quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O convite

A vida tinha-me levado, por umas semanas, à chefia interina do Protocolo de Estado. Numa conjuntura complicada, a maioria dos funcionários do serviço tivera de se ausentar para o estrangeiro e coube-me a mim, a pedido do Secretário-geral, tomar conta das coisas. Essencialmente, tratava-se de assegurar a rotina e procurar garantir que todos os dossiês pendentes iam sendo encaminhados.

(Recordo-me que me deu "uma de zelo" e que mandei recolher a montanha de papelada que pairava sobre todas as secretárias e pastas de despacho, dando andamento imediato a tudo e procurando resolver todos os problemas pendentes ou atrasados, fosse de que ordem fossem. Os funcionários administrativos do Protocolo ficaram siderados e os dois diplomatas que comigo colaboravam, Fátima Mendes e João Corte-Real, andavam divertidos e deliciados. Constou-me que alguns dos meus colegas ausentes, quando regressaram, ficaram verdadeiramente furiosos, ao depararem com tudo "limpo" e em dia...)

Uma tarde, entrou-me no gabinete um velho embaixador, há muito aposentado. Era uma homem com um sorriso constante, quase um esgar, que nos habituáramos, ao longo dos anos, a ver calcorrear os corredores da casa. O ministério era a sua verdadeira família e passear-se por lá estava-lhe na massa do sangue. Por isso, ele fazia já parte da "mobília".

Recebi-o com a atenção que lhe era devida. Era um nome célebre na casa. Estivera em grandes postos, tivera grandes responsabilidades, sobre ele circulavam inúmeras historietas, tendo sempre como pano de fundo o facto de ser um grande servidor público. Dizia-se que detestava tudo quanto dissesse respeito à cultura ("a cultura só traz chatices", seria uma sua frase célebre), que era um "charmeur" com as senhoras e de uma persistência profissional sem limites. Constava também que mantinha uma grande influência nas colocações e promoções de pessoas amigas. Os seus protegidos eram conhecidos pelos "rapazes do..." e, na realidade, era prova provada que obtinham vantagens por virtude dessa tutela. Aquele embaixador era, assim, uma verdadeira lenda.

Com toda a deferência, mandei-o sentar. "O colega deve estar com muito que fazer, não quero incomodá-lo", disse, delicado. Fui referindo que estava ali "por empréstimo", interinamente. Ele sabia vagamente quem eu era, devia ter recolhido de mim a "opinião de corredor", que é uma espécie de "label" que, com maior ou menor justiça, todos vamos criando e "afinando" ao longo dos anos de carreira, na memória coletiva. A ele era-lhe indiferente quem eu era, o seu propósito era outro.

"O colega está a tratar da visita presidencial?" Tratava-se de uma próxima deslocação de um chefe de Estado estrangeiro a Portugal. O dossiê andava por ali, mas ainda faltavam algumas semanas, seguramente já não seria eu a conduzi-lo, embora houvesse coisas que estavam já a ser feitas por nós, nesse contexto. Expliquei-lhe o estado da arte.

O velho embaixador, continuando a insistir em que não queria perturbar o meu trabalho, deixou então cair a razão da sua visita: "Eu só queria pedir ao colega um favor. É que, se possível, deixasse no processo uma nota para serem convidados, para o banquete de Estado na Ajuda, os embaixadores portugueses - os vivos, claro... - que serviram nesse país. É que, como por certo concordará, os estrangeiros estranhariam se nós lá não estivéssemos..."

Balbuciei a minha concordância de que seria "impensável" se assim não fosse e, desde logo, prontifiquei-me a deixar uma nota no processo e, mesmo, a chamar a atenção do chefe do Protocolo. O embaixador ajuizou melhor o meu ar interino e, arguto, tendo-se apercebido da fragilidade da minha influência na decisão final, acrescentou: "Fico-lhe muito grato que faça isso. Mas eu ainda passarei por cá outra vez, daqui a uns tempos...".

Quando saiu, senti tristeza pela imagem de um embaixador a mendigar um lugar numa mesa oficial. E prometi a mim mesmo lembrar-me disso, quando deixasse o serviço ativo, para nunca vir a ter a tentação de incorrer numa atitude similar. É precisamente isso o que estou a fazer agora. 

17 comentários:

Anónimo disse...

Os "banquetes de estado" não serão só para os "prazeres da mesa". Haverá certamente conversas informais que os homens (ou mulheres) de experiencia podem alimentar.
E os embaixadores que serviram naqueles países, com as experiencias de ali terem vivido, podem sustentar com mais à vontade.
José Barros

Defreitas disse...

To be or not to be that's the question! Ah, les injures du temps!

Un peu de vanité et un peu de volupté, voilà de quoi se compose la vie de la plupart des femmes et des hommes.
Votre ami aurait du lire Omar Kheyyam : " Avant notre venue, rien de manquait au monde; après notre départ, rien ne lui manquera."
Mais la peur du vide sidéral d'après, quand on a connu les honneurs dans une vie bien remplie, nous prend quelques fois à la gorge.
J. de Freitas

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

FANTÁSTICA História Senhor Embaixador. Mostra o "vazio" que deve ser quando não nos sabemos reformar. Eu se chegar à idade da reforma, nesse dia inscrevo-me como voluntário no maior numero de instituições possivel de maneira a ter a vida ocupada das 9.00 às 17.00 5 dias por semana

Helena Sacadura Cabral disse...

