sábado, 15 de dezembro de 2012

Um tema polémico

O debate sobre o casamento e a adoção homossexual está a agitar a França*. Para nós, portugueses, é, de certo modo, um "déjà vu". Em Portugal, a questão foi ultrapassada, embora se saiba que há importantes setores da nossa sociedade que nunca se reconciliaram com as soluções encontradas. Em ambos os países, o fator religioso tem um natural papel decisivo na formatação das atitudes. Mas cada vez mais me convenço que não é o fator mais condicionante.

Ontem, uma pessoa francesa amiga, com quem falava sobre o assunto, dizia-me: "Eu posso aceitar o princípio do casamento homossexual, embora não entenda bem a sua necessidade, dado que existe já a "união de facto" a proteger legalmente essa vida em comum. Mas não posso aceitar a possibilidade de adoção de crianças por homossexuais". Tenho visto esta atitude assumida por imensa gente, tanto em França como em Portugal.

A rejeição da adoção de crianças por homossexuais masculinos (o problema coloca-se menos na homossexualidade feminina, se pensarem bem) parece-me ter subjacente uma questão de que ninguém fala mas que, estou cada vez mais convicto, constitui a grande motivação por detrás da atitude: os riscos da pedofilia. Porquê? Porque, lá no fundo, mesmo muitos dos que acabam por "compreender" a homossexualidade não deixam de a associar a uma certa "anormalidade", pelo olham para os homossexuais como pessoas pouco "fiáveis", as quais, tendo incorrido nessa "perversão", podem, com facilidade, ser tentadas a outras. Essas pessoas não consideram que os riscos de pedofilia sejam equivalentes no caso de um casal heterossexual, precisamente porque consideram "normais" as pessoas nele envolvidas.  

À luz do debate francês, tenho pensado alguma coisa sobre este tema, o qual, no passado, nunca me interessou muito. E, mesmo que isso possa chocar alguns espíritos, cheguei à conclusão de que a rejeição da adoção de crianças por homossexuais não deixa de representar, de certo modo, uma forma subliminar de homofobia. Mas reconheço que este será, por muitos anos, um debate complexo.

*na imagem, a capa do "Libération" de hoje, que me chegou já depois de ter escrito este post

31 comentários:

Anónimo disse...

concordo consigo.

patricio branco disse...

tema polemico e delicado, há o politicamente correcto e, se caímos no incorrecto, somos apelidados disto ou daquilo, etc.
a adpção de crianças por casais homossexuais está estudada? qual o percurso psicológico duma criança que não tem pai ou mãe, mas 2 mães ou 2 pais? que sente quando começa a tomar consciencia ou vai à escola e os coleguinhas lhe perguntam, onde está o teu pai? a tua mãe nunca te vem buscar porquê?
sim, há que estudar cientificamente a situação e isso é custoso, demorado, 10, 15 anos, fazer estatisticas, seguir evoluções, etc.
é até possivel, e parece que sim, que estudiosos da situação, sociólogos, sexologos, psicólogos, promovam a adopção homossexual pois assim lhes são facultados os casos para observar que de outra maneira não existiriam.
não faço nenhuma ideia quais os condicionalismos duma criança que cresce e é educada nestas circunstancias, interiores, no ambiente familiar, e exteriores, em contacto com a sociedade. ou quais os diferentes resultados estatisticamente. deve haver casoos de sucesso e de insucesso, como em todas as adopções. mas deve haver algo mais que distingue estas adopções das outras nos seus resultados.
tambem deve depender do sexo do adoptado, uma menina adoptada e criada por um casal homossexual de homens será caso diferente de se for um menino o adoptado? e vice versa?
sim, é bom que se debata e se estude, se concedam adopções com cuidadosos criterios, quem ganha somos afinal nós todos porque se aprofundiza o conhecimento do homem e das interacções.

Anónimo disse...

Pois é um assunto espinhoso, a vários níveis, essa necessidade do Estado querer regulamentar tudo à sua volta. Mas eu não sei

Julia Macias-Valet disse...

Eu diria mesmo um tema SUPER complexo !
Estou de acordo com a sua analise.

