domingo, 2 de junho de 2013

Ainda os Balcãs

Um dia, contei neste blogue o seguinte episódio:

Foi há menos de 10 anos, em Sarajevo, a martirizada capital da Bósnia-Herzegovina. Era um jantar a que estava presente, como convidado e amigo do nosso representante diplomático, um membro do governo daquele país.

O equilíbrio político na Bósnia-Herzegovina, um país resultante da fragmentação da antiga Jugoslávia, é muito difícil, dado que, do executivo, fazem obrigatoriamente parte representantes de três diferentes etnias, com um complexo historial de conflito entre si: bósnios, croatas e sérvios. Não quero recordar a qual dos grupos étnicos pertencia o convidado local dessa noite.

O jantar tinha um caráter relativamente informal, no jardim da residência. Como não podia deixar de ser, a conversa cedo derivou para a política.

A certa altura, veio-me à memória que numa das minhas visitas a Sarajevo, nos anos 90, tinha conhecido um membro do governo da Bósnia-Herzegovina, pertencente a uma dessas minorias. Era um homem agradável e cordial, com quem eu havia criado uma forte relação de simpatia. Voltaria a encontrá-lo mais tarde, por duas vezes, na Grécia, onde ambos tínhamos ido a convite pessoal de Georgios Papandreou, atual primeiro-ministro, de quem éramos amigos. Perguntei por esse antigo ministro da Bósnia-Herzegovina.

Notei que o nosso convidado ficou um pouco embaraçado, mas respondeu:

- Está na Haia.

Ao meu lado, uma pessoa menos dada a interpretar, com a rapidez da nossa profissão, este tipo de informações, perguntou:

- Como embaixador?

Não sei se fui eu que me adiantei ou se foi o ministro que esclareceu que "estar na Haia" significava estar detido sob ordem do Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia, que julga os crimes de guerra e que tem sede na capital dos Países Baixos.

Como dois diplomatas portugueses presentes bem se lembrarão, mudámos logo de conversa...

Terão reparado que omiti no relato o nome do político em causa. Ontem, ao abrir um jornal, dei-me conta que o croata Jadranko Prlic - era ele a figura a quem eu me referia -, acaba de ser condenado pelo TPI para a antiga Jugoslávia a 25 anos de cadeia. Não posso deixar de ter um pensamento para a sua mulher e filha, pessoas bem simpáticas com quem muito conversámos, em tempos em que Jadranko ainda não tinha sido chamado a pagar pelos crimes que terá cometido.

Nota: O mapa acima publicado mostra ainda o Kosovo como "província autónoma" da Sérvia. Hoje, o Kosovo foi declarado país independente, embora esse estatuto continue a ser contestado pela Sérvia e não seja reconhecido por importantes setores da comunidade internacional. O mapa (que pode ser aumentado nele clicando) revela bem o "puzzle" étnico da região.

7 comentários:

Isabel Seixas disse...

Dá que pensar...

jj.amarante disse...

No seu texto refere "bósnios, croatas e sérvios". No entanto no mapa, intitulado "Balkans_ethnic_map", não aparece a etnia "bósnios", aparecendo a referência à "etnia" "Muslims". Estranho que se refiram a membros de uma religião como uma etnia. Como não é a primeira vez que deparo com este tipo de classificação gostaria de ouvir o seu comentário sobre a omnipresença deste "Politicamente Incorrecto".

Alcipe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Francisco Seixas da Costa disse...

Caro JJMarante: eu desconfio muito das definições da Wikipedia, mas, desta vez, o que aí vem está correto: "Ainsi les habitants du pays sont désormais officiellement appelés « Bosniens », les trois « nationalités » majoritaires étant les Bosniaques, les Croates et les Serbes. Par le mot « nationalité » il ne faut pas entendre ici la citoyenneté Bosnienne ni la langue BCMS que tous partagent, mais l'appartenance à une communauté confessionnelle et historique définie par la religion musulmane sunnite pour les Bosniaques, chrétienne catholique pour les Croates et chrétienne orthodoxe pour les Serbes, appartenances qui changent aussi le nom de la langue (respectivement bosnien, croate et serbe ; dans ce dernier cas, la langue s'écrit en caractères cyrilliques)."

Anónimo disse...

