sexta-feira, 26 de abril de 2013

Abril, ontem

Há vários anos que penso o mesmo: a patética sessão na Assembleia da República, tal como a divisiva descida da avenida da Liberdade, constituem-se num fator de lamentável e reciclada polémica, que apenas contribui para converter o 25 de abril numa data de confrontação, quando deveria ser simplemente uma dia de festa e de celebração da Liberdade.

Este 25 de abril dos "prós e contras" é um péssimo serviço que o país presta à sua melhor memória. Mas também já percebi que esta é uma causa perdida. Das televisões aos jornais, do parlamento aos futebóis, tudo a partidarização leva adiante de si, sem grandes ganhos para uma melhor cidadania. E sem que isso contribua para que as novas gerações sintam a menor gratidão histórica face a uma data cujo significado profundo hoje se podem dar ao luxo de ignorar.

Por razões que a conjuntura ajuda a entender, as coisas tornaram-se ainda bem piores este ano, com protagonistas a justificarem, para eles próprios, as palavras da canção-senha de abril, "E depois do adeus":

Quis saber quem sou
o que faço aqui
quem me abandonou
de quem me esqueci


Ou muito me engano ou já não vão a tempo de obter qualquer resposta.

17 comentários:

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
0 25 de Abril passou a ser um medicamento fora do prazo. E bom seria que o mesmo dia fosse trocado pelo slogan, de anos já um pouco distantes “Abril em Portugal” e colocar os portugueses admirar as giestas floridas dos cabeços, os pomares em flor e os lameiros, mesmo aqueles por cultivar, cheios de malmequeres amarelos e brancos.
Há que saudades eu tenho de quando há 7 anos caminhei e opti imagens do jardim que é Portugal inteiro, em ABril.
O 25 de Abril de 1974 embora tenho sido realizado com boas intenções passou à história de Portugal e mais uma efeméride falhada.
Saudações de Banguecoque.
José Martins

Anónimo disse...

Abril, Hoje.
No próximo ano, 2014, serão comemorados os 40 anos sobre o 25 de Abril.
Com a importância que merece o ruído que hoje nos circunda, de gente que só barulho sabe fazer, o que importa realmente lembrar nesta data, neste quase 40 anos é o que hoje somos.
O que era este país e o que é hoje. Na educação, na saúde, na justiça, na liberdade de expressão, no reconhecimento externo. Sim, no reconhecimento externo. No verdadeiro reconhecimento externo, pautado pelos valores do que somos, e não por interesses geo-estratégicos ou geo-políticos, que tínhamos e talvez, ainda tenhamos, entre outros.
Abril somos todos nós. Todos nós temos responsabilidades pelo que de positivo e negativo alcançamos. Em democracia, todos temos de assumir as responsabilidades da maioria. Porque se não o fizermos pouco ou nada aprendemos com Abril.
E isto, senhor embaixador, também eu não vejo nas comemorações do 25 de Abril.


Anónimo disse...

Anda todo o mundo baralhado: Ontem alguém dizia que chegamos aqui porque o regime abriu as portas aos corruptos que nos “governaram” desde então (excecionou Ramalho Eanes). Logo a seguir, outro, da mesma geração 50-60, apodava o anterior (do norte) de retrógrado, que ele, de Santarém, bem se lembrava que foi de lá que saiu Salgueiro Maia e o que o que deve ser feito é derrubar este governo de corruptos que está a destruir o povo. (sic noticias).
Ou seja, nós, “leigos”, não temos outra alternativa para além de “servir” corruptos ou ditadores. Será?

São disse...

Ontem foi o assassinato público do espírito do 25 de Abril em plena Assembleia da República.

O CDS - finalmente - assumiu isso tendo a honestidade de nem usar cravos .

Cavaco Silva fez o discurso mais vergonhoso que alguma vez ouvi a um Presidente da Repúlica, pois tomou a defesa de um Governo que com as suas políticas está destruindo o país, retirando protecção a idosos, doentes , desempregados; com crianças a chegarem aos hospitais porque passam fome e a cortar reformas e ordenados.

