sábado, 15 de junho de 2013

Zangam-se as comadres...

Não é propriamente uma novidade, mas vale a pena registar o que passou nos últimos dias, entre os parceiros da "troika". Depois do FMI ter deixado a público alguma contrição sobre os eventuais erros cometidos no caso da intervenção na Grécia, surgiram vozes do lado da União Europeia - que, na "troika", tem a Comissão europeia e o Banco central europeu - a lamentar essa voz dissonante. 

Do lado português, em lugar de se aproveitarem tais dissídios para explorar a manifesta fragilidade institucional em que a "troika" ficou e, de imediato, alegar a incoerência programática das suas decisões mais gravosas, expondo à crítica algumas das condições que nos são impostas, a reação foi, no mínimo, curiosa. 

Da parte do chefe do governo, lamentaram-se as divergências entre os membros da "troika", o que não deixa de ser singular, num executivo onde, precisamente, as contradições sobre a justeza da aplicação de algumas das medidas do ajustamento por mais de uma vez fizeram perigar a coligação. 

Já o presidente da República optou pelos princípios e repetiu o óbvio: em tese, seria desejável que a Europa não precisasse de um tradicional "xerife" da ortodoxia financeira para respaldar decisões em que, ela própria, deveria ter massa crítica própria. 

No meio da situação, surgiu a voz do presidente da Comissão europeia, a lembrar que, afinal, a responsabilidade final pelas medidas impostas - e pelo seu grau de rigor, sublinhe-se - é dos Estados membros da "eurozona", que decidem (e, presume-se, ou não) sobre aquilo que a "troika" recomenda que deve ser imposto, nomeadamente em termos da maturidade dos empréstimos, das taxas de juro a aplicar e, naturalmente, dos limites temporais para a redução do nosso défice. O dr. Barroso tem razão, mas esqueceu-se de dizer, neste seu já tradicional e recorrente "lavar de mãos", que a instituição a que formalmente preside (por obra e graça dos tais Estados membros que tudo decidem) faz parte da entidade que propõe as medidas, com o rigor que delas ressalta. E que o "seu" comissário para o setor é um dos "falcões" do exercício e, várias vezes, tem assumido posições que colocam em causa o papel de "pomba" que o seu presidente, às segundas-quartas-e-sextas, entende dever assumir.

Vamos, então, às contas finais: se é verdade que as propostas da "troika" (que se sabe agora, de fonte "limpa", serem objeto de divergências no seu seio) têm de ser ratificadas pelos Estados membros do euro, então, ou eu estou a ver mal as coisas ou o esforço negocial principal deveria concretizar-se num intenso trabalho bilateral junto de todos e de cada um dos componentes da "eurozona" (os tais Estados membros que, segundo Barroso e La Palisse, dirigem o processo). Como? Através de um intenso "shuttle" para diálogo em cada uma das capitais dos países do "eurogrupo", politizando os argumentos, dramatizando a realidade das consequências económicas e sociais do ajustamento, denunciando o grau de rigor que ele nos tem imposto - no fundo, explicando essa coisa, que me parece evidente e facilmente arguível, de que todas as previsões da "troika" (e de quem nela manda) sobre os efeitos concretos das medidas aplicadas (para a recuperação dos indicadores macroeconómicos) falharam rotundamente, seja pela sua eventual inadequação objetiva aos objetivos ou, muito simplesmente, por culpa da conjuntura, não obstante o esforço que o governo português fez para fazer tudo "by the book", como lhe foi ordenado.

Será que isto tem sido feito? Era importante saber-se.

6 comentários:

Mônica disse...

Senhor Francisco.
Esta confusao economica ja está afetando por aqui. O senhor sabe quanto custa no Brasil um Kilo de tomate? carissimo.
E eu os adoro!
o jeito é comer menos.
Um grande e carinhoso abraço.
Se puder quando voltar ao Brasil me dá um toque
com carinho Monica

Defreitas disse...

