domingo, 14 de julho de 2013

Ainda a "salvação nacional"

O conceito de "salvação nacional", há dias invocado pelo presidente da República, remete, na memória da minha geração, para a "Junta de Salvação Nacional", criada na tarde de 25 de abril de 1974 e que viria a sobreviver até à criação do Conselho da Revolução, na sequência dos acontecimentos de 11 de março de 1975. 

Quem conhece melhor esse período sabe que a Junta deixou, na prática, de funcionar como tal após o chamado "golpe" de 28 de setembro de 1974. Embora alargada na sua composição na sequência desses acontecimentos (Nuno Fisher Lopes Pires, que ontem foi a enterrar, integrou-a a partir de então), julgo que não reunia regularmente nessa sua nova composição, passando a trabalhar sob o formato do chamado "Conselho dos Vinte", que incluía os chefes dos três ramos e outras figuras do MFA. Na noite de 11 de março de 1975, quando um grupo de militares, do qual eu fazia parte, se deslocou ao Palácio de Belém para interpelar os poderes militares aí reunidos sob a presidência de Costa Gomes e reclamar a realização de uma Assembleia "ad hoc" do MFA para essa mesma noite, foi o "Conselho dos Vinte" que por lá encontrámos.

A minha "relação" pessoal com a Junta começou bastante cedo, na noite de 25 de abril, quando, como Aspirante, fiz parte do grupo de militares que recebeu os membros Junta à entrada da RTP, na alameda das Linhas de Torres, que a minha unidade tinha ocupado na madrugada desse mesmo dia. Os carros que vinham do "posto de comando do MFA", na Pontinha, que traziam os membros da recém-criada Junta, pararam junto ao acesso à rampa que dava acesso aos estúdios, ao lado de uma bomba de gasolina que por ali havia. Atrás de Spínola, surgiram então umas fardas e alguns civis. Esse grupo começou a subir a rampa mas, porque tememos que alguém se aproveitasse da confusão para ter também acesso à RTP, tomámos a decisão de identificar cada um dos civis - já que quanto àqueles que estavam fardados a questão se não colocava. Recordo-me de, com a minha pequena metralhadora FBP, ter travado o passo a algumas dessas figuras. Uma delas, um homem de fato escuro e ar sorridente, identificou-se: "Eu sou o coronel Galvão de Melo, membro da Junta de Salvação Nacional". Não fazia a menor ideia sobre quem constituía a Junta, salvo Spínola e Costa Gomes. E, atrapalhado, lá deixei passar Galvão de Melo (na histórica foto de Alfredo Cunha, à direita), um dos dois membros da Junta oriundos da Força Aérea (o outro membro, Diogo Neto, estava em Moçambique).

Por razões que não vêm para o caso, em meados do mês de agosto seguinte, eu tive de ir procurar o então major Costa Neves, chefe de gabinete  de Galvão de Melo, que estava de visita à penitenciária de Lisboa, onde, na véspera, tinha terminado um motim dos agentes da "Direção Geral de Segurança", o nome que o marcelismo tinha dado à PIDE, e que aí se encontravam detidos. Eu era então membro da "Comissão de Extinção da ex-PIDE/DGS e LP". Costa Neves ouviu o que eu tinha para lhe dizer e, a certa altura, perguntou-me: "Você é do Exército, não é?". Eu ia "à civil". Respondi que sim. A ordem foi imediata: "Então, fica, desde já, nomeado representante do Exército na Comissão de Inquérito sobre o motim dos pides. Sou eu que presido, há um representante da Marinha e você fica relator. Espero que saiba escrever...". Expliquei que tinha uma "guia de marcha" para me apresentar na prisão de Caxias, onde iria trabalhar nos arquivos da polícia política. Costa Neves não hesitou: "Não se preocupe com isso. Eu requisito-o. A partir de agora, fica a trabalhar comigo". E, logo nessa tarde, fui nomeado "assessor da Junta de Salvação Nacional", no gabinete do então já graduado general Galvão de Melo, que tinha precisamente na sua tutela a "Comissão de Extinção" - nada mais nada menos, a pessoa a quem eu tinha criado momentâneas dificuldades na entrada na RTP, na noite de 25 de abril. E por ali fiquei, até à demissão de Spínola e outros membros da Junta, entre os quais Galvão de Melo.

