domingo, 21 de abril de 2013

Giorgio Napolitano



Há quase dois anos, escrevi aqui isto:

Durante seis meses, em 1997, Portugal presidiu ao acordo de Schengen. Organizámos então uma importante reunião de ministros em Lisboa, na qual, devo hoje confessar pela primeira vez, como alguns especialistas portugueses então lá presentes poderão testemunhar, só consegui fazer vingar um compromisso final... pela fome! Prolonguei a reunião por horas, com sucessivos "drafts", até conseguir o que pretendíamos. O almoço oferecido aos delegados, no CCB, só começou quase às 4 horas da tarde, com alguns a perderem aviões. Nessa reunião foi longamente debatida a questão da calendarização do processo de adesão da Itália. O ministro italiano do Interior tão contente ficou com a fórmula que adoptámos que, no final, me pregou dois repenicados beijos na cara. Chama-se Giorgio Napolitano e é hoje presidente da República do seu país. Durante a presidência portuguesa da UE, em 2000, acabaria por ser graças a ele, como presidente da comissão institucional do Parlamento Europeu, que conseguimos o "avis" que permitiu o lançamento da negociação da Conferência Intergovernamental. A Europa faz-se também destas retribuições.

Ontem, Giorgio Napolitano, com os seus 87 anos, aceitou, bastante contra a sua vontade e apenas para ajudar a resolver a grave crise política que atravessa o seu país, reassumir a chefia do Estado. 

Foi graças a Piero Fassino, hoje presidente da Câmara de Turim e ex-ministro da Justiça de Itália (grande amigo do antigo secretário de Estado português, Victor Neto, ao tempo do exílio deste em Itália), que conheci Napolitano. Eu havia criado com Fassino uma forte relação, que se mantem até hoje, desde o tempo em que tivemos responsabilidades similares nos nossos respetivos governos. Napolitano e Fassino eram oriundos do Partido Comunista Italiano, tinham colaborado no "aggiornamento" de Berlinguer e faziam parte de quantos, com d'Alema, haviam trazido o velho PCI de Togliatti (e de "Peppone", claro) para o "mainstream" da política italiana, também muito graças ao "compromisso histórico" que pode ter custado a vida a Aldo Moro.

Napolitano recebeu-me no seu soberbo gabinete do ministério do Interior, em Roma. Foi em 1996, tinha ele 70 anos e já parecia ter os 87 de hoje. Os seus movimentos eram lentos, as palavras também, mas o seu raciocínio era muito ágil. Recordo sempre o comentário do meu então chefe de gabinete, Miguel de Almeida e Sousa, hoje embaixador em Tel-Aviv, no final da reunião: "o velho é muito vivo!". Reencontrámo-nos depois por diversas vezes, desde essa tarde em Roma. Sendo uma grande figura da política italiana - como o provou à saciedade nos últimos anos -, tinha uma atenção sempre muito delicada para o jovem secretário de Estado que eu então era. Na reunião de Lisboa de 1997 sobre Schengen, ficou-nos imensamente grato com a cuidado especial que tivemos para com a Itália. Em janeiro de 2000, depois de lhe expor as dificuldades com que nos confrontámos, no início da presidência portuguesa da UE, disse-me, no seu gabinete de parlamentar europeu em Estrasburgo: "nunca esqueci a ajuda preciosa que nos deste, há três anos, em Lisboa. Agora, farei tudo o que puder para te ajudar." E fê-lo, com grande empenhamento, auxiliando-nos num momento particularmente delicado. Eu também não esqueci isso, pelo que só posso desejar o melhor ao meu amigo Giorgio Napolitano, nesta "nova" fase da sua imensa carreira, aos 87 anos.

8 comentários:

Anónimo disse...

Está aqui está o Dr. Soares, que só tem mais um ano que Napolitano, a presidir a um governo de salvação nacional em Portugal. Espero que sim. As suas análises são as mais lúcidas que temos nesta terra.

patricio branco disse...

um grande senhor

freitas pereira disse...

Napolitano, ou quando a velha guarda salva o pais do caos ! Provisoriamente, porque a crise econômica que o estrangula, com uma recessão em marcha e uma crise social, o partido democrata de Bersani destroçado, e os dois chacais Grillo e Berlusconni à espera que a presa caia, a Itália não está prestes de sair do campo de ruínas.

Napolitano, é, para o momento, a garantia de estabilidade da qual a Europa tem necessidade. Mas que um homem generoso de quase 88 anos, antigo comunista, cansado e farto de política, seja a ultima carta disponível numa democracia co-fundadadora da Europa, é realmente uma imagem incrível.

Se juntamos uma outra imagem doutro venerável ancião, da mesma idade ou quase, responsável do Estado vizinho do Vaticano, que, em vez de assumir até ao fim o seu cargo, se demitiu por se encontrar na impossibilidade de dirigir o seu próprio governo, porque talvez ingovernável, temos de admitir que o mundo laico ou religioso padecem do mesmo mal : a divisão e a falta de linha diretriz. E a falta de esperança.

A esperança é uma crença orientada para o futuro - qualquer que seja o estado de desolação do presente, devemos imaginar um futuro mais radioso. Mas o horizonte é sombrio.

J. de Freitas

Anónimo disse...

La ultima tarantella?

a) Mascarpone

Isabel Seixas disse...

Congratulo-me com a opção sensata através do reconhecimento da idoneidade.

patricio branco disse...

uma trajectoria interessante a do pci desde os anos 80, desde berlinguer, trajectoria exemplar, posso dizer, que culmina com napolitano pr e massimo d'alema pm

Anónimo disse...

antes velho que jarreta
o coelhinho nem tem 50
imaginem quando tiver 80...

bh

Anónimo disse...

Verdadeiro senhor !

Pena é que os que ainda existem por estes lados, com excepção de Eanes, sejam tão "pequeninos".....e egoístas !



Alexandre