sábado, 1 de junho de 2013

O fim das teimosias

Lembram-se dos tempos em que, numa tertúlia de amigos, num bar ou num café, debatíamos longamente se era mesmo aquela atriz girota quem entrava como personagem secundária num certo filme, se o escritor fulano era ou não equatoriano de nascimento, qual era o nome do secretário de Estado que tinha substituído um outro num determinado governo, as palavras exatas da última estrofe daquela canção, se uma citação estava precisa ou não? O tira-teimas só se fazia mais tarde, quando alguém obtinha a prova irrefutável da razão que lhe assistia.

Dou por mim numa mesa da "Gomes", em Vila Real, na minha adolescência, com o Albano Tamegão e o Guilherme Sanches, a desunharmo-nos em torno do nome certo da capital de uma ilhota do Pacífico ou daquela canção secundária dos Beatles. Numa tarde, na "sala verde" do ISCSPU, procurei, durante quase uma hora, com o Manuel Dinis e o Alexandre Chaves, recordar a designação de uma tasca de bons petiscos, lá para o Norte, em lugares que só o nosso comum exílio no Sul chamava à conversa. Atrasava-nos a entrada ao serviço na Caixa, depois do almoço, no Calhariz, encostados à montra da "Bijou", a teima, com o Murta e o Aldeia, em torno de quem tinha provocado um certo penalti ou se tinha sido o Oliveira Duarte ou o Nóbrega quem entrara para a ponta esquerda, na segunda parte de um certo jogo da seleção, em substituição do Simões. Lembro-me de discussões, com o António Franco e o Miguel Lobo Antunes, na parada da EPAM, sobre quem fazia parte de uma velha lista associativa ou o cargo exato de um ministro desse antigamente, procurando encher aquela vida fardada de verde, na insuperável estupidez dos dias de tropa. Levavam tempos infindos os debates no "Montecarlo", com o António Quelhas ou o Zé Carlos Serras Gago, à volta de uma expressão exata usada pelo Poulantzas ou pelo Daniel Guérin num determinado livro. Ainda me vêm à memória teimosias acaloradas, nos jantares no Trópico, em Luanda, com o Fernando Andresen e o Zé Guilherme Stichini Vilela, com os meios para provar quem afinal tinha razão numa caturreira qualquer (embora eu tivesse levado para lá a minha "Encyclopaedia Britannica") a milhares de quilómetros de distância. E, para sempre, ficaram-me madrugadas longas no "Procópio", onde, também a propósito  de um facto ou de um nome, cruzávamos vários bitaites, com a memória de elefante do Nuno Brederode ou o gosto pela trívia do António Dias a ganharem quase sempre a partida.

Onde isso vai! Falava deste assunto ontem, ao jantar, com amigos eslovenos e letões, nos arredores de Podgorica, capital do Montenegro, na varanda da um restaurante sobre o Morača, o rio de onde tinham saído as trutas que nos serviam, regadas a um sucedâneo vinícola local.

(Diga-se que, em jeito de trutas balcânicas, não estavam à altura de umas que, com a Ana Gomes e o António Monteiro Portugal, comi um dia em Pale, na República Srpska, a poucas centenas de quilómetros daqui, e, claro, não aguentavam o exigente "benchmark" das que o saudoso "Santa Cruz" servia, lá por Boticas, lardeadas com presunto).

Tudo isto para dizer que chegámos à conclusão que o Google (ou o Yahoo! ou o Bing, para os mais esquisitos), convocado pelo iPhone ou pelo Blackberry de alguém, veio acabar em definitivo com essas discussões, porque agora, em breves segundos, ficam resolvidas todas as dúvidas e se evita bruscamente o prolongamento dos argumentos, por mais contraditoriamente sábios que eles sejam. 

É muito melhor assim? Claro que é! Mas que esses tempos de grandes e teimosas discussões tinham a sua graça, lá isso tinham...

11 comentários:

Anónimo disse...

A minha tia, que não sabia ler, também entrava em conversas na sua taberna e dizia, quando se via em dificuldade, que quanto mais esperta uma pessoa quer ser, mais sapo é! Não sei porquê o sapo!
José Barros

Julia Macias-Valet disse...

Em Julho de 2008 diverti-me a realizar un Quizz, sobre o tema dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, para a kermesse da escola das minhas filhas.
As perguntas, dirigidas aos pais, percorriam várias modalidades dos J.O., resultados, nomes de campeões, curiosidades, pequenas anedotas, etc. etc. O prémio era um cabaz recheado dos produtos franceses mais "uppés" que se encontram no mercado.
Cada exemplar do quizz a preencher era vendido contra un ticket.