A Junta de Salvação Nacional funcionava no palácio da Cova da Moura, perto da Avenida Infante Santo. Algumas décadas depois, como acontece até hoje, o edifício passou a acolher a Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus. Que eu viria a dirigir, entre 1995 e 2001. De facto, o mundo é pequeno...

11 comentários:

patricio branco disse...

interessantissimos memória e relato, que convidam a seguimento, neste paralelismo de verões quentes e ideias de salvação nacional, de facto dó faltou a palavra junta a cavaco silva...

Anónimo disse...

Sobressai da fotografia que para a salvação nacional havia sobriedade. Hoje também. Os intervenientes de hoje são muito sóbrios. E modestos.
Ouvi dizer que durante o primeiro dia de debate na Assembleia da República sobre "o estado da Nação" um Deputado dizia num "áparte" para outro:
- Dizem que Paulo Portas deu a volta a Lisboa à procura dum prédio do Estado digno de receber o seu ministério de Vice-Presidente e afinal vai tudo por água abaixo...
- Pois vai, e o homem fica nas Necessidades...
Um jornalista francês que ouviu o diálogo, transcreveu-o na sua agenda para fazer o seguinte titulo:
"Paulo Portas fica na Miséria"...
Na miséria não, na miséria não, corrige um dos Deputados a suster o riso. Fica nas Necessidades, nas Necessidades...
José Barros

ié-ié disse...

A Uzi devia ser uma FBP, certo?

LPA

Anónimo disse...

Que sorte histórica tu tiveste! Quem me dera ter passado pelo que tu passaste! AT

Anónimo disse...

Para aqueles da minha idade e que acompanharam todo o percurso da revolução de Abril, esta crónica do Senhor Embaixador é nostálgica. Não sabia que o Senhor foi interveniente naqueles episódios que descreve. E agora algumas memórias: Os Senhores da foto, acho que já todas faleceram; o fotógrafo Alfredo Cunha viveu algum tempo no meu prédio em Linda-a-Velha; no início de Abril de 1974 eu subi as escadas da António Maria Cardoso por duas vezes, por vender um livro proibido, sobre um massacre das tropas Portuguesas em Moçambique, felizmente o processo extinguiu-se...; e basta de memórias, para já.
Os meus cumprimentos,

Anónimo disse...

Comentário ao comentário de José Barros: "Necessidades e Miséria" é a mesma coisa para Francês ver... e também para Português! Dá para rir, se não fosse dramático.

Anónimo disse...

Linda recordação da História "estória" da nossa DEMOCRACIA após O 25 d Abril. Qualquer acontecimento destes é sempre de agradecer!!!

Carlos Fonseca disse...

Mais um interessante episódio da história da sua vida.

Tenho pena que os seus múltiplos afazeres, não lhe deixem tempo para nos prendar com um livro de memórias.


P.S. - ié-ié, a UZI era uma pistola-metralhadora de fabrico israelita, de grande qualidade. A FBP era fabricada na Fábrica Militar de Braço de Prata, em Lisboa, e era perigosa pelas suas falhas. Às vezes parecia ganhar vida própria, disparando à revelia do utilizador.

Anónimo disse...

Esta "salvação" tem outros contornos bem menos aventureiros do que a outra. Isto é bem mais sério hoje e a Europajá não nos amparará como dantes. Estamos sem saída.

Isabel Seixas disse...

Para mim salvação Nacional passa por nossas senhoras aparecidas assim... Como Anas Drago ao poder, depois logo se vê o manto se azul celeste se mar agreste.

Convenhamos que esta foto é sinistra, bem patente a "congeminação" e a desconfiança... Credo.

Helena Oneto disse...

Também so agora li esta "salvação nacional" que tem muito que se lhe diga. Este texto e todos os outros que refere são brilhantes! Ha um ou outro que não lembro ter lido quando foram publicados.
Um dos meus preferidos é "Memorias de Agosto (III)! Ri, como ri da primeira vez que o li:) uma maravilha!

Faço coro com os comentadores que lhe pedem para compilar estas relíquias e dar aos portugueses uma visão, digamos, mais alargada e menos passional, da Revolução dos cravos.
Bem haja pelo prazer que nos da!
Grande abraço