Francamente ainda não conheci ninguém feliz por se ter reformado e deixado de trabalhar.
A reforma o que permite é "escolher o que se vai fazer", e não "deixar de fazer".
Penso eu de que...

tulipas disse...

Sr. Embaixador,
Tanto na vida activa como na reforma devemos ter o mesmo comportamento...
Estou convicta que continuarei certamente a não pedinchar rien de rien, salvo se algo for de extrema importância para a salvação dos meus entes Queridos, quiçá...
Tenha um Bom Dia!

Helena Oneto disse...

Meu caro Senhor Embaixador,
Bonito texto! E bons comentarios de 'Defreitas'.
Vasios é coisa que o Senhor não conhece.

Anónimo disse...


Há que saber preparar a reforma , as mais das vezes desenvolvendo e aperfeiçoando hobbies que se tiveram ao longo da vida activa mas , nesses tempos , sem a calma e o tempo necessários .
E continuar a dormir as horas que sempre se dormiram .

Também me aconteceu algo de semelhante numa empresa a que presidi , alguém lá tinha ido pedir um favor desses e eu estava na lista - recusei delicadamente .
De resto nem convívios de antigos colegas , aqueles com quem me dei e dou bem estão sempre prontos para uma bica ou uma refeição , os dias que passo em Lisboa estão sempre felizmente bem preenchidos de manhã , à tarde e ao serão .


"Il faut savoir quitter la table " como canta o Aznavour , canção que há tempos lembrava a Drª Helena (com quem não posso estar mais de acordo no que diz aqui).
Eu acrescentaria que "Mais eux ils ne savent pas" ...

RuiMG

ARD disse...

Poderá recusar os convites do Protocolo mas não deixará de os receber.
Terá havido interrupção mas a prática é, de facto, convidar ex-embaixadores (mesmo já fora de serviço) nas capitais respectivas para os banquetes oferecidos a Chefes de Estado estrangeiros.

Anónimo disse...

Caro Embaixador e Amigo,
Nós, os mais velhos, quase que adivinhamos quem foi o protagonista deste episódio. De si não esperava outra reacção, pois, quando se trata de bons servidores do Estado (ainda existirá esse conceito?...)para além de ser correcto também dignifica o próprio Estado. Este não deveria fazer tábua rasa, "abatendo" ao efectivo, aqueles que já tiveram responsabilidades de representação do Estado ao mais alto nível, designadamente quando se trata de visitas de Estado cujo Chefe nos visita.
O que é triste é alguém ter de se fazer lembrado. A incorrecção, quiçá mesquinhez, é de quem impede ou se esquece do convite...
Caberá sempre ao convidado decidir se acha ou não adequado aceitar o convite.
José Honorato Ferreira

Anónimo disse...

Por aqui se diz:
Bananeira que já deu cacho se corta!
Assim tratam os reformados.

Do Brasil.

Anónimo disse...

Esse dom de observação que se chama conhecimento do mundo, vereis que na maior parte dos casos serve para tornar os homens astutos e não propriamente para os tornar bons.


— Samuel Johnson


Alexandre

Helena Oneto disse...

Oops... apercebi-me a tempo: queiram ler 'vazios' com z.

Querida Helena,
Tenho tantos projetos para a minha reforma que o tempo de vida que me resta não ira chegar.

Helena Sacadura Cabral disse...

Minha linda Helena
Ora aí está algo de que não tenho dúvidas nenhumas.
E espero ainda poder ver alguns, nem que seja apoiada numa bela bengala!

patricio branco disse...

bem, eu senti simpatia pelo velho embaixador, afinal ele pediu para ser convidado unicamente para esse jantar, havia uma razão forte para ele, tinha servido nesse país. não andava a pedir para ir a uns jantares quaisquer.
o pedido dele pode ser bem visto, claro, tambem pode ser visto ao contrario, como na conclusão expressa na entrada.
de notar ainda que ele era um homem altruista, ajudava colegas, não era um egoista que só pensava em jantares para ele. e um retirado tambem pode aspirar a participar num acto, não tem que desaparecer. sim fiquei com simpatia pelo velho embaixador, certamente que faria boa conversa à mesa e distrairia os vizinhos de mesa.
porem ficamos sem saber se foi ou não ao banquete, mas o objectivo da história era concluir com uma moral.
passando a outra parte da entrada, que bom é regressar de férias e ver a mesa limpa, não é ??

Isabel Seixas disse...

É ,dá que pensar...

Julia Macias-Valet disse...

Estou com o comentador Patricio Branco.

Isabel Seixas disse...

Estava a pensar, o quão dificil é, para algumas pessoas, acionar mecanismos de adaptação e ou coping, à perda de protagonismo que lhes dava o poder de exercer determinadas funções profissionais...
Talvez Rilke seja bom como pano de fundo para amortecer essa sensação de abandono(pelos pares que face aos contextos são substitutos) que o referido senhor embaixador evidenciou...

O tempo não é uma medida.
Um ano não conta, dez anos não representam nada.

Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir.

O verão há de vir.
Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.

Rainer Maria Rilke