quinta-feira, 6 de junho de 2013

Aprendizagem de uma nova vida

Afinal, não aprendo nada. 

Nos últimos anos, em Paris, confrontado com uma vida diária muito cheia, fui alimentando a ilusão interior de que, regressado que fosse a Portugal, a minha vida mudaria drasticamente. Planeei idas a museus, assiduidade a concertos, encontros com amigos, leitura de livros atrasados, revisão de filmes que havia perdido, audição de conferências (este post nasce da constatação de que faltei ontem a uma imperdível conferência de Jacques Delors).

Comecei a minha "reforma" assim, com esta ilusão. Ela durou escassos dias.

O confronto com a realidade provou-me que tudo é muito diferente. A agenda começou a encher-se, as viagens a aumentar, os compromissos encavalitam-se uns sobre os outros e a dificuldade em dizer não a uma multiplicidade de solicitações, feitas por amigos interessados, revela-se em todo o seu esplendor. De início foram apenas algumas entrevistas, depois começaram os livros para apresentar, os colóquios e ofícios correlativos em que sou convidado a participar, bem como alguns estimulantes exercícios de "brainstorming" sobre temáticas internacionais em que, com algum prazer, me envolvo. Acresce que Lisboa é uma cidade pouco "friendly" para deslocações, com um tráfego imprevisível. Os eventos começam frequentemente mais tarde do que estava previsto, prolongando-se para além da hora. Eu próprio gosto de ficar a conversar, a rever gente, a "ganhar" tempo, perdendo-o. E, no topo de tudo isso, chego ao fim do dia (Eu sei! É a idade...) derreado, com pilhas de jornais por ler, a pedir "sopas e descanso", "zappando", num sofá, entre dois sonos e vários canais. Nem ao "Procópio" já vou com a assiduidade costumeira e a que o dever de tertúlia obriga.

Está bem, mas há os fins-de-semana! Pois isso! Ainda ontem respondi a um amigo que, daqui até ao final de julho, só tenho duas datas livres para almoçar, em sábados ou domingos. E descobrir, como fiz hoje, que tenho três textos por concluir, duas conferências para preparar, pilhas de (novos) livros por ler, que há meses que não paro meia hora para ouvir uma música, que já saiu de cena aquela peça que queria muito ver. E que nem consegui uma hora para ir à feira do livro! Que, em quatro meses, não fui a um único cinema! Que diabo! Terá de ser sempre assim?

Bom, afinal sempre aprendi qualquer coisa: no fundo, tenho esta vida apenas porque quero. Ninguém ma impõe. As escolhas são sempre nossas. Mas, como diria o Variações, "o corpo é que paga". Pelo que o verdadeiro aforismo é: quem corre por gosto também cansa.

11 comentários:

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Trabalho e fome nunca faltou ao homem!
Saudações de Banguecoque

Helena Sacadura Cabral disse...

Fiz um enorme sorriso com este seu post, porque acabara de dizer ao meu filho que ele envelhecera 10 anos desde que está no governo, apesar de nós sabermos que "quem corre por gosto não cansa". Cansa sim. A ele e a mim, que nem sequer estou na corrida.

Azinheira disse...

Com isto nem me atrevo a dizer-lhe que bom seria voltar a vê-lo pessoalmente num destes dias! Pode ser que calhe, mas pelo sim pelo não, vou lendo os seus posts. Um grande abraço da Clem. Garrido

Julia Macias-Valet disse...

Completamente...
:)
Cada um lança-se nos "paris" que muito bem entende. E se esses são os seus, quer dizer que são mais importantes que todas as outras coisas.

Anónimo disse...

O que temo é que a "zona de conforto" que ansiamos, com as nossas idades, só esteja acessível quando já não a soubermos apreciar... E assim vamos tirando, cantando e rindo, num tempo movido a turbo, que se nos sobrepõe. Desejo-lhe força e energia, porque vontade, inteligência e saber tem que sobra. Bj. Maria Regina

Anónimo disse...

It's not that life is short. It's never long enough.

Julia Macias-Valet disse...

Caro escriba, que nao consiga ter tempo para fazer tudo o que quer nós até compreendemos e compartimos...mas compreende que tem que arranjar um tempinho para postar os nossos comentários mais rapidinho... :))))

Anónimo disse...

Não deixem para amanhã o que podem fazer hoje porque amanhã as prioridades são outras. Muito do que eu projetei fazer quando viesse a reforma perdeu atualidade. E, também, afinal, porque os dias parecem mais pequenos e as prioridades sobrepõem-se com mais urgencia. O tempo quase nem chega para as urgencias.
José Barros

patricio branco disse...

opção pessoal, quem se sente bem, é essa a boa opção, continuar a trabalhar duro. outros aproveitam para tratar de projectos pessoais. tambem é uma boa opção, etc etc

Anónimo disse...

As escolhas não são sempre "nossas", são impostas pelos condicionalismos daquilo que nos rodeia, (ou que "criámos") na sociedade face ás disponibilidades mentais e suporte económico daquilo que construímos em volta de nós próprios.


Alexandre

João de Deus disse...

Já se percebeu que, para o rever, e à Senhora Embaixatriz, teremos de vos fazer uma "espera" à porta de casa...