terça-feira, 25 de dezembro de 2012

À esquina da Gomes

Sabem o que é a Gomes? A maioria dos leitores deste blogue não sabe, estou certo. Tal como acontece em todas as cidades, Vila Real tem um café de culto. Neste caso, a Pastelaria Gomes.

Porquê a Gomes? Porque sim. Distinguiu-se sempre da antiga Pompeia, do meu desaparecido amigo Neves, por ser mais cosmopolita; da Rosas, do sr. Rosas, por ser mais intimista e dispensar as bizarrias do Toninho; do Excelsior, por ser mais elitista, por esconder os bilhares e não ter dominó; do Clube, por não ser habitual por lá ver comerciantes de gado de samarra e cajado; do Imperial, do sr. Lima, por ali não ser hábito ver o patrão a bater nos clientes; da Brasileira, logo em frente, porque, c'os diabos!, nunca custou nada atravessar a rua.

A Gomes começou na "Gomes velha", onde ainda me recordo de ver, à porta, o sr. Gomes e onde hoje se vai pelo bolo-rei, pelas "cristas de galo", pelos "jesuítas" ou, sazonalmente, no S. Brás, pelas "ganchas" e pelos "pitos" de Santa Luzia, embora a concorrência doceira do Lapão seja cada vez mais feroz. Foi depois construído o novo edifício, que teve a imensa novidade de possuir um elevador... que nunca ninguém viu funcionar. E que tinha, no alto de um mastro, uma misteriosa lâmpada que se mantinha acesa enquanto a casa estivesse aberta à noite, sinal de que podiam ser servidos, se se apressassem, os "connaisseurs" que viessem do Porto, pela estrada velha, logo que chegados à "curva do espanto", em Arrabães, primeiro lugar de onde, no Marão, se vislumbravam as luzes da cidade.

Se a memória me não falha, a Gomes foi, em Vila Real, o primeiro café onde as mulheres podiam ir, com naturalidade, sozinhas. Dizia-se, nesses anos, que receber um convite para tomar chá na Gomes ("em cima", sempre "em cima") com a dona Irene Viana (mulher do dentista e meu professor de ginástica) era o passaporte para a entrada das senhoras na sociedade local. E, glória das glórias!, embora poucos se lembrem disso, a Gomes foi talvez o único lugar público do género onde, que me lembre, nunca entrou uma infernal televisão.

Na Gomes sempre houve zonas geográficas mais ou menos consagradas, que não revelo para não identificar alguns dos seus regulares ocupantes. Entre eles, há os que afivelam sempre um ar "grave", de "polícia da Régua", que parece fazer parte da condição necessária para serem levados a sério. Outros falam para serem ouvidos nas mesas ao lado, num dispensável, por ineficaz, esforço de proselitismo. Os mais discretos, mas, nem por isso, os menos atentos, ficam-se pela mesa mais misteriosa de todo o café, com dois lugares, que está perto da porta interior, o único poiso onde se consegue ter uma conversa "tête-à-tête", sem risco de penduras.

A disposição física do espaço torna a Gomes uma espécie de plateia de um antigo teatro francês, com o "coté cour" e o "coté jardin" a ser dado pelas entradas - seja pela antiga máquina do fiambre (sede clássica de pouso do Zé Araújo), seja pelo antigo balcão dos "furinhos" dos chocolates, onde se colocavam jornais com suporte de madeira e onde, durante muito tempo, esteve o telefone preto. Essas duas entradas do proscénio (o Achilles explicaria isso, mas quem não for de Vila Real sabe lá quem era o Achilles) induzem uma visível timidez em certos visitantes ocasionais, atarantados pelo infalível escrutínio, seguido de cochicho. No verão, tirado o vetusto "estrado", a saída para a avenida muda o cenário, que se prolonga então pela esplanada. Obter por aí um café, em dias de enchente, é um privilégio que obriga a meter cunhas.

