segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Eu e Roberto Carlos

Há dias, um comentário de uma leitora brasileira trouxe a este blogue o nome de Roberto Carlos e a admiração que o cantor suscita em muitas pessoas. E isso fez-me lembrar um episódio que se passou comigo, creio que em 2008.

Ia numa longa viagem pelo Ceará adentro, tendo ao meu lado uma senhora brasileira. Era uma mulher com responsabilidades na área da cultura, com sólida formação universitária. Muitas coisas vieram à conversa e, a certo ponto, surgiu o nome de Roberto Carlos. Perguntei-lhe como é que, depois de tantos anos de exposição pública, o cantor ainda era visto no país. A sua reação foi espontânea: "O rei? É o ídolo de todo o Brasil, adorado por todos! É o maior!". 

Cometi o erro de não levar o comentário à letra e, um tanto brutalmente, disse-lhe o que pensava. Roberto Carlos fora um cantor muito popular em Portugal nos anos 60, com êxitos que, à época, muitos conhecíamos de cor, como "O Calhambeque" e coisas assim. Depois, ao que eu observara, a sua popularidade entre nós fora declinando progressivamente. A meu ver, isso ficava a dever-se ao facto de ele ter enveredado por um romantismo possidónio, quase "pimba" (terei dito "cafona"), num certo período com letras de cariz religioso, numa linha melódica repetitiva e, para o meu gosto, nada criativa, A tudo isto se somava uma imagem pública ridícula, típica de um canastrão irreconciliado com a idade, com um cabelo de arrepiar e trajes "retro", quase anos 70. Estranhava muito, por isso, ouvir expressada uma admiração pelo cantor, por parte de uma pessoa como ela. Lembro-me de não ter sido muito subtil...

A minha paciente interlocutora explicou-me então uma coisa que eu, apesar de estar no Brasil há vários anos, não entendera. Roberto Carlos estava "para além" das gerações, era uma figura mítica que unia todos os brasileiros, que tinha tido uma vida familiar trágica, com um comportamento que lhe grangeara um grande respeito público. Todos os anos - e acabou por ser a minha segunda grande surpresa - fazia pelo Natal um espetáculo que dava origem a um disco, o qual, por tradição, era uma das prendas dadas nessa época, por todo o Brasil.

"Mas... e aquela música? O que é que aquilo tem a ver com a fantástica riqueza da música brasileira, de Tom Jobim a Chico Buarque, de Milton Nascimento a Gilberto Gil, de Ivan Lins a Caetano?" A minha acompanhante, com serena pedagogia, explicou-me que essa música, que eu ridicularizava, continuava a ser apreciada por muitos milhões de brasileiros, coexistindo, sem dificuldade, com as outras sonoridades que eu tanto apreciava. O seu romantismo era parte da alma brasileira e a religiosidade, que marcara fases da sua vida, era bem entendida e respeitada por todos.  "No Brasil, há espaço para toda a música e nela haverá sempre um lugar eterno para o nosso "rei", para Roberto Carlos". Embatuquei.

Com o tempo, fui testando a mesma questão com outros amigos brasileiros. Nem um só, dentre todos eles, deixou de concordar, no essencial, com a opinião da minha interlocutora do Ceará. Aprendi assim que, às vezes, devemos relativizar em público os nossos gostos e, em particular, temos de fazer um esforço maior para entender os dos outros. Por muito que, no íntimo, continuemos a pensar o mesmo, claro.

20 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai! meu caro amigo que assunto delicado esse.
O que nós temos por bom, muita gente não gosta. E eu, que aprecio todos aqueles que referiu - vá goze-me, ria-se -, pelo-me por uma música cantada por Roberto Carlos. Só que... prefiro não o ver. Lá isso é verdade!

Felipa M. disse...

Rei por rei, prefiro Roberto Carlos ao Elvis... Aliás, Roberto Carlos é dos meus cantores brasileiros preferidos. Gosto de Martinho da Vila, Chico Buarque, Caetano Veloso e outros mas Roberto Carlos é o Rei, mesmo!
Mas isto sou eu, que sou uma pimbazinha que por cá anda...

Anónimo disse...

ora aí está!..

Anónimo disse...

Deveria ser a mesmissima coisa com o futebol em Portugal.
José Barros

Defreitas disse...

"Aprendi assim que, às vezes, devemos relativizar em público os nossos gostos e, em particular, temos de fazer um esforço maior para entender os dos outros. Por muito que, no íntimo, continuemos a pensar o mesmo, claro.

Palavras de grande "sagesse"! Em tempos conflituais, deviam estar inscritas em todos os lugares públicos. Mas o esforço pedido é imenso!

patricio branco disse...

