terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sarmentos

Há dias, o antigo ministro Moraes Sarmento disse numa entrevista que "a rede diplomática (portuguesa) é ainda hoje a de um país com ambições imperiais ou de potência regional". Para concluir, grave e sentencioso, que "manifestamente, não é esse o tempo em que vivemos". Na altura, tomei disso nota aqui, para não esquecer. E agora comento.

A ignorância política, como infelizmente se tem visto em bastantes outros registos, é uma das mais perigosas formas de estar na vida pública. As pessoas falam "de cátedra" do que não sabem nem conhecem bem, com uma ligeireza a que já ninguém reage. Aparentemente, o dr. Moraes Sarmento, que chegou a ministro de um governo presidido pelo dr. Durão Barroso, não estará convencido da adequação da atual dimensão da máquina diplomática e consular portuguesa às necessidades de defesa dos interesses do país na ordem externa. Não sabemos se o dr. Barroso, que foi ministro da pasta, concorda com aquele seu antigo colaborador; e é pena que o não saibamos. Para memória futura.

Ao que parece, nunca ninguém terá explicado bem ao dr. Sarmento que, jogando Portugal muito do seu futuro na área internacional - em termos da importância cada vez maior da projeção de interesses económicos (comércio, investimento, turismo) e de proteção da influência que criou à escala global, com efeitos na diáspora e na língua, bem como na margem possível de manobra na ordem europeia -, se torna absolutamente indispensável para o nosso país, com um dispêndio orçamental que não chega a 1% do orçamento geral do Estado, preservar um mínimo razoável de capacidade interventiva externa. Digo "mínimo" porque, no que toca ao Ministério dos Negócios estrangeiros, e como bem se sabe, estamos já "no osso" e tornar-se-á impossível, se acaso os meios vierem a reduzir-se ainda mais, continuar a trabalhar com uma eficácia aceitável.

Ouviu-se alguém reagir às ideias do Dr. Sarmento, das bandas do governo ou da oposição? Alguém, das estruturas de representação sindical da diplomacia ou da dos quadros administrativos, teve uma palavra de resposta firme e esclarecimento público perante a absurda asserção do dr. Sarmento? Qual quê! Silêncio foi o que se ouviu. Porquê? Porque não há nada mais popular, nestes tempos de "voyeurisme" orçamental coletivo, do que zurzir os diplomatas, a estrutura diplomática e a sua suposta inutilidade. Por isso, o dr. Sarmento sabe bem que está no "safe side" e que pode, com total impunidade, dizer as frases sonantes que diz, não obstante a sua gritante irresponsabilidade.

As declarações ligeiras do dr. Sarmento são a prova de que este modelo de afirmação política arrogante, quando assumido com um fácies grave e a dar-se ares de sentido de Estado, por muito pouco ou nada que se saiba daquilo de que se está a falar, continua a ter um direito de cidade garantido no Portugal em que vivemos. Mais uma razão para o denunciar, sem tibiezas.  

21 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Muito oportuno, do meu ponto de vista, o seu comentário.
Que ninguém lhe responda ao Dr Morais Sarmento é que me parece pouco oportuno.
Mas quem sabe se será porque se fala do seu retorno à vida política activa?
Se Nossa Senhora de Fátima quisesse, tinha muitos milagres a fazer por aqui...

Helena Oneto disse...

"Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe (...).

O dr Sarmento não so não fez como desfaz. Conclusão: não devia existir

Anónimo disse...

Sr Embaixador, cuidado. O visado, como antigo boxeur, ainda lhe dá uma "pêra"...
RLD

Anónimo disse...

Creio que nao se deve falar em diplomacia portuguesa.As Wikileaks explicam tudo.No MNE deve-se falar em alguns "diplomatas" o que nao e sinonimo de diplomacia.O senhor Embaixador e uma rara excepcao no imperio das Necessidades.Gostaria-mos que V.Exa. continuasse por mui-tos anos.Obrigado por tudo.

Alcipe disse...

Quem entende que o mundo de hoje se joga entre a América e a Ásia e que a "provincialização da Europa" (Spitrak) está na ordem das coisas, não pode deixar de sorrir a essa ideia de desperdiçarmos a imagem que temos (temos, temos!) fora da Europa, para nos reduzirmos a um cantão ibérico.

patricio branco disse...

sem pés nem cabeça o que diz m s, que é isso das ambições imperiais ou potencia regional reflectidas na diplomacia? a máquina diplomático consular está quase reduzida à sua minima expressão, qual a ideia dele?
oportuno e aberto comentário às afirmações dele esta entrada

Anónimo disse...

Sinto-me honrada e estimulada por saber que ainda existem pessoas com um carácter do seu calibre, Senhor Embaixador.
Obrigada pelo que faz e pelo que é.