Ao ler o titulo do post "Um tema polémico" pensei que nos ia falar sobre isto :

http://etudiant.lefigaro.fr/orientation/actus-et-conseils/detail/article/universite-portugaise-a-toulon-la-ministre-porte-plainte-704/

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Para o que lhe havia de dar hoje Senhor Embaixador.

Está a chover aí em Paris?

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
A criança necessita de ser amada. E o amor que casal do mesmo sexo terá por ela é seguramente maior do que aquele que ela terá numa instituição onde esteja internada.
Aliás, nada prova que num casal de homens, o risco de pedofilia seja maior do que num casal heterosexual.
Homossexualidade e pedofilia são comportamentos distintos. Julgo que tem razão quando fala de uma forma de homofobia.

margarida disse...

Há que aceitarmos o facto de sermos humanos e termos as variantes inerentes à condição. Os humanos são uma espécie de seres do mundo animal que já provou ser multifacetado.
Manter-se o preconceito (não se deve falar de conservadorismo) contra aqueles que sentem atracção pelos seres do seu género é, nos tempos actuais, uma demonstração de intolerância, de ignorância e, sobretudo, de falta de empatia.
Conheci dois exemplos ainda jovem e não foi difícil irmanar-me na sua angústia pela 'diferença'percebida, no seu medo do que os outros (a começar pela família) pensariam, diriam e fariam.
O sofrimento alheio, seja qual for, não pode deixar de nos tocar. E a definição de quem somos, do 'que' somos para os outros, é algo que pode magoar profundamente, em especial se somos..., bem, 'diferentes'.
Somos todos diferentes, essa é a verdade, mas quando toca à mais delicada área da vida humana - o sexo - tudo se torna ainda mais complexo e delicado.
Nascemos de um mistério que a ciência apenas esboça e somos o que a criação delineia.
A ambição de ter uma família é transversal à inclinação por opostos ou similares em género. É um desejo inerente à sociabilidade e um desejo legítimo, simples, sincero, puro.
Misturar homossexualidade com pedofilia é uma confusão obscura que há que clarificar.
Para bem de todos, absolutamente todos.
Esse flagelo que cada vez mais parece assolar donzelas e infantes, sucede tanto através do desvario de estranhos, quanto da loucura de familiares. E são estes, sobretudo estes, que deixam marcas inultrapassáveis na vida de tantos seres humanos.
Tantas famílias 'tradicionais' têm monstros no seu seio e quantas famílias 'alternativas' estão alicerçadas num amor tão generoso que lhes permite doar a crianças que não são 'suas' o que as 'de sangue' não quiseram ou não puderam dar.
Há que ultrapassarmos as morais civilizacionais que tantas vezes, pretendendo proteger, só prejudicam.
É fácil acusar, apontar, desdenhar, estigmatizar e, até, maltratar os outros, os que nos são 'diferentes'.
É tão mais difícil, tantas vezes, amar...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Tomaz Mello Breyner: eu dei a minha opinião. Qual é a sua?

Helena Oneto disse...

Senhor Embaixador,

O tema é de actualidade, polémico e complexo. Felicito-o por o trazer "à baila" aqui.

A nossa amiga Helena, que subscrevo, diz o essencial no seu comentario. Tenho uma filha, amigas e amigos homosexuais. Em nenhum nunca vi um comportamento "anormal" nem vestigios de pedofilia. Nunca!

O debate em curso é legitimo. As manifestações de hoje, como as outras que tiveram lugar em França em que pros e contras se confrontam a favor ou contra o projecto de lei que da aos casais homosexais a possibilidade de adptaram crianças é mais uma prova que este tema tem e deve ser discutido.
O comentario e as perguntas de Patrio Branco são pertinentes e abrem o debate. En revanche, o comentario de Mello Breyner é conservador para não dizer reaccionario. Sem surpresa, hélas!

Hoje, o sol brilhou todo o dia em Paris apesar de estarmos todos de luto por mais um massacre de inocentes vitimas do NRA e do loby norte-americano que defende, unhas e balas, a venda livre de armas e contribui, pela sua implantação nos meios mais reaccionarios americanos, de forma significativa a alimentar as campanhas do partido republicano.