Foi pela Gomes que eu comecei a parar, ainda nos tempos de liceu, com mesa marcada "em cima", ao canto esquerdo de quem entra, com o brandy L34 a acompanhar o café, erro que sinto, para sempre, na memória do meu fígado. Por aí passei muitas horas a discutir coisas fúteis da vida e, cada vez mais, da política. Para as caves da Gomes fui cooptado, ritual de iniciação a que atribuí grande importância, para a visualização de alguns filmes heterodoxos, trazidos da estranja por ousados viajantes locais, sobre cujo conteúdo a moral deste blogue me não deixa elaborar. Foi na Gomes que, com alguns outros, fui, em 1969, interpelado pelo comandante da GNR, por comentários entendidos como "subversivos", que, sem consequências de maior, nos conduziram ao Governo civil.

A Gomes, honra lhe seja!, foi sempre um espaço plural, nunca foi grandes políticas sectárias, por lá pararam, serenamente, todas as tendências, da Situação ou da Oposição - e eu estive, ao longo dos tempos, em ambas, e não necessariamente por esta ordem. Em várias décadas, nunca deixei de "ir à Gomes", nas minhas estadas aperiódicas por Vila Real. E por lá passo, com gosto, em férias, sempre que posso, para rever amigos e conhecidos. E, claro, para comer um covilhete ou uma fatia de bola de carne.

A Gomes dos dias de hoje está diferente da dos velhos tempos. Às vezes, vejo-a um pouco desleixada, o pessoal, embora simpático, tem um ar um tanto errático e demasiado "casual" para o meu gosto - eu venho dos tempos clássicos do João, do "Sapo", do Gonçalo, do Fernando ou do José. Mudaram agora de traje, depois de uns balandraus que usaram, pretendidamente de côr laranja, muitas vezes já a justificarem uma visita aos sucessores do Alarcão (se não é vila-realense, passe para o parágrafo seguinte). Prova de uma mudança radical da Gomes é o facto de, julgo que pela primeira vez na sua história, "A Voz de Trás-os-Montes", no ano passado, não trazer um anúncio natalício que já havia ficado histórico na cidade: ao canto de um grande espaço em branco, havia uma nota que dizia: "se a Pastelaria Gomes necessitasse de publicidade, utilizaria este espaço". As instituições - e a Gomes é uma instituição - fazem-se de simbolismos. E estes devem respeitar-se, sem o que a identidade se esvai. Atenção, ó gente da Gomes!

Hoje, dia de Natal, a Gomes estará fechada, creio eu (com a crise, sabe-se lá!). Mas há um lugar que, com toda a certeza, não "fecha" e à volta do qual a cidade gira. Esse lugar é a esquina da Gomes, um marco geográfico, charneira entre a avenida Carvalho Araújo e o largo do (regressado) Pelourinho. Por lá nos encostávamos, na adolescência, para ver sair o "pequename" da missa da Sé, logo em frente. Nos invernos, a esquina é sede de ventanias sem par, onde confluem grupos que atiram uns aos outros um indizível "Méixiôres!" (que do vila-realez apressado se transcreve como a saudação "Meus senhores!", enviada de um grupo de passeantes a outros), nesta época natalícia logo seguido do clássico "Continuação!", expressão que se utiliza até aos Reis. Por lá se passeiam, nos dias 25 de dezembro, com sol ou sem ele, as camisolas-de-losangos e os cachecóis que "saíram" nas prendas da véspera, vestindo amigos e conhecidos, mais ou menos "graves", que, do percurso do liceu ao "cabo-da-vila" (desistam aqui os não-vilarealenses), calcorreiam, devagar, a memória sedimentada desde a infância. Como aqui agora fiz, "preso", este ano, a Paris.