No futebol como na política, as decisões que em certa altura se tomam nem sempre são as acertadas, só depois se vê se foram as corretas. Mas na política, o preço a pagar é bem mais caro. Não conheço este senhor Jadranko, nem o que fez para ser condenado, mas será que se voltasse ao início, teria seguido a mesma via?...

jj.amarante disse...

A explicação da situação é boa e o embaixador usa uma designação politicamente correcta ao referir-se a "bósnios, croatas e sérvios". Em muitos casos, como por exemplo na Irlanda, a religião é um factor importante na identidade de uma comunidade e não é forçoso que essas diferenças de religião sejam causas de problemas. O que a mim me parece discriminatório é a opção do mapa que usa uma designação confessional para os bósnios (muslims) não se referindo aos croatas como cristãos católicos (ou católicos) aos sérvios como cristãos ortodoxos (ou ortodoxos). Surpreende-me que numa situação tão delicada persistam estas designações, que discriminam textualmente os muçulmanos. E mudando de assunto, o embaixador será talvez influenciado pela frequência do nome "Marante", mais comum do que o meu, em que um "A" precede o "marante".

Anónimo disse...

Com a devida vénia do blog "Combustões":

"No passado domingo, em cerimónia carregada de patriotismo, foi a enterrar em solo sérvio o Rei Pedro II da Jugoslávia, monarca que passou a vida em penoso e distante exílio nos Estados Unidos, onde faleceu em 1970, vítima de prolongada doença. O jovem Pedro II fora forçado a abandonar Belgrado em Março de 1941, por ocasião da invasão das forças germano-italianas, estabelecendo-se em Londres e dali lançando pela rádio um apelo à resistência contra os invasores. A proclamação foi de imediato cumprida pelo general Draza Mihailovic, homem de grande carisma e reconhecida competência que à data da invasão ocupava funções de comando no Estado-Maior Geral. O general pôs em marcha um temível movimento de resistência nacionalista, pelo que em Janeiro de 1942 foi nomeado pelo governo no exílio Comandante-em-Chefe das Forças Armadas no interior.

Ao longo de 1942, Mihailovic contou com o apoio incondicional dos aliados ocidentais, sendo festejado pela imprensa aliada como o maior líder da resistência na Europa ocupada. Porém, inexplicavelmente, em inícios de 1943, Londres resolveu retirar-lhe confiança e apoiar a guerrilha vermelha de Tito, chefe de um insignificante movimento comunista. Londres e Washington deixaram de fornecer armas à guerrilha monárquica, acusando Mihailovic de duplicidade e colaboração com os alemães. Mesmo despojado de apoio, Mihailovic manteve implacável luta contra o ocupante, não deixando sempre de protestar lealdade à Coroa. Ao finalizar a guerra, foi acusado de traição por Tito e fuzilado após um simulacro de julgamento. Ao longo de décadas, sobre o seu nome foi lançada a damnatio memoriae, mantendo-se a lenda do seu colaboracionismo com os nazis. Graças a teimosa persistência de David Martin, especialista em história jugoslava que ao longo de anos estudou as fontes documentais disponíveis nos EUA, na Grã-Bretanha, Rússia e Sérvia, sabe-se hoje que Mihailovic foi, tal como Sikorski - comandante do Exército Polaco - abandonado e trespassado a Estaline por Churchill.

Desta infame barganha resultaram centenas de milhares de mortos, a entrega do país a Tito, a deposição de Pedro II e a longa ditadura comunista que levaria à guerra civil e dissolução da Jugoslávia. Pedro II perdeu o trono e os povos que, juntos, faziam da Jugoslávia uma entidade estabilizadora do velho e inextinguíveil cadinho de ódios balcânicos, traídos pelos arranjos da real politik. Não se duvide por um minuto da absoluta ausência de escrúpulos de Churchill em matéria de política externa -também inculpado da morte de Mussolini, com quem mantivera durante anos trato quase amigável - pelo que se enganam clamorosamente quantos persistem em ver no truculento Lord um dos símbolos maiores da ética democrática. Churchill terá sido, talvez, um dos homens mais violentos do século XX. Não sendo ditador, foi belicista, racista entusiasta, moveu e acicatou ao longo da sua carreira inúmeras guerras de agressão e a ele se devem grandes culpas na dissolução do Império Otomano e no nascimento desse aborto geopolítico que é o Médio Oriente contemporâneo."

Malhas que a diplomacia teceu.....

Alexandre