Nem uma palavra sobre os cortes de milhões e milhões de euros nas respostas sociais , muito menos acerca das rendas exorbitantes que , apesar das exigências da troika ( semore tão cegamente obedecida), ainda não foram realizadas.

Como se não bastasse, afrontou a oposição, particularmente o PS, que na sua douta opinião não tem que fazer eco do sofrimento das pessoas .

Por último, na sua versão as eleições não servem para nada porque quem tem o poder absoluto sobre o país são os credores e os mercados, seja qual for o Governo!!

Peço desculpa pela extensão, mas estou profundamente amargurada com a situação e jamais esperei que quem jurou defender toda a população , afinal se preocupe apenas com o seu espectro partidário.

Se não achar conveniente publicar , está perfeitamente à vontade , como sempre.

Os meus respeitos.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

O Senhor Presidente da Republica disse umas verdades, mas não teve a isenção e distância que só um Rei consegue ter. Posso dizer que ontem o Senhor Presidente prestou um belissimo serviço aos Monárquicos mostrando o que é um PR eleito por uma facção partidária e um Monarca que é de todos

ARD disse...

Permito-me discordar
Encarar o 25 de Abril simplesmente como um dia de festa, a que estaria subjacente uma qualquer grande unidade de todosos portugueses (honestos?), é não ter em conta que os inimigos daquilo que Abril trouxe, levantaram, pouco a pouco, a cabeça e aí estão, "actualizados", é verdade, mas cada vez menos disfarçados.
Hoje, mais do que nunca desde 74, é conveniente que os sinais do regresso dessa gente sejam reconhecidos. Por isso, tal como foi em 74, aliás, divisivo.

Anónimo disse...

Começa a ser decadente assistir anualmente a este triste espectáculo por parte daqueles que deveriam dar o exemplo.

Depois admiram-se dos portugueses estarem, cada vez mais, dissociados dos partidos e, principalmente, dos agentes políticos.

Isabel BP

Anónimo disse...

Nem sempre gostamos de aceitar, mas o tempo passa e com ele mudam-se as vontades. Quem se lembra da "não liberdade" hoje?? A liberdade de ontem é plena. A "não liberdade" de amanhã pode ser que haja mas ninguém consegue acreditar. E assim nos iremos perder.... ou reencontrar ..... Mas noutro tempo. Nada já será igual. Precisamos de vida nova.

Anónimo disse...

Pesadelo da 'velha senhora', coitada, em sonetilho desgostado e desgostoso:

co'o cavácuo caiem cravos
estrondosos no discurso
férreos cravos compro e cravo-os
vagarosos no seu dorso
pra que saiba que os escravos
bravos têm sempre recurso
a vingar quantos agravos
lhes fizer um qualquer urso

porra não! que sonho mau
médica sou não carrasco
nunca fiz mal a ninguém
mas perdoo mui mal a quem
me renove este meu asco
por marau mau e lacrau

freitas pereira disse...

A verdade é que a revolução acabou e que o processo de controlo no quadro da legitimação democrática e constitucional levou a um processo de contra-revolução legislativa que esvaziou a parte mais progressista do patrimônio revolucionário, entre os quais o objectivo socialista.
E se a democracia política, a democracia social, a democracia educativa e o embrião do Estado previdência escaparam , o rolo do Estado regulador na economia e na sociedade desapareceram.
As oligarquias retomaram o poder, a Europa retirou-lhe a soberania, o capitalismo financeiro amordaçou o povo . A revolução portuguesa foi conquistada e não concedida por quem quer que seja. Mas hoje, o povo Português, perante os assaltos de que é vitima da parte dos oportunistas que açambarcaram o poder, pode legitimamente interrogar-se se a democracia poderá reconquistar um dia uma entidade em conformidade com os ideais da revolução.

Quando as Forças Armadas regressaram às casernas e a mobilização popular diminuiu e se extinguiu, pensava-se que as aquisições fundamentais que eram a marca genética da revolução eram intangíveis.
Força é de constatar que , aparte as estructuras e as políticas odiosas do antigo regime , que graças ao MFA e ao COPCON foram destruídas, existem hoje condições que podem levar a pensar que a revolução foi traída . Porque não somente o povo sofre de novo da prepotência duma minoria, como a própria soberania nacional não é respeitada.