(Este texto surgiu aqui no dia 25 de dezembro de 2011. Republico-o hoje, "a pedido de várias famílias" (mais precisamente, três), porque não terá perdido atualidade - a Gomes nunca muda! Perdem-se, contudo, alguns deliciosos comentários que, quem assim quiser, pode ir procurar na versão original. Ah! na fotografia, expressionisticamente "suja" de hoje, a "tal" esquina da Gomes está à direita. Ela é mais famosa que fotografada.)

18 comentários:

Anónimo disse...

Fui a Gomes com o meu amigo D. Fernando Albuquerque. Quando Vexa foi para o governo Guterres. Tanto tempo!

a) Henrique de Menezes Vasconcellos (Vinhais)

Anónimo disse...

Ve ter sido a última vez que esse seu amigo foi à Gomes...

Isabel Seixas disse...

A primeira vez que fui à Gomes tinha doze anos, fui com a prima Bébé que depois de me surpreender em casa a passar uma saia mini às pregas de xadrez azul claro
(com uma precisão invejável),que aliás lhe ficava muito bem e me levou com ela para a mesa redonda em cima à direita onde me ofereceu o suplemento ao pequeno almoço e não consegui tirar os olhos Dela fascinada( que é como quem diz pasmada, mesmo à parola e pacóvia e a pensar quando for grande também quero ser assim)a vê-la fumar e a tomar café com uma segurança e descontração própria de quem se assume nos seus direitos e sem medos de olhares reprovadores...

A Gomes era nesse tempo um equivalente do Aurora em Chaves.

PS-Era verão, tempo de férias e o primo Fernandinho levou-me de Chaves a passar lá uns dias, boas tão boas recordações...

EGR disse...

Senhor Embaixador: pois eu que,como costuma dizer-se, sou um tripeiro de gema, sei o que é a "Gomes".
Fui lá,algumas vezes, por ocasião de umas estadias que,em finais dos anos cinquenta, fiz em Vila Real, levado por um fiho da senhora em cuja casa me alojei situada na rua por trás da qual não me lembro agora o nome.
Tenho uma recordação que então por lá se encontrava a boa sociedade da cidade,
Curiosamente,sem saber a razão, a verdade é que sempre que passo em Vila Real, vou a "Gomes".
Ainda há pouco tempo lá estive,e embora não esteja tão seguro como V. Exa.nas comparações, fiquei com a sensação de haver alguma decadencia na casa.

Alcipe disse...

O Bar Aurora era um espaço de liberdade nos anos sessenta. O problema era haver oficiais milicianos que roubavam as nossas namoradas do Liceu...

patricio branco disse...

Interessante e genuina crónica citadina enriquecida com memórias pessoais de gentes e lugares.
Uma boa leitura nesta tarde do dia de natal. E dá vontade de conhecer a gomes e vila real onde só estive uma vez há muitos, muitos anos e de que pouco me lembro.Teria 11 ou 12 anos.

Isabel Seixas disse...

Pois Sr. Embaixador Poeta também reza a História que esse problema se tornava extensivo com outros protagonistas os meninos bonitos de Vila Real...
"Provavelmente frequentadores da Gomes"

De qualquer forma cumprindo então os critérios para espaço de liberdade de circulação... E opção...

Curioso era o vice versa não ser proporcional?!...

Guerra disse...

Boa noite senhor Embaixador.

Reli com agrado o seu texto.

Deixe que lhe conte o que ouvi a um amigo, morador do pátio das cantigas, há muitos anos:

Café Gomes - Café dos que são
Porque nele se juntava o poder. O poder económico, politico …

Café Brasileira - Café dos que querem ser.
Onde se encontrava a oposição ao poder vigente.

Café Clube - Café dos que nunca serão.
Onde iam os feirantes, empregados mais humildes.

Café Excelcior - Café dos que vão ser.
Onde se a juventude, muito por causa dos bilhares.


Era assim que o pai desse meu amigo se referia a esses quatro estabelecimentos.