Passei algum tempo a preparar o jogo, as perguntas, as opçoes de respostas, a fazer a paginação com cores e imagens atractivas...sim porque desde que Pierre de Coubertin decidiu que de 4 em 4 anos tínhamos que ver quem vai mais longe, mais alto e quem é mais forte muita coisa se passou.

Pensava eu, na minha santa ingenuidade, que esse Quizz seria tema para conversas, troca de impressões entre os adultos...NADA DISSO !!!

DECEPÇÃO TOTAL...CADA UM NO SEU CANTO PROCURAVA AS RESPOSTAS AO JOGO NO SEU SMARTPHONE :(((

Os adultos não sabem brincar :(

Viva o dia 1 de Junho, viva o Dia da Criança :)

Anónimo disse...

E uma velha da minha aldeia, quando eu era garoto, e que não sabia uma "letra" do seu tamanho, dizia: "Quem não sabe é como quem não enxerga". Da "narrativa"
do Snr. Embaixador, muito interessante, entre elas recordo os anos 60, com as tertúlias no Montecarlo, infelizmente substituído pela multinacional Zara. Sinais dos tempos!...
Meus cumprimentos,
MT

Anónimo disse...

Belo texto, Senhor Embaixador. Como sempre.

Anónimo disse...

é assim até faltar a bateria.
acaba-se a bateria, acaba-se o conhecimento....

bh

Isabel Seixas disse...

Bem interessante, este post.

Gostei do comentário da Júlia os adultos não sabem brincar:(
Só sabem brincar a brincar, e aqui presume-se que se brinque a sério...

Anónimo disse...

A querelas sao se o blackberry é melhor que o samsung, se o iphone é melhor que o htc, se a melhor busca no bing é procurar o google, etc, etc.... Desviou-se a a atenção do saber para o instrumento, do ser para o parecer, ... é o sinal dos tempos.

N371111

Guilherme Sanches disse...

Confesso que nunca imaginei ter a honra de ser figurão citado neste post.
Este relacionamento com cinquenta e tantos anos era aqui uma confidência tão bem guardada, este nome quase vulgar de uma quase vulgar pessoa, não merecia a surpresa desta recordação que me levou a sentar as “peneiras” (era assim que elas desdenhavam dos rapazes bonitos...) de jovem adolescente a uma mesa da Gomes, mais o Tamegão e o "Sr Francisco", como diria a Mônica, em virtual viagem pelo passado das nossas... ia escrever gandulagens, mas que seria uma grande injustiça para os adolescentes que até eram exemplares, como o futuro viria a confirmar. Com uma enorme modéstia, refiro-me apenas aos meus companheiros e queridos amigos, confesso.
Se hoje é muito melhor? Eu penso que não é. O que o Google veio inquestionavelmente trazer de bom, como a imediata satisfação das nossas curiosidades e necessidades, frequentemente com dúbia veracidade, o lado mau dos smartphones e consolas vieram trazer de mau. Os putos de hoje isolam-se ou agrupam-se com esses gadgets entre as mãos, dedilhando silenciosa e desalmadamente com os polegares as teclas e botões, acompanhando com coreografia facial quase autista, reações de desespero ou de euforia, de acordo com os fracassos ou sucessos nos jogos que praticam, normalmente de violência ou de guerra. É um isolamento completo de tudo e de todos, que seguramente os levará um dia a confundir o real com o virtual.
Há dias, um conhecido meu, pai de um jovem de 16 anos, cansado do alheamento do filho perante insistentes chamadas para jantar, desligou da tomada o aparelho com o qual o filho jogava online. Desesperado, o jovem manifestou chorando, o seu desespero: agora vou ser banido do jogo! Banido, pai! Sabes o que isso representa, sabes? Banido! ... e chorava, como a criança que ainda não tinha deixado de ser...
Um dia alguém pagará por isto, ou muito me enganarei.

Anónimo disse...

Não duvido. Para a maioria dos diplomatas e políticos portugueses as trutas dos outros intervenientes na sangrenta desagregação da Jugoslávia não estavam à altura das da República Srpska.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 23.16: e Boticas, onde é que fica em toda essa sofisticada reflexão afetivo-estratégica?

Anónimo disse...

Caro Embaixador das 23:55, fica, presumo, do lado das trutas: é preciso sempre ficar do lado das vítimas e não do carrasco.