sábado, 12 de janeiro de 2013

João Fatela

precisamente 40 anos, no início de 1973, vim a Paris "ver eleições". Estava prestes a entrar no serviço militar, "meti" duas semanas de férias no emprego que então tinha e, com um familiar, assisti ao vivo e a cores a um exercício da vida democrática, que entre nós era ainda uma miragem. Um amigo comum, o António José Massano, deu-nos o contacto do João Fatela, um português que havia saído clandestinamente de Portugal e que aqui trabalhava duramente, para pagar os seus estudos noturnos na universidade. Não obstante a sua extrema ocupação, o João foi de grande simpatia para conosco e apresentou-nos outras pessoas, que ajudaram a tornar mais interessante essa nossa estada. Grandes noitadas de discussão se fizeram então! 

Desde essa data, perdi o João de vista. Nas várias vezes em que vim a Paris, nunca ocorreu encontrá-lo. Vim entretanto a saber que tinha feito uma brilhante carreira na área da psicologia. Quando para aqui vim viver, em 2009, retomámos o contacto. Por seu intermédio, vim a conhecer a equipa que dirige a prestigiada "L'Esprit", uma publicação que tem um lugar central na história da intelectualidade francesa. Com o Guilherme Oliveira Martins e com o João Fatela, está em curso a preparação de um número especial da "L'Esprit" sobre Portugal, tema que já foi objeto de um encontro de trabalho na embaixada.

O João Fatela reformou-se, há dias (sabes?, João, acontece aos melhores!), das funções que desempenhava na associação "Parcours", uma iniciativa de que foi o grande obreiro. uma inovadora experiência de apoio a jovens com problemas, que dirigiu por mais de um quarto de século. O João é um homem discreto e duvido que aprecie que este meu blogue o saliente desta forma. Mas eu acho que ele merece que aqui se reproduza o perfil da "Parcours", a associação que ele fundou, e que um seu amigo publicou sob o irónico e sugestivo título "Obrigado, Marcelo Caetano", na sequência uma homenagem que lhe foi prestada.

"Como passar da estigmatização dos jovens marginais e toxicodependentes para uma prática de apoio psico-social-educativo, em que a dimensão da escuta psicológica personalizada significa que o jovem com dificuldades é colocado no centro de uma caminhada (parcours) de inserção social e profissional? Esta démarche inovadora e visionária considera a pessoa como ator e motor do seu próprio percurso, tendo em conta o aspecto global e não apenas os sintomas. A inserção do jovem é pensada como um percurso que deverá basear-se na compreensão de si próprio e na procura da inserção socioprofissional, a fim de adquirir uma larga autonomia. Os diferentes profissionais da associação facilitam, assim, ao jovem uma escuta personalizada, com encontros regulares destinados a ouvir as dificuldades e os sofrimentos com os quais se defronta, resolver as angústias e traumatismos e ajudar a canalizar as roturas. Na associação existem diversos ateliers, tais como, fotografia, ginástica, carpintaria, informática, etc. O objetivo destes cursos não é propriamente obter uma formação profissional, mas antes dar ao jovem a possibilidade de poder fazer um trabalho de estima de si próprio e de valorização das suas capacidades muitas vezes ignoradas ou incompreendidas. Terminada esta fase, a associação ajuda e orienta o jovem na inserção profissional, através da obtenção de estágios nas empresas que, com conhecimento de causa, lhes concedem um trabalho remunerado, dando-lhes assim uma chance para poderem voar para outros céus. Desta maneira, o jovem descobre o valor terapêutico através do seu próprio percurso de inserção, faz a experiência de sair da espiral dos repetidos insucessos e, pouco a pouco, adquire autonomia".

Na "Parcours" o João deixou parte da sua vida e honrou, com essa obra, o seu nome e, por essa via, o nome de Portugal. Esta é a homenagem que, também como embaixador, presto ao João Fatela, o meu mais antigo amigo em Paris.

