quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer (1907-2012)

A nossa República ainda não existia quando Oscar Niemeyer nasceu. Saíu ontem de cena, com 104 anos, ativo até muito tarde, atento à arquitetura e às coisas e causas da vida, em especial da política.

aqui dei conta de uma conversa que com ele mantive, no Rio, no andar em que todos os dias trabalhava, na avenida Atlântica. Fui vê-lo, acompanhado do cônsul-geral António Almeida Lima, a propósito da sua entrada para a nossa Academia das Ciências, para sócio da qual o fui convidar, a pedido de Adriano Moreira.

Na ocasião, perguntei-lhe como via a evolução de Brasília, que então se aproximava de meio século de existência. A cidade crescera para além de todas as expetativas, embora houvesse a consciência de que isso se devia muito ao "droit de regard" que ele mantinha sobre os principais projetos, sem o que a pressão imobiliária iria bem mais longe.

Niemeyer era um homem que falava bastante e não tinha medo das palavras. Explicou-me que a capital federal não deveria nunca ter acomodado tanta gente e que, por exemplo, os edifícios do Congresso eram destinados a quase um décimo dos atuais ocupantes. Surpreendeu-me ao referir que "a ideia era que Brasília tivesse muito poucos militares e hoje está cheia deles..." 

Tendo-lhe eu comentado que, apesar de tudo, Brasília seria sempre uma magnífica obra, uma terra onde, aliás, eu gostava muito de viver, Niemeyer afastou o olhar para aquela espécie de "bow window" facetada, que se projetava sobre a insuperável baía e, de repente, disse-me, de forma enfática: "Sim, embaixador, mas o Rio é a cidade..." Era o carioca de gema que nele vivia que não podia resistir à "cidade maravilhosa".

Os brasilienses estão agora de luto. E os poucos estrangeiros (não chegam a uma dezena) que, como eu, têm a honra de ser cidadãos honorários da capital federal também lamentam muito o desaparecimento da figura de génio que, com Lúcio Costa, deu corpo ao saudável "sonho louco" de Juscelino Kubitshek. 

Logo que regressar a Paris, em homenagem à memória de Niemeyer, cuidarei em passar uma vez mais em frente ao edifício que ele projetou na place Colonel Fabien, para a sede do Partido Comunista Francês, num gesto de dedicação à ideologia a que se manteve sempre fiel. Era esse comunismo, na "genuína" versão soviética, que lhe alimentou a sua aversão à sinistra ditadura militar e lhe inspirava artigos que, com alguma regularidade, a grande imprensa brasileira acolhia, não obstante a inapelável "idade" dessas suas ideias.

Em Portugal, é vulgar atribuir-se a Niemeyer o traço de um hotel no Funchal. Recordo-me que, quando lhe falei disso, foi evasivo: "É um trabalho feito por gente que trabalhava comigo", como que a afastar-se deliberadamente da paternidade dessa obra.

Mas quem é que entre nós sabe que, também em Portugal, Oscar Niemeyer projetou uma construção, que nunca chegou a ser completada, na quinta dos Alfinetes, nos arredores de Lisboa, que chegou a estar destinada à CPLP? Dizem-me que é hoje uma garagem. Será verdade?

13 comentários:

São disse...

Que semana negra, em que se perderam Oscar Niemeyer, Papiano Carlos, Joaquim Benite.

Que estema em paz e que tenham seguidores dignos.

Saudações.

Anónimo disse...

Homem de corpo inteiro do séc. XX. O conhecimento e a cultura juntaram os "melhores" intelectuais na luta contra as ditaduras; fossem europeias ou sul-americanas. É o caso. No dobrar da vida Niemeyer já tinha tanto mundo para ver, mas talvez não esquecía as ideias de Sartre ou a invasão da Baía dos Porcos para fazer a mudança que tantos fizeram. Ficou comunista. Desconfiou dos "nossos socialismos e sociais-democracias". Na troca de postais com a família instalada no Brasil só recebíamos esboços do andamento das obras em Brasília, e foram muitos. Foi tudo feito bem depressa. Rápido também foi o abate das árvores centenárias da Quinta Vigia para fazerem o novo "Casino" no Funchal. Hoje Casino Park Hotel. Se o hotel não tem "tudo" a ver com Niemeyer, bem melhor. A Quinta Vigia era ali! Não na quinta ao lado - onde está o "nosso" Alberto João, que lhe ficou com o nome, para não lhe chamar o verdadeiro - Quinta das Angústias...