Maria Helena

Anónimo disse...

Se me permitir todas as considerações atinadas que teceu a Drª Helena Sacadura Cabral ajunto que muitos dos portugueses estão cansados de pensar no que poderão ter na ideia estes antigos e novos ministros dos novos tempos. Foram e são ministros, mas políticos ou devidamente conhecedores da história necessária para ocuparem lugares de topo na gorbernação da "res publica" disso já não estou certa. Por outro lado há um número infelizmente grande de jornalistas que de conhecimento geral,valha-nos Deus. Isto já cansa. Bem bastam as soluções para as resoluções que urge tomarem e que não aparecem. O resto? A caravana passa... Não sou do partidodo do seu filho Paulo Portas, mas em 2008 disse a amigos do meu partido, que no Congresso do CDS ele tinha feito o melhor discurso do ano em Portugal. Não gostaram. Também na oposição algum pragmatismo faz falta. Isso também nos traz dissabores num Portugal tão palavroso e tratado por todos os que já tiveram uma ou outra pasta nos governos. Sabem de tudo, de todas as áreas, só porque já passaram pelos governos. Paciência. Se não desmantelarem tudo, já será para ir a Fátima acender uma vela. Peregrinação bem merecida pela padroeira de Portugal!

Anónimo disse...

A conferência sobre reforma do Estado será uma conferência de sarmentos? Ainda por cima “lisboetas”?
Dão cabo do País e depois conferenciam e concluem que eram eles que tinham razão! A teatrada habitual!
Tal e qual como em todo o lado. Os mesmos que descredibilizaram, propõem-se em seguida para dignificar…

ARD disse...

Apetece parafrasear De Gaulle: "É porque não somos uma grande potência que devemos ter uma grande política; porque, se não tivermos uma grande política, como não somos uma grande potência, não seremos nada".

São disse...

Começo por dizer que fiquei contente pela vinda de Mónica aqui, rrrss Avisei-a porque ela merece e porque concordo com a sua opinião acerca dela.

Quanto ao que provoca ou não a indignação das pessoas em Portugal, estou começando a ficar muito preocupada com uma alienação que considero a caminho de estado muito grave.

Não tenho comentado, embora leia, pela simples razão de que me exijo não baixar o nível face à actuação dos vários actores políticos em presença no nosso país( e não só). Por mim mesma- mas especialmente aqui, pelas suas funções .

Se me der o gosto de espreitar a citação que faço de Freitas do Amaral, mesmo sem comentar, agradeço e ficará assim a saber o desespero e a tristeza e a indignação que sinto quanto ao impasse em que se encontra este país que é o meu!

Como sempre, fica ao seu critério a publicação ou retenção do comentário.

As minhas respeitosas saudações.

Anónimo disse...

Confessa admiradora da diplomacia, muito, e amadora de diplomatas, não poucos, a velha senhora pode ser má:

fui ver sarmento ao dicinár-
io é vide seca pra queimar
eu cá penso-o bem queimado
e não não vai ressuscitar
com bocas tais de tal calado

Anónimo disse...

errata
Saltei uma palavra num octossílabo da velha senhora, que não me perdoa se der conta:

fui ver sarmento ao dicinár-
io - é 'vide seca pra queimar'
eu cá penso-o já bem queimado
e não vai não ressuscitar
com bocas tais de tal calado

Anónimo disse...

Relvados que dais sarmentos
porque não dais coisa boa?
Cada um dá os rebentos
conforme a sua pessoa...

a) O Velho Senhor

Anónimo disse...

Assiste-lhe toda a razão. E a estocada na ASDP foi muito oportuna. E, ao que se ouve, este seu Post, foi um “incómodo”.
Quanto ao Dr. Morais Sarmento, se associarmos essas suas irreflectidas palavras com a defesa intransigente que faz de que tudo, ou praticamente tudo, dever ser privatizado (foi a estiva, foi isto e aquilo), não me admiraria que, sem reacções ás suas “boutades”, um dia destes ainda venha a propor a privatização do próprio MNE.
Estou certo de que o seu escritório de advogados saberia “compor” um projecto adequado.
Mas você não seria, seguramente, convidado para a um lugar de destaque na Administração de uma eventual Empresa “M&NE, Comp.Lmtª”, depois do que aqui escreveu.
À Bientôt!
a)Rilvas

Anónimo disse...