6 comentários:

Anónimo disse...

sem saber que fazia o passo à frente.

patricio branco disse...

por vezes penso na esprit que assinei um ano mas de que só recebi 1 número em portugal, deve ser a mesma aqui referida, a redação era na rue jacob, lá fui fazer a assinatura, rua estreita e antiga na margem gauche, já não estou bem seguro, entre bairro latino e são germano, pois quanto a receber a revista assinada não sei se os outros 11 (?) nºs foram retidos nalguma alfandega, se o serviço de assuinaturas por correio para o estrangeiro funcionava mal, foi aí por 1968.
há outra revista, esta portuguesa, que assinei durante anos, esta chegava normalmente à caixa do correio a casa,a brotéria, cito-a aqui porque não sei igualmente se ainda se publica, era uma boa revista.
bom receber revistas periódicas em casa, mensuais, quinzenais, dá tempo para ler até chegar a proxima.

Isabel Seixas disse...

Homenagem a Si também Sr. Embaixador por divulgar não só a associação Parcous que decerto nos permitirá partilhar e reproduzir ideias e iniciativas no nosso contexto, como dar a conhecer Senhores que professam e fazem da sua vida o Humanismo.

Ps Tomei a liberdade de publicar na minha página do face book dado o interesse pedagógico.Obrigada

Anónimo disse...

O Joāo Fatela faz parte dos inumeros portugueses "aproveitados" pelo potencial integrativo do sistema francês.
Em zonas geográficas diferentes, estivemos na mesma área de intervenção cujos esforços orientavamos para minimizar as consequências do sistema económico que nas últimas décadas produziam mais efeitos centrifugas que centríptos...
Quanto ao irónico e sugestivo título "Obrigado, Marcelo Caetano" não será tão irónico quanto isso. Não há qualquer originalidade em afirmar que tanto o Salazar como o Marcelo Caetano, e agora o atual governo, sempre deram de bandeja e gratuitamente muitos milhares de ativos que vão contribuir para o enriquecimento de outras economias.
José Barros

Anónimo disse...

Então,nesse início dos anos 70, "devorávamos" Paris quando por lá passávamos: eram os cinemas, era a Maspéro, era a Cidade Universitária... Eram os amigos que se levantavam às quatro da matina para irem limpar vidros, para irem ocupar-se de trabalhos duros e menores, quando disso dependia a sua sobrevivência.Um pouco melhor, era o Self de La M.P. para nós de tão grata memória. Alguns não se resignaram e, apesar da vida dura, meteram mãos ao estudo e, passo a passo, foram singrando, não querendo luzes de ribalta. Conheci alguns, era amigo de alguns, beirões de gema, de Ferro, graníticos quase. Levaram-me a Champigny e a outros sítios de má memória. Pergunto-me como é que alguns tiveram tempo para a escrita e a investigação. Do João Fatela, saiu, logo no início da colecção "Portugal de Perto" da D. Quixote, «O Sangue e a Rua», um olhar atento sobre a Beira das pequenas/grandes questões resolvidas à sacholada. Ao longo de anos, deixou artigos e artigos dispersos por inúmeras publicações. Muitos não sabem é que, antes de ele arrancar para Paris, trabalhava no «Jornal do Fundão» (Delegação da Covilhã). E volta todos os anos, enfia-se ba Biblioteca Nacional, vai ao Ferro, olha a Serra da Estrela de frente e revê amigos de longa data.Em Paris, continua a olhar atentamente para Portugal e a escrever em bom português. Reformou-se, mas não creio que se sente de pantufas à lareira. Impossível. E ainda bem

Andreia Baleiras disse...

Olá, boa tarde, fala no seu texto de António José Massano. Estou a tentar encontrá-lo para tratar de um assunto relacionado com traduções. É possível facultar-me o contacto dele?
Cordialmente,
Andreia Baleiras