Também se referia cá pela Bila que o café Imperial era como o carro aberto dos Bombeiros de Baixo. Só tinha mesas e cadeiras, mais nada.

Ler e falar da Bila é um prazer.

Permita que lhe apresente os meus cumprimentos, já agora continuação.

Teófilo M. disse...

Pois, a Gomes, essa recordação que guardo com carinho desde os idos de sessenta e seis - primeiro ano em que me desloquei a Vila Real graças ao formidável trabalho que o CAVR levava a cabo anualmente e onde podíamos ver, ao "natural e a cores", imagine-se, corridas de fórmula 3!

Depois, uns anitos mais tarde, o coração levou-me de novo para lá, e como o alojamento era um pouco mais abaixo, a Gomes era pouso habitual, principalmente nas férias "grandes".

Já lá não enntro há mais de ano, mas a última vez que por lá passei achei-a mais triste, sensaborona, vulgar até, e que pena eu tive então.

Helena Oneto disse...

Senhor Embaixador,

Este poste (excelente ideia de o reproduzir) é uma belissima prenda de Natal!
Merci!

ARPires disse...

Alguém por aqui faz o favor de dizer onde ficava esse café Imperial?

Anónimo disse...

Penultima casa no final da rua Direita, perto do Cabo da "Bila", do lado da Farmacia.

Anónimo disse...

Tudo isso, esses lugares, hoje em dia estão obsoletos, ou já nem existem! O Centro Jovem da cidade de VR é o Pioledo desde há umas 2 décadas a esta parte. Por esses lados já só pára a meia/terceira idade... A esquina da Gomes...? Acabou algures nos anos 80... :P

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 20.53: goze o seu Pioledo à vontade. Aproveite! Aqui falou-se, sem nostalgias, de um outro tempo, de uma outra cidade. É que Vila Real não nasceu agora, nos últimos vinte anos, sabia?

gherkin disse...

Que boa reprise! De Gomes, se alguma curiosidade tem, faz parte do meu nome completo, graças e para perpetuar os meus avós maternos! Pena não conhecer esse outro e saudoso Gomes o que mais me honraria! O habitual e forte abraço por mais este tão interessante souvenir! Bom reiveillon de boas memórias, que segundo um amigo meu, diretor do Jornal de Tondela, muito bem clasifica de "Tesouros da Minha Velha Arca"! Gilberto

Anónimo disse...

Por um bocadinho também fui vilarealense!

Anónimo disse...

Caro Anónimo das 20.53,

Queira-me desculpar, mas se para si tudo o que é frequentado pela meia/terceira idade deixa de ter importância então "fecha-se" uma grande parte do interior do país.

Dou-lhe um exemplo que conheço bem, as aldeias de Monsanto ou Idanha-a-Velha têm uma população envelhecida motivada pela desertificação para os grandes centros urbanos ou pela emigração. E, por isso, deixam de ter valor histórico?

Tudo tem um ciclo e até o Pioledo (que não conheço!) daqui a uns anos vai sofrer esse mesmo fenómeno porque os jovens de hoje vão ser a meia/terceira idade de amanhã. Num ápice tudo vira passado e até um iPod touch perdido algures por aí vai virar um importante achado arqueológico daqui a uns anos...

E por essa perspectiva, Lisboa resumia-se às Docas... E lá se ia o Castelo de S.Jorge cujos "inquilinos" já morreram há uns largos séculos!

Isabel BP

P.S. Hoje, estou em estado de pura nostalgia... Morreu o criador da série Espaço 1999, famosa da década de 70, um clássico da ficção científica que nos tempos actuais tem efeitos especiais obsoletos. E isso vai tirar-lhe qualidade? Nunca!!! Aqui está uma série inesquecível para a meia/terceira idade :)))

Guerra disse...

Boa noite senhor Embaixador.
Li o seu comentário das 21:03 e se eu fosse um jogador de fito só poderia dizer: Boa malha.

Senhor Embaixador, continuação.