segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Eliseu

Na passada semana, acompanhando o primeiro-ministro português, passei uma hora no palácio do Eliseu. Foi uma - provavelmente a última - das bastantes visitas que, durante os últimos 17 anos, fiz àquele magnífico "hôtel particulier", sempre impecavelmente conservado. O Eliseu reflete hoje o esplendor da República, curiosamente num "décor" que recorda tempos muito distantes dela. Para as memórias que talvez nunca escreva, durante conversas que foram dos acontecimentos no Mali ao próximo orçamento da UE, tomei notas sobre pormenores da sala e do mobiliário, complementadas por algumas liturgias do encontro.

Ontem, no "Le Figaro", o correspondente do "Die Welt" em Paris, Sasha Lehnartz, escrevia: "de cada vez que tenho o privilégio de aceitar um encontro do palácio do Eliseu, tenho a impressão de ser recebido numa audiência pelo Papa". O jornalista contrastava a sobriedade espartana das residências oficiais alemãs com o ambiente palaciano, "mistura de pompa pós-feudal e de grandeza republicana". Mas, curiosamente, não elogiava o seu modelo.

O poder também se faz de símbolos. Sem uma certa coreografia, sem alguma pompa, os cidadãos tendem a olhar para os titulares da autoridade com um sentimento de banalidade, embora quiçá de simpatia. Mas a distância que o poder cria parece ser essencial para essa mística que sustenta as hierarquias de que a política - toda a política - é feita. A questão estará sempre na sabedoria necessária para encontrar um tom exato, suscetível de sublinhar a importância da função exercida sem apoucar os cidadãos, os quais, no fundo, são a verdadeira razão de ser dos sistemas políticos. 

14 comentários:

Isabel Seixas disse...

"O poder também se faz de símbolos"
In FSC

São os simbolos que geram o deslumbramento do poder...

O simbolo de receber vénias o maior gerador de "extases"...

O simbolo do Euro do dolar e afins do poder aquisitivo de bens e serviços...

O simbolo de honestidade, espirito de missão ao serviço público...

A simbologia da sensualidade à primeira vista,para algumas senhoras, no homem claro: Raramente a poesia de um carro topo de gama...
só para reuniões de trabalho, obtenção de pistas para decorar a casa, o fascínio da visita ocasional e esporádica por exemplo ao Eliseu...
Essencialmente, também e definitivamente o paladar de uma conversa interessante...
(...)
:)
Para alguns senhores,
Na mulher claro:
(...)?!
(...)
:)
Essencialmente... também e definitivamente talvez seja transversal.

Agora, se os simbolos não tiverem embutidos os critérios de ascenção ao sonho, de um momento de reinado seja em que reino for...?:) Não sei, não sei mesmo.

O que eu sei,é que a imagem é lindissima, não ficando cara a visita,porque ir ao Eliseu ao vivo e a cores nos próximos..anos...

Por isso desde logo muito obrigada pela partilha.

Ah, além do estofo dos cadeirões, talvez seda, condiz com a cor azul que o Sr. selecionou para identificar o duas ou três coisas e os titulos dos posts.

Anónimo disse...

Logo a seguir à primeira eleição de François Mitterrand fui convidado ao Eliseu para assistir à entrega da "Légion d'honneur" de um amigo. O Présidente da Républica promovia na mesma sessão cinco pessoas, entre elas Orson Welles e, o conjunto dos convidados, mais uma série de Ministros e os muitos jornalistas que ali vieram, talvez mais para Orson Welles, formavam uma assistencia considerável de onde sobressaía um relativo bruá que entoava naquele magnifico salão. Pois bem, como numa encenação bem orquestrada, "l'appariteur" de serviço abriu um corredor entre o público e, num ápice, colocou os cinco laureados segundo o plano que teria sido entregue ao Presidente com a ordem dos discursos personalizados para que cada discurso fosse bem dirigido (não fosse o discurso do Orson Welles proferido ao meu amigo sindicalista) e quando a porta se abre entra o Presidente, tal um monarca, naquele compasso imperial. Não tenho a certeza que entoaram uma marcha de Wagner, mas qualquer emoção do género ficou registada na minha memória com o peso do silencio.
Compreendi então porque é que no convite aconselhavam rigor na indumentária. Porque poucos meses depois da esquerda chegar ao poder o 'col Mão', que então era moda, já para ali não era de rigor...
Ainda bem que comprei uma gravata e lá preparei o nó como pude.
José Barros.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

@ Isabel Seixas,

O Azul que o Senhor Embaixador escolheu para identificar o Duas ou três coisas é o azul de Portugal, o Azul Monárquico.

