domingo, 14 de abril de 2013

Azul, senhor Branco!

Alguns amigos são de opinião que este blogue tem publicado histórias em demasia sobre Vila Real, cidade que poucos leitores conhecem e para cujas idiossincrasias a curiosidade do mundo estará escassamente mobilizada. Talvez assim seja. Eu, porém, tenho a sensação, porventura errada, de que muito desse pequeno universo de província pode acabar por ser uma espécie de amostragem de todo um país que, com mais ou menos nuances, também se revia, um pouco por toda a parte, em muitas figuras e historietas simples, mais ou menos caricaturais, que eram o retrato quase ingénuo de um outro tempo. E que, também por isso, tem graça fixar por escrito.

Recordo-me do senhor Branco já como uma figura idosa, à porta da centenária livraria e papelaria que leva o seu nome e que constitui um dos marcos da vida comercial de Vila Real, na sua rua Direita. A seu respeito, toda a cidade do meu tempo contava um episódio, que se crê verdadeiro, e que deu origem a uma expressão que passou para a posteridade local.

Ao que se sabe, o senhor Branco teria um fraco especial por uma "criada" (era assim que se dizia, claro) lá de casa. O namorado da rapariga era por esta acolhido discretamente, com regularidade, no vão da íngreme escada que dava acesso do primeiro andar para a rua. Numa dessas ocasiões, ao dar-se conta que o senhor Branco vinha a entrar, a rapariga foi ter com ele aproveitou para pedir-lhe, quiçá como legítima compensação pela sua complacência face aos seus avanços, se ele lhe poderia comprar uma gabardina que o "seu irmão" muito necessitava - na realidade, correspondia apenas a um desejo do namorado, o qual, pelos vistos, tinha bastante bom "feitio" e não se importava por aí além de partilhar os favores da rapariga.

O senhor Branco, enlevado como andava pela jovem, terá dado mostras de poder aceder ao pedido e, passando à parte prática do assunto, perguntou que cor de gabardina quereria "o irmão". A criada hesitou por um instante. Foi então que, do vão da escada, talvez inquieto pela possibilidade da opção escolhida poder vir a não ser do seu agrado, se ouviu, a medo, a voz do rapaz:

- Azul! Azul, senhor Branco!

A história pode não ter sido bem assim. Mas pouco importa. Julgo que, na minha geração, nenhum vilarealense deixava de conhecer este episódio e esta frase, que aqui recordo, com um abraço amigo ao Alfredo, neto do senhor Branco.

10 comentários:

Anónimo disse...

As recordações sobre Portugal sejam elas de Lisboa, Porto ou Vila Real são de um país tão diferente que deve haver quem pense que não é possivel. Mas estes testemunhos são importantes sempre. Só não sei se dantes era melhor ou pior mas isso já deve ter a ver com as ideologias de cada um. E quanto a isto a História o dirá.

Anónimo disse...

Viva,
E eu e o Chico "libras" levamos uns tabefes por mandarmos essa boca ao pobre do tal "irmão" q ía rua 31 de Janeiro em direção a casa com as cautelas na mão.
cumprimentos.
arm.

papoila disse...

História magnífica!
Gosto muito destas histórias que para mim nunca são de mais, deve ser porque também sou transmontana :))

Isabel Seixas disse...

Até para memória futura são interessantes essas histórias, além de colocar Vila Real na Europa e no Mundo.

Anónimo disse...

Não conhecia esta história,mas lembro-me do Senhor Branco, com o seu cabelo branco, à porta da livraria, cumprimentando simpaticamente toda a gente que passava.
As suas histórias trazem-me à memória as férias de verão que, na minha juventude,passava em Vila Real com a família e os amigos. A pouco e pouco, vou recordando nomes de conhecidos, cenas, historietas, momentos diversos que já estavam guardados na prateleira do esquecimento.
Continue e bem haja.
Maria Eduarda Boal

Anónimo disse...

Pouco importa aonde se passou a "história". A arte de encadear e encaixar as personagens no tempo e no lugar já faz do Branco/azul um Conto com pernas pr'andar... Muito bom!

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Adoro estas histórias de Vila Real, por favor continue sempre Senhor Embaixador

Anónimo disse...

Em Trás-os-Montes, ou no Alentejo onde os montes são outros, estas são histórias que a todos pertencem.
Do meu Alentejo também teria alguns episódios do género para contar, cuja diferença está apenas no local onde decorreram. Afinal, não somos assim tão diferentes. Apenas algumas particularidades nos distinguem e enriquecem.
Não ligue, Embaixador. Continue nos contando as histórias da nossa gente, cada vez mais escassas.
JR

Anónimo disse...

Histórias deste genero, são comuns no nosso Portugal. É interessante contá-las, para os mais velhos recordarem e para os novos verem como a vida se processava naqueles tempos. Hoje, por algum motivo, esses acontecimentos passam um pouco ao "lado". Parece que as pessoas tem outros obejetivos (?) e não se prendem com estas coisas, o que é pena.

Helena Oneto disse...

Não, não são em demasia as deliciosas historias (que adoro) sobre a sua Bila:)!