Em Dezembro passado tive a oportunidade de ler a douta opinião de Morais Sarmento. Também estranhei não ter visto reacção de pessoas ligadas à diplomacia, tirando o comentário, contido, do então Embaixador em Paris, dado estar em posto. Agora, caro Amigo, vejo que dá a resposta adequada. Eu, como não diplomata, conhecedor razoável da prática e qualidade da diplomacia nacional durante alguns anos, não me contive e coloquei um post que reproduzo agora.
"Lá que há muita coisa para cortar nas despesas que não servem o interesse público é verdade. Agora esta da rede diplomática, vinda de alguém que deve ter conhecimento das funções da diplomacia, dá que pensar. Possivelmente referia-se apenas à diplomacia dos séculos XVII e XVIII. Mesmo assim, para além das perucas, das casacas e de uniformes reluzentes, muito se resolveu através de bons diplomatas. Convém, de vez em quando, escutar vozes sábias e descomprometidas em relação aos poderes actuais, como a do Prof. Adriano Moreira. Refere-se, com insistência, ao perigo de nos tornarmos num Estado exíguo e irrelevante, que, por "acaso" geográfico e histórico teve, e ainda tem, uma posição estratégica que poderá servir para o reforço do desenvolvimento sustentado de que tanto se fala. Assim haja políticos que se preocupem com o Portugal a 10 ou 20 anos de vista e não apenas com as eleições seguintes. Já agora, é bom que se tenha a noção de que os diplomatas não são milagreiros. Para fazer omeletas têm de ter alguns ovos... Para além de algumas verbas, também necessitam de instruções claras e de respostas adequadas e tempestivas a questões que colocam ao Governo.
17 Dez 2012"
Permito-me, ainda, acrescentar que alguns dos políticos que passam pelo Governo, ou por outros cargos de nomeação político-partidária, normalmente também não rejeitam ou ambicionam nomeações como embaixadores políticos, ficando, mesmo algo melindrados quando não são bem sucedidos nas suas pretensões. Possivelmente não será assim uma rede tão antiquada, a extinguir por ser desnecessária, e poderá ser um bom investimento para as suas carreiras pessoais...
José Honorato Ferreira

Anónimo disse...

Caro ARD, muito muito obrigado.

A originalidade fez-me ver com clareza o papel que um país como o nosso tem que ter.

N371111

Anónimo disse...

Sobretudo nestas coisas é pena que o Dr. Luis amado que é sempre tão pródigo na defesa de um apmplo consenso entre o PS e O PSD agora guarde o silêncio prudente de conrado. Vá-se saber porquê.

gherkin disse...

Excelente e pertinente apontamento. Mas, meu caro, parece-me, com a devida vénia, estar a ser inocente, ou, melhor, ignorar o que, igualmente, se passou com o seu homólogo aqui em Londres, Dr. António Santana Carlos aquando do fatídico “Caso McCann”. Recordo, pois nisso, com modéstia, estive fortemente envolvido, quando, quanto saiba. na minha vivência de 50 anos no Reino Unido nunca vi nenhum alto representante diplomático de qualquer país, e muito menos do SEU MAIS ANTIGO ALIADO, ser vilipendiado por um órgão da comunicação social, o Daily Mirror. Este tablóide, na pena de um suposto jornalista, num vil artigo digno de imprensa de sarjeta, insurgiu-se contra aquele digno e esforçado diplomata contra uma inócua e pertinente afirmação numa sua entrevista ao The Times. Nela, a vcerto ponto afirmou que contrariamente ao que os McCanns tinhamm feito com a filha desaparecida no Algarve, os pais nossos patrícios não deixavam as suas crianças sós. Foi o Carmo e a Trindade para este suposto (aliás veterano naquele matutino) jornalista, que num artigo rebaixou ao máximo o nosso REPRESENTANTE. Foi preciso uma campanha, que incluíu mais de 500 comunicados-protesto à Entidade Reguladora da Informação (cujo porta-voz me disse pessoalmente que tinha sido a maior de sempare), para obrigar o jornal a emitir um débil pedido de desculpa. Antes dele, como se deve recordar, já a maioria da imprensa tabloide tinha, igualmente, numa campanha invulgar,vilipendiado não apenas as nossas insitutições jurídicas como a polícia. Face a esta situação, amante do meu país, predicado que muito me prezo, fiz inúmeras tentativas junto dos nossos órgãos da informação, e não só, dirigi-me, numa carta pessoal ao então Presidente da Assembleia da República, apresentando-lhe a questão, pondo-o ao corrente da situação a fim de que, pelo menos na Assembleia se fizesse eco de tão inaceitável e hodienda situação. RESULTADO: NADA! NADA!!!!! Por isso, este caso tão bem citado, NÃO DEVE SURPREENDER NINGUÉM! Abraço. Gilberto ferraz




EGR disse...

Senhor Embaixador: é,de facto, impressionante a quantidade de "catedraticos" que pululam no nosso espaço comunicacional com a atenta veneração dos profissionais do sector.
E abrangem as mais diversas falando com aquela prosapia que habitualmente caracterizam os que opinam sobre o que não sabem.

Anónimo disse...

desculpe mas apetece mesmo escreve-lo depois de o ler...

...a bem da nacao