é o "rei", têm um enorme carinho por ele, ele tambem terá um enorme carinho pelo seu publico, é recíproco, continua a ter boa voz,a cantar bem,tem um impecavel comportamento profissional, uma vida sem escandalos, etc, sei lá.
acontece, é curioso, que o respeito por r c vem tambem daqueles outros que citou, de Tom Jobim a Chico Buarque, de Milton Nascimento a Gilberto Gil, de Ivan Lins a Caetano, etc.
é uma história de admiração, amor e respeito mutuo.
talvez houvesse culto semelhante em relação a elvis presley, frank sinatra, edith piaf, amalia rodrigues, se continuassem vivos, continuam, aliás a ser idolos muito ouvidos. ´
foi bom expor francamente o seu pensamento à amiga brasileira no carro, em troca teve a explicação do porquê de r c continuar a ser o idolo adorado, o "rei" para eles.

Alcipe disse...

Eu confesso: gosto de Roberto Carlos! Não o da fase religiosa-evangélica actual, mas o original, o que se atrevia a confessar que gostava da namorada de um amigo seu... Eu, cafona, me confesso!

Anónimo disse...

Estou a imaginar que daqui a 2 décadas o título de um post neste blog será: “ Eu e o Tony”. .. (falando sério!...)

miguel disse...

eu acho que o principal ensinamento da sua amiga do Ceará é o de que a riqueza da música popular brasileira vem, precisamente, dessa falta de medo de se cruzar, de misturar estilos, de não se deixar aprisionar por rótulos, de estar sempre aberta e disponível para a música dos outros, de aceitar influências e construir a partir delas.

só para dar um exemplo, nos últimos tempos Caetano Veloso (que acaba de assinar um dos melhores discos da sua carreira) editou gravações de espectáculos ao vivo com Roberto Carlos, com Maria Gadú, e com Gilberto Gil e Ivete Sangalo. ao mesmo tempo grava com músicos muito jovens, que provêm de áreas musicais muito diferentes da sua.

ou seja, unindo o que é diverso ganha-se sempre. felizmente a música portuguesa e os músicos portugueses também já começaram a aprender isso.

Janus disse...

Caro Sr Embaixador,
Estar com regularidade, por volta das 6:30/7:00h da manhã na Rodoviária de Brasília(experiência incrível!),dá logo para compreender muita coisa do espírito brasileiro.
E da variedade dos gostos e das pessoas também...

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Defreitas tem toda a razão. Entender o outro, aceitar e respeitar posições que nos são alheias, deveriam ser a base de uma democracia levada a sério. Mas é difícil, concordo.
Aconteceu comigo algo semelhante. Para mim, Emanuel era um cantor pimba. Nas noites Marcianas o Prado Coelho e eu conversámos um longo bocado com ele nos bastidores. E ficámos atónitos ao saber dos seus estudos musicais...
Cela arrive, parfois!

Anónimo disse...

Tanto na música como na política: a arrogância da opinião ou da música "boa" , antes da direita, hoje da esquerda, é absolutamente insuportável!
João Vieira

Eduardo Saraiva disse...

Gosto do post pois trás a visão do lado de lá. Daquele imenso espaço onde cabem milhões.
Curioso é que no Brasil não há "música pimba" ou música com outra terminologia.
No Brasil há a MPB - Música Popular Brasileira. Espaço para todos os músicos.

Isabel Seixas disse...

Também gostei imenso do post.
Ri a bandeiras despregadas com o
"Só que... prefiro não o ver."de "HSC"
e com a opção de "Alcipe".
Identifico-me na integra com os comentadores Miguel, João vieira e Eduardo saraiva.

Mônica disse...

Sr Embaixador
A musica brasileira modifica a cada dia, com novos cantores. Hoje eu fui ver quem estava na lista dos melhores cantores e que supresa. Roberto Carlos,(ainda) Fabio Junior,( tem um filho que é tambem cantor e ator)Daniel, Fernando Sorocaba,Victor e Leo, Zeca Pagodinho, Maria Gadu,, Pitty, Paula Fernandes( cantou o ano passado num especial de Roberto carlos e esta com uma fama danada) e Nando Reis. O Michel teló que canta aquela musiquinha que diversos jogadores fizeram a coreografia, cantou com o Roberto carlos a musica sobre o Pai, que Roberto carlos escreveu .Emocionou ao dizer que o pai do MIchel Telo estava na plateia e que iria cantar pra ele.
OBS: eu tambem prefiro as musicas do Roberto da decada de 60. Eu gostaria era ganhar a rosa que ele entrega na plateia. Mas acho meio impossivel.
Vou continuar depois pra nao ficar grande
com carinho Monica

Mônica disse...