Helena Oneto disse...

volto aqui para acrescentar que subscrevo, na integra, o comentario da nossa amiga Margarida que, uma vez mais, o fez com o coração nas mãos.

Joaquim Pinto disse...

Votos de Boas Festas

margarida disse...

Querida Helena, talvez se todos se assumissem sem receios, talvez se sermos altos, baixos, gordos, pitosgas, lindos, feios, ruivos, pretos, amarelos, heterossexuais ou homossexuais, entre tantas variações possíveis, fosse tão só sermos quem somos, sem preconceitos nem desconfianças, talvez se não tivéssemos medo de 'sermos nós', conseguíssemos ajudar aqueles que têm maior dificuldade em entender a multiplicidade e a naturalidade de se ser como se é.
E eles ajudarem-nos a nós a ultrapassarmos os nossos complexos.
Somos frágeis. Todos. Unidos seríamos mais fortes.
Melhores.

Anónimo disse...

Acho que se trata de um problema estatístico e não homofóbico:
A probabilidade da criança vir a ser heterossexual é substancialmente maior do que vir a ser homossexual. Assim, muito provavelmente, ao tomar conhecimento da sua situação, terá problemas psicológicos ainda mais complicados para lidar.
Não parece que haja o direito de se arriscar ainda mais sobre a vida de alguém.
Um pedófilo é criminoso se tem o comportamento e doente mental se não tem, mesmo domando os seus instintos. Não percebo porque há quem ligue a pedofilia com a adoção.

Anónimo disse...

Com este debate em França, apetece-nos manifestar entre surpresa e admiração por Portugal ir à frente com a distância que leva...
Eu sei que o tema é sério. Mas também é muito sério para a população que reivindica aquele direito e, ao ouvir certas vozes que se exprimem neste debate, até parece que somos enviados para aquela época obscura onde a homossexualidade era considerada doença!
José Barros

Manuel Leonardo disse...

Caros Amigos
Vejam o que esta escrito acerca disto no fielamigodepeniche.blogspot.com
Quem o escreve e uma pessoa de educacao e pouca instrucao.Mas muitos que teem lido desde ha muitos anos o que ele diz teem meditado mas como sempre poucos chegam a situacao de concordia
Com os melhores cumprimentos e NAO forte a adopccao de criancas por homossessuais

Manuel Joaquim Leonardo

Peniche Vancouver Canada

vanessa disse...

Penso que que o Sr. Embaixador têm toda a razão quando diz que é uma forma sublimar de homofobia, porque associa-se a homosexualidade à prosmicuidade, À pedofilia e projecta-se também os próprios preconceitos "as crianças vão sofrer quando na escola lhes perguntarem porque têm dois pais ou duas mães".
O sucesso de uma adopção depende de factores que nada têm haver com a orientação sexual, mas apenas com a capacidade de amar, de respeitar e de construir uma relação com outro.
Os entraves que colocam para veto À adopção por parte de casais homosexuais baseiam-se em preconceitos. Estes prolongam a discrimição e limitam a liberdade. Há que não esquecer que quem é homosexual é antes de tudo ou acima de tudo, tal como todos nós, Pessoa.À luz da lei continuam, no entanto, a não serem considerados Pessoa, para efeitos da adopção.
Há que não esquecer também que uma criança tem muito mais hipótese de crescer saudavelmente no seio de uma familia, seja qual for o formato desta, do que numa instituição.

EGR disse...

Senhor Embaixador: tema delicado sem dúvida e interessantes os comentários que- salvo o do senhor Mello Breyner- desencadeou.
Por mim subscrevo as considerações de Margarida que me parece situar a questão em termos inteiramente correctos.

Anónimo disse...

tous égaux sauf pour les enfants

Anónimo disse...

homosSexual - com dois S (senão,lê-se Z)

Anónimo disse...

heterosSexual - com dois S

Isabel Seixas disse...

Além de concordar com a forma como coloca a questão e com o respeito demonstrado pela indivisivel orientação sexual de cada um, Subscrevo a Margarida as Helenas e a Vanessa nas opiniões.