Anónimo disse...

A faustuosidade do poder parece ser inversamente proporcional à cultura do povo. Numa cavaqueira de autarcas (do interior) foram convocados, jocosamente, os predicados da viatura que um tinha adquirido recentemente. Ao que ele respondeu: o povo gosta de nos ver bem arreados!
Se calhar vou provocar polémica mas, por “brincadeira”, em tertúlias, também se chegou à conclusão que quem está no poder (algum tempo) não é honesto (portanto com propensão para faustuosidade)... Porque, quando são honestos, depressa os tirariam de lá…

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Tomaz Mello Breyner: não se entusiasme... Como disse num comentário há cerca de duas semanas, dentro de dias o blogue muda de novo de cor. Dito isto, reconheço que o azul "monárquico" é uma bela cor. Na minha opinião pessoal, teríamos ficado esteticamente a ganhar se, depois da Implantação da República, tivessem simplesmente retirado a coroa e mantido a bandeira. Os uruguaios também gostam muito dessa cor. Um abraço.

Anónimo disse...

"A questão estará sempre na sabedoria necessária para encontrar um tom exato, suscetível de sublinhar a importância da função exercida sem apoucar os cidadãos, os quais, no fundo, são a verdadeira razão de ser dos sistemas políticos."

Não se vá dar o caso de o Rei ir nu!

N371111

Julia Macias-Valet disse...

A proposito de simbolos :

Todos os anos no mês de janeiro o presidente da républica francesa partilha com os funcionarios do Eliseu a tradicional Galette des Rois, tamanho XXL mas esta galette au contrario de todas as outras, que se comem em frança por estes dias, tem uma pequena diferença : o pasteleiro que a fabica nao poe no seu interior nenhuma "féve" nem fornece ao palacio do Eliseu nenhuma coroa assim manda o protocolo puisque à l'Elisée on est dans l'enceinte de la République, donc on ne "Tire pas les Rois"... cela va de soit !

Apesar de todos os faustos a França é uma Républica e cela ferait mauvais effet de couronné un président de la République au cas où il aurait la fève : )))

__________________________________________________

Mas o contrario é possível :

Um pasteleiro teve este ano a idéia de escolher como "féve" figurinhas representando os presidentes da Républica Francesa.
Uma maneira engraçada de rever o nome dos 24 presidentes franceses.

Anónimo disse...

e o sr embaixador nao prefere a maria da fonte à portuguesa?

Anónimo disse...

Pois é.... o complexo de "Louis XIV" sempre existiu na república burguesa francesa. Mas eu sei pouco

patricio branco disse...

não está mal o poder revestir-se de sonelidade, pompa e circunstancia. está muito bem, nos locais, no cerimonial, etc.
veja-se o vaticano como é, dá o exemplo, tectos e pietás de miguel angelo, salões riquissimos, jardins uniicos, guarda suiça, etc
que as notas sirvam rapidamente para as memórias e que não seja a sua ultima ida ao eliseu, onde, já agora acrescento,tive a oportunidade de ter ido uma vez, no tempo de mitterrand

Anónimo disse...

Engraçado... pensava que o Palácio do Eliseu tinha sido contruido no tempo da Monarquia.... e que representava o esplendor da França! Pelos vistos enganei-me.

Francisco Seixas da Costa disse...

Tem razão o Anónimo das 16.53: o "hôtel particulier" do Eliseu foi construído alguns anos antes da Revolução Francesa. Coloquei um "hoje" no texto. Está contente?

Maria de Sousa Pinto disse...

O poder faz-se de símbolos e de que maneira! Não foi por acaso que Luís XIV mandou construir o imenso e esplendoroso Versalhes ou que o nosso D. João V exibiu sua riqueza de forma ostentatória!
A imagem, que tão bem escolheu, evidencia um cenário de luxo, beleza, harmonia, tão de acordo com o propalado requinte francês! Mesmo na República se segue o lema "à grande e à francesa"!

Anónimo disse...

A velha senhora refila - refila sempre:

'apoucar os cidadãos…
no fundo… a razão de ser..
dos (bons) sistemas políticos'

mas só 'no fundo' é que o são?
em cima são pra flixar?
flixados cidadãos típicos

pois eu cá é com prazer
e co'amor 'no fundo' ou não
que hei de ser haja o que houver
cidadã com cidadão