soares foi lºM, na "m/empresa" havia 1 director, quando M.S.saíu, já eram 40.
Cumprimentos

Anónimo disse...

O problema está em que a administração pública devia ser de facto um corpo estável e autónomo, credível, preservado das interferências do poder político. Com o governo Sá Carneiro começou a inflação dos gabinetes, a carreira diplomática passou, estupidamente, a bonificar as permanências num gabinete como se isso tivesse em si algum mérito e não se devesse unicamente ao critério da confiança pessoal.
Amado generalizou a promoção de jovens ligados a aparelhos partidários, sobretudo o laranja, subvertendo a regra da antiguidade que não por acaso tinha alguma razão de ser. A ordenação do último concurso a conselheiros de embaixada é patética e uma simples verificação ex post dos critérios de avaliação pelo Tribunal de Contas permitiria verificar que houve cambalacho. Quando abre um movimento já se sabe de antemão que não se pode concorrer para Novgorod ou Baku porque "o lugar já está prometido pelo Secretário-Geral".
Com Portas vários embaixadores e embaixadoras foram marginalizados sob pretexto de que era preciso "sangue novo" e não puderam acabar os seus mandatos permanecendo em casa. O ministro interveio ademais pessoalmente em colocações e promoções.
Quando as coisas atingiram este ponto de abandalhamento só uma figura moral, com peso político e sem telhados de vidro poderia restaurar e devolver a dignidade perdida. Diplomata, penso que é um poder político non-challant ou perverso que nos tem achincalhado. Dê-se o benefício da dúvida a Rui Machete que seguramente não é nem perverso nem displicente.

Bmonteiro disse...

A luta continua,
estagiários unidos vencerão.
E aliás, a julgar pela obra e resultados dos veteranos antecessores,a descoberto em 2010/11,
fará assim tanta diferença?

EGR disse...

Senhor Embaixador: tem inteira razão; tenho o "terrível" habito de ler o Diário da Republica onde são publicadas essas nomeações e os "curricula" dos "escolhidos".
A meu ver tudo isso espelha a mediocridade da maior parte daqueles que nos governam e a incontida voragem de, na pobre linguagem do PM, "irem ao pote".
Embora se possa dizer que, no passado houve vícios similares francamente penso que, com esta dimensão nunca ocorreu.
E, tudo, como é conveniente, longe das atenções mediáticas.
O país já está já estar o preço dessas leviandades.
Infelizmente não é preciso ser adivinho para saber que no futuro esse preço vai ser ainda mais elevado.

Anónimo disse...

Concordo a 1000% porque é o chico-espertismo no seu melhor!


Isabel BP

zpf disse...

O velho, o rapaz e o burro... 😃

iseixas disse...

É bem verdade...

pamaralseixas disse...

Os estagiários , esses verdadeiros handymen aceitam qualquer cargo, não interessa se não é da sua área, depois logo se vê,"learning by doing" é o seu mote;entretanto temos representações patéticas, visual e cerebralmente, prontas para calcorrear a Europa,mas de pasta completamente vazia.Nem guião, nem folha A4.Nada! Just shameless!

Anónimo disse...

Olhe, Senhor Embaixador, não acho nada mal. Deixe lá os mocinhos, só lhes faz bem, antes isso que andarem aí na má vida, nos maus costumes, como esses que os carrascos e a Simone de Beauvoir ensinam. É bom para a juventude aprender a governar, até deviam ensinar isso nos escuteiros.O Lenine dizia que no comunismo uma cozinheira seria capaz de dirigir as finanças (o Salazar, mais elitista, falava de uma dona de casa). Agora démos um passo além: "os meninos à roda da fogueira/ vão aprender a governar uma cidade/vão aprender a verdade e a asneira/ vamos todos fazer-lhes a vontade"...

patricio branco disse...

infelizmente, a pratica tem vindo a acentuar-se, os boys, os amigos, os jotas, hoje a politica é feita em grande parte por esses oportunistas protegidos, um circulo fechado em que se distribuem lugares pelos que estão dentro, os partidos cada vez são mais agencias de emprego para os seus membros, o país real fica de fora, pouco interessa já, é pena, chega a ser revoltante, mas...

Anónimo disse...

Que idade tinha o promissor licenciado Francisco Seixas da Costa, membro do MES, quando foi da Junta de Salvação Nacional que pretendia mandar no país? E que currículo apresentava para além de uma apreciação positiva das suas potencialidades?
Ser político não é o mesmo que ser técnico, as qualidades necessárias são completamente diferentes!
Não me choca idades imberbes, choca-me a incompetência em qualquer idade.
João Vieira

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 13.32: como assessor da Junta de Salvação Nacional, eu não chefiava ninguém, nem tinha o menor poder. Apenas dava mareceres sobre a extinção da PIDE (onde, de facto, não tinha tido "experiência" anterior, nem como perseguido...) E este post não era sobre assessores ou adjuntos. Não confundamos as coisas, embora isso possa dar jeito a alguma argumentação.

Por outro lado (a para outros comentadores), o que eu quis dizer é que me parece que para certos cargos governativos, em especial a nível de SE, deve ter-se um conhecimento específico dos dossiês a tratar. Porque é que isso acontece em alguns ministérios e não noutros?

Anónimo disse...

Sem querer, naturalmente, entrar em contra-argumentações, lembro uma noite de há dezenas de anos em que estudando com o filho de José Guilherme Melo e Castro, este interrompeu os nossos estudos para precisamente falar sobre as qualidades necessárias a um bom administrador. Entre elas, em grande destaque, não ser especialista de coisa nenhuma, ter apenas umas luzes que permitissem entender os problemas que os técnicos expunham para, com independência e bom senso, escolher entre opções possíveis. É isso que se exige aos políticos e isso é imenso e muito mais valioso do que o conhecimento exaustivo de milheiros pormenores que devem apenas interessar os tais técnicos.
Sou contra a desvalorização dos políticos em favor de antiguidades e conhecimentos técnicos.
João Vieira

Anónimo disse...

Então afinal o Senhor Embaixador foi da Junta de Salvação Nacional? Era aquele dos óculos que estava atrás do General Costa Gomes? Ou era um general que não foi à televisão nesse dia porque estava "ausente no Ultramar"? Quantas surpresas!...

a) Feliciano da Mata, militar de Novembro

Anónimo disse...

Alguém me sabe dizer onde estão " os outros " que "estes" foram substituir? Onde estão esses "craneos"? A trabalhar? A estudar? Ou "recuados" à espera de voltar?...

Rui C.Marques disse...

Meu Caro,
Como eu compreendo!

Maria Tuga disse...

Como é obvio por mais licenciaturas, mestrados e doutoramentos que se tenham, há uma coisa que é a experiencia e a maturidade....e isso não se tem com vinte e poucos anos. Secretários de Estado com 27 anos!!!, Ministros com 32!!! devem cair em tantas ciladas....sim porque no Estado o que impera são os interesses e quando não há interesses há o desleixo.....O povo aguenta e paga.