Senhor embaixador
Continuando.Ha alguns anos fui em Portugal, em Lisboa O que eu mais queria era conhecer fado porque houve uma novela muito famosa aqui no Brasil na minha adolescencia e Amalia Rodrigues cantava E as paredes confesso. Ainda bem que cantaram. Eu fui em duas casas de fado e adorei.
Também sou do tempo em que gostava demais de ouvir Roberto leal cantar Arrebita em 1971. Será onde foi parar este cantor?
Este ano esta passando uma novela que Roberto canta uma musica chamada esse cara sou eu. Tem muita divergencia quanto ao gosto. Mas é divertido conhecer a letra e a musica.
OBs: Minhas irmas que são bem mais novas que eu nao apreciam Roberto carlos.Mas me acompanharam por quatro anos seguido para que eu pudesse tentar ganhar a rosa. Sabe ate que nao quero mais.Ele esta muito popular !
E coitadinho do Chico, Caetano, Gil e Maria Betania? Continuam com calma a usufruir e mostrar uma boa musica para nós. Mas sem muito alarde ,diferente dos ultimos da lista que mostrei.
Ha, mas nao pensei que incomodo do senhor nao preferir totalmente o Roberto carlos.
Eu acho que o senhor é muito sabio. Mas gostar nao depende da razão náo é?. E esta jovem que conversou com o senhor explicou tudinho exatamente do jeito que é.
com carinho monica
Escrevi exageradamente? O senhor corta por favor.

Anónimo disse...

Acredito que a grande admiração que o brasileiro tem pelo Rei, não é só a musica, que como cor, todos tem uma preferencia, mas é pela postura diante da vida, que muito a classe artística se esquece.
Temos na mídia recente vários exemplos de cantores com um repertório muito superior ao do Rei, mas que fracassaram na vida como ídolos.

Helena Sacadura Cabral disse...

Querida Mônica
Deliciei-me com os seus dois comentários. Em particular: "Mas gostar nao depende da razão náo é?. E esta jovem que conversou com o senhor explicou tudinho exatamente do jeito que é". É isso mesmo. Gostar não se explica. Vive-se!
O Roberto Leal está em Portugal onde tenta ficar. Mas não tem sido fácil...porque o consideram "demasiado popular"...

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, um dia por acaso caí nos encantos do seu blog. Eu que sou brasileiro e vivo, talvez, o momento de maior importância de meus 17 anos (estou entrando no terceiro ano do Ensino Médio, pré Vestibular no Brasil - digo porque não estou a par de como ocorre o processo de seleção universitária em Portugal ou de qualquer outra parte da Europa) e me interesso muito pela área de Humanas. Assim o senhor me ensina muito com as suas postagens a entender um pouco de como seria a vida de um embaixador, o que talvez me leve a prestar Relações Internacionais no vestibular como opção para meu futuro. Desse modo, o "duas ou três coisas" só me tem a ajudar.
Nunca comentei nenhuma postagem na internet em blog que fosse, mas aqui agora estou a te informar sobre um assunto de que me interesso: musica. E já vou adiantando que, como mal súdito, não me atrai música que seja do "rei" Roberto.
Roberto Carlos cai realmente no encanto da maioria dos brasileiros. Talvez apenas quando crianças ficamos menos expostos a manipulação da polemica e premiada Rede Globo, quando não nos interessamos e achamos chata qualquer coisa que nos apresente antigo. Entretanto certa vez me apareceu uma grande verdade no facebook que, de forma irônica, um amigo comemorava o fato de ter nascido e viver no Brasil onde, a noite, "ou ficamos em casa assistindo novelas ou saímos nas ruas e somos assaltados". De forma um pouco exagerada isso não deixa de ser verdade. E é aí que de pouco a pouco somos manipulados e caímos no encanto da Rede Globo, a mesma que contrata os serviços de Roberto Carlos há quase duas décadas e o coloca como o "rei" que não temos (talvez como carência diante a eterna perseverança de governos coruptos). E é assim que Roberto Carlos surge novamente como hit da trilha sonora da atual nova novela das oito "Salve Jorge" e somos diariamente atormentados pelos trompetes reais desafinados do "rei". Isto é o que eu gostaria que o senhor soubesse, se é que já não sabe. Talvez nosso verdadeiro rei seja o Chico, e talvez também saibamos disso porque ele vive guardado na memoria de muitas famílias pelo Brasil. Entretanto assim nunca fora chamando porque a Globo não o diz que é.
Atenciosamente, Arthur Viana.

Isabel Seixas disse...



De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
Se você não vem e eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento
Quero que você//"aquecimento central,claro" me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
De que vale a minha boa vida de playboy
Se entro no meu carro e a solidão me dói
Onde quer que eu ande tudo é tão triste
Não me interessa o que de mais existe
Quero que você//"aquecimento central,claro" me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno

Não suporto mais você longe de mim
Quero até morrer do que viver assim
Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
Oh, oh,
E que tudo mais vá pro inferno

Não suporto mais você longe de mim
Quero até morrer do que viver assim
Só quero que você/"aquecimento central,claro" me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno