sábado, 30 de março de 2013

Sexta-feira santa?


Isto já não é o que era! Ontem, em Vila Real, chegado ao restaurante, ouvi: "Vão umas tripinhas aos molhos?" e "o rancho está magnífico". Em alternativa: "Está a sair um entrecosto de truz". 

Sexta-feira santa, quem a viu e quem a vê!

No Portugal de outros tempos, muitas lojas fechavam na tarde de quinta-feira, para só abrirem depois do domingo de Páscoa. A rádio oficial deixava de emitir por essa altura, para só reaparecer na alvorada do sábado de Aleluia, com os sinos em uníssono a repicar nas capelas da cidade. Recordo-me de ouvir dizer que, nesse período, não se estendia roupa para secar. Era feio, perante a vizinhança.

Tenho ideia do dia em que acordei para a "abertura dos costumes". Foi em S. Bento da Porta Aberta, ali ao pé do Gerês, no anos 80. Era sexta-feira santa e, entre dois casais, em frente ao santuário, discutia-se que tipo de bacalhau iríamos comer, ou se se optaria pelo polvo, na antecipada certeza de que, naquele dia, não haveria quaisquer carnes no horizonte culinário do piedoso local. 

Subimos ao primeiro andar da estalagem do outro lado do santuário e entrámos na sala de refeições. Ele estava sentado sozinho à mesa, na mão direita empunhava um facalhão de serra, com o qual operava uma imensa e espessa bifalhada, regada a tinto servido de um jarro anexo. Da travessa, porque não cabiam no prato, rescendiam à distância, como diria o Eça, batatas assadas, com magnífico aspeto. Ele estava tão concentrado nas vitualhas que nem notou a curiosidade risonha com que o observávamos. Porque assim o exigia o esforço, que se notava no rosto rosado, tinha desapertado o cabeção. Seguramente beneficiando de uma qualquer bula libertadora, o senhor padre, qual Bob Dylan, provava que “ the times they are a-changin' ”. 

Nem olhei a lista. Pedi o mesmo. 

13 comentários:

domingos disse...

Não sou especialista na matéria, mas creio que a ICAR há muito que aboliu as obrigações do jejum.

patricio branco disse...

a emissora nacional só transmitia musica classica, a renascensa transmitia as cerimónias religiosas, os cinemas e teatros fechavam na 6a santa, o comercio cerrava todo, os restaurantes estariam na grande maioria fechados, em tão pouco tempo como mudou tudo!!!era uma atitude religiosa, espiritual, mas tambem profundamente cultural e enraizado na historia e costumes...
seria tambem saudavel, nesse dia comer pouco e só peixe ou vegetais, não sair para comprar, ficar em casa ou ir à igreja...
e tripas ou entrecosto seriam um sacrilégio, ficaria doente quem os comesse...
outros tempos...outras gentes...

patricio branco disse...

esplendida fotografia que compete com o monte das oliveiras...

Anónimo disse...

Os "tempos" mudaram, mas o espírito e a alma serão sempre eternos !

A sociedade não soube encontrar os equilibrios entre: espírito, viver em sociedade e muito importante bom senso !

Uma óptima Páscoa para si e familiares !

Alexandre

Anónimo disse...

Nesta sexta feira Santa de 2013, foi bem a primeira sexta feira Santa em que não comi carne sem ser por motivos financeiros.
Nem sei por que motivos foi. Mas não comi carne.
Em tempos idos, em casa de meus pais, aconteceu mais de uma vez em que não se comia carne por não haver ao mesmo tempo dinheiro para bulas, que eram quase tão caras como os bifes, e para a carne.
Mas agora, que nenhuma autoridade me obriga a comprar bula para comer carne, também a não comi... Nem com bula nem sem bula.
O que não compreendi nesta sexta feira santa foi a ausencia de tantos membros no ensaio do Rancho Folclórico de ontem onde a minha filha apareceu, como em todas as sextas feiras, e constatamos uma ausencia superior a 70%. Aquela ausencia seria motivada pelo pecado de dançar? Seriam as atividades mais intensas dos zeladores e zeladoras das igrejas em véspera de Páscoa ? Seria o moderno fim de semana prolongado que desviou as pessoas para outros centros de lazer ?
Enfim, foi uma sexta feira santa sem carne e sem dança.
José Barros

Anónimo disse...

Bem prega Frei Tomás, terá pensado (ou dito) o padre.
Bem, as barbas os untos e os óleos lá vão mudando. E as revoluções também lá continuam no seu mais puro sentido etimológico: revoltar ao mesmo sítio, conforme a definição "poética" de F.P. : revolução é a forma violenta de tudo ficar na mesma.

Isabel Seixas disse...


Pois Senhor Embaixador por cá cheira a folar...

Cá em casa fizemos doze,provamos logo, respeitando só a cruz e a inquisição do colesterol e transformando a Sexta feira efetivamente em santa pelos aromas e sabores...

FOLAR DE CHAVES
"A minha receita deste ano"

Ingredientes:

- 1 Dúzia de ovos caseiros
- 1kg de farinha (55)
- 125gr de manteiga
- 15cl de azeite
- 35gr Fermento padeiro
- Sal grosso(1 c/sopa)
- 100g Presunto de Chaves
- 100gr Linguiça caseira
- 100gr Salpicão caseiro
- 100gr Carne gorda de porco
- 100gr Toucinho
- Agua morna

Modo de preparação:

Preparam-se as carnes, cortando-as em pedaços pequenos.
Coloca-se a farinha num alguidar, faz-se uma cova no centro e põe-se aí o fermento depois de desfeito num pouco de água morna.
Juntam-se os ovos, depois de passados por água quente, adicionam-se as gorduras também levemente aquecidas, e trabalha-se a massa até desprender do fundo do alguidar.
Polvilha-se com farinha e cobre-se com um pano grosso e quente e deixa-se levedar até que a massa tenha o dobro do volume inicial.
Divide-se em duas partes iguais, estende-se com as mãos e colocam-se as carnes cortadas em pedaços pequenos e espalhadas por toda a massa , dobra-se a massa nas extremidades para dentro cerca de 2 cm, dobrando-se metade sobre metade unindo bem as pontas e dando forma arredondada e uma espécie de retângulo e alta.
Deixa-se descansar durante meia hora com um pano em volta para não deixar alastrar o folar, Vai ao forno de lenha de preferência, durante 45m a 1 hora dependendo do aquecimento do forno.

Estou neste momento a degustar um cibinho com café ,hum!!!...

Boa Páscoa a todos

Carlos Fonseca disse...

Houve desde sempre um grande número de padres incapazes de resistir à tentação da carne.

Conheci (e ainda conheço) alguns. E compreendo-os: afinal, é o que de melhor se leva desta vida.

Anónimo disse...

Comprar a Bula.

Poder comer carne.

Quem tiver dinheiro pode tudo, não há pecado.

Guilherme.

Anónimo disse...

Ao tempo, funcionário civil do entao Ministério do Exército, trabalhei de gravata preta. Durante a semana da páscoa, só no sábado de aleluia se comia carne na minha casa. A meu pedido, quase sempre, “iscas com elas”. Que saudades…
Cumprientos e boas festas.
Francisco F. Teixeira

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Carlos Fonseca
Não fora a violência doméstica e pública estarem a aumentar e eu até lhe dava razão...

domingos disse...

Isabel Seixas,
na sua receita faltou acrescentar um cálice de aguardente que era como se fazia lá em casa. Boa Páscoa!

Isabel Seixas disse...

Caro comentador Domingos

Sinceramente desconhecia, mas na próxima vez vou experimentar, há algumas diferenças que eu conheço mas têm a ver com a gordura, por exemplo o acréscimo de banha ou com a carne há quem ponha só toucinho ou carne gorda por uma questão económica ou porque há pessoas que acham desperdício colocar linguiça e salpicão.
Há também quem coloque o dobro da carne mas o aspeto pão de ló perde-se o que é uma pena.
Boa Páscoa