Santiago Macias disse...

O que normalemente se conta é que Niemeyer não teria gostado de alterações feitas pelo arq. Viana de Lima ao plano original. Mas que o ADN está lá, isso não pode ser negado.
"Oscar Niemeyer projetou uma construção, que nunca chegou a ser completada, na quinta dos Alfinetes, nos arredores de Lisboa, destinada à CPLP? Dizem-me que é hoje uma garagem." Isto nunca tinha ouvido, mas fico ainda com mais curiosidade. Não há mais nada que nos possa adiantar?

patricio branco disse...

interessante evocação e testemunho pessoal do cidadão honorário de brasilia fsc sobre o criador de brasilia o n

Julia Macias-Valet disse...

Caro escriba volte depressa porque se o edificio da place Colonel Fabien estará la para a eternidade,
isto so poderá ser visto até dia 15 de dezembro (dia em que os arquitecto cumpriria 105 anos)

http://www.galeriedowntown.com/oscar-niemeyer/

Anónimo disse...

Outra coisa que também desapareceu foi um conjunto de comentários...

Anónimo disse...

Sempre achei estranho o ato de conceção e construção da cidade num "estalar de dedos". Parece o nascimento de um adulto. Esquisito de imaginar.
É um ato ditatorial. Estalinista, nazi, campo de concentração de vivências. É o que me parece.
Não a conheço. Mudaria de opinião se conhecesse?

ARD disse...

Na verdade, Niemeyer desenhou a sede da Fundação Portugal-Brasil, a ser construída na Quinta dos Alfinetes.
O terreno fora cedido pela Câmara Municipal de Lisboa.
Tendo a Fundação desistido daquele propósito, houve,efectivamente, uma iniciativa (que recebeu o acordo do arquiteto Niemeyer) para adaptar o projecto e ali instalar a sede da CPLP.
Alguma estreiteza de vistas e muitos entraves burocráticos impediram a realização deste propósito, apesar de muitos avisos de que a idade avançada de Niemeyer poderia fazer com que Lisboa - e Portugal - nunca viessem a possuir uma obra sua. Era evidente que seria isso que viria a acontecer.
Foi.

patricio branco disse...

O conjunto casino do funchal e park hotel figura nos catalogos mais completos que listam os projectos de niemeyer, uns 600. a construção dos edificios,de acordo com o projecto do arquitecto e instruções escritas, foi acompanhada no terreno por um arquitecto em quem niemeyer delegou essas competencias. foram inaugurados em 1976. o n nunca veio no entanto ver os seus edificios (pela ditadura que então cá existia e ele ser comunista ?)durante a construção ou terminados.
serão tambem projectos menores ou secundários no conjunto de um catalogo que soma mais de 1/2 milhar, a maior parte concluidos, a que o arquitecto não atribuia muita importancia.

"O projecto do arquitecto brasileiro, explica Carlos Oliveira Santos, na obra 'O nosso Niemeyer', foi seguida no terreno pelo arquitecto português, natural do Porto, Viana de Lima, e concebido em cinco folhas manuscritas, que alertavam para as suas principais preocupações" (de o n).

http://www.dnoticias.pt/actualidade/5-sentidos/358593-unica-obra-de-niemeyer-em-solo-portugues-esta-na-madeira

o 3º edificio do conjunto, o centro de congressos, já não é obra de o n.

pessoalmente, não são obras que me impressionem muito esteticamente, o casino é um primo afastado da catedral de brasilia e o hotel um edificio simples embora muito bem integrado na paisagem com a originalidade de ser longo e ir fazendo uma curva. os espaços interiores, a luz e as vistas são porem muito bonitos.

ao lado, imediatamente abaixo do centro de congressos, está a quinta da vigia, residencia oficial do pr do governo regional. está aberto ao publico, das 10 às 17, quem quer pode por lá passear, sem nenhum controle à entrada, pelo magnifico jardim botanico, ver a vista para o mar e porto e apreciar o bonito palacete em arquitectura portuguesa
e rosa pombalino

quanto ao projecto de o n da quinta dos alfinetes, em lisboa, agora não são bons tempos, não há dinheiro nem interesse, mas talvez um dia pudesse ser concretizado, porque não?

patricio branco disse...

acrescento ainda que na hoje quinta da vigia, ates das angustias, se pode visitar a bonita capela dedicada precisamente a n. sra das angustias. olhando pelas janelas abertas do palacete pode-se entrever alguma reunião oficial. o jardim inclui ainda esculturas oferecidas ao governo regional que lá foram integradas.
com quase 200 anos, a quinta teve moradores ilustres, portugueses e estrangeiros.
logo abaixo pegando com a quinta, está o parque de santa catarina (5 mil m2)com valiosas especies botanicas e uma ermida muito antiga, mas normalmente fechada.
é de facto toda uma quadra bonita para se visitar desde as obras projectadas por niemeyer, a estatua da imperatriz sissi, que viveu algum tempo na ilha, ate ao parque de sta catarina.

Anónimo disse...

Na assinatura do nascimento da CPLP já circulava o esboço de Niemeyer para a sede futura da nova instituição. A maquete fazia prever uma construção com estilo, carisma e dignidade para o propósito. Não esquecer os anos em que a própria CPLP esteve adormecida. Tirando o Amândio Silva ou o Aparecido de Oliviera (um por Portugal e o outro pelo Brasil) nada mais mexia... Felizmente no próximo ano quando se reunirem em Moçambique tudo "será diferente" pelo empenho assumido pelo Governo nmoçambicano e pelas instituições civis sociais e culturais. Votos para que seja tudo como na canção brasileira: "daqui p´ra frente tudo vai ser diferente".

Anónimo disse...

No início da segunda metade dos anos 70 pediram-me para preparar uma lista de sítios e monumentos interessantes a visitar por um grupo de turistas estrangeiros que vinha a Paris.
Na lista indiquei a sede do Partido Comunista Francês como obra prima de um refugiado politico brasileiro, de nome Oscar Niemeyer, que acabava de ser construída.
Esta obra não, esta obra não, censurou o guia responsável. Não quero “polémicas políticas”.
Era assim a abertura tacanha para a confrontação arquitetónica, política ou cultural!
O Monumento impôs-se e foi classificado “Monumento Histórico” em 2007. Hoje rimos de alegria e tristeza ao olharmos para aqueles anos 70... E é muito divertido ver como o conjunto da obra de Niemeyer vigou e é agora unanimemente admirada!
José Barros

Anónimo disse...

Acrescento também... que na Quinta Vigia (ao lado do Casino do Funchal desenhado por Niemeyer) ao visitarem os jardins peçam para verem a varanda, aonde em azulejo estão algumas fábulas de La Fontaine. Duas ou três inéditas. As fábulas foram ali parar por um residente da quinta que era francês. Nos pincípios do séc. XX dificilmente se pode errar se dissermos que todos os turistas ou estrangeiros que residissem na Madeira não andavam naquela parte da cidade. Patrício Branco lembro o nome de Fernão de Ornelas (Presidente da CMFunchal) que teve a coragem de retirar dali o cemitério para levá-lo para São Martinho. Deixou apenas a capela das Angústias... que bem pode representar as dificuldades que enfrentaram por se terem metido em tal empreitada. Alguns colaboradores do Fernão Ornelas até adoeceram... mas valeu a pena.