Todo o desejo de adoção é um projeto de dar e dar amor, promover a vida e a afetividade personalizada, vai além das relações conjugais.

A estrutura da familia modificou-se e há crianças em familias monoparentais em adoção singular muito amadas e cuidadas, da mesma forma em familias de conjuges com uma Anatmofisiologia sexual idêntica.

Conheço tantos filhos desejados que foram e são usados como arma de arremesso da incapacidade dos pais em lidar com posteriores situações de rutura...Onde a clareza da vinculação da figura materna e paterna se esvai.

Pessoalmente congratulo-me com a coragem dos que têm que reinvindicar o seu direito humano de assumir e expressar a sua sexualidade com amor sem disfarces e negação dos seus reais sentidos.

Alcipe disse...

O Feliciano e um ordinário, mas também concordo contigo e com a Helena Sacadura Cabral. Mas esse Feliciano paga - mas. Banal, eu?

Alcipe

Carlos Falcão disse...

Que dizer das dificuldades de uma criança adotada por um casal homosexual, não sabendo qual a mulher a que deve chamar "pai" ou qual o homem a que deve chamar "mãe"?

Neste debate, a criança, o que pensa ? Quid da contrução psiquica ?

Anónimo disse...

Vejam lá... Teci umas considerações mais apimentadas, inspiradas na Velha Senhora, sobre o liberalismo banal do Senhor Alcipe e ... zas, sou censurado! Pois e, uma vez mordomo, sempre mordomo...

a) Feliciano da Mata

Anónimo disse...

Vejam lá... Teci umas considerações mais apimentadas, inspiradas na Velha Senhora, sobre o liberalismo banal do Senhor Alcipe e ... zas, sou censurado! Pois e, uma vez mordomo, sempre mordomo...

a) Feliciano da Mata

Anónimo disse...

Eu concordo com a adopção por casais homossexuais, desde que haja o mesmo rigor de triagem ( mas sem preconceitos) que há relativamente as outras adopções.
A pedofilia ocorre e muito nas famílias heterossexuais ( ja pensaram nisto?) e quanto ao problema das imagens de mãe e pai, quid das adopções por solteiros, viúvos ou divorciados? O importante e o equilíbrio e o afecto, tem razão, Helena. Quanto ao Feliciano, o homem tem complexos sociais em relação a mim, nao lhe liguem.

a) Alcipe

Anónimo disse...

Bastou um escrever "homosexual" que houve logo vários a seguirem-no...

"Eta" carneirada...

Anónimo disse...

Realmente curioso como todos nós adoramos opinar sobre estes assuntos. Eu, que não fujo à regra, sou frontalmente favorável a que todos, independentemente da forma como expressam a sua sexualidade, possam adoptar.

Contudo, não consigo admitir o casamento homossexual (não nos efeitos mas no nome ... porque cunhado pela lei e pela história como a união de duas pessoas de sexo diferente nao a consigo imaginar a unir o Francisco e o Manuel).

Mas enfim, problemática ultrapassada, a do casamento, vejo-me de malas e bagagens na barricada de quem considera que todos deveriam ter o direito de adoptarem.

N371111

Anónimo disse...

A velha senhora felicita-se pelas amigas e amigos bem pensantes que diz ter (também eu concordo com elas e eles):

que bom as minhas amigas
pensarem que o principal*
é ter amor não as brigas
de homo ou heterossexual

francisco amor-não-me-ligas
meu mata e alcipe banal(?)
bom ter-vos co'as raparigas
júlia helenas margarida
isabel seixassional
vanessa nova na liga
mais esta velha (a)moral
amor a todxs abriga
fazemo-vos bem e não mal
(fazia-o eu bem todo o 'mal')


*
pessoa o grande escreveu
oh quanto melhor do que eu:

O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador,

Pede a minha opinião. Dou-a com muito gosto.

Eu sou daqueles para quem um Casamento é entre um Homem e uma Mulher . A adopção é para ser feita por casais ( Homem e Mulher)

Nada tenho contra homosexuais ,desde que não queiram ter os direitos dos casais normais,

É esta a minha opinião

Anónimo disse...

Olha, mais um a escrever "homosexual". Mas, anda tudo constipado, ou quê?