J. de Freitas

Anónimo disse...

Sinais dos tempos! Sempre assim foi... Que fiquem alguns valores das democracias ocidentais. Com isso já fico contente.

G. F. Velho da Horta disse...

Agora, toda a gente opina… Longos tempos houve, durante negras épocas históricas e em variadas partes do mundo, em que publicamente só opinavam alguns, ecoando cacofonicamente as opiniosas opiniões dos Opinadores-Mores. Neste país em que sempre houve cultores da perigosa pecha da discussão de ideias, os “Prós” eram autorizados, os “Contras” ilegalizados e presos ou pior. (Bem sei que não estou a dizer nada de novo, mas adiante).
Uma velha Tia, que também se perturba muito com a existência de “tantos partidos”, conta que um “fazedor de opinião” um dia, numa conversa breve mas muito instrutiva havida numa espécie de blogue sem computador porém de grande circulação, lhe disse que para as pessoas não se baralharem só devia haver dois partidos – o Partido da Direita e o Partido da Esquerda – e que estava cada vez mais inclinado a concordar com um seu amigo, também ele grande opinador, que achava melhor haver apenas um. Ou nenhum! Assim se extirparia radicalmente a partidarização, conceito que para a Tia e muita outra gente deriva de partir (com o significado de quebrar, estragar, destruir) e não de tomar partido e escolher.
Da curiosa opinião de que o “Senhor Presidente da República” (apenas o actual ou qualquer um?) não alcança (palavra minha) a ”isenção e distância que só um Rei consegue ter”, discordo inteiramente. A não ser que o rei - qualquer rei – se ausente para grande, grande distância. Não acredito na “isenção” e não confio em gente “distante”. Pessoalmente, nunca elegeria um rei com essas características.
Concluo: antes esta democracia coxa que democracia nenhuma. Melhorará! Melhorá-la-emos!

Pronto: opinei.

Com os mais cordiais cumprimentos, despede-se o

G. F. Velho da Horta

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Caro G. F. Velho da Horta,

"Pessoalmente, nunca elegeria um rei com essas características."

Pois não, pela simples razão que um Rei não se elege

Abraço

Anónimo disse...

Ontem festejou-se o 25 de Abril como o dia da Liberdade e por uma vez apeteceu-me dizer que sou contra a liberdade. Sou contra aquela liberdade que um punhado de portugueses usa e abusa com arrogancia para enriquecimento próprio e empobrecimento do país; sou contra aquela liberdade que permite impôr salários de mizéria para uns e salários exorbitantes para outros; sou contra aquela liberdade que permite a opressão; sou contra estas liberdades e mais algumas e apeteceu-me dizer isto hoje porque já não me reconheço nesta liberdade...
José Barros

EGR disse...

Senhor Embaixador: estou de acordo.
E receio muito que tenha razão quanto ao que a frase final do post encerra.
Mas hoje,e a proposito da sessão de ontem, não posso silenciar indignação pelo discurso presidencial.
Na verdade nunca tive grandes expectativas quanto ao desempenho do titular do cargo mas, francamente, nunca pensei ouvir algo de semelhante.
E espanto-me(?) com o frenesim das "interpretações autenticas" do dia de hoje.

Anónimo disse...

Caro Embaixador,
Permita-me discordar, em parte. Digo em parte porque julgo compreender a "diplomática" mensagem do final do texto.
Quanto à maneira que defende para celebrar o 25 de Abril, um simples olhar para trás nos mostra que essa visão romântica de uma celebração colectiva e unitária de um "dia inicial e único" não é realizável enquanto essa data tiver verdadeiro significado para as pessoas.
E, quando deixa de ter, é um dia feriado em que se pratica o ócio militante. Veja o 1º de Dezembro: até já nem figura no calendário das celebrações nacionais. Aí sim, finalmente, a quase unânime indiferença...

Anónimo disse...

Na altura, ainda acreditei ! Portugal tem mais uma efeméride em que a entrega honesta e verdadeira de alguns militares foi aproveitada por comunistas e jacobinos para sugar o país descolonizar á balda etc,etc,

Chegámos aos palhaços de agora !

Alexandre