C.Lagarde, presidente do FMI, que deve dentro em pouco fazer parte do grupo que a justiça francesa vai levar a tribunal (mesmo se para já é só testemunha "assistida" , por causa do efeito calamitoso eventual para o prestigio da França no mundo, de a meter no mesmo saco que o trio mafioso da trafulhice Tapie, e, sobretudo após o caso Strauus-Kahn !), descobre tarde demais os efeitos perniciosos duma política assumida pelo FMI, que reconhece tardiamente os seus erros nos planos de salvação (?) da Grécia! Mas pôr em causa a eficácia mesmo da "troika" tem um outro sabor ainda mais amargo, porque é a própria UE que é posta em causa. E ela sabe disso !

Segundo Lagarde, os erros de apreciação permitiram a numerosos credores privados (bancos, fundos de investimento) de "escapar" do pais sem perder nada e de "passar o fardo" aos contribuintes! Como em Chipre!

Não lhes viria mesmo à idéia de apresentar a sua demissão e de apresentar desculpas ao povo grego, e a todos os povos que estrangularam com as políticas criminosas que impuseram.

Pobres Gregos, a quem retiram mesmo o direito de expressão fechando a TV nacional! Para um pais que inventou a democracia, não podiam cair mais baixo.

Portugal não aproveita a oportunidade para escapar ao mesmo castigo, porque não tem políticos à altura. E, portanto, a situação portuguesa é mais que desesperada. Onde seria necessário negociar e mesmo ameaçar - porque não ?-, responde o servilismo dum primeiro ministro que pretende demonstrar que é um bom aluno da "troika", e, o que é talvez mais grave, adepto da política "thatcheriana" que consiste a levar o povo até à exaustão. Um bom aluno "anglo-saxão" !

Num Portugal asfixiado em termos económicos, são cada vez mais os cidadãos a declararem falência. No ano passado, pela primeira vez na história portuguesa, as falências singulares atingiram 55% e superaram as insolvências das empresas.
Segundo o Banco de Portugal, o crédito malparado tem crescido a um ritmo de 5,8 milhões de euros por dia.
As ações de despejo multiplicam-se e os leilões de bens triplicaram desde 2008.
Que falta mais para mudar de política afim de aliviar a economia ?

Quando o presidente da Republica diz à Euronews que : " a União Europeia – e neste momento isso tornou-se óbvio – falhou no que diz respeito à promoção do crescimento económico e à criação de emprego", que precisa doutro para impor a renegociação da divida , e mesmo a anulação parcial, condição sine qua non para relançar o investimento e obter o crescimento?

Evidentemente, isso pede coragem!

AL disse...

A ser assim, como diz, é mesmo assim.

patricio branco disse...

é tudo experimentalismo, nada da receita é cientifico, cada um dos 3deve dar a sua sugestão, e nós, portugal e a grecia, somos as cobaias.
até agora não acertaram...
e o passar culpas dum lado para o outro deve ser tudo teatro...

São disse...

Os lobos entredevoram-se.

Barroso , com a incompetência e a mediocridade sobejamente demonstradas, reduziu a Comissão Europeia a uma irrelevância total e vem agora, com o oportunismo que lhe é conhecido, retira-se de campo.

Passos convencido de que "para saírmos desta situação, o país tem que empobrecer" e tendo ido para além do inicial Memorando, nada fez, faz ou fará contra o Troika, a quem caninamente obedece - mas só no que lhe convém.

Quanto a Cavaco, que esperar de uma criatura que nem falar correctamente português sabe e que não possui um mínimo de sentido de Estado?

Os meus respeitos.

Anónimo disse...

Eu sou um pouco curto nestas coisas mas.... Em 2011 estavamos sem crédito internacional compatível. Se foi "complot" ou não, ainda não se sabe. O que foi um facto é que no desespero assinámos um acordo com as entidades que nos deitaram a mão. Agora temos de aguentar. Vamos ver como tudo isto continua e se vamos passar a produzir para viver.